Resumo rápido
- O Skyclarys (omaveloxolona) é um ativador oral da via Nrf2, indicado nos EUA, na União Europeia e no Brasil para a ataxia de Friedreich a partir de 16 anos.
- No estudo de fase 2 MOXIe, o escore mFARS ficou 2,41 pontos melhor que com placebo em 48 semanas na análise principal, sem pé cavo; dados abertos sugerem efeito mantido por até 3 anos.
- O rótulo americano não tem advertência em destaque (tarja) nem contraindicações; o uso exige exames de fígado, BNP e colesterol e pode reduzir o efeito de anticoncepcionais hormonais.
- Tem registro ativo na ANVISA (1.6993.0009, Biogen Brasil) desde 04/2025, mas, na lista da CMED, consta sem comercialização em 2025.
- Está fora do SUS (parecer preliminar desfavorável da Conitec) e da cobertura obrigatória dos planos; sem oferta nacional, a importação em nome do paciente pode ser avaliada.
O que é Skyclarys (omaveloxolona)?
Skyclarys é o nome comercial da omaveloxolona (código RTA 408, impresso na cápsula), em cápsulas de 50 mg, com a mesma marca nos três mercados. A FDA o aprovou em 28/02/2023 (NDA 216718) para a Reata Pharmaceuticals, que passou à Biogen; o titular hoje é a Biogen U.S. Corporation. Na União Europeia, é medicamento órfão autorizado desde 09/02/2024, da Biogen Netherlands B.V.; no Brasil, o registro da Biogen Brasil Produtos Farmacêuticos Ltda. saiu em 04/2025.
A ataxia de Friedreich
É uma doença neurodegenerativa hereditária rara, autossômica recessiva: alterações no gene FXN, em cerca de 96% dos casos uma expansão da repetição GAA, reduzem a frataxina, proteína essencial às mitocôndrias; repetições maiores se associam a início mais precoce e progressão mais rápida. Começa em geral na infância ou na adolescência, com perda de coordenação, força, sensibilidade e fala, e pode levar à cadeira de rodas ainda na juventude. As complicações cardíacas respondem por cerca de 60% das mortes; diabetes, escoliose e pé cavo são frequentes. No Brasil, estimou-se prevalência de 0,367 caso por 100.000 habitantes no estado de São Paulo.
Mecanismo de ação
O mecanismo exato na doença não é conhecido. A omaveloxolona, um análogo de triterpenoide, liga-se à proteína Keap1 e libera o Nrf2, fator de transcrição da resposta ao estresse oxidativo, cujo nível e atividade estão reduzidos na doença. Em células de pacientes, restaurou o Nrf2 e a função mitocondrial; em pacientes, alterou de forma dependente da dose marcadores da via, como ferritina e GGT.
Indicações
Nas três agências, a indicação é a mesma: ataxia de Friedreich em adultos e adolescentes com 16 anos ou mais.
| Agência | Aprovação | Detalhes |
|---|---|---|
| Estados Unidos (FDA) | 28/02/2023 | Aprovação regular, com revisão prioritária; sem indicação nova desde então |
| União Europeia (EMA) | 09/02/2024 | Monitoramento adicional; início por médico experiente na doença |
| Brasil (ANVISA) | 04/2025 | Medicamento novo (Resolução-RE nº 1.392/2025); indicação da bula segundo a Conitec |
Quem é candidato
Abaixo de 16 anos, segurança e eficácia não foram estabelecidas; a faixa de 2 a menos de 16 anos está no estudo de fase 3 BRAVE. Os estudos não incluíram pessoas com 65 anos ou mais, e a insuficiência renal moderada ou grave não foi estudada. O MOXIe exigiu diagnóstico genético, mFARS de 20 a 80 e fração de ejeção de ao menos 40%, e excluiu BNP acima de 200 pg/mL e doença hepática relevante.
Evidências clínicas
MOXIe parte 2: omaveloxolona contra placebo
O MOXIe (NCT02255435) é um estudo de fase 2 em duas partes, com extensão aberta. Na parte 2, randomizada e duplo-cega, em 11 centros dos EUA, da Europa e da Austrália, 103 pacientes de 16 a 40 anos (24 adolescentes) receberam 150 mg ao dia (51) ou placebo (52) por 48 semanas. O desfecho principal foi a variação do mFARS, de 0 a 99 pontos (quanto menor, menos limitação), que soma função bulbar, coordenação dos braços e das pernas e estabilidade em pé. Na parte 1, a melhora fora menor com pé cavo (arco elevado que não se apoia por inteiro no chão); na parte 2, esses pacientes foram limitados a 20% e ficaram fora da análise principal, com 82.
| mFARS em 48 semanas (rótulos FDA e EMA) | Resultado |
|---|---|
| Sem pé cavo (82), desfecho principal | −1,56 contra +0,85 com placebo; diferença −2,41 (IC 95% −4,32 a −0,51); p=0,0138 |
| Todos os randomizados (103) | Diferença −1,94 (IC 95% −3,71 a −0,16); p nominal 0,0331 |
Todos os domínios favoreceram a omaveloxolona, sobretudo a estabilidade em pé; desfechos secundários, como a escala de atividades diárias FA-ADL, melhoraram só numericamente.
Extensão aberta: até 3 anos
Na análise de início tardio, a diferença de −2,17 pontos no fim da parte 2, entre quem começou com o medicamento e quem começou com placebo, se manteve após 72 semanas de extensão (−2,91). Contra 136 pacientes não tratados do estudo de história natural FACOMS, pareados por escore de propensão, o mFARS piorou 3,0 pontos em 3 anos com omaveloxolona, contra 6,6 (diferença −3,6; p nominal 0,0001). FDA e EMA pedem cautela com essa comparação exploratória, feita a posteriori e sujeita a confusão; a Conitec julgou moderada a certeza da evidência.
Posologia e administração
Via oral, 150 mg (três cápsulas de 50 mg) uma vez ao dia, em jejum: ao menos 1 hora antes ou 2 horas depois de comer (rótulo da FDA, resumo europeu e bula brasileira, segundo a Conitec). Refeição gordurosa eleva cerca de 4,5 vezes o pico no sangue.
- Preparo: cápsula inteira, sem triturar nem mastigar; quem não engole pode abri-la e espalhar todo o conteúdo em 2 colheres de sopa de purê de maçã e consumir na hora, sem leite, suco de laranja ou sonda (FDA).
- Dose esquecida: tomar a seguinte no horário do dia seguinte, sem dobrar.
- Fígado: 100 mg na insuficiência moderada (Child-Pugh B), com redução a 50 mg se houver reações; evitar na grave.
- Interações: evitar inibidores fortes ou moderados de CYP3A4 (se inevitáveis, 50 ou 100 mg, respectivamente), indutores fortes ou moderados e toranja.
Segurança
O rótulo americano não tem advertência em destaque (tarja) nem contraindicações; na União Europeia e na bula brasileira (segundo a Conitec), a contraindicação é a hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos excipientes. Pelo rótulo da FDA, entre as reações mais comuns no MOXIe estiveram aumento de enzimas do fígado (37% contra 2% com placebo), dor de cabeça (37% contra 25%), náusea (33% contra 13%), dor abdominal (29% contra 6%), cansaço (24% contra 14%) e diarreia (20% contra 10%).
Advertências principais
- Fígado: ALT ou AST acima de 3 vezes o limite em 31% e de 5 vezes em 16%, sem alta simultânea de bilirrubina, com pico nas primeiras 12 semanas e reversão ao suspender; exames antes, mensais por 3 meses e depois periódicos; suspender acima de 5 vezes, ou de 3 vezes com disfunção hepática.
- BNP: acima do normal em 14% contra 4%, sem saber se pelo medicamento ou pela cardiopatia da doença; ganho rápido de peso, inchaço, palpitações e falta de ar pedem avaliação.
- Colesterol: o LDL subiu em 16% contra 8% (média de 23,5 mg/dL em 48 semanas), e o HDL caiu em 6% contra 4%.
- Peso e alergia (EMA): perda de 5% ou mais do peso em 32,4% contra 2,7% entre quem tinha IMC abaixo de 25; hipersensibilidade, como urticária e erupção, inclusive após a comercialização.
Interações, gravidez e amamentação
O itraconazol quadruplicou a exposição à omaveloxolona, e o efavirenz a reduziu em 48%. Ela induz fracamente CYP3A4 e CYP2C8 e pode diminuir a eficácia de anticoncepcionais hormonais: evitar pílulas, adesivos e anéis combinados, implantes e pílulas só de progestagênio, preferindo DIU não hormonal ou somando preservativo durante o uso e por 28 dias após. Houve toxicidade ao desenvolvimento em animais, sem dados adequados em gestantes; na União Europeia, não deve ser usada na gravidez nem por mulheres férteis sem contracepção. Passa ao leite humano em pequena quantidade (EMA), e amamentar exige pesar benefícios e riscos.
Situação regulatória e como funciona o acesso
O Skyclarys tem registro ativo na ANVISA (1.6993.0009, Biogen Brasil Produtos Farmacêuticos Ltda., vencimento em 04/2035; dados abertos de 16/10/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, a única apresentação, frasco com 90 cápsulas de 50 mg, consta sem comercialização em 2025 e sem restrição hospitalar. Não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026). Havendo oferta no país, a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
Não incorporado, e não há protocolo clínico (PCDT) para a doença. A pedido da Biogen, a Conitec avaliou a omaveloxolona a partir de 16 anos e, em 02/09/2026, deu recomendação preliminar desfavorável: reconheceu segurança aceitável, mas apontou o alto custo por ano de vida ajustado pela qualidade, o impacto orçamentário e a prova de benefício de longo prazo apoiada em comparações não randomizadas. O tema foi à Consulta Pública SCTIE/MS nº 101/2026 (01/10 a 20/10/2026), e a decisão final deve ser acompanhada.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos para tratamento domiciliar, salvo antineoplásicos orais, e a omaveloxolona não consta do Rol da ANS; o Rol cobre, pela DUT 110.4, o teste genético da doença. Diante de negativa, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234, e o Ministério da Saúde já publicou aviso de contratação direta da omaveloxolona “por força de determinação judicial” (DOU de 02/10/2025). Cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Sem comercialização em 2025
Sem comercialização em 2025 na CMED, a família pode não encontrar o Skyclarys no país; nesse caso, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada a partir dos EUA ou da Europa. Registro sem comercialização não é falta de registro: o pedido judicial segue sendo de custeio, e é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores; a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.
Como a Medicsupply conduz a importação
Vale só para quando não houver oferta do Skyclarys no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:
| Origem | Prazo médio |
|---|---|
| EUA (FDA) | 10 dias |
| Canadá (Health Canada) | 17 dias |
| Europa (EMA) | 16 dias úteis |
| Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) | 16 dias úteis |
Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.
- Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
- Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
- Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
- Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; sem cadeia fria, pois a conservação é de 20 a 25 °C.
Perguntas Frequentes
O Skyclarys tem registro na ANVISA?
Sim: 1.6993.0009, da Biogen Brasil, válido até 04/2035; na CMED, consta sem comercialização em 2025.
Preciso importar o Skyclarys?
Em regra, não: com registro ativo e oferta no país, a compra é nacional, e a dificuldade costuma ser o custeio. Sem oferta nacional, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada.
O SUS fornece a omaveloxolona?
Não. A recomendação preliminar da Conitec foi desfavorável, e a decisão final depende da Consulta Pública nº 101/2026.
Quem tem menos de 16 anos pode usar?
Segurança e eficácia não foram estabelecidas. O estudo de fase 3 BRAVE (NCT06953583), controlado por placebo, avalia pacientes de 2 a menos de 16 anos, com centros no Brasil, e não recruta mais.
Quais exames o tratamento exige?
ALT, AST, bilirrubina, BNP e lipídios antes do início; enzimas do fígado todo mês nos 3 primeiros meses e depois periodicamente.
Conclusão
A omaveloxolona ativa a via Nrf2 e, no MOXIe, melhorou o mFARS frente ao placebo em 48 semanas, com sinais de efeito mantido em dados abertos. Exige vigilância do fígado, do BNP e dos lipídios. No Brasil, tem registro, mas não teve comercialização em 2025 nem está no SUS; a questão central é o custeio, e a importação só entra se faltar oferta nacional. A indicação cabe à equipe médica.
Fontes
- FDA — Skyclarys, bula vigente: NDA 216718, Biogen U.S. Corporation; DailyMed, revisão 04/2026.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 216718: aprovação de 28/02/2023 (Reata Pharmaceuticals) e suplementos S-002, S-008, S-009 e S-014.
- EMA — Skyclarys, EPAR, EMEA/H/C/006084, Biogen Netherlands B.V.: resumo das características do medicamento.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): Skyclarys 1.6993.0009, ativo; Resolução-RE nº 1.392, de 10/04/2025; RDC nº 842/2024 (DCB nº 12812); RDC nº 1.036/2026 (Portaria 344/1998).
- CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Skyclarys 50 mg, 90 cápsulas, sem comercialização em 2025.
- Conitec — Relatório de Recomendação preliminar e Relatório para a sociedade nº 757 (omaveloxolona), setembro de 2026; Consulta Pública SCTIE/MS nº 101, de 28/09/2026.
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026), Anexo II, DUT 110.4.
- Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, art. 10, VI, e art. 12.
- Ministério da Saúde — Aviso de dispensa de licitação por determinação judicial, DOU de 02/10/2025, seção 3.
- Lynch DR et al., Ann Neurol, 2021;89(2):212-225. PMID 33068037 (MOXIe; ClinicalTrials.gov NCT02255435).
- Lynch DR et al., Mov Disord, 2023;38(2):313-320. PMID 36444905 (extensão do MOXIe; ClinicalTrials.gov NCT02255435).
- Lynch DR et al., Ann Clin Transl Neurol, 2024;11(1):4-16. PMID 37691319 (extensão do MOXIe contra FACOMS).
- ClinicalTrials.gov — NCT06953583 (BRAVE), fase 3, de 2 a menos de 16 anos.
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