Resumo rápido
- O Rydapt (midostaurina) é um inibidor de quinases, entre elas FLT3 e KIT, em cápsulas moles de 25 mg por via oral, com registro ativo na ANVISA (1.0068.1156, Novartis Biociências) e comercializado no Brasil em 2025.
- Indicações, só em adultos: leucemia mieloide aguda (LMA) recém-diagnosticada com mutação de FLT3, com a quimioterapia de indução e consolidação, e mastocitose sistêmica avançada; na União Europeia e no Brasil, também a manutenção isolada após resposta completa, que a FDA não inclui.
- No RATIFY, somar a midostaurina à quimioterapia reduziu o risco de morte em 23% (razão de risco 0,77; IC 95% 0,63 a 0,95); no D2201, a resposta global na mastocitose avançada foi de 60%.
- Sem advertência em destaque (tarja) no rótulo americano; pedem atenção a toxicidade pulmonar, às vezes fatal, o dano ao feto, o QT, a náusea e os vômitos, com antiemético preventivo, e as interações pelo CYP3A4.
- Nos planos, as DUTs 64 e 142 da ANS cobrem a midostaurina na LMA com FLT3 em primeira linha, com quimioterapia, e o teste de FLT3; a mastocitose fica fora, e até 23/10/2026 não havia relatório da Conitec sobre o medicamento. Negativas são questão de custeio.
O que é Rydapt (midostaurina)?
Rydapt é o nome comercial da midostaurina, em cápsulas moles de 25 mg para uso oral. Nos EUA, a titular é a Novartis Pharmaceuticals Corporation (NDA 207997, aprovada em 28/04/2017); na União Europeia, a Novartis Europharm Limited, desde 18/09/2017. No Brasil, o registro é da Novartis Biociências S.A., e a bula aprovada em 15/09/2025 descreve a caixa com 112 cápsulas.
Leucemia mieloide aguda com FLT3 e mastocitose sistêmica avançada
Na LMA, células imaturas que formam o sangue sofrem transformação maligna e param de amadurecer na fase de blastos, o que reduz as células normais. As mutações do FLT3 ocorrem por duplicação interna em tandem (ITD) ou no domínio tirosina-quinase (TKD); pelas diretrizes do Ministério da Saúde, a FLT3-ITD se associa a doença agressiva e de mau prognóstico. A mastocitose sistêmica avançada reúne neoplasias hematológicas raras e de mau prognóstico: a forma agressiva (MSA), a associada a outra doença clonal do sangue (MS-ADHNM) e a leucemia das células mastocíticas (LCM).
Mecanismo de ação
A midostaurina inibe várias tirosina-quinases de receptor. Bloqueia a sinalização do FLT3 e leva à parada do ciclo e à morte (apoptose) de células leucêmicas com FLT3 mutado (ITD ou TKD) ou com excesso do receptor normal. Em laboratório, nas concentrações atingidas no tratamento, inibe o KIT com a mutação D816V, que impulsiona a mastocitose sistêmica, e reduz a proliferação, a sobrevivência e a liberação de histamina dos mastócitos; atinge ainda PDGFR, VEGFR2 e a proteína quinase C. É metabolizada sobretudo pelo CYP3A4, no fígado.
Indicações
Nas três agências, o uso é só em adultos, e, na LMA, a mutação de FLT3 precisa ser confirmada por teste (aprovado pela FDA, nos EUA; validado, na Europa e no Brasil).
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo vigente (versão de 06/2026): LMA recém-diagnosticada com FLT3, em combinação com a indução padrão de citarabina e daunorrubicina e a consolidação com citarabina, com a ressalva de que não é indicado como tratamento único de indução. A manutenção isolada não integra a indicação. Na mastocitose, as formas agressiva, associada a neoplasia hematológica e leucemia de mastócitos.
União Europeia (EMA)
LMA recém-diagnosticada com FLT3, com indução por daunorrubicina e citarabina e consolidação com citarabina em altas doses e, para quem atinge resposta completa, manutenção com o Rydapt isolado; em monoterapia, as três formas de mastocitose avançada. Na LMA, a partir de 60 anos, só para quem pode receber quimioterapia de indução intensiva, com estado funcional adequado e sem comorbidades importantes.
Brasil (ANVISA)
A bula de 15/09/2025 repete o escopo europeu, inclusive a manutenção isolada e a restrição a partir de 60 anos na LMA; na mastocitose, cita MSA, MS-ADHNM e LCM. Abaixo de 18 anos, segurança e eficácia não foram estabelecidas.
Evidências clínicas
LMA: RATIFY (CALGB 10603), fase 3
O RATIFY (NCT00651261), randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, incluiu 717 adultos de 18 a 60 anos com LMA recém-diagnosticada e FLT3 mutado. Midostaurina 50 mg ou placebo, duas vezes ao dia nos dias 8 a 21, acompanhou até dois ciclos de indução com daunorrubicina e citarabina e até quatro de consolidação com citarabina em altas doses, seguidos de até 12 ciclos de 28 dias de manutenção. Pelos rótulos, a sobrevida global melhorou (razão de risco 0,77; IC 95% 0,63 a 0,95; p bilateral 0,016), com 51% contra 43% de sobreviventes em 5 anos, e a sobrevida livre de eventos teve mediana de 8,2 contra 3,0 meses (razão de risco 0,78; IC 95% 0,66 a 0,93). O benefício foi consistente nos subtipos ITD e TKD. A remissão completa em 60 dias (58,9% contra 53,5%) não diferiu de forma significativa, e nas mulheres não houve benefício aparente de sobrevida (razão de risco 1,007).
Manutenção: o que os dados mostram
Após a consolidação, 205 pacientes em remissão (120 com midostaurina e 85 com placebo) seguiram para a manutenção, por mediana de 11 meses. Numa análise posterior (Larson, 2021), a midostaurina reduziu a recidiva acumulada (razão de risco 0,71; IC 95% 0,54 a 0,93) contando os eventos após o transplante; com o transplante como risco competitivo, não houve diferença significativa, e o efeito próprio da manutenção ficou inconclusivo.
Mastocitose avançada: D2201 e A2213
O D2201 (NCT00782067), de fase 2, aberto e de braço único, tratou 116 pacientes com 100 mg duas vezes ao dia; 89 com dano a órgãos formaram a população de eficácia. Na publicação, a resposta global foi de 60% (IC 95% 49 a 70), com 45% de resposta maior (resolução completa de ao menos um tipo de dano), semelhante entre subtipos, com ou sem KIT D816V e tratamento prévio; a sobrevida global mediana foi de 28,7 meses (9,4 na LCM). Pelo critério da FDA, remissão completa ou incompleta em 6 ciclos, a taxa foi de 21% (IC 95% 13 a 31), sem nenhuma completa. No A2213 (NCT00233454), de suporte, com 26 pacientes, a resposta foi de 69% nos 12 primeiros ciclos.
Posologia e administração
Pela bula brasileira e pelos rótulos da FDA e europeu: via oral, duas vezes ao dia, a cada 12 horas aproximadamente, com alimento (pela bula brasileira, após refeições leves e com pouca gordura, como café da manhã e jantar). As cápsulas são engolidas inteiras com água, sem abrir, partir ou mastigar, e o antiemético preventivo é dado antes do tratamento.
- LMA: 50 mg (duas cápsulas) duas vezes ao dia, nos dias 8 a 21 de cada ciclo de indução e de consolidação. Na Europa e no Brasil, segue-se o uso diário como manutenção em quem está em resposta completa, até a recidiva, por até 12 ciclos de 28 dias, com suspensão 48 horas antes do condicionamento para transplante.
- Mastocitose avançada: 100 mg (quatro cápsulas) duas vezes ao dia, enquanto houver benefício ou até toxicidade inaceitável.
- Ajustes: na LMA (Europa e Brasil), QTc entre 470 e 500 ms reduz a dose a 50 mg uma vez ao dia no restante do ciclo, e QTc acima de 500 ms ou infiltrado pulmonar grau 3 ou 4 suspendem o Rydapt no restante do ciclo. Na mastocitose, queda de células do sangue atribuída ao remédio ou náusea e vômitos graves levam a pausar e retomar com 50 mg duas vezes ao dia, subindo a 100 mg se tolerado.
- Dose esquecida ou vomitada: não repor; tomar a próxima no horário habitual.
- Outros: sem ajuste na insuficiência renal leve ou moderada; conservar de 15 a 30 °C, na embalagem original, protegido da umidade (bula brasileira).
Segurança
O rótulo americano não tem advertência em destaque (tarja). Nos EUA, a única contraindicação é a hipersensibilidade à midostaurina ou aos excipientes; na Europa e no Brasil, soma-se o uso com indutores potentes do CYP3A4, como rifampicina, carbamazepina, fenitoína, enzalutamida e erva-de-são-joão, que a FDA manda evitar. Pelo rótulo da FDA, na LMA, com a quimioterapia, foram mais comuns que com placebo náusea (83% contra 70%), vômitos (61% contra 53%) e dor de cabeça (46% contra 38%). Na mastocitose, em 142 pacientes, houve náusea em 82%, vômitos em 68%, diarreia em 54% e inchaço em 40%.
Advertências principais
- Pulmão: doença pulmonar intersticial e pneumonite, algumas fatais (pneumonite em 11% na LMA); suspender diante de sinais sem causa infecciosa.
- Sangue e infecções: neutropenia, inclusive grave; hemograma regular e infecção grave ativa controlada antes da monoterapia.
- Coração: no RATIFY, QTcF acima de 500 ms em 6,2% contra 2,6% (ECG se houver outros remédios que alongam o QT); na mastocitose, insuficiência cardíaca, inclusive fatal.
- Crianças: com formulação não aprovada, quimioterapia intensiva e antifúngico azólico, duas tiveram queda grave e prolongada de neutrófilos e plaquetas.
- Excipientes: 100 mg contêm cerca de 333 mg de álcool (bula brasileira).
Interações, gravidez e amamentação
Inibidores potentes do CYP3A4, como cetoconazol, itraconazol, voriconazol, claritromicina e ritonavir, elevam a exposição (com cetoconazol, área sob a curva 10 vezes maior); prefere-se alternativa ou monitoramento, sobretudo na primeira semana de uso (na LMA, na de cada ciclo). Substratos de CYP2B6, BCRP e OATP1B1, como bupropiona e rosuvastatina, podem exigir ajuste de dose; anticoncepcionais orais com etinilestradiol e levonorgestrel não foram afetados de forma relevante. Pode causar dano ao feto: teste de gravidez até 7 dias antes e contracepção eficaz durante o uso e por 4 meses depois, também para homens com parceira fértil (FDA). A amamentação é suspensa no mesmo período, e a bula brasileira contraindica o aleitamento e a doação de leite.
Como funciona o acesso no Brasil
O Rydapt tem registro ativo na ANVISA (1.0068.1156, Novartis Biociências S.A., vencimento em 04/2028; dados abertos de 23/10/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, a caixa com 112 cápsulas de 25 mg consta como comercializada em 2025, sem restrição hospitalar e com tarja vermelha. O similar Flykato (Dr. Reddy’s, 1.5143.0087) tem registro ativo, mas consta sem comercialização em 2025, e o registro da midostaurina genérica da mesma empresa (1.5143.0088) está inativo. A midostaurina não é controlada pela Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026). O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do adulto (Portaria SAS/MS nº 705/2014) não citam a midostaurina. Desde a Portaria GM/MS nº 8.477/2025, os oncológicos do SUS seguem a Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), com compra centralizada, negociada ou descentralizada; a midostaurina não está no elenco atualizado em 02/09/2026. Até 23/10/2026, não constava no site da Conitec relatório de recomendação sobre a midostaurina.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI, e art. 12) exclui da cobertura obrigatória os remédios de uso domiciliar, mas ressalva os antineoplásicos orais. No Rol da ANS (Anexo II atualizado pela RN nº 681/2026), a DUT 64 lista a midostaurina na LMA “em combinação com quimioterapia em primeira linha para pacientes com mutação de FLT3”, e a DUT 142 cobre a pesquisa de mutação de FLT3 quando a bula a exige para iniciar o tratamento. A manutenção isolada não é citada, e a mastocitose sistêmica não tem DUT. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7265, em 18/09/2025: prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com o diagnóstico, o laudo de FLT3 e os tratamentos prévios; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
Preciso importar o Rydapt?
Em regra, não: tem registro ativo e consta como comercializado em 2025 na CMED, sem restrição hospitalar; a dificuldade costuma ser o custeio, pelo plano ou pelo SUS.
O plano de saúde cobre o Rydapt?
Na LMA com mutação de FLT3, em primeira linha com quimioterapia, a DUT 64 prevê a cobertura, e o teste de FLT3 entra na DUT 142. Na mastocitose, sem DUT, a cobertura depende dos cinco critérios da ADI 7265, caso a caso, sem garantia de resultado.
O Rydapt pode ser usado sozinho na leucemia mieloide aguda?
Não como tratamento de indução. Na Europa e no Brasil, o uso isolado é previsto só na manutenção, após resposta completa, por até 12 ciclos; nos EUA, essa fase não está na indicação.
Existe genérico da midostaurina no Brasil?
Há o similar Flykato, com registro ativo, mas sem comercialização em 2025 na CMED; o registro do genérico está inativo.
Conclusão
A midostaurina é um inibidor oral de FLT3 e KIT para adultos com LMA recém-diagnosticada e mutação de FLT3, junto da quimioterapia intensiva, e com mastocitose sistêmica avançada. Prolongou a sobrevida no RATIFY; a manutenção isolada está nas indicações europeia e brasileira, não na americana. Pede antiemético e atenção ao pulmão, ao QT e às interações. No Brasil, é registrado e comercializado, e o acesso é questão de custeio, com cobertura dos planos na LMA pela DUT 64.
Fontes
- FDA — Rydapt (midostaurina), bula vigente: NDA 207997, Novartis Pharmaceuticals Corporation, aprovação em 28/04/2017 (Drugs@FDA); DailyMed, versão 15, de 08/06/2026.
- EMA — Rydapt, EPAR, EMEA/H/C/004095 (Novartis Europharm Limited): resumo das características do medicamento, atualizado em 14/01/2026; autorização de 18/09/2017.
- ANVISA — Rydapt, bula para o profissional de saúde, Novartis Biociências S.A., registro 1.0068.1156, aprovada em 15/09/2025.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (23/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Rydapt 1.0068.1156 (ativo, comercializado em 2025), Flykato 1.5143.0087 (ativo, sem comercialização em 2025) e midostaurina 1.5143.0088 (inativo); RDC nº 1.036/2026 (Portaria SVS/MS nº 344/1998).
- Ministério da Saúde — Portaria SAS/MS nº 705, de 12/08/2014 (Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do Adulto); Portaria GM/MS nº 8.477/2025 e elenco do AF-Onco (02/09/2026).
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (RN nº 465/2021), Anexo II atualizado pela RN nº 681/2026: DUT 64 (terapia antineoplásica oral) e DUT 142 (FLT3, pesquisa de mutações).
- Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, arts. 10 e 12.
- Stone RM et al., N Engl J Med, 2017;377(5):454-464. PMID 28644114 (RATIFY/CALGB 10603; ClinicalTrials.gov NCT00651261).
- Larson RA et al., Leukemia, 2021;35(9):2539-2551. PMID 33654204 (RATIFY, recidiva e manutenção; ClinicalTrials.gov NCT00651261).
- Gotlib J et al., N Engl J Med, 2016;374(26):2530-2541. PMID 27355533 (D2201; ClinicalTrials.gov NCT00782067).
- DeAngelo DJ et al., Leukemia, 2018;32(2):470-478. PMID 28744009 (A2213; ClinicalTrials.gov NCT00233454).
Sobre a Medicsupply
Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.
Precisa de mais informações sobre este medicamento?
Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp
Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.
