Condicionamento para o transplante de medula óssea: esquemas mieloablativos e de intensidade reduzida com bussulfano, melfalana, tiotepa, treossulfano e fludarabina, toxicidades e acesso no Brasil

Resumo rápido

  • O condicionamento, com quimioterapia e/ou irradiação corporal total (TBI), em geral em altas doses, precede a infusão das células-tronco: combate a doença e, no alogênico, deprime a imunidade para o enxerto pegar.
  • Pode ser mieloablativo, de intensidade reduzida ou não mieloablativo; na leucemia mieloide aguda (LMA) e na síndrome mielodisplásica (SMD), reduzir a intensidade cortou a mortalidade do tratamento, mas a recaída subiu de 13,5% para 48,3%.
  • Bussulfano, melfalana, tiotepa, treossulfano, carmustina, ciclofosfamida e fludarabina são a base; o treossulfano, aprovado nos EUA em 01/2025, superou o bussulfano de intensidade reduzida em pacientes mais velhos ou com comorbidades.
  • Entre as toxicidades estão a síndrome de obstrução sinusoidal do fígado, mucosite, convulsões, lesão pulmonar e infertilidade.
  • No Brasil, quase todos são registrados e comprados pelo hospital; o treossulfano não tem registro ativo, e o tiotepa (Dipate) e a defibrotida (Defitelio) não foram comercializados em 2025.

O que é o condicionamento para o transplante de medula óssea?

No transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH), ou de medula óssea, células-tronco do paciente (autólogo) ou de um doador (alogênico), colhidas da medula, do sangue periférico ou do cordão umbilical, reconstituem a medula. O condicionamento ocupa os dias anteriores, contados em dias negativos até a infusão, no dia zero. Em doses mieloablativas, a medula não se recupera sozinha, e as bulas mandam não começar sem as células disponíveis.

No autólogo, o condicionamento é a arma contra a doença, como a melfalana em altas doses no mieloma e o BEAM (carmustina, etoposídeo, citarabina e melfalana) nos linfomas; no alogênico, as células do doador também atacam a doença residual, com risco de doença do enxerto contra o hospedeiro.

Mieloablativo, intensidade reduzida e não mieloablativo

  • Mieloablativo: citopenia irreversível e células-tronco obrigatórias; por exemplo, TBI de 5 Gy ou mais em dose única ou de 8 Gy ou mais fracionada, bussulfano acima de 8 mg/kg por via oral (ou o equivalente venoso).
  • Intensidade reduzida: alquilantes ou TBI ao menos 30% abaixo, em geral fludarabina com melfalana, bussulfano ou tiotepa; as células-tronco seguem necessárias.
  • Não mieloablativo: pouca citopenia e imunossupressão suficiente para a pega, como TBI de até 2 Gy ou fludarabina com ciclofosfamida, com ou sem imunoglobulina antitimócito (ATG).

São as categorias de Bacigalupo e colaboradores (2009); as duas últimas visam quem não tolera o convencional pela idade (em geral acima de 50 anos) ou por comorbidades.

Mecanismo de ação

  • Alquilantes (bussulfano, melfalana, tiotepa, treossulfano, carmustina e ciclofosfamida): lesam o DNA por alquilação, muitas vezes com ligações cruzadas, e matam células em divisão, inclusive da medula.
  • Fludarabina: análogo de purina que bloqueia a síntese de DNA.
  • TBI: radioterapia do corpo inteiro; em dose baixa (2 Gy), é sobretudo imunossupressora.
  • ATG: anticorpos policlonais (de coelho ou de cavalo) contra linfócitos T.

Indicações

Agente Estados Unidos (FDA) União Europeia (EMA)
Bussulfano Busulfex: com ciclofosfamida, antes do alogênico na leucemia mieloide crônica Busilvex (retirado em 01/2023; há genéricos): com ciclofosfamida ou, em intensidade reduzida, após fludarabina (adultos); com ciclofosfamida ou melfalana (crianças)
Treossulfano Grafapex (2025): com fludarabina, antes do alogênico na LMA e na SMD, a partir de 1 ano Trecondi (2019): com fludarabina, antes do alogênico, em adultos e crianças acima de 1 mês, em doenças malignas e não malignas
Tiotepa Tepadina: com bussulfano e ciclofosfamida, para reduzir a rejeição no alogênico de crianças com beta-talassemia classe 3 Tepadina: com ou sem TBI, antes do autólogo ou alogênico em doenças hematológicas e tumores sólidos, em adultos e crianças
Melfalana Evomela: altas doses antes do transplante no mieloma Phelinun: altas doses em mieloma, linfomas, leucemias agudas e alguns tumores sólidos; intensidade reduzida antes do alogênico em adultos; alogênico em crianças

Evidências clínicas

Intensidade na LMA e na SMD: BMT CTN 0901

No estudo de fase 3 (NCT01339910), 272 pacientes de 18 a 65 anos, com menos de 5% de blastos, foram sorteados para esquema mieloablativo ou de intensidade reduzida (fludarabina com bussulfano ou melfalana). A inclusão parou cedo pela recaída maior com a intensidade reduzida (48,3% contra 13,5%). Em 18 meses, a sobrevida global foi de 67,7% contra 77,5% (p=0,07), e a mortalidade do tratamento, de 4,4% contra 15,8%; o mieloablativo seguiu como padrão para quem o tolera.

Treossulfano contra bussulfano: MC-FludT.14/L

No estudo de fase 3 (NCT00822393), adultos de 18 a 70 anos com LMA em remissão ou SMD, com 50 anos ou mais ou índice de comorbidade acima de 2, foram sorteados para fludarabina com treossulfano ou com bussulfano de intensidade reduzida (6,4 mg/kg no total). Em 2 anos, a sobrevida livre de eventos foi de 64,0% contra 50,4% (razão de risco 0,65; p=0,0051 para superioridade); na análise da FDA, com 570 pacientes, a razão de risco da sobrevida global foi de 0,67.

TBI na leucemia linfoblástica aguda da criança: FORUM

No FORUM (NCT01949129), de fase 3, 417 pacientes transplantados entre 4 e 21 anos foram sorteados para TBI de 12 Gy com etoposídeo ou para fludarabina e tiotepa com bussulfano ou treossulfano. O sorteio foi interrompido: em 2 anos, a sobrevida global foi de 91% contra 75%, e a recaída, de 12% contra 33%; os autores recomendam a TBI acima de 4 anos na doença de alto risco.

Posologia e administração

Pelos rótulos americanos, por via intravenosa:

  • Bussulfano: 0,8 mg/kg a cada 6 horas, em 2 horas, por cateter central, por 4 dias (16 doses), e depois ciclofosfamida 60 mg/kg por 2 dias, com anticonvulsivante preventivo.
  • Treossulfano: 10 g/m² ao dia, em 2 horas, nos dias −4 a −2, com fludarabina 30 mg/m² nos dias −6 a −2.
  • Tiotepa: na talassemia, 5 mg/kg duas vezes no dia −6, com 12 horas de intervalo, em 3 horas, por cateter central.
  • Melfalana: 100 mg/m² ao dia, em 30 minutos, nos dias −3 e −2.

Segurança

As bulas americanas de bussulfano, treossulfano, tiotepa, melfalana e carmustina têm advertência em destaque (boxed warning) para mielossupressão grave; a do tiotepa soma carcinogenicidade, a da melfalana, alergia grave e potencial leucemogênico, e a da carmustina, toxicidade pulmonar. As contraindicações são a hipersensibilidade e, no tiotepa, vacinas vivas ou atenuadas; a defibrotida, sem advertência em destaque, não se usa com anticoagulantes ou fibrinolíticos sistêmicos.

Síndrome de obstrução sinusoidal (doença veno-oclusiva hepática)

Cursa com bilirrubina alta, fígado aumentado, ascite e ganho de peso. Com o bussulfano venoso, ocorreu em 8% dos alogênicos, com risco maior se a exposição (AUC) passa de 1.500 µM·min ou após radioterapia ou transplante prévios; as bulas pedem provas hepáticas diárias até o dia +28. A defibrotida trata a forma grave (UE) ou com disfunção renal ou pulmonar (EUA).

Outras toxicidades e fertilidade

O bussulfano exige prevenção de convulsões, e metronidazol, itraconazol, quelantes de ferro e paracetamol elevam sua exposição; o tiotepa pode causar encefalopatia, às vezes fatal, e sai pela pele, o que pede banho ao menos duas vezes ao dia por 48 horas. A carmustina causa lesão pulmonar dose-dependente, às vezes anos depois. Bussulfano, treossulfano, tiotepa, melfalana e carmustina podem prejudicar a fertilidade, causam dano ao feto, desaconselham amamentar e pedem contracepção por 6 meses nas mulheres e de 3 meses a 1 ano nos homens; as bulas dos quatro últimos alertam para segundo câncer.

Situação regulatória e como funciona o acesso

Nos dados abertos da ANVISA (base de 13/10/2026) e na Lista CMED de 09/10/2026, foram comercializados em 2025 bussulfano (genérico, 1.5537.0107), melfalana (Alkeran, 1.3764.0150), carmustina (Nibisnu, 1.5143.0063), fludarabina, ciclofosfamida, etoposídeo, citarabina e ATG de coelho (Thymoglobuline, 1.8326.0333). O tiotepa tem registro ativo como Dipate (Mawdsleys, 1.5832.0005), mas sem comercialização em 2025, assim como a defibrotida (Defitelio, Adium, 1.2214.0110); o treossulfano não tem registro ativo (o Treolibbs, da Libbs, está inativo). Nenhum consta da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026).

No SUS

O TCTH segue o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (Anexo I da Portaria de Consolidação nº 4/2017), que lista indicações e exige serviços e equipes autorizados. No AF-Onco, melfalana, carmustina, fludarabina, ciclofosfamida, etoposídeo e citarabina são de compra descentralizada, pelo hospital; tiotepa, bussulfano e treossulfano não constam.

Nos planos de saúde

No Rol da ANS (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026), os transplantes alogênico (diretriz nº 70) e autólogo (nº 71) de medula óssea são obrigatórios nos planos hospitalares e de referência, até 75 anos, nas doenças listadas; no aparentado, com ou sem mieloablação. O art. 19, IV, da RN cobre os medicamentos da internação. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos da ADI 7265 (18/09/2025).

Sem registro ou sem oferta

A RDC nº 488/2021 permite à unidade de saúde importar, para uso exclusivo e com autorização excepcional da ANVISA, produto sem registro quando falta no país o equivalente registrado (caso do treossulfano e, sem oferta, de tiotepa e defibrotida); pela RDC nº 81/2008, o paciente pode importar, com receita, para uso próprio.

Compra judicial: quando o tratamento é pedido na Justiça

Registro sem comercialização não é falta de registro: no tiotepa e na defibrotida, o pedido judicial é de custeio. No treossulfano, sem registro, o Tema 500 do STF só admite fornecimento judicial, em ação contra a União, com mora irrazoável da ANVISA, pedido de registro no Brasil (salvo órfãos), registro em agência estrangeira renomada e falta de substituto registrado (há o bussulfano com fludarabina); pelo Tema 990 do STJ, o plano não é obrigado a fornecê-lo. Cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Como a Medicsupply conduz a importação

Vale só para quando não houver oferta do Dipate (tiotepa) ou do Defitelio (defibrotida) no Brasil, e para o treossulfano, sem registro. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; o tiotepa exige cadeia fria, de 2 a 8 °C.

Perguntas Frequentes

O condicionamento é igual à quimioterapia comum?

Não: as doses são muito maiores, concentradas antes do transplante, e, no mieloablativo, a medula só se recupera com as células-tronco.

O tiotepa e o treossulfano precisam ser importados?

O tiotepa tem registro ativo (Dipate), mas sem comercialização em 2025; havendo oferta, o hospital compra no país. O treossulfano não tem registro ativo e é importado pela unidade de saúde ou em nome do paciente.

O condicionamento causa infertilidade?

Pode, de forma temporária ou definitiva; a bula americana do tiotepa manda informar os homens sobre a conservação de sêmen antes do início.

O plano de saúde cobre o transplante de medula?

Sim, nos planos com cobertura hospitalar, nas doenças das diretrizes nº 70 e nº 71 do Rol, até 75 anos, com os medicamentos da internação.

Conclusão

O condicionamento prepara o transplante: no autólogo, é a arma contra a doença; no alogênico, também abre caminho ao enxerto. Mais intensidade troca recaída por toxicidade. No Brasil, a maioria é registrada e comprada pelo hospital; o treossulfano, sem registro, e o tiotepa e a defibrotida, sem comercialização em 2025, podem exigir importação. A decisão é da equipe de transplante.

Fontes

  1. Bacigalupo A et al., Biol Blood Marrow Transplant, 2009;15(12):1628-1633. PMID 19896087.
  2. Scott BL et al., J Clin Oncol, 2017;35(11):1154-1161. PMID 28380315 (BMT CTN 0901; ClinicalTrials.gov NCT01339910).
  3. Beelen DW et al., Lancet Haematol, 2020;7(1):e28-e39. PMID 31606445 (MC-FludT.14/L; ClinicalTrials.gov NCT00822393).
  4. Peters C et al., J Clin Oncol, 2021;39(4):295-307. PMID 33332189 (FORUM; ClinicalTrials.gov NCT01949129).
  5. Mills W et al., J Clin Oncol, 1995;13(3):588-595. PMID 7884420 (BEAM).
  6. FDA — bulas vigentes (DailyMed): Busulfex, NDA 020954, Otsuka, versão 33, de 14/10/2026; Grafapex, NDA 214759, Medexus, aprovado em 21/01/2025; Tepadina, NDA 208264, Adienne, versão 30, de 30/01/2026; Evomela, NDA 207155, Acrotech, versão 8, de 15/09/2026.
  7. FDA — bulas vigentes (DailyMed): Defitelio, NDA 208114, Jazz, versão 8, de 01/07/2025; carmustina (ANDA 210179), fosfato de fludarabina (ANDA 220196) e Thymoglobulin (BLA 103869).
  8. EMA — EPARs: Trecondi (EMEA/H/C/004751, medac), Tepadina (EMEA/H/C/001046), Phelinun (EMEA/H/C/005173), Busilvex (EMEA/H/C/000472, retirado em 09/01/2023) e Defitelio (EMEA/H/C/002393).
  9. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026; RDC nº 1.036/2026 (Portaria 344/1998); RDC nº 488/2021; RDC nº 81/2008.
  10. Ministério da Saúde — Portaria de Consolidação nº 4/2017, Anexo I; Portaria GM/MS nº 8.041/2025, com vigência adiada pela nº 12.244/2026; elenco do AF-Onco (Portaria GM/MS nº 8.477/2025), atualizado em 02/09/2026.
  11. ANS — Rol (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026): art. 19, IV, e diretrizes nº 70 e nº 71.

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

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