Quinina: antimalárico alcaloide da cinchona para a malária não complicada por Plasmodium falciparum

Resumo rápido

  • A quinina é um alcaloide da cinchona; nos EUA, cápsulas de 324 mg são indicadas só para a malária não complicada por Plasmodium falciparum, a partir de 16 anos: 648 mg a cada 8 horas, por 7 dias.
  • A bula americana tem advertência em destaque (boxed warning): usada para cãibras noturnas nas pernas, pode causar reações hematológicas graves e com risco de vida, como trombocitopenia e SHU/PTT.
  • Na malária grave, o artesunato injetável reduziu a mortalidade frente à quinina: 15% contra 22% no SEAQUAMAT e 8,5% contra 10,9% no AQUAMAT.
  • A quinina saiu do SUS em 12/2021 (Portaria SCTIE/MS nº 80) e não consta do guia brasileiro de 2026, que usa combinações com artemisinina e artesunato.
  • O único registro ativo na ANVISA é o dos comprimidos de 500 mg do Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (1.1208.0038), sem comercialização em 2025.

O que é a quinina?

A quinina, também chamada de quinino, é um alcaloide da cinchona usado há centenas de anos contra a malária; no Brasil, o SUS usava o sulfato de quinina, em comprimido, e o dicloridrato de quinina, injetável. Nos EUA, a referência era o Qualaquin, cápsulas de 324 mg aprovadas em 12/08/2005 (NDA 021799); a marca, hoje da Sun Pharmaceutical Industries, foi descontinuada, segundo a FDA sem relação com segurança ou eficácia, e seguem no mercado cápsulas genéricas. No país, a marca Quinin (Farmoquímica) e o bicloridrato de quinino (Halex Istar) têm registro inativo há mais de 20 anos.

A malária por Plasmodium falciparum

A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada de fêmeas do mosquito Anopheles; no Brasil, cerca de 99% da transmissão ocorre na região amazônica. O P. falciparum é a espécie mais grave e letal: incuba de 8 a 12 dias e causa crises de calafrio, febre e suor, com dor de cabeça, dores musculares, náusea e vômitos. O tratamento depende de confirmação por gota espessa ou teste rápido; gestantes e crianças correm mais risco, e a malária grave é emergência médica.

Mecanismo de ação

O mecanismo não é totalmente conhecido: pelo rótulo americano, a quinina inibe a síntese de ácidos nucleicos e de proteínas e a glicólise do P. falciparum e pode se ligar à hemozoína nas hemácias parasitadas. Age sobretudo no esquizonte sanguíneo, a fase dos sintomas; não elimina os gametócitos, formas que infectam o mosquito, e pouco age nas formas do fígado. Há resistência clínica em partes da América do Sul, do Sudeste Asiático e de Bangladesh. Como a quinidina, tem ação antiarrítmica de classe I e prolonga QT, PR e QRS; também estimula a liberação de insulina e tem atividade bloqueadora neuromuscular.

Indicações

Estados Unidos (FDA)

Pelo rótulo de referência (Qualaquin, revisão de 06/2019) e pelas bulas dos genéricos, a quinina é indicada só na malária não complicada por P. falciparum, inclusive onde há resistência documentada à cloroquina. Não é aprovada para a malária grave ou complicada, a prevenção da malária nem as cãibras noturnas nas pernas; abaixo de 16 anos, segurança e eficácia não foram estabelecidas.

União Europeia

Não há autorização centralizada pela EMA. Pela base de dados do artigo 57 (09/10/2026), há registros nacionais de quinina oral em países como Alemanha, Itália e Países Baixos, e injetável na França, na Itália e em Portugal. Para a malária grave, a autorização centralizada é a do artesunato (Artesunate Amivas, EMEA/H/C/005550), no tratamento inicial de adultos e crianças.

Brasil

A quinina não consta de nenhum esquema do Guia de tratamento da malária no Brasil, 3ª edição (2026). A malária não complicada por P. falciparum é tratada com artesunato e mefloquina, primeira opção, ou arteméter e lumefantrina, inclusive no primeiro trimestre da gestação; a grave, com artesunato intravenoso ou intramuscular. No guia de 2010, a quinina com clindamicina era o esquema do primeiro trimestre e de bebês com menos de 6 meses, além de opção injetável na malária grave; o guia de 2020 a retirou.

Evidências clínicas

Malária não complicada: a base do rótulo americano

O rótulo americano resume a literatura: 21 estudos randomizados com controle ativo, com mais de 2.900 pacientes de áreas endêmicas, mais de 1.400 deles tratados com quinina oral. Onde a multirresistência do P. falciparum aumentava, como no Sudeste Asiático, 7 dias de quinina sozinha eliminaram o parasita, sem recrudescência até o 28º dia, em ao menos 80%, e em mais de 90% com tetraciclina ou clindamicina; com menos resistência, em 86% a 100%. Esquemas combinados de 3 dias têm dados limitados e podem ser menos eficazes.

Malária grave: artesunato contra quinina

Dois estudos abertos e randomizados compararam artesunato e quinina injetáveis:

Estudo Pacientes Mortalidade: artesunato × quinina
SEAQUAMAT (2005) 1.461 internados em Bangladesh, Índia, Indonésia e Mianmar 15% (107 de 730) × 22% (164 de 731); redução de 34,7% no risco de morte (IC 95% 18,5% a 47,6%)
AQUAMAT (2010) 5.425 crianças com menos de 15 anos, em 9 países africanos 8,5% (230 de 2.712) × 10,9% (297 de 2.713); razão de chances 0,75 (IC 95% 0,63 a 0,90)

A quinina teve mais hipoglicemia nos dois estudos. Numa revisão Cochrane de 2012, com oito estudos e 7.429 pacientes, o artesunato reduziu o risco de morte em adultos (risco relativo 0,61; IC 95% 0,50 a 0,75) e em crianças (0,76; IC 95% 0,65 a 0,90).

Posologia e administração

Pelo rótulo americano, o uso é oral:

  • Adultos (16 anos ou mais): 648 mg (duas cápsulas de 324 mg) a cada 8 horas, por 7 dias, com alimento, para poupar o estômago.
  • Rins: na insuficiência renal crônica grave, 648 mg de ataque e, 12 horas depois, 324 mg a cada 12 horas.
  • Fígado: sem ajuste em Child-Pugh A e B, com vigilância; não usar em Child-Pugh C.
  • Dose esquecida: não dobrar; se passaram mais de 4 horas, esperar o próximo horário.

O comprimido registrado no Brasil é de 500 mg de sulfato de quinina, e a dose cabe ao médico.

Segurança

A bula americana tem advertência em destaque (boxed warning): usada para tratar ou prevenir cãibras noturnas nas pernas, a quinina pode causar reações hematológicas graves e com risco de vida, como trombocitopenia e síndrome hemolítico-urêmica ou púrpura trombocitopênica trombótica (SHU/PTT); sem evidência de eficácia para esse fim, o risco supera qualquer benefício. É contraindicada com QT prolongado; hipersensibilidade prévia à quinina, inclusive trombocitopenia, SHU/PTT e febre hemoglobinúrica, ou à mefloquina ou à quinidina; miastenia gravis; e neurite óptica. A deficiência de G6PD saiu dessa lista em 06/2019 (uma bula de genérico ainda a traz); ficou a advertência de anemia hemolítica, com controle da hemoglobina.

Advertências

  • Plaquetas: a trombocitopenia é imunológica e pode ser fatal; regride em geral em uma semana após suspender, e nova exposição à quinina, de qualquer fonte, pode causar episódio mais rápido e grave.
  • Coração: em voluntários, 7 dias de 648 mg três vezes ao dia alongaram o QT corrigido em até 27,7 ms, em média, frente ao placebo; raramente, torsades de pointes e fibrilação ventricular.
  • Glicose: pode causar hipoglicemia importante, sobretudo em gestantes.
  • Cinchonismo: em algum grau, em quase todos: zumbido, perda auditiva, vertigem, dor de cabeça, náusea e visão turva; nas formas graves, surdez e cegueira, em geral reversíveis.
  • Superdose: houve mortes com 2 a 8 g em adultos, e pode haver cegueira permanente.

Interações, gravidez e amamentação

Devem ser evitados: antiarrítmicos das classes IA e III, eritromicina, mefloquina e halofantrina (arritmias; com mefloquina, também convulsões), rifampicina (exposição 75% menor na malária e risco de falha), ritonavir (exposição quatro vezes maior), antiácidos com alumínio ou magnésio e bloqueadores neuromusculares. Pedem vigilância digoxina, varfarina, estatinas como a atorvastatina, carbamazepina e fenobarbital. A bula americana relata décadas de uso na gravidez sem risco identificado de malformações maiores ou aborto, e manda controlar a glicose da gestante; pelo leite, o bebê recebe menos de 0,4% da dose materna.

Situação regulatória e como funciona o acesso

Nos dados abertos da ANVISA de 13/10/2026, o único registro ativo de quinina é o LQFEX – Sulfato de quinina (1.1208.0038, Laboratório Químico Farmacêutico do Exército, vencimento em 02/2035). Na Lista CMED de 09/10/2026, a caixa com 500 comprimidos de 500 mg consta sem comercialização em 2025. Os demais registros, inclusive os de dicloridrato, o sal injetável, estão inativos: não há quinina injetável registrada. A quinina não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026).

No SUS

O tratamento da malária é gratuito: os antimaláricos são comprados pelo Ministério da Saúde e distribuídos aos estados, não são vendidos em farmácias privadas e exigem diagnóstico confirmado. A Portaria SCTIE/MS nº 80, de 29/12/2021, excluiu do SUS o sulfato de quinina 500 mg e o dicloridrato de quinina injetável para a malária, após o Relatório nº 696 da Conitec: o programa não os distribuía havia três anos. A Rename 2024 traz, para a malária, arteméter com lumefantrina, artesunato com mefloquina, artesunato injetável, cloroquina, primaquina e tafenoquina.

Planos de saúde e pedidos judiciais

A Lei nº 9.656/1998 exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais (art. 10, VI), e cobre os ministrados na internação (art. 12, II, “d”). Registrado o comprimido, a quinina oral é questão de custeio, não de importação: pedidos judiciais no SUS seguem os Temas 6 e 1.234 do STF. Cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Sem comercialização em 2025

Sem oferta nacional, se o médico optar pela quinina, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada a partir dos EUA ou da Europa; o guia admite outros esquemas, a critério médico, sobretudo em casos graves. A importação não substitui o atendimento imediato: na malária grave, quanto antes começa o tratamento, maior a chance de recuperação. Também não é caminho para cãibras. Em pedido judicial, é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Vale só para quando não houver oferta da quinina no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; sem cadeia fria, pois a conservação é em temperatura ambiente.

Perguntas Frequentes

A quinina tem registro na ANVISA?

Sim: os comprimidos de 500 mg do LQFEx (1.1208.0038), válidos até 02/2035, sem comercialização em 2025. Não há quinina injetável registrada, e a marca Quinin está inativa.

O SUS fornece quinina para malária?

Não: saiu do SUS em 12/2021 e não era distribuída havia três anos. O SUS trata a malária por P. falciparum de graça com combinações de derivados de artemisinina e, na forma grave, com artesunato injetável.

A quinina serve para cãibras nas pernas?

Não é indicada: a FDA adverte que, sem evidência de eficácia, o risco de reações hematológicas graves, às vezes fatais, supera qualquer benefício.

Preciso importar a quinina?

Em regra, não: o SUS trata a malária de graça, e o tratamento não deve esperar. A importação com receita só entra se o médico optar pela quinina e não houver oferta nacional.

Conclusão

A quinina segue aprovada nos EUA só para a malária não complicada por P. falciparum, com advertência em destaque contra o uso em cãibras e cuidados com QT, plaquetas e glicose. Na malária grave, o artesunato reduziu a mortalidade frente a ela. No Brasil, tem um registro ativo sem comercialização em 2025, saiu do SUS em 2021 e não consta do guia de 2026; a importação depende de decisão médica e da falta de oferta nacional.

Fontes

  1. FDA — Qualaquin (sulfato de quinina), bula de referência: NDA 021799, Sun Pharmaceutical Industries, Inc.; revisão de 06/2019 (suplemento S-029).
  2. FDA — Drugs@FDA: NDA 021799, aprovação em 12/08/2005, marca descontinuada sem relação com segurança ou eficácia; genéricos ativos ANDA 091661, 203112, 203729 e 204372.
  3. FDA — Sulfato de quinina, cápsulas de 324 mg, bula vigente: ANDA 091661, Teva Pharmaceuticals USA, Inc.; DailyMed, versão 13, de 25/08/2025.
  4. EMA — Base de dados do artigo 57 (dados de 09/10/2026) e lista de medicamentos de autorização centralizada (30/10/2026): sem quinina; Artesunate Amivas, EMEA/H/C/005550.
  5. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: LQFEX – Sulfato de quinina 1.1208.0038, ativo, sem comercialização em 2025; Quinin 1.0390.0085 e Bicloridrato de quinino 1.0311.0015, inativos; RDC nº 1.036/2026.
  6. Ministério da Saúde — Guia de tratamento da malária no Brasil, 3ª edição, 2026 (ISBN 978-85-334-2942-0).
  7. Ministério da Saúde — Guia prático de tratamento da malária no Brasil, 2010 (ISBN 978-85-334-1725-0).
  8. Conitec — Relatório de Recomendação nº 696 (outubro de 2021) e Portaria SCTIE/MS nº 80, de 29/12/2021 (DOU de 30/12/2021).
  9. Ministério da Saúde — Rename 2024, 2ª edição (2025): componente estratégico e exclusões.
  10. Dondorp A et al., Lancet, 2005;366(9487):717-725. PMID 16125588 (SEAQUAMAT).
  11. Dondorp AM et al., Lancet, 2010;376(9753):1647-1657. PMID 21062666 (AQUAMAT; registro ISRCTN50258054).
  12. Sinclair D et al., Cochrane Database Syst Rev, 2012;(6):CD005967. PMID 22696354.
  13. Brasil — Lei nº 9.656/1998, art. 10, VI, e art. 12, II, “d”.

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

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