Resumo rápido
- O ator britânico Patrick Stewart, o Professor Charles Xavier de X-Men e o capitão Jean-Luc Picard de Star Trek, morreu em 28 de outubro de 2026, aos 86 anos, em casa, em Los Angeles. Segundo o comunicado da família, ele morreu após uma breve trajetória com a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy.
- A demência com corpos de Lewy (DCL) é uma doença neurodegenerativa associada ao acúmulo anormal da proteína alfa-sinucleína dentro dos neurônios. Ela responde por cerca de 10% a 15% dos casos de demência.
- Ela não é Parkinson, mas pertence à mesma família de doenças e pode causar sintomas motores parecidos: lentidão, rigidez e tremor.
- Os sinais centrais são a oscilação da atenção ao longo do dia, alucinações visuais, alterações do sono REM e sintomas parkinsonianos. Pessoas com DCL podem ter reações graves a antipsicóticos.
- Não há cura nem medicamento que interrompa a doença. O tratamento é dos sintomas e usa, em geral, medicamentos que já têm registro no Brasil.
O que aconteceu com Patrick Stewart
Patrick Stewart morreu na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, em sua casa em Los Angeles, aos 86 anos. A morte foi confirmada no dia seguinte por sua assessora de longa data, Kelly Bush Novak, e a família publicou um comunicado nas redes sociais do ator. Segundo o texto, ele estava sob os cuidados da esposa, a cantora Sunny Ozell, e morreu depois de uma trajetória descrita como breve e comovente com a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy.
Os diagnósticos não haviam sido tornados públicos antes do anúncio. Em vez de flores, a família pediu doações para a pesquisa em Alzheimer da Universidade Johns Hopkins e para o apoio a cuidadores da Alzheimer’s Foundation of America.
A demência com corpos de Lewy é muitas vezes confundida com a doença de Parkinson. A confusão é compreensível: as duas compartilham a mesma proteína alterada e podem produzir sintomas motores semelhantes, mas são diagnósticos diferentes.
O que é a demência com corpos de Lewy (DCL)?
A demência com corpos de Lewy é uma doença neurodegenerativa e progressiva. O nome vem dos corpos de Lewy, depósitos arredondados de uma proteína chamada alfa-sinucleína que se acumulam dentro dos neurônios e levam à morte dessas células. Quando esses depósitos aparecem no córtex cerebral, a camada responsável por memória, atenção, linguagem e percepção, o resultado é a perda progressiva da função mental.
A DCL é considerada a terceira causa mais comum de demência, depois da doença de Alzheimer e da demência vascular, e responde por cerca de 10% a 15% de todos os casos. Costuma surgir depois dos 60 anos. Mesmo assim, é pouco reconhecida: o consenso internacional do DLB Consortium observa que muitos casos passam despercebidos ou são diagnosticados como Alzheimer.
Sintomas da demência com corpos de Lewy
A demência é o traço essencial: um declínio cognitivo progressivo, grande o suficiente para atrapalhar a vida social, o trabalho ou as atividades do dia a dia. No início, a memória pode estar relativamente preservada, enquanto a atenção, o planejamento e a percepção visual e espacial pioram primeiro. Além disso, o consenso de 2017 define quatro sinais centrais.
Oscilações da atenção e do estado de alerta
A pessoa alterna períodos de lucidez com outros de confusão, sonolência ou olhar vago, às vezes no mesmo dia. Essa flutuação é um dos traços que mais diferenciam a DCL do Alzheimer.
Alucinações visuais
Ocorrem em até 80% dos pacientes, segundo o consenso de 2017. Costumam ser bem formadas e detalhadas, com pessoas, crianças ou animais, e muitas vezes aparecem cedo na evolução da doença. Muitos pacientes conseguem descrevê-las.
Distúrbio comportamental do sono REM
Na fase do sono em que sonhamos, o corpo normalmente fica imóvel. No distúrbio comportamental do sono REM, essa proteção falha e a pessoa fala, grita, se debate ou chuta enquanto sonha, às vezes ferindo quem dorme ao lado. O sinal pode aparecer anos antes dos problemas de memória.
Sintomas parecidos com os do Parkinson
Lentidão dos movimentos, rigidez e tremor de repouso, os chamados sintomas parkinsonianos, fazem parte dos critérios. É por causa deles que a DCL é tão confundida com a doença de Parkinson.
Outros sinais que ajudam no diagnóstico
O consenso lista ainda sinais de apoio, como quedas repetidas, desmaios, queda de pressão ao ficar de pé, prisão de ventre, sonolência excessiva, perda do olfato, delírios, apatia e depressão. Entre eles está a sensibilidade grave a antipsicóticos, que tem consequência prática e é tratada mais abaixo.
Qual a diferença entre DCL, Alzheimer e Parkinson?
As três condições são neurodegenerativas e podem se sobrepor, o que explica a confusão. A tabela resume as principais diferenças.
| Característica | Demência com corpos de Lewy | Doença de Alzheimer | Demência da doença de Parkinson |
|---|---|---|---|
| Proteína alterada principal | Alfa-sinucleína (corpos de Lewy) | Beta-amiloide e proteína tau | Alfa-sinucleína (corpos de Lewy) |
| O que aparece primeiro | Alterações cognitivas, junto ou antes dos sintomas motores | Perda de memória recente | Sintomas motores, anos antes da demência |
| Alucinações visuais | Frequentes e precoces | Menos comuns e mais tardias | Podem ocorrer |
| Oscilação ao longo do dia | Marcante | Menos marcante | Pode ocorrer |
| Sintomas motores | Fazem parte dos critérios | Em geral tardios | Definem o quadro desde o início |
DCL e doença de Parkinson: a regra de um ano
A demência com corpos de Lewy e a demência da doença de Parkinson formam o grupo das chamadas demências com corpos de Lewy: a proteína é a mesma, e o que muda é por onde a doença começa. Quando a demência surge antes dos sintomas motores ou até um ano depois deles, o diagnóstico é DCL. Quando a pessoa já tem doença de Parkinson estabelecida e a demência aparece depois, fala-se em demência da doença de Parkinson. Nesse segundo caso, a piora mental costuma começar cerca de 10 a 15 anos depois dos primeiros sintomas motores. O consenso de 2017 considera essa regra útil sobretudo na prática clínica.
DCL e Alzheimer: quando as duas aparecem juntas
O caso de Patrick Stewart, com os dois diagnósticos, não é raro. Segundo o consenso de 2017, as formas mistas são comuns, e até metade dos pacientes diagnosticados com Alzheimer em pesquisas cuidadosas tem alterações de corpos de Lewy encontradas apenas na autópsia. Quando há muitas placas e emaranhados típicos do Alzheimer junto com os corpos de Lewy, o quadro clínico pode se parecer mais com Alzheimer do que com DCL.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico, feito por neurologista, geriatra ou psiquiatra a partir da história contada pelo paciente e pela família, do exame físico e de uma avaliação neuropsicológica completa. O consenso recomenda testar todas as funções cognitivas, porque a DCL atinge cedo a atenção e a percepção visual.
Exames complementares reforçam a suspeita. Os critérios de 2017 dão peso a três biomarcadores indicativos: a cintilografia que mostra redução do transportador de dopamina nos núcleos da base (SPECT ou PET), a cintilografia do coração com MIBG e a polissonografia que confirma o sono REM sem a imobilidade normal. Com dois sinais centrais, ou com um sinal central somado a um biomarcador indicativo, o diagnóstico é de DCL provável.
Por isso o relato da família pesa tanto: anotar quando começaram as oscilações, as alucinações, os episódios no sono e as quedas ajuda o médico a separar DCL, Alzheimer e Parkinson.
Tratamento: o que existe hoje
Não há cura para a demência com corpos de Lewy nem medicamento que interrompa a progressão da doença. A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, não aprovou nenhum medicamento especificamente para DCL. O tratamento é dos sintomas, decidido caso a caso, e combina medicamentos, reabilitação e apoio a quem cuida.
Inibidores da colinesterase
Na DCL há uma perda importante de acetilcolina, substância ligada à atenção e à memória. Os inibidores da colinesterase, como a donepezila e a rivastigmina, são a classe com mais evidência para os sintomas cognitivos e comportamentais. No Japão, a donepezila foi aprovada em 2014 especificamente para a DCL, a primeira aprovação do tipo no mundo, com base em estudos clínicos de fase 2 e fase 3. A rivastigmina tem aprovação para a demência associada à doença de Parkinson nos Estados Unidos, na União Europeia e no Brasil, onde essa indicação consta na bula.
O cuidado com antipsicóticos
As alucinações e os delírios levam muitos médicos, especialmente em pronto-socorro, a prescrever antipsicóticos. Na DCL, essa classe pede cautela especial: o consenso internacional lista a sensibilidade grave a antipsicóticos entre os sinais da doença, e esses medicamentos podem piorar a rigidez, a confusão e o estado geral do paciente. A orientação prática para a família é informar o diagnóstico de DCL a qualquer profissional que atenda o paciente, inclusive numa internação de urgência, e não iniciar nem suspender medicamentos sem o médico que acompanha o caso.
Os anticorpos contra o Alzheimer
O lecanemabe e o donanemabe, anticorpos que reduzem as placas de beta-amiloide, têm registro na Anvisa para a fase inicial da doença de Alzheimer, com patologia amiloide confirmada e restrições ligadas ao gene ApoE ε4. Eles não têm indicação para a demência com corpos de Lewy. A decisão sobre qualquer tratamento em quadros mistos é exclusiva do neurologista.
Como funciona o acesso no Brasil
Os medicamentos usados no tratamento dos sintomas, como donepezila, rivastigmina, galantamina e memantina, têm registro na Anvisa e são vendidos no país. No SUS, eles são oferecidos pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, pelas regras do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer, atualizado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025. O protocolo lista os códigos de Alzheimer da Classificação Internacional de Doenças, por isso o médico precisa avaliar como cada caso se enquadra. Os anticorpos lecanemabe (Leqembi, registro publicado no Diário Oficial da União em 22/12/2025) e donanemabe (Kisunla, RE nº 1.533, de 17/04/2025, publicada no DOU de 22/04/2025) também são registrados no Brasil.
Na prática, isso significa que a importação não é o caminho para esses medicamentos. Além disso, medicamentos como a rivastigmina e a memantina são controlados pela Lista C1 da Portaria 344/1998, e a Anvisa não permite que pessoa física importe medicamento dessa lista quando existe similar registrado no Brasil. O acesso passa pela receita, pela farmácia, pelo plano de saúde ou pelo SUS.
Em 2024 o país ganhou a Lei nº 14.878, que instituiu a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. A lei prevê diagnóstico oportuno, capacitação de profissionais, apoio a quem cuida e estímulo à pesquisa.
Quando a assessoria de importação faz sentido
Em neurologia, a importação para uso pessoal entra quando o médico prescreve um medicamento que não tem registro na Anvisa. Nesses casos, a Medicsupply orienta sobre a documentação, organiza o processo em nome do paciente, a partir da receita médica, e acompanha cada etapa do processo. A Medicsupply não é farmácia, não vende medicamento e não indica tratamento. Medicamento sem registro no Brasil não teve segurança e eficácia avaliadas pela Anvisa, e o uso é responsabilidade do paciente e do médico que prescreve.
A dimensão das demências no Brasil
O Relatório Nacional sobre a Demência, divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2024 e produzido com a Universidade Federal de São Paulo, estima que cerca de 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais convivia com alguma forma de demência em 2019. Outro volume do mesmo relatório nacional, sobre necessidades de cuidado e custos, estima que ao menos 73% dos custos recaem sobre as pessoas com demência e suas famílias.
Esquecimento, confusão ou alucinação persistentes não são parte normal do envelhecimento e merecem avaliação médica.
Perguntas Frequentes
Patrick Stewart tinha Parkinson?
O comunicado da família não menciona Parkinson: cita a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy. A DCL pode causar sintomas motores parecidos com os do Parkinson e envolve a mesma proteína, a alfa-sinucleína, mas é um diagnóstico diferente.
Demência com corpos de Lewy tem cura?
Não. Até hoje não existe cura nem medicamento capaz de interromper a progressão. O tratamento controla sintomas como alucinações, problemas de atenção, distúrbios do sono e rigidez, e o acompanhamento multiprofissional faz diferença na qualidade de vida.
Qual médico procurar?
O neurologista é o especialista mais indicado para o diagnóstico, e geriatras e psiquiatras com experiência em demências também acompanham esses pacientes. Leve à consulta um relato por escrito dos sintomas, com datas aproximadas, e a lista completa de medicamentos em uso.
Os remédios novos para Alzheimer servem para a DCL?
Não. O lecanemabe e o donanemabe têm registro no Brasil apenas para a fase inicial da doença de Alzheimer, com placas de beta-amiloide confirmadas. Não há aprovação desses anticorpos para a demência com corpos de Lewy.
Preciso importar medicamento para tratar DCL?
Em geral, não. Os medicamentos usados para os sintomas têm registro na Anvisa e são vendidos no Brasil, e parte deles é fornecida pelo SUS conforme o protocolo da doença de Alzheimer. A importação só entra quando o médico prescreve um medicamento sem registro no país.
Conclusão
A morte de Patrick Stewart lembra que as demências não são uma doença só. A DCL tem sinais próprios, como a oscilação ao longo do dia, as alucinações visuais, as alterações do sono e os sintomas parecidos com os do Parkinson, e pede cuidados próprios, como a cautela com antipsicóticos. Reconhecer esses sinais cedo e procurar um neurologista é o que mais ajuda pacientes e famílias.
Fontes
- Deadline. Patrick Stewart Dead: Star Trek & X-Men Actor Was 86. 29/10/2026.
- ABC News (EUA). Star Trek, X-Men star Patrick Stewart dies at 86 after brief battle with Alzheimer’s, Lewy body dementia. 29/10/2026.
- Ministério da Saúde e Hospital Alemão Oswaldo Cruz (PROADI-SUS). Relatório Nacional sobre a Demência: necessidades de cuidado, custos, produção científica e investimento em pesquisa. Sumário executivo, 2023.
- McKeith IG et al., Neurology, 2017, 89(1):88-100, PMID 28592453 (quarto relatório de consenso do DLB Consortium).
- MacDonald S, Shah AS, Tousi B, Drugs & Aging, 2022, 39(7):505-522, PMID 35619045.
- Mori E, Ikeda M, Kosaka K et al., Annals of Neurology, 2012, 72(1):41-52, PMID 22829268 (estudo de fase 2 da donepezila na DCL).
- Tahami Monfared AA et al., Neurology and Therapy, 2020, 9(2):521-534, PMID 32495063.
- Manual MSD, versão para a família. Demência por corpos de Lewy e demência da doença de Parkinson.
- Anvisa. Bula profissional de Exelon (hemitartarato de rivastigmina), Novartis, indicação em demência associada à doença de Parkinson.
- Anvisa. Leqembi (lecanemabe): novo registro. DOU de 22/12/2025.
- Anvisa. Kisunla (donanemabe): Resolução RE nº 1.533, de 17/04/2025 (DOU de 22/04/2025).
- Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27/11/2025, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer.
- Brasil. Lei nº 14.878, de 4 de junho de 2024 (DOU de 05/06/2024), Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências.
- Ministério da Saúde e Unifesp. Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras. Brasília, 2024.
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