Resumo rápido
- A piperacilina-tazobactam associa uma penicilina de amplo espectro a um inibidor de betalactamases, de uso intravenoso; no Brasil, o Tazocin (Pfizer, 1.2110.0095) é a referência, com 7 genéricos e 5 similares de registro ativo.
- Nos EUA, como Zosyn, trata infecção intra-abdominal e pneumonia nosocomial a partir de 2 meses e, em adultos, infecções de pele, pélvicas femininas e pneumonia comunitária; na União Europeia e no Brasil, inclui a neutropenia febril, a partir de 2 anos.
- A dose americana usual é de 3,375 g a cada 6 horas (4,5 g, com aminoglicosídeo, na pneumonia nosocomial), em 30 minutos, reduzida com depuração de creatinina de até 40 mL/min.
- No MERINO, na bacteremia por E. coli ou Klebsiella resistentes à ceftriaxona, a mortalidade em 30 dias foi de 12,3%, contra 3,7% com meropeném: a não inferioridade não se confirmou.
- A bula americana não tem advertência em destaque; a associação é contraindicada na alergia a penicilinas, cefalosporinas ou inibidores de betalactamase. Quem compra é, em geral, o hospital, e o plano hospitalar cobre os medicamentos da internação.
O que é piperacilina e tazobactam (Tazocin)?
É a associação injetável da piperacilina sódica, antibiótico da classe das penicilinas, com o tazobactam sódico, inibidor de betalactamases. O Tazocin, registrado no Brasil desde 1996 e hoje em nome da Pfizer Brasil, vem em frascos de pó liofilizado de 2,25 g (2 g + 250 mg) e 4,5 g (4 g + 500 mg). O Tazocin também é comercializado como Zosyn, nos EUA, e Tazocilline, na França. A FDA aprovou o Zosyn em 22/10/1993 (NDA 050684, hoje da Wyeth, do grupo Pfizer), em frascos-ampola hoje descontinuados nos EUA, não por segurança ou eficácia; a marca segue em bolsas congeladas (NDA 050750, de 24/02/1998, hoje da Baxter). Na União Europeia, as autorizações são nacionais, harmonizadas por arbitragem da EMA (decisão da Comissão Europeia de 21/02/2011).
Betalactamases e carbapenêmicos
Betalactamases são enzimas bacterianas que destroem antibióticos betalactâmicos. Segundo os autores do MERINO, as de espectro estendido (ESBL) tornam E. coli e Klebsiella pneumoniae resistentes à ceftriaxona; infecções graves por essas cepas costumam ser tratadas com carbapenêmicos, o que pode selecionar resistência a eles, e a piperacilina-tazobactam seria uma opção poupadora. A bula americana restringe o uso a infecção bacteriana comprovada ou fortemente suspeita, guiado por cultura e antibiograma ou pela epidemiologia local.
Mecanismo de ação
A piperacilina se liga às proteínas de ligação à penicilina e bloqueia a síntese da parede bacteriana; a eficácia depende do tempo com concentração acima da inibitória mínima. O tazobactam, com pouca ação própria, protege a piperacilina: pela bula brasileira, inibe muitas betalactamases de classe A, como penicilinases e cefalosporinases, tem atividade variável contra carbapenemases de classe A e enzimas de classe D e não age sobre a maioria das AmpC (classe C) nem sobre as metalo-betalactamases (classe B). A associação não age contra bactérias com proteínas de ligação alteradas, como os estafilococos resistentes à meticilina. As meias-vidas são de 0,7 a 1,2 hora, a eliminação é sobretudo renal e a passagem ao líquor é baixa sem inflamação das meninges (bula americana).
Indicações
Estados Unidos (FDA)
Pela bula vigente do Zosyn (05/2026), em infecções por bactérias sensíveis, muitas produtoras de betalactamases: intra-abdominal (apendicite complicada por ruptura ou abscesso e peritonite) e pneumonia nosocomial moderada a grave, em adultos e a partir de 2 meses; só em adultos, infecções de pele e estruturas da pele, inclusive celulite, abscesso e pé diabético, infecções pélvicas femininas (endometrite pós-parto e doença inflamatória pélvica) e pneumonia comunitária moderada.
União Europeia (EMA)
Pelo texto harmonizado, em adultos e adolescentes: pneumonia grave, inclusive hospitalar e associada à ventilação; infecção urinária complicada, inclusive pielonefrite; infecção intra-abdominal complicada; infecção complicada de pele e partes moles, inclusive pé diabético; e bacteremia associada a elas. De 2 a 12 anos, infecção intra-abdominal complicada. A partir de 2 anos, também a neutropenia com febre suspeita de origem bacteriana.
Brasil (ANVISA)
Pela bula do Tazocin aprovada em 29/09/2026, em adultos: infecções do trato respiratório inferior, urinárias, intra-abdominais, de pele e tecidos moles, ginecológicas (endometrite pós-parto e doença inflamatória pélvica), osteoarticulares e polimicrobianas, sepse bacteriana e neutropenia febril, de preferência com aminoglicosídeo; acima de 2 anos, neutropenia febril, também com aminoglicosídeo, e infecções intra-abdominais.
Evidências clínicas
Nos estudos iniciais de fase 3, 2.621 pacientes receberam a associação (bula americana); a bula brasileira cita, na pneumonia comunitária, resposta clínica favorável de 84% contra 64% com ticarcilina-clavulanato (p<0,01).
MERINO: bacteremia resistente à ceftriaxona
O MERINO (NCT02176122), de fase 4 e não inferioridade, randomizou em 26 centros de 9 países adultos com hemocultura positiva para E. coli ou Klebsiella não sensível à ceftriaxona e sensível à associação: 188 foram sorteados para 4,5 g a cada 6 horas e 191 para meropeném 1 g a cada 8 horas, por 4 a 14 dias, como tratamento definitivo. Em 30 dias, morreram 23 de 187 (12,3%) contra 7 de 191 (3,7%): diferença de 8,6 pontos, com IC 97,5% unilateral até 14,5, acima da margem de 5 (p = 0,90 para não inferioridade). O estudo parou após a terceira análise interina, e os autores concluíram que o resultado não sustenta o uso da associação nesse cenário.
ACORN: cefepima ou piperacilina-tazobactam
No ACORN (NCT05094154), de fase 4, num centro dos EUA, adultos que iniciavam antibiótico antipseudomonas no pronto-socorro ou na UTI clínica foram sorteados para cefepima ou piperacilina-tazobactam; dos 2.511 da análise principal, 77,2% usavam vancomicina. O maior estágio de lesão renal aguda ou morte até o 14º dia não diferiu (razão de chances 0,95; IC 95% 0,80 a 1,13): lesão estágio 3 em 7,5% e mortes em 6,0% com a associação, contra 7,0% e 7,6% com cefepima, que teve menos dias vivos e sem delírio ou coma (razão de chances 0,79; IC 95% 0,65 a 0,95).
BLING III: infusão contínua
O BLING III (NCT03213990), em 104 UTIs de 7 países, comparou a infusão contínua e a intermitente da mesma dose diária de piperacilina-tazobactam ou meropeném em 7.031 adultos críticos com sepse. A mortalidade em 90 dias foi de 24,9% contra 26,8% (diferença de −1,9 ponto; IC 95% −4,9 a 1,1; p = 0,08), sem significância; a cura clínica foi maior com a contínua (55,7% contra 50,0%).
Posologia e administração
O uso é só intravenoso, em infusão de 30 minutos pelas bulas americana e europeia e de 20 a 30 minutos pela brasileira; nos EUA, por 7 a 10 dias, ou de 7 a 14 na pneumonia nosocomial.
- Adultos: nos EUA, 3,375 g a cada 6 horas (13,5 g ao dia) e, na pneumonia nosocomial, 4,5 g a cada 6 horas com aminoglicosídeo, mantido se crescer P. aeruginosa; na UE, 4 g/0,5 g a cada 8 horas, ou a cada 6 na pneumonia grave e na neutropenia febril; no Brasil, 12 g/1,5 g ao dia, a cada 6 ou 8 horas, até 18 g/2,25 g nas infecções graves.
- Rins (EUA): com depuração de 20 a 40 mL/min, 2,25 g a cada 6 horas (3,375 g na pneumonia); abaixo de 20, 2,25 g a cada 8 horas (a cada 6 na pneumonia); na hemodiálise, 2,25 g a cada 12 horas (a cada 8 na pneumonia), mais 0,75 g após cada sessão.
- Rins (Brasil): 4 g/500 mg a cada 8 horas (20 a 40 mL/min) ou a cada 12 horas (abaixo de 20); na hemodiálise, 2 g/250 mg após cada sessão.
- Crianças: nos EUA, a partir de 2 meses e até 40 kg, 90 mg/kg (até 9 meses) ou 112,5 mg/kg, a cada 8 horas na infecção intra-abdominal e a cada 6 na pneumonia; no Brasil, 80 mg/kg de piperacilina a cada 6 horas na neutropenia febril e 112,5 mg/kg a cada 8 horas na intra-abdominal.
- Fígado: sem ajuste.
- Aminoglicosídeos: infundir separadamente, pois a piperacilina os inativa; em Y, só amicacina e gentamicina em concentrações definidas, nunca tobramicina.
- Infusão prolongada: fora da posologia; a bula brasileira cita infusões de 3 a 4 horas só como base dos pontos de corte do CLSI e do EUCAST.
Segurança
A bula americana não tem advertência em destaque (boxed warning) e contraindica o uso com história de alergia a penicilinas, cefalosporinas ou inibidores de betalactamase; o texto europeu inclui alergia aguda grave a outro betalactâmico, como carbapenêmico, e a bula brasileira contraindica ainda a doação de sangue durante o tratamento e até 15 dias depois. Nos estudos de monoterapia da bula americana, os efeitos mais comuns foram diarreia (11,3%), constipação (7,7%), dor de cabeça (7,7%), náusea (6,9%) e insônia (6,6%).
Advertências
- Alergia e pele: anafilaxia, mais provável com alergia prévia a penicilina, cefalosporina ou carbapenêmico; reações cutâneas graves (Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, DRESS e pustulose exantemática aguda generalizada).
- Linfo-histiocitose hemofagocítica: em adultos e crianças; pela bula brasileira, após mais de 10 dias de uso, muitas vezes como complicação de DRESS. Suspender na suspeita.
- Rins: num ensaio com 1.200 pacientes críticos, foi fator de risco para insuficiência renal (razão de chances 1,7; IC 95% 1,18 a 2,43) e atrasou a recuperação; a bula americana recomenda considerar alternativas nesses pacientes e, sem alternativa adequada, monitorar o rim. Com vancomicina, a lesão renal aguda pode ser mais frequente.
- Sangue e sistema nervoso: sangramento com alteração da coagulação, sobretudo na insuficiência renal; leucopenia e neutropenia reversíveis, com hemograma periódico em uso de 21 dias ou mais; convulsões com doses altas e rim comprometido.
- Outros: rabdomiólise; diarreia por Clostridioides difficile; 260,90 mg de sódio por frasco de 4,5 g (bula brasileira); hipocalemia.
Interações, gravidez e amamentação
A probenecida prolonga as meias-vidas (21% a da piperacilina e 71% a do tazobactam) e só deve ser associada se o benefício superar o risco. A associação pode prolongar o bloqueio de relaxantes musculares não despolarizantes, como o vecurônio, reduzir a depuração do metotrexato e pede controle da coagulação com heparina ou anticoagulantes orais. Pode dar falso-positivo no teste Platelia Aspergillus EIA e na glicose urinária por redução de cobre. Piperacilina e tazobactam atravessam a placenta, com dados insuficientes em gestantes e sem malformações em animais; a piperacilina passa ao leite em baixas concentrações.
Como funciona o acesso no Brasil
São 13 registros ativos nos dados abertos da ANVISA (base de 13/10/2026): o Tazocin (1.2110.0095, Pfizer Brasil), de referência; 7 genéricos, de Antibióticos do Brasil, Eugia, Eurofarma, Newcom, Química Haller, Sandoz e Viatris; e 5 similares: Hyptaz (Brainfarma), Piperazam (Blau), Pipta (Teuto), Pype (Instituto Biochimico) e Tazomaz (União Química). A associação não está na Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026), e a bula do Tazocin prevê venda sob prescrição com retenção da receita.
Comercialização e apresentações
Dos 13 registros, constam na Lista CMED de 09/10/2026 como comercializados em 2025 o Tazocin, os genéricos de Antibióticos do Brasil, Eugia, Eurofarma, Sandoz e Viatris e os similares Piperazam, Pype e Tazomaz; o Pipta, não, e o Hyptaz (registrado em 08/2026) e os genéricos da Newcom e da Haller não constam da lista. São frascos de pó com 2 g + 0,25 g ou 4 g + 0,5 g, parte com restrição hospitalar, sem bolsa pronta como a americana. O Zerbaxa é outro produto: associa o tazobactam à ceftolozana.
No hospital: SUS e planos de saúde
Antibiótico intravenoso de internação, em geral é comprado pelo serviço de saúde, não pelo paciente. Não consta da Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024), cujos anexos cobrem os componentes Básico, Estratégico e Especializado e os insumos, sem relação de uso hospitalar. Nos planos com segmentação hospitalar, os medicamentos da internação têm cobertura (Lei nº 9.656/1998, art. 12, II, “d”).
Perguntas Frequentes
Preciso importar a piperacilina-tazobactam?
Não. Há 13 registros ativos, nove deles comercializados em 2025 (CMED), entre eles o Tazocin; a compra é nacional, em geral pelo hospital.
Tazocin e Zosyn são o mesmo medicamento?
Sim, a mesma associação: Zosyn é a marca americana, hoje em bolsas congeladas, e Tazocin, a da Pfizer no Brasil e em países europeus; as indicações variam entre as agências.
Pode substituir o meropeném na bacteremia resistente à ceftriaxona?
No MERINO, com E. coli ou Klebsiella, não: a mortalidade em 30 dias foi de 12,3% contra 3,7%. A decisão cabe à equipe médica, conforme a infecção, a cultura e o antibiograma.
Usar com vancomicina prejudica os rins?
As bulas americana e brasileira apontam mais lesão renal aguda com a combinação, e a americana pede monitorar o rim; no ACORN, com 77,2% em vancomicina, a associação não aumentou lesão renal nem mortes em relação à cefepima.
Conclusão
A piperacilina-tazobactam é uma penicilina de amplo espectro protegida por um inibidor de betalactamases, de uso intravenoso e hospitalar; a União Europeia e o Brasil incluem a neutropenia febril, ausente nos EUA. O MERINO não sustenta usá-la no lugar do meropeném na bacteremia por E. coli ou Klebsiella resistentes à ceftriaxona, e o rim pede atenção em pacientes críticos e com vancomicina. No Brasil, a oferta é nacional, com 13 registros ativos: o acesso passa pelo hospital e, nos planos, pela cobertura da internação.
Fontes
- FDA — Zosyn (piperacilina e tazobactam), bula vigente: NDA 050750, Baxter Healthcare Corporation; DailyMed, versão 7, de 15/05/2026.
- FDA — Drugs@FDA: NDA 050684 (Wyeth), aprovação em 22/10/1993, apresentações descontinuadas; NDA 050750, aprovação em 24/02/1998; último suplemento de eficácia em 26/05/2020.
- EMA — Tazocin, arbitragem do artigo 30, EMEA/H/A-30/001149 (Pfizer): parecer do CHMP de 21/10/2010, decisão da Comissão Europeia de 21/02/2011 e RCM harmonizado (anexo III).
- EMA — Base de dados do artigo 57 (dados de 09/10/2026): Tazocin na Bélgica, na Itália e na Irlanda do Norte; Tazocilline na França.
- ANVISA — Tazocin (piperacilina sódica e tazobactam sódico), bula para o profissional de saúde, Pfizer Brasil Ltda., registro 1.2110.0095, aprovada em 29/09/2026.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: 13 registros ativos de piperacilina sódica + tazobactam sódico, inclusive Tazocin (1.2110.0095); Zerbaxa (1.0171.0231).
- ANVISA — RDC nº 1.036, de 09/07/2026: atualização vigente do Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998.
- Harris PNA et al., JAMA, 2018;320(10):984-994. PMID 30208454 (MERINO; ClinicalTrials.gov NCT02176122).
- Qian ET et al., JAMA, 2023;330(16):1557-1567. PMID 37837651 (ACORN; ClinicalTrials.gov NCT05094154).
- Dulhunty JM et al., JAMA, 2024;332(8):629-637. PMID 38864155 (BLING III; ClinicalTrials.gov NCT03213990).
- Jensen JU et al., BMJ Open, 2012;2(2):e000635. PMID 22411933 (PASS; ClinicalTrials.gov NCT00271752).
- Ministério da Saúde — Rename 2024, Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024.
- Brasil — Lei nº 9.656/1998, art. 12, II, “d”.
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