Resumo rápido
- O Ibrance (palbociclibe) é um inibidor oral de CDK4/6 usado com terapia endócrina no câncer de mama avançado ou metastático com receptor hormonal positivo (HR+); tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0467, Pfizer Brasil), com cápsulas comercializadas.
- FDA, EMA e ANVISA o indicam no câncer HR+ e HER2-negativo, com inibidor da aromatase ou fulvestranto; nos EUA, também com inavolisibe e fulvestranto (desde 04/2025) e, desde 24/06/2026, no HER2-positivo, uso já na bula brasileira e cujo pedido europeu foi retirado.
- A sobrevida livre de progressão mediana foi de 24,8 contra 14,5 meses no PALOMA-2 e de 9,5 contra 4,6 meses no PALOMA-3, sem diferença significativa de sobrevida global.
- A bula americana não tem advertência em destaque (boxed warning); neutropenia de grau 3 ou mais atingiu 66% nos estudos PALOMA-2 e PALOMA-3, e há risco de pneumonite e de dano ao feto.
- Incorporado ao SUS em 2021 e incluído no Rol da ANS como antineoplásico oral: negativas são questão de custeio.
O que é Ibrance (palbociclibe)?
Ibrance é o nome comercial do palbociclibe, da Pfizer, com a mesma marca nos EUA, na União Europeia e no Brasil. A FDA aprovou as cápsulas em 03/02/2015, de forma acelerada (NDA 207103), e os comprimidos revestidos em 01/11/2019 (NDA 212436), ambos de 75, 100 e 125 mg; a União Europeia o autorizou em 09/11/2016. No Brasil, registrado desde 02/2018, é o medicamento de referência (1.2110.0467, Pfizer Brasil Ltda.). O palbociclibe também tem registro no Brasil como Agatha, Cydikriz e Sedecib, e a Pfizer o registrou na Turquia como Reampla.
O câncer de mama com receptor hormonal positivo
Pelas estimativas do INCA citadas no protocolo do SUS atualizado em 10/2026, o Brasil terá 78.610 casos novos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028, 30,0% dos cânceres em mulheres; cerca de 1% ocorre em homens. O tipo HR+, com receptor de estrogênio ou de progesterona em ao menos 1% das células tumorais, é o mais comum: cerca de 75% dos casos, segundo a Conitec.
Mecanismo de ação
A ciclina D1 e as quinases CDK4 e CDK6 ficam no fim de vias de sinalização que levam à proliferação celular; segundo a EMA, a atividade aumentada de CDK4 e CDK6 ajuda as células tumorais a se multiplicar. O palbociclibe inibe as duas e, em células de câncer de mama com receptor de estrogênio, bloqueia a passagem da fase G1 para a S. Somado a um antiestrogênio, reduz a fosforilação da proteína do retinoblastoma (Rb) e a sinalização por E2F, com mais parada de crescimento e senescência do que cada um isolado (rótulo da FDA).
Indicações
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo revisado em 06/2026, em adultos com câncer de mama avançado ou metastático HR+ e HER2-negativo, com inibidor da aromatase como terapia endócrina inicial ou com fulvestranto após progressão com terapia endócrina (homens desde 04/2019; pré e perimenopausa com inibidor da aromatase e agonista de LHRH desde 12/2022). Desde 23/04/2025, também com inavolisibe e fulvestranto na doença com mutação de PIK3CA, resistente à terapia endócrina, que voltou durante ou após a terapia endócrina adjuvante. Desde 24/06/2026 (suplemento S-024), com trastuzumabe, com ou sem pertuzumabe, e terapia endócrina, na manutenção do câncer HR+ e HER2-positivo localmente avançado ou metastático após a indução. Em crianças, segurança e eficácia não foram estabelecidas.
União Europeia (EMA)
Pelo resumo europeu (07/03/2025), no câncer HR+ e HER2-negativo localmente avançado ou metastático, com inibidor da aromatase ou com fulvestranto em mulheres já tratadas com terapia endócrina, associando agonista de LHRH na pré ou perimenopausa. Em 15/09/2026, a Pfizer retirou o pedido para o uso HER2-positivo: a avaliação provisória era desfavorável, porque o estudo era aberto e dependia da avaliação dos investigadores, e a revisão independente das imagens não confirmou melhora clara.
Brasil (ANVISA)
Pela bula aprovada em 19/10/2026, no câncer avançado ou metastático HR+ e HER2-negativo, com inibidor da aromatase de terceira geração (anastrozol, letrozol ou exemestano) como terapia endócrina inicial em mulheres na pós-menopausa, ou com fulvestranto em mulheres com terapia prévia; na pré ou perimenopausa, a supressão ovariana é mandatória com o inibidor da aromatase. A mesma bula inclui o HER2-positivo, em adultos, na manutenção após a indução, com terapias anti-HER2 e endócrinas; o inavolisibe (Itovebi, Roche), registrado em 03/2026, não consta dela nem da Lista CMED.
Evidências clínicas
Nos quatro estudos, o desfecho principal foi a sobrevida livre de progressão (SLP) avaliada pelo investigador.
PALOMA-2: primeira linha com letrozol
O PALOMA-2 (NCT01740427), de fase 3 e duplo-cego, randomizou 666 mulheres na pós-menopausa, sem tratamento sistêmico para a doença avançada, para palbociclibe ou placebo com letrozol (2 para 1). A SLP mediana foi de 24,8 contra 14,5 meses (razão de risco 0,58; IC 95% 0,46 a 0,72; p<0,001). Com seguimento mediano de 90,1 meses, a sobrevida global mediana foi de 53,9 contra 51,2 meses (razão de risco 0,96; IC 95% 0,78 a 1,18), sem diferença significativa.
PALOMA-3: após terapia endócrina, com fulvestranto
O PALOMA-3 (NCT01942135), de fase 3 e duplo-cego, randomizou 521 mulheres com progressão durante ou após terapia endócrina, 80% na pós-menopausa e as demais com gosserrelina, para palbociclibe ou placebo com fulvestranto (2 para 1). A SLP mediana foi de 9,5 contra 4,6 meses (razão de risco 0,46; IC 95% 0,36 a 0,59; p<0,0001). Na análise final (rótulo da FDA), com seguimento mediano de 45 meses, a sobrevida global mediana foi de 34,9 contra 28,0 meses (razão de risco 0,81; IC 95% 0,64 a 1,03), sem significância pelo critério do estudo.
INAVO120 e PATINA: novas combinações
No INAVO120 (NCT04191499), duplo-cego, 325 adultos com mutação de PIK3CA, recidiva durante ou até 12 meses após a terapia endócrina adjuvante e glicemia controlada receberam palbociclibe e fulvestranto com inavolisibe ou placebo: SLP mediana de 15,0 contra 7,3 meses (razão de risco 0,43). O PATINA (NCT02947685), de fase 3 e aberto, incluiu 518 pacientes HR+ e HER2-positivos sem progressão após 4 a 8 ciclos de quimioterapia com anti-HER2; na manutenção com anti-HER2 e terapia endócrina, o palbociclibe levou a SLP mediana de 44,3 contra 29,1 meses (razão de risco 0,75; IC 95% 0,59 a 0,96; p=0,02), com eventos de grau 3 em 79,7% contra 30,6%, sobretudo neutropenia. A sobrevida global ainda não está madura.
Posologia e administração
Nas bulas americana, europeia e brasileira: 125 mg por via oral, uma vez ao dia, por 21 dias seguidos e 7 de pausa, em ciclos de 28 dias, enquanto houver benefício ou até toxicidade inaceitável (EMA). A cápsula é tomada com alimento; o comprimido (EUA e Europa; fora da Lista CMED), com ou sem alimento. Engolir inteiro, de preferência no mesmo horário; se houver vômito ou esquecimento, não repor a dose. Evitar toranja e seu suco.
- Combinações: fulvestranto de 500 mg por via intramuscular nos dias 1, 15 e 29 e depois mensal (bula brasileira); na pré ou perimenopausa, agonista de LHRH, que a FDA também manda considerar em homens.
- Reduções: de 125 para 100 e 75 mg ao dia; abaixo disso, suspender.
- Hemograma: antes de começar, no início de cada ciclo e no dia 15 dos dois primeiros; a cada 3 meses se a neutropenia não passar do grau 2 em seis ciclos. Grau 3 no início do ciclo pede pausa até o grau 2, na mesma dose; com febre, infecção ou grau 4, retoma-se na dose menor.
- Ajustes: 75 mg ao dia com inibidor forte do CYP3A inevitável ou insuficiência hepática grave (Child-Pugh C); no rim, sem ajuste com depuração acima de 15 mL/min.
Segurança
A bula americana não tem advertência em destaque (boxed warning) nem contraindicações; a europeia contraindica hipersensibilidade e erva-de-são-joão, e a brasileira, alergia ao palbociclibe e aleitamento. Com letrozol ou fulvestranto, as reações mais comuns (20% ou mais) incluem queda de leucócitos, neutrófilos, hemoglobina e plaquetas, infecções, alta de creatinina e de enzimas do fígado, cansaço, náusea, estomatite, diarreia e queda de cabelo.
Advertências
- Neutropenia: em 80% (PALOMA-2) e 83% (PALOMA-3), de grau 3 ou mais em 66%; neutropenia febril em 1,8% e uma morte por sepse neutropênica no PALOMA-3.
- Pulmão: doença pulmonar intersticial ou pneumonite em 1%, com mortes após a comercialização; suspender na suspeita e de vez se grave.
- Feto: teste de gravidez antes e contracepção durante o uso e por ao menos 3 semanas depois; homens com parceira fértil, por 3 meses (FDA). Pode reduzir a fertilidade masculina.
- Outros (EMA): tromboembolismo venoso e infecções graves.
Interações, gravidez e amamentação
O itraconazol aumentou a exposição ao palbociclibe em 87%, e a rifampicina a reduziu em 85%: evitam-se inibidores fortes do CYP3A (como claritromicina, cetoconazol e voriconazol) e indutores fortes (como fenitoína, carbamazepina e erva-de-são-joão). O palbociclibe elevou em 61% a exposição ao midazolam; substratos de margem estreita, como ciclosporina, tacrolimo e fentanil, podem exigir dose menor, e a EMA cita rabdomiólise, até fatal, com sinvastatina ou atorvastatina. Não há dados em gestantes, houve toxicidade em animais, e não se deve amamentar durante o uso nem por 3 semanas depois.
Como funciona o acesso no Brasil
O Ibrance tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0467, Pfizer Brasil Ltda., vencimento em 02/2028; dados abertos de 13/10/2026), e, na Lista CMED de 09/10/2026, as cápsulas de 75, 100 e 125 mg constam como comercializadas em 2025, sem restrição hospitalar. O registro dos comprimidos revestidos (1.2110.0502), de 09/03/2026, ainda não tem apresentação na lista; Agatha, Cydikriz, Sedecib e os genéricos da Dr. Reddy’s e da Cipla constam sem comercialização em 2025. O palbociclibe não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998. A compra é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
A Portaria SCTIE/MS nº 73, de 06/12/2021 (Relatório nº 678 da Conitec), incorporou a classe dos inibidores de CDK4/6 (abemaciclibe, palbociclibe e ribociclibe) no câncer de mama avançado ou metastático HR+ e HER2-negativo. O protocolo do câncer de mama (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 106, de 20/10/2026) prevê o inibidor de CDK4/6 com inibidor da aromatase na primeira linha, com fulvestranto se a doença voltar durante ou até 12 meses após o inibidor da aromatase adjuvante e na segunda linha, se ainda não usado; exige supressão ovariana na pré-menopausa, admite a troca entre os três inibidores e exclui o HER2-positivo. No elenco do AF-Onco (Portaria GM/MS nº 8.477/2025), atualizado em 02/09/2026, as cápsulas de palbociclibe são de aquisição descentralizada, pelos serviços habilitados em oncologia (CACON e UNACON).
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória o uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais, e o palbociclibe está na Diretriz de Utilização nº 64 do Rol da ANS (RN nº 465/2021, atualizada pela RN nº 681/2026), só no câncer avançado ou metastático HR+ e HER2-negativo, com inibidor da aromatase em mulheres na pós-menopausa ou com fulvestranto após terapia prévia. Fora disso, como no HER2-positivo, valem os cinco critérios cumulativos da ADI 7265 (STF, 18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou análise pendente na ANS, falta de alternativa no Rol, comprovação científica e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem os Temas 6 e 1.234 do STF. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com receptores, HER2, estado menopausal, linha e tratamentos prévios; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
Preciso importar o Ibrance?
Não: tem registro ativo, as cápsulas são comercializadas, e SUS e planos o cobrem nas indicações previstas; a dificuldade costuma ser o custeio.
Qual a diferença entre cápsula e comprimido?
Doses e esquema são iguais; a cápsula exige alimento, e o comprimido, não. No Brasil, só as cápsulas constam da Lista CMED.
O Ibrance serve para câncer HER2-positivo?
Sim, na manutenção após a indução, com base no PATINA: nos EUA, desde 24/06/2026, e no Brasil, pela bula de 19/10/2026. O pedido europeu foi retirado em 09/2026, e o protocolo do SUS e a diretriz da ANS tratam só do HER2-negativo.
O SUS fornece o palbociclibe?
Sim, nos hospitais habilitados em oncologia, para o câncer avançado ou metastático HR+ e HER2-negativo, conforme o protocolo.
Homens podem usar o Ibrance?
Nos EUA, sim, desde 04/2019. No Brasil, a bula inclui adultos no HER2-positivo; no HER2-negativo, ela e a diretriz da ANS falam em mulheres, e a cobertura pode ser discutida pelos critérios do STF.
Conclusão
O palbociclibe, inibidor oral de CDK4/6, prolongou com a terapia endócrina a sobrevida livre de progressão no câncer de mama avançado HR+ e HER2-negativo, sem ganho significativo de sobrevida global nos estudos PALOMA, e exige vigiar o hemograma e o pulmão. Nos EUA, ganhou a combinação com inavolisibe e, em 06/2026, o uso HER2-positivo, hoje também na bula brasileira e sem aval europeu. No Brasil, é registrado, comercializado em cápsulas e coberto pelo SUS e pelos planos: o acesso é questão de custeio.
Fontes
- FDA — Ibrance (palbociclibe), bula vigente: NDA 207103 (cápsulas) e NDA 212436 (comprimidos), Pfizer Inc.; DailyMed, versões 24 e 13, de 06/07/2026.
- FDA — Drugs@FDA: NDA 207103, aprovação acelerada em 03/02/2015 e suplementos S-008 (04/04/2019), S-015 (13/12/2022), S-020 (23/04/2025) e S-024 (24/06/2026); NDA 212436, aprovação em 01/11/2019.
- EMA — Ibrance, EPAR, EMEA/H/C/003853 (Pfizer Europe MA EEIG): RCM de 07/03/2025; retirada da extensão EMA/VR/0000316536 (carta de 15/09/2026).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Ibrance 1.2110.0467 e 1.2110.0502; Agatha 1.2110.0495; Cydikriz 1.5143.0086; Sedecib 1.1541.0022; genéricos 1.5143.0084 e 1.1541.0021; Itovebi 1.0100.0678; bulas do Ibrance de 19/10/2026 (IBRCAP_27); Portaria SVS/MS nº 344/1998 (até a RDC nº 1.036/2026).
- TİTCK (Turquia) — Reampla (palbociclibe), cápsulas e comprimidos (Pfizer PFE İlaçları A.Ş.): bulas aprovadas em 25/10/2024.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 678 (novembro de 2021) e Portaria SCTIE/MS nº 73, de 06/12/2021.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 106, de 20/10/2026 (PCDT do Câncer de Mama; revoga a nº 17/2024).
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 8.477/2025 (AF-Onco) e elenco do AF-Onco atualizado em 02/09/2026.
- ANS — Rol (RN nº 465/2021, atualizada pela RN nº 681/2026), Anexo II, Diretriz de Utilização nº 64; Lei nº 9.656/1998, art. 10, VI.
- Finn RS et al., N Engl J Med, 2016;375(20):1925-1936. PMID 27959613 (PALOMA-2; ClinicalTrials.gov NCT01740427).
- Slamon DJ et al., J Clin Oncol, 2024;42(9):994-1000. PMID 38252901 (PALOMA-2, sobrevida global; ClinicalTrials.gov NCT01740427).
- Cristofanilli M et al., Lancet Oncol, 2016;17(4):425-439. PMID 26947331 (PALOMA-3; ClinicalTrials.gov NCT01942135).
- Metzger O et al., N Engl J Med, 2026;394(5):451-462. PMID 41604639 (PATINA; ClinicalTrials.gov NCT02947685).
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