Resumo rápido
- O verapamil é um bloqueador dos canais de cálcio que dilata as artérias e retarda a condução no nó atrioventricular; no Brasil, a marca de referência é o Dilacoron (Abbott, registro 1.0553.0267), e há sete registros ativos de genéricos.
- A bula brasileira o indica na angina estável, instável e vasoespástica, na isquemia silenciosa, na hipertensão leve e moderada e nas taquicardias supraventriculares, inclusive para controlar temporariamente a frequência no flutter e na fibrilação atrial.
- No INVEST, com 22.576 hipertensos com doença coronariana, a estratégia com verapamil foi tão eficaz quanto a com atenolol: morte, infarto ou AVC em 9,93% contra 10,17%.
- A bula americana não tem advertência em destaque (boxed warning); o uso é contraindicado em choque cardiogênico, bloqueio atrioventricular de 2º ou 3º grau ou doença do nó sinusal sem marcapasso e fibrilação ou flutter com via acessória.
- Os comprimidos de 80 mg e de 120 mg, comercializados em 2025, estão no Componente Básico do SUS (Rename 2024); a Lista CMED não tem forma injetável nem cápsulas de dose única diária.
O que é o verapamil (Dilacoron)?
Verapamil, na forma de cloridrato de verapamil, é o princípio ativo do Dilacoron, marca da Abbott Laboratórios do Brasil, sob licença da Abbott GmbH & Co. KG, da Alemanha, e medicamento de referência dos genéricos. O verapamil também é comercializado como Verelan e Verelan PM, nos EUA. Na classificação ATC da OMS (C08DA01), é um derivado da fenilalquilamina, do grupo dos bloqueadores seletivos dos canais de cálcio com efeito cardíaco direto. A FDA o aprovou em 12/08/1981, como Isoptin injetável; Isoptin, Calan e Calan SR, em comprimidos, saíram do mercado americano sem motivo de segurança ou eficácia, e lá seguem os genéricos e as cápsulas da Azurity.
Angina, arritmias supraventriculares e hipertensão
A angina é a dor no peito por isquemia do músculo cardíaco: a crônica estável surge no esforço; em repouso, pode ser vasoespástica (variante de Prinzmetal, por espasmo das coronárias) ou instável. Na taquicardia supraventricular paroxística, o coração dispara por um circuito de reentrada, em geral envolvendo o nó atrioventricular; no flutter e na fibrilação atrial com resposta rápida, o nó deixa passar estímulos demais aos ventrículos. Na fibrilação ou no flutter com via acessória, como na síndrome de Wolff-Parkinson-White, o estímulo pode contornar o nó, e bloqueá-lo pode precipitar resposta ventricular muito rápida ou fibrilação ventricular. Na hipertensão, baixar a pressão reduz eventos cardiovasculares, sobretudo AVC e infarto.
Mecanismo de ação
O verapamil inibe a entrada de cálcio pelos canais do tipo L no músculo das artérias e nas células de condução e de contração do coração. No nó atrioventricular, prolonga o período refratário e retarda a condução: interrompe a reentrada das taquicardias supraventriculares e reduz a frequência ventricular no flutter e na fibrilação, sem retardar a condução pelas vias acessórias. Nas arteríolas, reduz a resistência periférica sem taquicardia reflexa e, nas coronárias, relaxa o espasmo; o efeito inotrópico negativo costuma ser compensado pela queda da pós-carga. Após dose oral única, cerca de 23% chega à circulação, pela metabolização no fígado; a meia-vida é de 3 a 7 horas, e o verapamil inibe o CYP3A4 e a glicoproteína P, base de várias interações.
Indicações
Estados Unidos (FDA)
Os comprimidos de liberação imediata (40 a 120 mg) são indicados na angina vasoespástica, instável e crônica estável; nas arritmias, com digitálico, para controlar a frequência ventricular no flutter ou na fibrilação atrial crônicos, e na prevenção da taquicardia supraventricular paroxística repetitiva; e na hipertensão. Os comprimidos de liberação prolongada (120 a 240 mg) e as cápsulas Verelan (120 a 360 mg) e Verelan PM (100 a 300 mg) são só para hipertensão. O injetável (2,5 mg/mL) converte ao ritmo sinusal a taquicardia supraventricular paroxística, inclusive com vias acessórias, e controla temporariamente a frequência no flutter ou na fibrilação, exceto com via acessória. Nas formas orais, a segurança e a eficácia em crianças e adolescentes não foram estabelecidas.
União Europeia (EMA)
Não há autorização centralizada: o verapamil é aprovado país a país, com as indicações de cada bula nacional (na lista da EMA de 2020, por exemplo, Isoptin, da Mylan, na Itália e na Irlanda, e Fibrocard, na Bélgica). A avaliação periódica de segurança de 2020 (PSUSA/00003105/202001) levou às bulas a interação com a metformina e a síndrome do desconforto respiratório agudo na superdosagem.
Brasil (ANVISA)
Pela bula do Dilacoron 80 mg (aprovada em 23/11/2021), para adultos, crianças e adolescentes: isquemia miocárdica (isquemia silenciosa, angina crônica estável e angina de repouso, vasoespástica ou instável); hipertensão leve e moderada, em monoterapia; e taquicardias supraventriculares paroxísticas, com conversão rápida ao ritmo sinusal, inclusive com vias acessórias (síndromes de Wolff-Parkinson-White e Lown-Ganong-Levine), e controle temporário da resposta ventricular rápida no flutter ou na fibrilação, exceto nessas síndromes. Em crianças, só nos distúrbios do ritmo.
Evidências clínicas
INVEST: hipertensão com doença coronariana
O INVEST (NCT00133692), aberto e com desfechos avaliados às cegas, randomizou 22.576 hipertensos de 50 anos ou mais com doença coronariana, em 14 países, para uma estratégia com verapamil de liberação prolongada ou com atenolol, somando trandolapril e/ou hidroclorotiazida para atingir a meta de pressão. Em média de 2,7 anos, morte, infarto não fatal ou AVC não fatal ocorreram em 9,93% contra 10,17% (risco relativo 0,98; IC 95% 0,90 a 1,06), com controle da pressão semelhante.
CONVINCE: verapamil de início controlado
No CONVINCE, duplo-cego, 16.602 hipertensos com outro fator de risco cardiovascular começaram com 180 mg de verapamil de liberação prolongada e início controlado ou com atenolol ou hidroclorotiazida. Encerrado pelo patrocinador após média de 3 anos, antes de conhecidos os resultados, teve 364 contra 365 eventos do desfecho principal (AVC, infarto ou morte cardiovascular; razão de risco 1,02; IC 95% 0,88 a 1,18), sem demonstrar equivalência; sangramentos que não eram AVC foram mais comuns com verapamil (118 contra 79).
Taquicardias e fibrilação atrial
Pela bula americana do injetável, nos estudos controlados, cerca de 60% dos pacientes com taquicardia supraventricular voltaram ao ritmo sinusal em 10 minutos, e cerca de 70% dos que tinham flutter ou fibrilação com frequência alta tiveram queda de ao menos 20% na frequência ventricular, por 30 a 60 minutos; a conversão desses ritmos ao sinusal (cerca de 10%) foi semelhante à do placebo.
Fora da bula: cefaleia em salvas
A cefaleia em salvas não consta das bulas americanas nem da brasileira, mas a diretriz da Academia Europeia de Neurologia de 2023 recomenda o verapamil para prevenir as crises, em dose de ao menos 240 mg por dia, com o máximo definido pela eficácia e pela tolerância.
Posologia e administração
Pela bula brasileira, o Dilacoron 80 mg é tomado de preferência com a refeição ou logo após, engolido com água, sem mastigar. A dose é individual, em média de 240 a 360 mg ao dia (até 480 mg em tratamentos longos), e a suspensão deve ser gradual.
- Adultos e adolescentes acima de 50 kg: de 120 a 480 mg ao dia, em 3 ou 4 tomadas (em 3 na hipertensão).
- Crianças (só distúrbios do ritmo): até 6 anos, de 80 a 120 mg ao dia, em 2 ou 3 tomadas; de 6 a 14 anos, de 80 a 360 mg ao dia, em 2 a 4.
- Fígado, idosos e rins: doses iniciais menores na disfunção hepática e em idosos (na hepática grave, a bula americana indica cerca de 30% da dose habitual); nos rins, cautela, e a hemodiálise não remove o verapamil.
- Liberação prolongada (EUA): comprimido com alimento, de 180 mg pela manhã até 240 mg a cada 12 horas; cápsula Verelan, em geral 240 mg pela manhã, e Verelan PM, 200 mg ao deitar, que podem ser abertas sobre purê de maçã, engolido sem mastigar.
- Injetável (EUA): de 5 a 10 mg em pelo menos 2 minutos (3 em idosos), com eletrocardiograma e pressão monitorados, e mais 10 mg após 30 minutos, se preciso.
Segurança
A bula americana não tem advertência em destaque (boxed warning). Nas formas orais, contraindica disfunção ventricular esquerda grave, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou choque cardiogênico, doença do nó sinusal e bloqueio atrioventricular de 2º ou 3º grau (salvo com marcapasso funcionando), flutter ou fibrilação com via acessória e, exceto na Verelan PM, hipersensibilidade. No injetável, somam-se insuficiência cardíaca grave (salvo se causada pela própria taquicardia), betabloqueador venoso nas horas próximas e taquicardia ventricular de complexo largo. Na bula brasileira, o limite é a insuficiência cardíaca com fração de ejeção abaixo de 35% ou pressão pulmonar acima de 20 mmHg, e a associação com ivabradina é contraindicada (a americana manda evitá-la).
Advertências e reações adversas
- Coração: em 4.954 pacientes, 1,8% tiveram insuficiência cardíaca ou edema pulmonar, 2,5% pressão baixa e 0,8% bloqueio de 2º ou 3º grau; com betabloqueador, evitar em qualquer disfunção ventricular. Em 120 pacientes com cardiomiopatia hipertrófica e doses de até 720 mg ao dia, houve três mortes por edema pulmonar.
- Fígado e músculos: elevação de enzimas hepáticas (convém monitorar) e cautela na miastenia grave e na distrofia de Duchenne avançada.
- Comuns: prisão de ventre (7,3%), tontura (3,3%), náusea (2,7%), dor de cabeça (2,2%) e inchaço (1,9%).
- Superdosagem: pressão baixa, bradicardia, bloqueio e síndrome do desconforto respiratório agudo (bula brasileira); nas formas orais, a americana pede observação por ao menos 48 horas.
Interações, gravidez e amamentação
Inibidores do CYP3A4, como eritromicina e ritonavir, elevam o verapamil; rifampicina e erva-de-são-joão o reduzem. Com betabloqueadores, os efeitos sobre frequência, condução e contração se somam. O verapamil pode elevar a digoxina em 50% a 75% na primeira semana (reduzir a dose), a carbamazepina e a ciclosporina, e a bula americana limita a sinvastatina a 10 mg e a lovastatina a 40 mg ao dia. Pela bula brasileira, o pico da dabigatrana pode subir até 180% e a exposição à colchicina dobra (pode ser preciso reduzir as doses), a metformina pode perder eficácia, e o suco de toranja (grapefruit) não deve ser tomado junto. Na gravidez, só com indicação absolutamente necessária. O verapamil passa ao leite: as bulas americanas, salvo a da Verelan PM, mandam suspender a amamentação, e a brasileira admite o uso se essencial para a mãe.
Como funciona o acesso no Brasil
Nos dados abertos da ANVISA de 13/10/2026, o Dilacoron tem registro ativo (1.0553.0267, Abbott Laboratórios do Brasil Ltda., vencimento em 10/2029), assim como sete genéricos: Teuto (1.0370.0373), EMS (1.0235.0626), EMS Sigma Pharma (1.3569.0199), Germed (1.0583.0343), Aché (1.0573.0628 e 1.0573.0640) e Prati-Donaduzzi (1.2568.0193). Na Lista CMED de 09/10/2026, os comprimidos de 80 mg do Dilacoron, da Aché, da EMS, da EMS Sigma Pharma e da Germed e o de 120 mg de liberação retardada da Aché constam como comercializados em 2025; o Dilacoron de 120 mg, não. A lista não tem injetável nem apresentações de 180 a 360 mg. O verapamil não está na Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026), e a venda é sob prescrição médica.
No SUS
A Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024) inclui o cloridrato de verapamil em comprimidos de 80 mg e de 120 mg e em solução injetável de 2,5 mg/mL no Componente Básico, que reúne medicamentos da atenção primária para problemas como a hipertensão, com execução por estados, Distrito Federal e municípios. O injetável, porém, não está na Lista CMED.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais; na internação, os medicamentos ministrados têm cobertura (art. 12, II, “d”). As cápsulas de dose única diária (Verelan e Verelan PM) não constam da Lista CMED; a adaptação às formas nacionais cabe ao médico.
Perguntas Frequentes
Verapamil e Dilacoron são a mesma coisa?
Sim: Dilacoron é a marca de referência do cloridrato de verapamil no Brasil; os genéricos levam o nome do princípio ativo.
O SUS fornece o verapamil?
Sim: os comprimidos de 80 mg e de 120 mg estão no Componente Básico da Rename 2024, voltado à atenção primária.
Posso tomar verapamil com betabloqueador?
Só com acompanhamento médico: os efeitos sobre frequência e condução se somam, e a combinação em geral deve ser evitada com distúrbio da condução ou função ventricular reduzida.
O verapamil serve para cefaleia em salvas?
Não está na bula, mas a diretriz europeia de 2023 o recomenda na prevenção das crises, com ao menos 240 mg por dia; o uso fora da bula é decisão médica.
Preciso importar o verapamil?
Não: há registro ativo, genéricos comercializados em 2025 e oferta no SUS.
Conclusão
O verapamil é um bloqueador dos canais de cálcio de ação cardíaca e vascular, usado na angina, nas taquicardias supraventriculares e na hipertensão; no INVEST, a estratégia com verapamil foi tão eficaz quanto a com atenolol em hipertensos com doença coronariana. Pede atenção à função ventricular, à condução e às interações pelo CYP3A4. No Brasil, é registrado e comercializado, como Dilacoron e genéricos, e consta do Componente Básico do SUS; a indicação cabe à equipe médica.
Fontes
- FDA — cloridrato de verapamil, comprimidos de liberação imediata, bula vigente: ANDA 071881, Chartwell RX; DailyMed, versão 2, de 10/12/2025.
- FDA — cloridrato de verapamil, comprimidos de liberação prolongada, bula vigente: ANDA 078906 e ANDA 090700, Glenmark; DailyMed, versão 11, de 02/12/2025.
- FDA — Verelan (NDA 019614) e Verelan PM (NDA 020943), da Azurity: bulas vigentes dos genéricos autorizados (Wilshire, DailyMed, versão 1, de 27/11/2024; Chartwell, Verelan PM, versão 3, de 25/03/2025).
- FDA — cloridrato de verapamil injetável, bula vigente: ANDA 070737, Hospira; DailyMed, versão 26, de 09/07/2026.
- FDA — Drugs@FDA: Isoptin injetável (NDA 018485), aprovação em 12/08/1981; Calan (NDA 018817) e Calan SR (NDA 019152), descontinuados; Verelan (29/05/1990) e Verelan PM (25/11/1998), sob prescrição.
- EMA — PSUSA/00003105/202001 (verapamil, autorizações nacionais): posição do CMDh de 10/2020 e lista EMA/653323/2020.
- ANVISA — Dilacoron 80 mg, bula para o profissional de saúde (Abbott, BU 12, aprovada em 23/11/2021).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Dilacoron 1.0553.0267 e sete genéricos ativos; RDC nº 1.036/2026 (Portaria 344/1998).
- Ministério da Saúde — Rename 2024, 2ª edição (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024), Anexo I, Componente Básico.
- Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, art. 10, VI, e art. 12, II, “d”.
- Pepine CJ et al., JAMA, 2003;290(21):2805-2816. PMID 14657064 (INVEST; ClinicalTrials.gov NCT00133692).
- Black HR et al., JAMA, 2003;289(16):2073-2082. PMID 12709465 (CONVINCE).
- May A et al., Eur J Neurol, 2023;30(10):2955-2979. PMID 37515405 (diretriz da Academia Europeia de Neurologia).
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