Trisenox (trióxido de arsênio): antineoplásico para a leucemia promielocítica aguda, com tretinoína na primeira linha e sozinho na recaída

Resumo rápido

  • O Trisenox (trióxido de arsênio) é um antineoplásico de infusão venosa que lesa ou degrada a proteína PML-RARα, marca da leucemia promielocítica aguda (LPA); tem registro ativo na ANVISA (1.5573.0037, Teva), com restrição hospitalar.
  • Com a tretinoína, trata a LPA recém-diagnosticada de risco baixo (EUA) ou baixo a intermediário (União Europeia e Brasil); sozinho, a recaída ou refratariedade após retinoide e quimioterapia. O alto risco não está nas bulas.
  • No APL0406, a sobrevida livre de eventos em 50 meses foi de 97,3% contra 80% com tretinoína e quimioterapia, e a sobrevida global, de 99,2% contra 92,6%.
  • A bula americana tem advertência em destaque (tarja) para síndrome de diferenciação, alterações da condução cardíaca e encefalopatia, inclusive a de Wernicke; o uso exige eletrocardiograma e controle de potássio e magnésio.
  • O SUS o incorporou em 2025 na primeira linha de risco baixo a intermediário, e ele consta do AF-Onco; nos planos, entra como quimioterapia sistêmica. A oferta é nacional.

O que é Trisenox (trióxido de arsênio)?

Trisenox é o nome comercial do trióxido de arsênio, concentrado para infusão venosa, com a mesma marca nos EUA, na União Europeia e no Brasil. A FDA o aprovou em 25/09/2000 (NDA 021248, hoje da Cephalon, com rótulo da Teva), e a União Europeia, em 05/03/2002 (hoje, Teva B.V.). Nos EUA, o Trisenox só tem hoje a concentração de 2 mg/mL. Há genéricos nos EUA e na União Europeia (como Accord e medac); no Brasil, o Trisenox é o único registro ativo.

A leucemia promielocítica aguda

Segundo a Conitec, a LPA é uma forma rara e distinta de leucemia mieloide aguda (LMA), com alto risco de sangramento grave no início: é uma urgência médica. Responde por 5% a 30% das LMA, mais entre latino-americanos (de 20% a 30%); estudos brasileiros apontam de 13,2% a 28,2%. É mais comum entre 20 e 59 anos e rara na infância. Caracteriza-se pela translocação t(15;17) e/ou pelo gene de fusão PML-RARα; a contagem inicial de leucócitos é o principal fator prognóstico, e até 10 mil por microlitro define o risco baixo a intermediário.

Mecanismo de ação

O mecanismo não é totalmente conhecido: em células de LPA em laboratório, o trióxido de arsênio provoca alterações típicas de apoptose, como a fragmentação do DNA, e lesa ou degrada a proteína PML-RARα. Em solução, forma o ácido arsenioso (AsIII), a espécie ativa, metilada no fígado por enzimas de fora do citocromo P450 em metabólitos menos citotóxicos; a meia-vida do AsIII é de 10 a 14 horas. A tretinoína (ácido transretinoico, ATRA), associada na primeira linha, induz a maturação das células leucêmicas, num esquema sem antraciclina.

Indicações

Estados Unidos (FDA)

Pelo rótulo vigente (DailyMed, versão 21, de 24/09/2026), sempre com t(15;17) ou expressão do PML-RARα: com a tretinoína, em adultos com LPA recém-diagnosticada de baixo risco, desde 12/01/2018 (suplemento S-015); e, sozinho, para indução de remissão e consolidação na LPA refratária ou recidivada após retinoide e quimioterapia com antraciclina. Na recaída, o uso infantil se apoia em 5 pacientes de 5 a 16 anos; com a tretinoína, não foi estabelecido em crianças.

União Europeia (EMA)

Pelo resumo das características do medicamento (RCM), indução de remissão e consolidação em adultos com LPA recém-diagnosticada de risco baixo a intermediário (leucócitos até 10 × 10³/µL), com a tretinoína, ou recidivada ou refratária após retinoide e quimioterapia, com t(15;17) e/ou PML-RARα. Abaixo de 18 anos, segurança e eficácia não foram estabelecidas.

Brasil (ANVISA)

Segundo o relatório da Conitec de setembro de 2025, a bula brasileira traz as mesmas duas indicações europeias, só para adultos.

Evidências clínicas

APL0406: primeira linha de risco baixo a intermediário

O APL0406 (NCT00482833), ítalo-alemão, de fase 3, aberto e de não inferioridade, sorteou adultos de 18 a 71 anos com até 10 mil leucócitos por microlitro para tretinoína com trióxido de arsênio ou tretinoína com idarrubicina, seguida de consolidação com quimioterapia e até 2 anos de manutenção. Na primeira análise (156 pacientes), a sobrevida livre de eventos em 2 anos foi de 97% contra 86% (IC 95% da diferença de 2 a 22 pontos; p<0,001 para não inferioridade e p=0,02 para superioridade); na análise da FDA, de 94% contra 82%.

Análise final (276 pacientes; seguimento mediano de 40,6 meses) Com arsênio Com quimioterapia
Sobrevida livre de eventos em 50 meses 97,3% 80% (p<0,001)
Recaída acumulada em 50 meses 1,9% 13,9% (p=0,0013)
Sobrevida global em 50 meses 99,2% 92,6% (p=0,0073)

AML17 e APOLLO: o alto risco

O AML17 (ISRCTN55675535), de fase 3, no Reino Unido, sorteou 235 pacientes a partir de 16 anos, 57 de alto risco, para tretinoína com trióxido de arsênio, em dose maior e menos frequente, ou com idarrubicina: a qualidade de vida, desfecho principal, não diferiu (p=0,39), houve toxicidade de grau 3 ou 4 em 40 contra 57 pacientes e, segundo os autores, menos recaídas, com sobrevida semelhante. No APOLLO (NCT02688140), de fase 3, 133 adultos de alto risco receberam tretinoína com trióxido de arsênio e duas doses de idarrubicina, ou tretinoína com quimioterapia; encerrado antes do previsto, mostrou sobrevida livre de eventos em 2 anos de 88% contra 71% (razão de risco 0,4; IC 95% 0,17 a 0,92; p=0,02), recaída molecular em 1,5% contra 12,3% e eventos adversos graves em 32% contra 68%.

Recaída e refratariedade

No estudo multicêntrico americano que embasa a indicação na recaída (PLRXAS01), 40 pacientes já tratados com antraciclina e retinoide receberam 0,15 mg/kg/dia por até 60 doses: a publicação relata remissão completa em 85% e sobrevida em 18 meses de 66%; pelo critério da FDA, que exige medula confirmada ao menos 30 dias depois, a remissão foi de 70%.

Posologia e administração

Pelos rótulos da FDA e europeu, o uso é só por infusão venosa, de 2 horas nos EUA e de 1 a 2 horas na Europa, prolongável até 4 horas se houver reação vasomotora; o RCM exige internação no início. A dose é de 0,15 mg/kg/dia:

  • Primeira linha (FDA): indução diária com tretinoína 22,5 mg/m² duas vezes ao dia até a remissão da medula, por no máximo 60 dias; depois, quatro ciclos de 8 semanas, com o arsênio 5 dias por semana nas semanas 1 a 4 e a tretinoína nas semanas 1, 2, 5 e 6 (no quarto ciclo, só nas semanas 1 e 2). Recomenda-se prednisona 0,5 mg/kg/dia na indução, para prevenir a síndrome de diferenciação.
  • Recaída: indução até a remissão (máximo de 60 dias nos EUA; na Europa, parar se não houver remissão até o dia 50) e consolidação de 25 doses em até 5 semanas, iniciada 3 a 6 semanas depois (3 a 4 na Europa).
  • Ajustes (FDA): QTc acima de 450 ms em homens ou 460 ms em mulheres, bilirrubina acima de 3 vezes o limite ou AST ou fosfatase alcalina acima de 5 vezes pedem pausa e retomada com metade da dose; leucócitos acima de 10 mil por microlitro, hidroxiureia.

Preparo e as duas concentrações

Dilui-se na hora em 100 a 250 mL de glicose a 5% ou cloreto de sódio a 0,9%, sem misturar outros medicamentos; é medicamento perigoso, de manuseio especial. No Brasil, a Lista CMED traz as concentrações de 1 mg/mL (ampola de 10 mL, com 10 mg) e 2 mg/mL (frasco de 6 mL, com 12 mg); em 2019, a EMA alertou para o risco de erro de dose quando as duas convivem e pediu conferir a concentração antes de calcular o volume.

Segurança

A bula americana tem advertência em destaque (tarja) para três riscos: síndrome de diferenciação, que pode ser fatal; alterações da condução cardíaca, com QT longo, bloqueio atrioventricular total e torsades de pointes; e encefalopatia grave, inclusive a de Wernicke. A contraindicação é a hipersensibilidade ao arsênio ou, no RCM, aos excipientes.

Advertências

  • Síndrome de diferenciação: em 16% a 23% dos tratados, do 1º dia ao 2º mês: febre, falta de ar, infiltrado pulmonar, derrames, ganho de peso, pressão baixa e falência de órgãos. Na suspeita, suspender o arsênio e dar dexametasona 10 mg na veia a cada 12 horas por pelo menos 3 dias.
  • Coração: QTc acima de 500 ms em 40% na recaída. Antes, eletrocardiograma e correção de eletrólitos (o RCM inclui o cálcio); não usar com arritmia ventricular ou QT longo. Manter potássio acima de 4 mEq/L e magnésio acima de 1,8 mg/dL, com eletrocardiograma semanal (FDA) ou duas vezes por semana (EMA).
  • Encefalopatia: confusão, convulsões e alterações visuais; com risco de falta de tiamina (álcool, má absorção, desnutrição, furosemida), considerar dosar a tiamina e dá-la na veia; na suspeita de Wernicke, interromper o arsênio e dar tiamina.
  • Fígado: alterações em 44% na primeira linha (FDA), revertidas com pausa; numa série publicada, esteatose em 43% após mediana de 7 anos.
  • Câncer: o arsênio é carcinógeno humano; vigiar segundos tumores.

No APL0406 (rótulo da FDA), morreram por evento adverso 1% contra 6% com quimioterapia; na indução, a plaquetopenia prolongada foi menos comum (58% contra 88%), e a toxicidade hepática grave, mais (40% contra 3%).

Interações, gravidez e amamentação

Evitar remédios que alongam o QT, como antiarrítmicos, alguns antipsicóticos, macrolídeos e quinolonas, e os que alteram eletrólitos, como diuréticos e anfotericina B; hepatotóxicos pedem cautela, e o arsênio não inibe o citocromo P450. Pode causar dano fetal: teste de gravidez antes e contracepção eficaz durante o uso e por 6 meses depois, nas mulheres, e por 3 meses, nos homens. Não amamentar durante o tratamento e por 2 semanas depois.

Como funciona o acesso no Brasil

O Trisenox tem registro ativo na ANVISA (1.5573.0037, Teva Farmacêutica Ltda., vencimento em 05/2029, medicamento de referência; dados abertos de 13/10/2026); o anterior, da Adium (1.2214.0078), está inativo. Na Lista CMED de 09/10/2026, as duas apresentações têm restrição hospitalar e constam como comercializadas em 2025. O trióxido de arsênio não está na Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026); a tretinoína oral, que o acompanha, está na Lista C2 (retinoides) e tem registro ativo como Vesanoid (1.8977.0012, Biopas). A compra é nacional, em geral pelo hospital; a questão é quem paga.

No SUS

Em 2014, o SUS recusou o uso após falha da tretinoína com quimioterapia (Portaria SCTIE/MS nº 46/2014). Em 2025, por recomendação unânime da Conitec (Relatório nº 1038), a Portaria SECTICS/MS nº 80, de 07/10/2025, incorporou o trióxido de arsênio na primeira linha da LPA de risco baixo a intermediário, com 180 dias para a oferta; até então, o SUS oferecia tretinoína com quimioterapia, como nas Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do adulto, de 2014. No elenco do AF-Onco de 02/09/2026, a apresentação de 2 mg/mL tem aquisição por ata de negociação nacional e consta também das listas de altíssimo custo e de autorização prévia; a tretinoína, com compra descentralizada. O acesso é pelos hospitais habilitados em oncologia (CACON ou UNACON), sem custo ao paciente.

Nos planos de saúde

A quimioterapia sistêmica consta do Rol da ANS (RN nº 465/2021, atualizada pela RN nº 681/2026) para planos ambulatoriais e hospitalares, e a diretriz da terapia antineoplásica oral (DUT 64) inclui a tretinoína na indução da LPA. Na internação, fase da indução, os medicamentos ministrados têm cobertura no plano hospitalar (Lei nº 9.656/1998, art. 12, II, “d”).

Quando a cobertura é negada

A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação. A incorporação ao SUS não abrange a recaída nem o alto risco: nesses casos, os pedidos judiciais seguem os Temas 6 e 1.234 do STF; nos planos, fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos da ADI 7265 (18/09/2025). Ajudam a negativa por escrito e o relatório médico; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

Preciso importar o Trisenox?

Não. Tem registro ativo, as duas concentrações constam como comercializadas em 2025, e o SUS o incorporou na primeira linha; com restrição hospitalar, a compra costuma ser do hospital.

O SUS fornece o trióxido de arsênio?

Sim. Foi incorporado em 2025 para adultos com LPA de risco baixo a intermediário, na primeira linha, e consta do AF-Onco; o uso na recaída não foi incorporado.

Existe trióxido de arsênio em cápsula?

Não há forma oral aprovada pela FDA ou pela EMA, que só autorizam produtos injetáveis. Uma cápsula está em fase 3 na LPA de baixo risco (NCT07504458), e outro estudo de fase 3 prevê comparar a forma oral com a venosa (NCT07296445).

Serve para a LPA de alto risco?

A indicação não consta das bulas americana, europeia e brasileira; o APOLLO, de 2025, mostrou nesse grupo mais sobrevida livre de eventos que a quimioterapia, e o AML17 incluiu pacientes de alto risco. A decisão é da equipe de hematologia.

Conclusão

O trióxido de arsênio lesa ou degrada a proteína PML-RARα e, com a tretinoína, é indicado na primeira linha da LPA de risco baixo a intermediário, em que superou a quimioterapia no APL0406, com menos toxicidade no sangue e mais no fígado. Exige vigilância do QT, dos eletrólitos e da síndrome de diferenciação. No Brasil, é registrado, tem restrição hospitalar e está no SUS na primeira linha; negativas são questão de custeio.

Fontes

  1. FDA — Trisenox (trióxido de arsênio), bula vigente: NDA 021248, Cephalon, LLC (Teva); DailyMed, versão 21, de 24/09/2026.
  2. FDA — Drugs@FDA: NDA 021248, aprovação em 25/09/2000 (Cell Therapeutics) e suplemento S-015 (nova indicação, 12/01/2018); ANDAs de trióxido de arsênio injetável.
  3. EMA — Trisenox, EPAR, EMEA/H/C/000388 (Teva B.V.): RCM atualizado em 30/01/2026 (revisão 33) e alerta EMA/189409/2019, de 13/12/2019; Accord (EMEA/H/C/005175) e medac (EMEA/H/C/005218).
  4. Lo-Coco F et al., N Engl J Med, 2013;369(2):111-121. PMID 23841729 (APL0406; ClinicalTrials.gov NCT00482833).
  5. Platzbecker U et al., J Clin Oncol, 2017;35(6):605-612. PMID 27400939 (APL0406, análise final; ClinicalTrials.gov NCT00482833).
  6. Burnett AK et al., Lancet Oncol, 2015;16(13):1295-1305. PMID 26384238 (AML17; ISRCTN55675535).
  7. Platzbecker U et al., J Clin Oncol, 2025;43(29):3160-3169. PMID 40825164 (APOLLO; ClinicalTrials.gov NCT02688140).
  8. Soignet SL et al., J Clin Oncol, 2001;19(18):3852-3860. PMID 11559723 (estudo multicêntrico americano na recaída).
  9. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Trisenox 1.5573.0037 e 1.2214.0078; Vesanoid 1.8977.0012; RDC nº 999/2025 e RDC nº 1.036/2026 (Portaria 344/1998).
  10. Conitec — Relatório de Recomendação nº 1038 (setembro de 2025) e Portaria SECTICS/MS nº 80, de 07/10/2025; Relatório nº 129 e Portaria SCTIE/MS nº 46, de 16/12/2014.
  11. Ministério da Saúde — Elenco do AF-Onco (Portaria GM/MS nº 8.477/2025) de 02/09/2026; Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do adulto (Portaria SAS/MS nº 834/2014).
  12. ANS — Rol (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026): quimioterapia sistêmica e DUT 64; Lei nº 9.656/1998, art. 12, II, “d”.
  13. ClinicalTrials.gov — NCT07504458 (QTX-2101) e NCT07296445 (LATITUDE), fase 3, trióxido de arsênio oral.

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