Evrysdi (risdiplam): modificador do splicing de SMN2 para atrofia muscular espinhal 5q

Resumo rápido

  • O Evrysdi (risdiplam), da Roche, é um modificador do splicing do gene SMN2 tomado por via oral uma vez ao dia na atrofia muscular espinhal (AME); no Brasil, tem registro ativo como pó para solução oral (1.0100.0670).
  • Indicações: nos EUA, AME em crianças, inclusive recém-nascidos, e adultos; na União Europeia, AME 5q tipos 1 a 3 ou com 1 a 4 cópias de SMN2, sem idade mínima; no Brasil, AME, em todas as idades pela bula de 2026.
  • No FIREFISH, 29% dos bebês com AME tipo 1 sentavam sem apoio por 5 segundos após 12 meses, e 80% estavam vivos sem ventilação permanente em 5 anos; no SUNFISH (tipos 2 e 3), a escala MFM32 subiu 1,55 ponto a mais que com placebo.
  • Sem advertência em destaque (tarja) no rótulo americano; pedem atenção a toxicidade embriofetal em animais, a fertilidade masculina e a contracepção.
  • O SUS fornece o risdiplam na AME 5q tipos 1 e 2 (PCDT de 2025); não há DUT na ANS, e o comprimido de 5 mg, aprovado nos EUA e na União Europeia, não tem registro no Brasil.

O que é Evrysdi (risdiplam)?

Evrysdi é o nome comercial do risdiplam, molécula pequena de uso oral que modifica o processamento (splicing) do RNA do gene SMN2. Nos EUA, a Genentech, do grupo Roche, tem a NDA 213535, do pó (07/08/2020), e a NDA 219285, do comprimido de 5 mg (11/02/2025); na União Europeia, a Roche Registration GmbH tem autorização desde 26/03/2021, hoje também para o comprimido; no Brasil, o registro da Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A., de 13/10/2020, cobre só o pó. Cada frasco rende 80 mL de solução de 0,75 mg/mL.

Atrofia muscular espinhal 5q

Pelo protocolo do SUS, é uma doença genética recessiva que degenera os neurônios motores da medula e do tronco encefálico, com fraqueza e atrofia progressivas que podem atingir a respiração e a deglutição. Em cerca de 95% dos casos faltam as duas cópias do éxon 7 do gene SMN1; o SMN2 gera só cerca de 10% de transcritos completos, e seu número de cópias é o principal determinante da gravidade. O tipo 1 começa antes dos 6 meses, e a criança em geral não senta sem apoio; o tipo 2, entre 6 e 18 meses (senta, mas não anda sozinha); o tipo 3, depois dos 18 meses; o tipo 4, na vida adulta.

Mecanismo de ação

O risdiplam faz o pré-RNA mensageiro do SMN2 incluir o éxon 7, o que aumenta a produção de proteína SMN completa e estável, cuja falta causa a perda de neurônios motores. Atravessa a barreira hematoencefálica e chega ao corpo todo. Nos estudos, a proteína SMN no sangue mais que dobrou (mediana) em 4 semanas e se manteve por pelo menos 24 meses.

Indicações

As três agências aprovam o risdiplam para AME, com escopos diferentes:

Estados Unidos (FDA)

Pelo rótulo vigente (09/2026): AME em pacientes pediátricos e adultos, com segurança e eficácia estabelecidas desde o período neonatal; abaixo de 2 meses, o uso se apoia em farmacocinética e segurança a partir de 16 dias e em modelagem. O comprimido é para quem tem 2 anos ou mais e 20 kg ou mais.

União Europeia (EMA)

AME 5q com diagnóstico clínico de tipo 1, 2 ou 3 ou com 1 a 4 cópias do gene SMN2; após parecer do CHMP de 20/07/2023, passou a incluir menores de 2 meses. O tipo 4 não foi estudado. O comprimido, com parecer favorável em 27/03/2025, é para quem tem 2 anos ou mais e 20 kg ou mais.

Brasil (ANVISA)

Pela bula aprovada em 16/03/2026, tratamento da AME, sem restrição de tipo, com o pó disponível para todas as idades (0,15 mg/kg abaixo de 2 meses). Nos estudos, a eficácia e a segurança não foram comprovadas antes dos 16 dias de vida, faixa com dados limitados de pós-comercialização; na bula de 2023, a dose começava aos 16 dias. O comprimido não tem registro.

Evidências clínicas

Todos tiveram a Roche como patrocinadora; só o SUNFISH teve grupo placebo.

FIREFISH: AME tipo 1

O FIREFISH (NCT02913482), de fase 2, aberto e em duas partes, incluiu bebês de 1 a 7 meses com AME tipo 1 e duas cópias de SMN2. A parte 1 (21 bebês) definiu a dose de 0,2 mg/kg/dia. Na parte 2 (41 bebês), 29% (12) sentavam sem apoio por 5 segundos em 12 meses, marco que bebês sem tratamento não alcançam (p<0,0001 contra o critério de 5%); 85% estavam vivos sem ventilação permanente, contra 42% no limite superior de controles históricos (p<0,001). Após 5 anos de tratamento (3 na extensão aberta), 90% dos 62 bebês estavam vivos e 80%, sem ventilação permanente; na dose definitiva (58), 59% sentavam sem apoio por 30 segundos, 7% ficavam em pé sem apoio e nenhum andava sozinho.

SUNFISH: AME tipos 2 e 3

A parte 2 do SUNFISH (NCT02908685), de fase 3, randomizou 180 pacientes de 2 a 25 anos que não andavam, com AME tipo 2 (71%) ou 3 (29%), para risdiplam ou placebo (2:1). Em 12 meses, a escala motora MFM32 subiu 1,36 ponto, contra queda de 0,19 com placebo (diferença de 1,55; IC 95% 0,30 a 2,81; p=0,0156), e a dos membros superiores (RULM), 1,59 ponto a mais (IC 95% 0,55 a 2,62). Pela bula brasileira, 78,1% contra 52,9% ganharam 3 pontos ou mais na MFM32 entre 2 e 5 anos; a partir de 18 anos, 57,1% contra 37,5% não pioraram. Eventos graves foram parecidos (20% contra 18%), exceto pneumonia (8% contra 2%).

JEWELFISH: pacientes já tratados

O JEWELFISH (NCT03032172), de fase 2 e aberto, incluiu 174 pacientes de 1 a 60 anos já tratados com outras terapias, como nusinersena (76) e onasemnogeno abeparvoveque (14). Focado em segurança, mostrou função motora em geral estável em 24 meses; os 15 que andavam mantiveram a marcha, e nenhum evento relacionado ao tratamento levou à sua suspensão.

RAINBOWFISH: bebês antes dos sintomas

O RAINBOWFISH (NCT03779334), de fase 2 e aberto, tratou 26 bebês com diagnóstico genético de AME, ainda sem sintomas, com 16 a 41 dias de vida. No grupo principal (duas cópias de SMN2 e potencial de ação muscular ulnar de 1,5 mV ou mais), 4 de 5 (80%; IC 95% 28 a 100) sentavam sem apoio por 5 segundos aos 12 meses. No total, aos 12 meses, 81% sentavam por 30 segundos, 54% ficavam em pé sozinhos e 42% andavam sozinhos; os 23 que completaram 24 meses estavam vivos, sem ventilação permanente nem suporte alimentar.

Posologia e administração

Pelos rótulos da FDA e da EMA e pela bula brasileira, a dose é diária, por via oral, no mesmo horário, com ou sem alimento (nos estudos, com a refeição da manhã ou após a mamada), e depende da idade e do peso; acima de 5 mg, não foi estudada.

Idade e peso Dose diária
Menos de 2 meses 0,15 mg/kg
2 meses a menos de 2 anos 0,20 mg/kg
2 anos ou mais, com menos de 20 kg 0,25 mg/kg
2 anos ou mais, com 20 kg ou mais 5 mg
  • Solução oral: preparada por profissional de saúde; a dose é medida com a seringa reutilizável da embalagem, tomada em até 5 minutos e seguida de água. Pode ir por sonda; não se mistura com leite ou fórmula. Em prematuros, vale a idade corrigida.
  • Comprimido (EUA e União Europeia): inteiro, com água, sem mastigar, cortar ou triturar, ou disperso em pouca água e tomado em até 10 minutos.
  • Conservação: solução em geladeira (2 a 8 °C), no frasco âmbar, por até 64 dias, com até 5 dias, somados, fora dela abaixo de 40 °C. O pó vai à geladeira pela bula brasileira; nos EUA e na Europa, fica em temperatura ambiente, até 25 °C.
  • Dose esquecida: tomar em até 6 horas; depois, pular. Com vômito ou dose incompleta, não repetir.
  • Ajustes: nenhum na insuficiência hepática leve ou moderada; a grave e a renal não foram estudadas.

Segurança

O rótulo americano não tem advertência em destaque (tarja) nem contraindicações; na União Europeia e no Brasil, a contraindicação é a hipersensibilidade ao risdiplam ou a excipientes, e a bula brasileira também contraindica o uso no aleitamento e na doação de leite. As reações mais comuns foram febre, diarreia e erupção na pele; na AME tipo 1, somam-se infecções respiratórias, prisão de ventre, vômitos e tosse. Após a comercialização, houve vasculite cutânea, que cedeu com a suspensão definitiva, e, pela bula brasileira, taquicardia (incomum), que cedeu com a interrupção e voltou com a retomada.

Advertências: gravidez, fertilidade e retina

  • Toxicidade embriofetal: houve morte embriofetal e malformações em animais. A gravidez é descartada antes do início, e mulheres que podem engravidar usam contracepção eficaz até pelo menos 1 mês após a última dose.
  • Fertilidade masculina: pode ficar comprometida (efeito reversível em animais, segundo a EMA e a bula brasileira). Durante o tratamento e por 4 meses depois, homens não doam esperma e usam, com a parceira, contracepção altamente eficaz; podem guardar sêmen antes de começar, e quem deseja ter filhos suspende o tratamento por pelo menos 4 meses.
  • Retina e excipientes: em macacos, houve degeneração irreversível da retina, não observada nos estudos clínicos com exames oftalmológicos regulares; o benzoato de sódio pode aumentar a icterícia até 4 semanas de vida, e quem tem intolerância hereditária à frutose não deve usar a solução, que contém isomalte (resumo europeu).

Interações, gravidez e amamentação

In vitro, o risdiplam inibe os transportadores MATE1 e MATE2-K e pode elevar medicamentos eliminados por eles, como a metformina: a FDA recomenda evitar a associação ou, se inevitável, vigiar toxicidade e considerar reduzir a dose do outro. Pelo resumo europeu, não há dados de eficácia e segurança do uso com o nusinersena. Sem dados na gravidez humana, a EMA não o recomenda, e a bula brasileira só o admite se o benefício superar o risco ao feto. Passa para o leite de ratas, e a EMA recomenda não amamentar.

Como funciona o acesso no Brasil

O Evrysdi tem registro ativo na ANVISA (1.0100.0670, Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A., vencimento em 10/2028; dados abertos de 23/10/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, o frasco de 80 mL com seringas de 6 e 12 mL consta como comercializado em 2025, sem restrição hospitalar; a apresentação com seringas de 1 mL, incluída em 08/2026 (Resolução-RE nº 3.416/2026), não. Não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998. O acesso não passa por importação: a questão é quem fornece ou paga.

No SUS: o que o PCDT garante

O risdiplam foi incorporado em 11/03/2022 para a AME tipo 1 (Portaria SCTIE/MS nº 19) e tipo 2 (nº 17). O PCDT da AME 5q tipos 1 e 2 (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 3, de 21/03/2025) o oferece ao lado do nusinersena e, até 6 meses no tipo 1, do onasemnogeno abeparvoveque. Exige diagnóstico genético e até 3 cópias de SMN2, inclusive antes dos sintomas; no tipo 2 sintomático, início entre 6 e 18 meses e até 12 anos ao começar ou, depois, capacidade de sentar sem apoio e função dos braços preservadas. Excluem-se os tipos 0, 3 e 4 e a ventilação invasiva 24 horas por dia por 21 dias ou mais; a reedição após a bula de 09/2025 tirou o piso de 16 dias. Permite trocar entre risdiplam e nusinersena, mas não associá-los nem usá-los após o onasemnogeno, e pede reavaliação a cada 3 meses. O Ministério da Saúde compra e fornece aos centros de referência definidos pelas secretarias de saúde.

Fora do protocolo e nos planos de saúde

Nos tipos 3 e 4 ou fora dos critérios, o SUS não prevê o risdiplam; pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Nos planos, não há DUT para ele no Rol da ANS (Anexo II atualizado até a RN nº 681/2026): a DUT 159 cobre só o onasemnogeno abeparvoveque, e a 110.6, o teste genético. A Lei 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais; fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos da ADI 7265 (STF, 18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA. A discussão é de custeio, não de importação, com orientação médica e jurídica individualizada e sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

O Evrysdi pode ser usado em recém-nascidos?

Sim: nas três agências, abaixo de 2 meses, a dose é de 0,15 mg/kg por dia. Nos estudos, os bebês tinham ao menos 16 dias; abaixo disso, há poucos dados, e o PCDT deixou de exigir idade mínima.

Existe Evrysdi em comprimido no Brasil?

Não. O comprimido de 5 mg, aprovado nos EUA e na União Europeia para quem tem 2 anos ou mais e 20 kg ou mais, não tem registro aqui.

O SUS fornece o Evrysdi para AME tipo 3?

Não: o risdiplam não foi incorporado para o tipo 3a, e o PCDT exclui os tipos 3 e 4. Fora do protocolo, a discussão é de custeio.

Preciso importar o Evrysdi?

Em regra, não: o pó tem registro ativo, consta como comercializado em 2025 na CMED e é fornecido pelo SUS a quem se enquadra no PCDT; a dificuldade costuma ser o custeio fora do protocolo.

Conclusão

O risdiplam é um tratamento oral e diário da AME 5q que eleva a proteína SMN no corpo todo, com marcos motores e sobrevida acima da história natural em bebês com AME tipo 1, melhora ou estabilização motora nos tipos 2 e 3 e marcos precoces em bebês tratados antes dos sintomas. No Brasil, o pó é registrado e fornecido pelo SUS nos tipos 1 e 2; fora disso, a questão é de custeio.

Fontes

  1. FDA — Evrysdi (risdiplam), bula vigente: NDA 213535 (pó, 07/08/2020) e NDA 219285 (comprimido, 11/02/2025), Genentech, Inc.; DailyMed, versão 27, de 28/09/2026.
  2. EMA — Evrysdi, EPAR, EMEA/H/C/005145 (Roche Registration GmbH): informação do produto de 21/04/2026; parecer do CHMP de 20/07/2023; extensão X/0024/G (comprimido, parecer de 27/03/2025).
  3. ANVISA — Bula do Evrysdi para o profissional de saúde, Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A., aprovada em 16/03/2026; Resolução-RE nº 3.503/2025 (ampliação de uso); bula de 06/03/2023.
  4. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (23/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Evrysdi 1.0100.0670 (ativo, vencimento 10/2028), frasco de 80 mL com seringas de 6 e 12 mL (comercializado em 2025) e com seringas de 1 mL (não comercializado); Resolução-RE nº 3.416/2026.
  5. Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 3, de 21/03/2025 (PCDT da Atrofia Muscular Espinhal 5q tipos 1 e 2, reeditado após a bula de 09/2025); Portarias SCTIE/MS nº 17 e nº 19, de 11/03/2022.
  6. ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (RN nº 465/2021), Anexo II, atualizado até a RN nº 681/2026: DUT 110.6 e 159.
  7. Baranello G et al., N Engl J Med, 2021;384(10):915-923. PMID 33626251 (FIREFISH parte 1; ClinicalTrials.gov NCT02913482).
  8. Darras BT et al., N Engl J Med, 2021;385(5):427-435. PMID 34320287 (FIREFISH parte 2; ClinicalTrials.gov NCT02913482).
  9. Mazurkiewicz-Bełdzińska M et al., Lancet Child Adolesc Health, 2026;10(9):625-636. PMID 42385757 (FIREFISH, extensão aberta de 3 anos; ClinicalTrials.gov NCT02913482).
  10. Mercuri E et al., Lancet Neurol, 2022;21(1):42-52. PMID 34942136 (SUNFISH parte 2; ClinicalTrials.gov NCT02908685).
  11. Chiriboga CA et al., J Neurol, 2024;271(8):4871-4884. PMID 38733387 (JEWELFISH; ClinicalTrials.gov NCT03032172).
  12. Finkel RS et al., N Engl J Med, 2025;393(7):671-682. PMID 40802943 (RAINBOWFISH; ClinicalTrials.gov NCT03779334).

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