Resumo rápido
- O sarcoma de partes moles é um câncer raro, com mais de 50 subtipos; lipossarcoma e leiomiossarcoma, os “L-sarcomas”, foram os subtipos dos estudos de fase 3 da trabectedina e da eribulina contra dacarbazina.
- Na doença avançada, a doxorrubicina é a primeira linha padrão para a maioria; somar ifosfamida aumentou a resposta, mas não a sobrevida.
- A trabectedina é aprovada nos EUA para os L-sarcomas após antraciclina e, na União Europeia, para o sarcoma de partes moles avançado após antraciclinas e ifosfamida; entre os sarcomas, a eribulina é aprovada só no lipossarcoma, e o pazopanibe não teve eficácia demonstrada no de gordura.
- A trabectedina é infundida em 24 horas, por cateter central, a cada 3 semanas, após dexametasona, com controle de CPK, fígado, sangue e coração.
- No Brasil, o Yondelis (Adium) tem registro ativo, mas sem comercialização em 2025 na CMED; eribulina, pazopanibe e dacarbazina são vendidos, e a questão é o custeio.
O que é o sarcoma de partes moles?
Os sarcomas são tumores malignos raros de origem mesenquimal, cerca de 1% dos cânceres do adulto. Os de partes moles nascem de gordura, músculo, nervos, vasos e outros tecidos conjuntivos, têm mais de 50 subtipos, e a metástase mais comum é no pulmão (NCCN, 2022). Na doença avançada (irressecável, metastática ou recidivada), a quimioterapia é paliativa.
Lipossarcoma e leiomiossarcoma: os L-sarcomas
O lipossarcoma surge de células de gordura, e o leiomiossarcoma, de músculo liso, inclusive o do útero. Nos estudos de fase 3 da trabectedina e da eribulina contra dacarbazina, entraram os lipossarcomas desdiferenciado, mixoide/de células redondas e pleomórfico, mas não o bem diferenciado.
Primeira linha: doxorrubicina, com ou sem ifosfamida
No EORTC 62012 (NCT00061984), de fase 3, com 455 pacientes de 18 a 60 anos, somar ifosfamida à doxorrubicina elevou a resposta (26% contra 14%) e a sobrevida sem progressão (7,4 contra 4,6 meses), mas não a global (14,3 contra 12,8 meses; p=0,076), com mais neutropenia febril (46% contra 13%); os autores a reservam para quando é preciso reduzir o tumor. No GeDDiS, gencitabina com docetaxel não superou a doxorrubicina.
Mecanismo de ação
- Trabectedina: alquilante que se liga à guanina no sulco menor do DNA, perturbando a transcrição e o reparo do DNA até a morte celular.
- Eribulina: inibe o crescimento dos microtúbulos e bloqueia a divisão celular.
- Pazopanibe: inibe várias tirosinoquinases, como os receptores de VEGF, PDGF e FGF.
Indicações
| Medicamento | Estados Unidos (FDA) | União Europeia (EMA) |
|---|---|---|
| Trabectedina (Yondelis) | Lipossarcoma ou leiomiossarcoma irressecável ou metastático, em adultos, após antraciclina (2015) | Sarcoma de partes moles avançado, em adultos, após antraciclinas e ifosfamida ou sem condição de recebê-las (2007), com dados sobretudo dos L-sarcomas |
| Eribulina (Halaven) | Lipossarcoma irressecável ou metastático após antraciclina (2016) | Lipossarcoma irressecável, em adultos, após antraciclina, salvo se inadequada (2016) |
| Pazopanibe (Votrient) | Sarcoma de partes moles avançado, em adultos, após quimioterapia (2012); eficácia não demonstrada no adipocítico nem no GIST | Subtipos selecionados de sarcoma de partes moles avançado, em adultos, após quimioterapia |
Na UE, a trabectedina também é indicada, com doxorrubicina lipossomal peguilada, no câncer de ovário recidivado sensível à platina; nos EUA, desde 01/05/2026 há a EVDI (Apotex), trabectedina em solução, para os mesmos L-sarcomas. Dos quimioterápicos antigos, só a doxorrubicina traz sarcoma de partes moles no rótulo americano; os de ifosfamida, dacarbazina, gencitabina e docetaxel não. A trabectedina com doxorrubicina na primeira linha não é indicação da FDA nem da EMA.
Evidências clínicas
Trabectedina: estudo SAR-3007
No SAR-3007 (NCT01343277), de fase 3, 518 pacientes com L-sarcoma (73% leiomiossarcoma) já tratados com antraciclina e outro quimioterápico foram sorteados 2:1 para trabectedina ou dacarbazina. A sobrevida sem progressão foi de 4,2 contra 1,5 meses (razão de risco 0,55; IC 95% 0,44–0,70; p<0,001), mas o desfecho principal, a sobrevida global, não diferiu na análise final (13,7 contra 13,1 meses; p=0,49).
Eribulina: Estudo 309
No Estudo 309 (NCT01327885), de fase 3, 452 pacientes com ao menos duas linhas prévias, uma com antraciclina, foram sorteados para eribulina ou dacarbazina. A sobrevida global, desfecho principal, foi de 13,5 contra 11,5 meses (razão de risco 0,77; IC 95% 0,62–0,95). No lipossarcoma, foi de 15,6 contra 8,4 meses (razão de risco 0,51; IC 95% 0,35–0,75); no leiomiossarcoma, não houve evidência de eficácia.
Gencitabina com docetaxel e pazopanibe
No SARC002, de fase 2 e com 122 pacientes, gencitabina com docetaxel superou a gencitabina isolada em sobrevida sem progressão (6,2 contra 3,0 meses) e global (17,9 contra 11,5 meses), com mais toxicidade. No estudo PALETTE, que excluiu sarcomas adipocíticos e GIST, o pazopanibe levou a sobrevida sem progressão de 1,6 para 4,6 meses frente ao placebo, sem diferença significativa na global.
Primeira linha no leiomiossarcoma: LMS-04
No LMS-04 (NCT02997358), de fase 3, 150 pacientes com leiomiossarcoma uterino ou de partes moles, sem quimioterapia prévia, receberam doxorrubicina isolada ou com trabectedina, seguida de manutenção com trabectedina. A combinação prolongou a sobrevida sem progressão (12 contra 6 meses) e a global (33 contra 24 meses; razão de risco 0,65; IC 95% 0,44–0,95), com mais neutropenia grave (80% contra 13%).
Posologia e administração
Pelos rótulos americanos e resumos europeus:
- Trabectedina: 1,5 mg/m² em infusão intravenosa de 24 horas a cada 3 semanas, por cateter venoso central, com dexametasona 20 mg intravenosa 30 minutos antes; reduções para 1,2 e 1,0 mg/m²; 0,9 mg/m² na insuficiência hepática moderada e nenhum uso na grave (FDA).
- Eribulina: 1,4 mg/m² de mesilato nos EUA (na UE, expressa como base: 1,23 mg/m²) em 2 a 5 minutos nos dias 1 e 8 de ciclos de 21 dias, com redução nas insuficiências hepática e renal.
- Pazopanibe: 800 mg por via oral uma vez ao dia, 1 hora antes ou 2 horas depois de comer.
Segurança
O rótulo americano da trabectedina não tem tarja (quadro de advertência em destaque), e a única contraindicação é a hipersensibilidade grave, inclusive anafilaxia; na UE, somam-se infecção grave ou não controlada, amamentação e vacina de febre amarela. A eribulina não tem tarja nem contraindicações nos EUA; o pazopanibe tem tarja para lesão hepática grave e fatal, e a doxorrubicina, para cardiomiopatia, entre outras.
Advertências da trabectedina
- Sangue: no SAR-3007, neutropenia de grau 3 ou 4 em 43% e sepse neutropênica fatal em 1,1%.
- Músculo: CPK elevada em 32% e rabdomiólise fatal em 0,8%; CPK antes de cada dose.
- Fígado: provas hepáticas de grau 3 ou 4 em 35%.
- Coração: cardiomiopatia em 6% contra 2,3%, com possível risco maior após 300 mg/m² ou mais de antraciclina; ecocardiograma ou cintilografia antes e a cada 2 a 3 meses.
- Vasos: síndrome de extravasamento capilar, inclusive fatal, e necrose do tecido se o medicamento extravasar, sem antídoto.
Interações, gravidez e amamentação
Evitar inibidores fortes de CYP3A, como o cetoconazol (exposição 66% maior), e indutores fortes, como a rifampicina (31% menor). A trabectedina pode causar dano ao feto: contracepção por 8 meses após a última dose nas mulheres e 5 meses nos homens, e sem amamentar durante o uso e por 3 meses depois. Com a eribulina, vigiam-se neuropatia periférica e o intervalo QT.
Situação regulatória e como funciona o acesso
Nos dados abertos da ANVISA de 23/10/2026, o Yondelis tem registro ativo (1.2214.0133, Adium S.A., vencimento em 08/2034), e o anterior, da Janssen, está inativo. Na Lista CMED de 09/10/2026, tem restrição hospitalar e não teve comercialização em 2025. Halaven (1.2576.0026, United Medical), Votrient (1.0068.1136, Novartis) e dacarbazina constam como comercializados; genéricos e similares de eribulina e pazopanibe, não. Nenhum está nas listas da Portaria 344/1998 (RDC nº 1.036/2026). Para os vendidos, a compra é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
A quimioterapia do sarcoma avançado é feita em hospital habilitado em oncologia (UNACON ou CACON) e registrada por APAC no procedimento 03.04.02.029-0 (SIGTAP, 08/2026). No elenco do AF-Onco (Portaria GM/MS nº 8.477/2025) de 02/09/2026, o hospital compra dacarbazina, doxorrubicina, ifosfamida, gencitabina e docetaxel, e o Ministério da Saúde, o pazopanibe, passível de autorização prévia; trabectedina e eribulina não constam.
Nos planos de saúde
No plano ambulatorial, a Lei 9.656/1998 inclui os tratamentos ambulatoriais pedidos pelo médico assistente (art. 12, I, “b”) e os antineoplásicos orais de uso domiciliar (art. 12, I, “c”), categoria do pazopanibe; no hospitalar, a quimioterapia e os medicamentos da internação (art. 12, II, “d”).
Quando a cobertura é negada
Para os registrados, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação. No SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234; nos planos, fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos da ADI 7265 (18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA. Cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Sem comercialização em 2025: a trabectedina
Sem oferta do Yondelis no país, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada a partir dos EUA ou da Europa, junto à equipe que fará a infusão. Registro sem comercialização não é falta de registro: o pedido judicial segue sendo de custeio, e é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores; a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.
Como a Medicsupply conduz a importação
Vale só para a trabectedina, enquanto não houver oferta do Yondelis no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:
| Origem | Prazo médio |
|---|---|
| EUA (FDA) | 10 dias |
| Canadá (Health Canada) | 17 dias |
| Europa (EMA) | 16 dias úteis |
| Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) | 16 dias úteis |
Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.
- Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
- Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
- Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
- Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; exige cadeia fria, de 2 a 8 °C.
Perguntas Frequentes
Preciso importar o Yondelis?
Ele tem registro ativo na ANVISA, mas não teve comercialização em 2025. Havendo oferta, a compra é nacional; sem ela, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada.
A eribulina serve para leiomiossarcoma?
Não é indicada: entre os sarcomas, FDA e EMA a aprovam só no lipossarcoma, e no Estudo 309 não houve evidência de eficácia no leiomiossarcoma.
O pazopanibe é opção no lipossarcoma?
A eficácia não foi demonstrada no sarcoma adipocítico, excluído do PALETTE; na UE, a indicação se limita a subtipos selecionados.
Por que a trabectedina exige cateter central?
A infusão dura 24 horas, e o medicamento que extravasa pode necrosar o tecido, sem antídoto.
Conclusão
No sarcoma de partes moles avançado, a doxorrubicina segue como primeira linha para a maioria, e a escolha seguinte depende do subtipo: trabectedina nos L-sarcomas, eribulina no lipossarcoma, pazopanibe nos não adipocíticos (exceto GIST) e gencitabina com docetaxel. A trabectedina, sem comercialização em 2025, pode ser importada em nome do paciente até haver oferta; para as demais, a questão é o custeio. A decisão cabe ao oncologista.
Fontes
- FDA e EMA — Yondelis (trabectedina): NDA 207953, Janssen Products, LP; DailyMed, versão 16 de 06/01/2026; EPAR EMEA/H/C/000773, Pharma Mar S.A. EVDI (trabectedina), NDA 220837, Apotex Corp., 01/05/2026.
- FDA e EMA — Halaven (eribulina): NDA 201532, Eisai Inc.; DailyMed, versão 69 de 07/11/2025; EPAR EMEA/H/C/002084, Eisai GmbH, variação II/0028 (lipossarcoma).
- FDA e EMA — Votrient (pazopanibe): NDA 022465, Novartis; DailyMed, versão 15 de 16/12/2025; EPAR EMEA/H/C/001141, Novartis Europharm.
- FDA — rótulos vigentes de doxorrubicina (NDA 050629), ifosfamida (ANDA 076078), dacarbazina (ANDA 075812), gencitabina (ANDA 205242) e docetaxel (NDA 022234).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (23/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Yondelis 1.2214.0133 (Adium), ativo, sem comercialização em 2025; Halaven 1.2576.0026 e Votrient 1.0068.1136 comercializados; RDC nº 1.036/2026.
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- Seddon B et al., Lancet Oncol, 2017;18(10):1397-1410. PMID 28882536 (GeDDiS).
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- Pautier P et al., N Engl J Med, 2024;391(9):789-799. PMID 39231341, e Lancet Oncol, 2022;23(8):1044-1054. PMID 35835135 (LMS-04; ClinicalTrials.gov NCT02997358).
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- Ministério da Saúde — SIGTAP, procedimento 03.04.02.029-0 (08/2026); Portaria GM/MS nº 8.477/2025 e elenco do AF-Onco (02/09/2026).
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