Prednisona (Meticorten): corticosteroide oral para doenças inflamatórias, alérgicas e autoimunes

Resumo rápido

  • A prednisona é um corticosteroide oral e um pró-fármaco: o fígado a converte em prednisolona, a forma ativa. O Meticorten (Organon, registro 1.0029.0189) é a referência entre os 22 registros ativos na ANVISA.
  • A bula brasileira a indica em doenças endócrinas, reumáticas, do colágeno, de pele, alérgicas (incluindo asma), oculares, respiratórias, hematológicas e neoplásicas e na síndrome nefrótica.
  • A dose inicial vai de 5 a 60 mg ao dia no adulto e de 0,14 a 2 mg/kg ao dia na criança, pela manhã; após uso prolongado, a retirada é gradual.
  • O rótulo americano não tem advertência em destaque (boxed warning); a bula contraindica o uso em infecção fúngica sistêmica e hipersensibilidade, e os riscos crescem com dose e tempo: infecções, glicemia alta, osteoporose, catarata e alterações de humor.
  • No Brasil há só comprimidos de 5 e 20 mg, comercializados em 2025 e oferecidos pelo SUS (RENAME 2024); não é preciso importar.

O que é Prednisona (Meticorten)?

Prednisona é a denominação comum brasileira de um esteroide adrenocortical sintético, de uso oral. O Meticorten, da Organon Farmacêutica Ltda., é o medicamento de referência para os comprimidos de 5 mg e 20 mg desde 12/11/2012. No Brasil, a prednisona também é comercializada como Ciclorten, Corticorten, Crispred, Flamape, Predcort e Predinis, além de genéricos. Nos EUA, a referência são os comprimidos da Hikma (ANDA 080352), de 1 a 50 mg, que dividem a bula com a solução oral e a concentrada (Prednisone Intensol); a liberação retardada foi aprovada em 2012 com o Rayos (NDA 202020), hoje descontinuado, e segue em genéricos aprovados em 2025 e 2026.

Glicocorticoides e equivalência de doses

Os glicocorticoides naturais, hidrocortisona e cortisona, também retêm sal e servem à reposição hormonal; os sintéticos, como a prednisona, são usados pelo efeito anti-inflamatório e imunossupressor. Pelo rótulo americano, 5 mg de prednisona equivalem a 5 mg de prednisolona, 4 mg de metilprednisolona, 0,75 mg de dexametasona e 20 mg de hidrocortisona. De ação curta, a prednisona suprime a suprarrenal por 1¼ a 1½ dia após uma dose, o que permite o esquema em dias alternados.

Mecanismo de ação

Pela bula brasileira, os mecanismos exatos dos corticosteroides são incertos. A prednisona é um pró-fármaco: no fígado, a enzima 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 1 a converte em prednisolona, mensurável meia hora após a dose, com pico em 1 a 3 horas. A meia-vida no plasma é de cerca de 3 horas, e a biológica, de 12 a 36 horas; na doença hepática, os níveis de prednisolona ficam significativamente menores. Os efeitos incluem aumento da produção de glicose, catabolismo de proteínas, queda de eosinófilos e linfócitos e inibição do edema e da migração de leucócitos (rótulo americano). A bula brasileira descreve atividade mineralocorticoide leve, sem relevância clínica: sozinha, a prednisona não basta na insuficiência da suprarrenal.

Indicações

As listas brasileira e americana são amplas e parecidas; o corticoide complementa o tratamento de base.

Brasil (ANVISA)

Pela bula do Meticorten aprovada em 16/12/2025, para adultos e crianças:

  • Endócrinas: insuficiência adrenal (com mineralocorticoide, se preciso), hiperplasia adrenal congênita, tireoidite não supurativa e hipercalcemia do câncer.
  • Reumáticas e do colágeno: crises de artrite reumatoide, artrite psoriática, espondilite anquilosante, gota aguda, bursite e tenossinovite; lúpus, cardite reumática aguda, polimiosite e dermatomiosite.
  • Pele e alergia: pênfigo, síndrome de Stevens-Johnson, dermatite esfoliativa, micose fungoide e psoríase grave; alergias graves sem resposta ao tratamento convencional, como rinite, pólipo nasal, asma (inclusive estado de mal asmático) e dermatite atópica.
  • Olhos e pulmões: uveíte, irite, neurite óptica e outras inflamações oculares; sarcoidose, síndrome de Loeffler, beriliose e tuberculose fulminante ou disseminada, com antituberculosos.
  • Sangue, câncer e rins: trombocitopenia em adultos e anemia hemolítica autoimune; paliativo em leucemias e linfomas; síndrome nefrótica sem uremia, idiopática ou por lúpus.

Estados Unidos (FDA)

O rótulo dos comprimidos e soluções traz os mesmos grupos e alguns a mais; o da liberação retardada, em formato atual, amplia a lista. As principais diferenças:

Situação Bula brasileira Rótulo americano
Colite ulcerativa e doença de Crohn em crise Não cita Cita
Surto de esclerose múltipla Não cita Cita
Exacerbação da DPOC Não cita Só no da liberação retardada
Polimialgia reumática e vasculites Não cita Só no da liberação retardada
Neurite óptica Cita Cita nos comprimidos; o da liberação retardada desaconselha o corticoide oral

Evidências clínicas

Em uso há décadas, a prednisona comum não tem ensaio de registro citado em bula: a brasileira remete à literatura acumulada, e só a da liberação retardada descreve um, em artrite reumatoide. Estudos de referência:

Crises de asma e de DPOC

Num estudo duplo-cego em Toronto, pacientes atendidos no pronto-socorro por crise de asma receberam na alta prednisona por 8 dias (de 40 mg ao dia até zero) ou placebo: nos 10 primeiros dias, recaíram 3 de 48 contra 11 de 45 (p<0,05), sem diferença do 11º ao 21º dia. No REDUCE, duplo-cego e de não inferioridade, 314 pacientes com exacerbação da DPOC, 92% internados, receberam prednisona 40 mg ao dia por 5 ou 14 dias: nova exacerbação em 180 dias ocorreu em 35,9% contra 36,8%, com 5 e 14 dias (razão de risco 0,95; IC 90% 0,70 a 1,29), com dose acumulada média de 379 contra 793 mg.

Artrite reumatoide em dose baixa

Num estudo holandês de 2 anos, 81 pacientes com artrite reumatoide inicial, sem antirreumático modificador de doença, receberam prednisona 10 mg ao dia ou placebo: a melhora clínica foi maior nos primeiros 6 meses, a progressão nas radiografias foi menor após o sexto mês, e houve mais fraturas osteoporóticas com prednisona. No CAPRA-2 (NCT00650078), de fase 3, 350 pacientes em uso de antirreumáticos foram sorteados (2 para 1) para prednisona de liberação modificada 5 mg à noite ou placebo: em 12 semanas, a resposta ACR20 foi de 48% contra 29% (p<0,001). Essa forma não existe no Brasil.

Arterite de células gigantes: recaída na retirada

No GiACTA (NCT01791153), de fase 3, 251 pacientes receberam tocilizumabe com retirada da prednisona em 26 semanas, ou placebo com retirada em 26 ou 52 semanas. Na semana 52, a remissão sustentada foi de 56% e 53% com tocilizumabe (semanal ou quinzenal), contra 14% e 18% só com prednisona: a doença costuma voltar quando o corticoide é reduzido.

Posologia e administração

Pela bula do Meticorten, o uso é oral, com um pouco de líquido, pela manhã, em dose individual. No adulto, a dose inicial vai de 5 a 60 mg ao dia; na criança, de 0,14 a 2 mg/kg ao dia (ou 4 a 60 mg/m²), sem rigidez quanto a idade ou peso. Com resposta, a dose é reduzida em pequenos passos até a menor eficaz; sem resposta após um período razoável, troca-se o tratamento. Infecção grave, cirurgia ou trauma podem exigir aumento temporário.

Dias alternados e retirada gradual

No uso prolongado, a bula brasileira admite o regime em dias alternados; pelo rótulo americano, dá-se o dobro da dose diária numa tomada matinal a cada dois dias, para reduzir a supressão da suprarrenal, o aspecto cushingoide e o atraso do crescimento infantil. A manhã coincide com o pico de atividade da glândula, entre 2 h e 8 h, quando a supressão é menor. Após tratamento prolongado, a suspensão é gradual: a insuficiência adrenal relativa pode durar meses, e, sob estresse nesse período, o corticoide é retomado. A conservação é de 15 a 30 °C, ao abrigo da luz.

Segurança

O rótulo americano não tem advertência em destaque (boxed warning). Pela bula brasileira, a prednisona é contraindicada em infecções sistêmicas por fungos e na hipersensibilidade a ela, a outros corticosteroides ou aos componentes. Os efeitos adversos crescem com dose e duração: retenção de sal e líquidos, perda de potássio, pressão alta, perda de massa muscular, osteoporose, úlcera péptica, pele fina, aspecto cushingoide, irregularidade menstrual e piora da glicemia.

Advertências principais

  • Infecções: pode mascarar sinais e facilitar infecções novas ou latentes; na tuberculose latente, o uso prolongado pede quimioprofilaxia; varicela e sarampo podem ser graves em não imunes; o rótulo americano manda rastrear hepatite B antes de doses imunossupressoras e alerta para estrongiloidíase disseminada.
  • Suprarrenal: a supressão do eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal torna arriscada a retirada brusca; a bula brasileira cita ainda crise de feocromocitoma, que pode ser fatal.
  • Glicemia e ossos: pode revelar diabetes latente; no idoso, doses a partir de 7,5 mg ao dia se associam a mais fraturas, e bisfosfonatos são recomendados na prevenção (rótulo americano).
  • Olhos: catarata, glaucoma e coriorretinopatia serosa central; visão turva pede avaliação oftalmológica.
  • Humor: euforia, insônia, oscilações de humor, depressão grave e psicose.
  • Crianças: o uso prolongado pode atrasar o crescimento.

Vacinas, interações, gravidez e amamentação

Vacinas vivas são contraindicadas em doses imunossupressoras (rótulo americano); a bula brasileira orienta evitar imunizações, sobretudo em doses altas, salvo na terapia de reposição. A prednisona é metabolizada pelo CYP3A4: fenobarbital, fenitoína e rifampicina podem reduzir seu efeito, e inibidores potentes, como cetoconazol, claritromicina e ritonavir, podem elevar sua concentração. Diuréticos que espoliam potássio, digitálicos e anfotericina B pedem controle do potássio; anti-inflamatórios e álcool podem elevar o risco de úlcera. Os corticoides atravessam a placenta; o uso no primeiro trimestre foi associado, de forma inconsistente, a mais fendas orofaciais (de cerca de 1 para 3 a 5 por 1.000 nascidos, pelo rótulo americano), e o recém-nascido de mãe com doses altas deve ser observado quanto à insuficiência adrenal. A dose que chega ao bebê pelo leite é estimada abaixo de 1% da materna. A bula avisa que o medicamento pode causar doping.

Como funciona o acesso no Brasil

A prednisona tem 22 registros ativos na ANVISA (dados abertos de 13/10/2026): o Meticorten (1.0029.0189, Organon Farmacêutica Ltda., vencimento em 10/2029), 13 genéricos e 8 similares. Na Lista CMED de 09/10/2026, 37 apresentações de 5 e 20 mg, de 13 empresas, constam como comercializadas em 2025. Não há solução oral de prednisona registrada; a opção líquida é o fosfato sódico de prednisolona, outra substância, também comercializado em 2025. A prednisona não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026), e a compra é nacional, na farmácia, ou pelo SUS.

No SUS

A RENAME 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024), edição vigente, inclui os comprimidos de 5 e 20 mg no componente básico, que atende os principais problemas de saúde na atenção primária, executado por estados, DF e municípios, e no estratégico, de programas para doenças endêmicas. A solução oral de fosfato sódico de prednisolona, de 1 e 3 mg/mL, também está no componente básico.

Nos planos de saúde

A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais e seus adjuvantes; na internação, os medicamentos ministrados têm cobertura (art. 12, II, “d”). Fora desses casos, a compra é na farmácia ou pelo SUS.

Formas que só existem no exterior

Nos EUA, há comprimidos de 1, 2,5, 10 e 50 mg, solução oral, solução concentrada e comprimidos de liberação retardada de 1, 2 e 5 mg, que começam a liberar a prednisona cerca de 4 horas após a tomada, com alimento. Nenhuma tem registro no Brasil, e o rótulo americano informa que a eficácia da liberação retardada frente à prednisona comum não foi estabelecida.

Perguntas Frequentes

Prednisona e prednisolona são a mesma coisa?

Não. A prednisona é convertida no fígado em prednisolona, a forma ativa; por via oral, 5 mg de uma equivalem a 5 mg da outra. No Brasil, a forma líquida disponível é a de prednisolona.

Posso parar a prednisona de uma vez?

Após uso prolongado, não: a suprarrenal pode levar meses para se recuperar, e a retirada deve ser gradual, conforme orientação médica.

A prednisona é medicamento controlado?

Não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998; a venda é sob prescrição.

O SUS fornece a prednisona?

Sim: os comprimidos de 5 e 20 mg estão nos componentes básico e estratégico da RENAME 2024.

Preciso importar a prednisona?

Não: há 22 registros ativos e 37 apresentações comercializadas em 2025, além do SUS. A liberação retardada e as soluções vendidas nos EUA não têm registro aqui.

Conclusão

A prednisona é um glicocorticoide oral de ação curta, pró-fármaco da prednisolona, com indicações em muitas especialidades, sempre na menor dose eficaz. Estudos de referência mostram menos recaídas após a crise de asma, que 5 dias não foram inferiores a 14 na exacerbação da DPOC, benefício na artrite reumatoide inicial e, na arterite de células gigantes, recaídas frequentes na retirada. Os riscos crescem com dose e duração, e a suspensão após uso prolongado é gradual. No Brasil, é registrada, comercializada e oferecida pelo SUS; a indicação e o esquema cabem ao médico.

Fontes

  1. FDA — Prednisona (comprimidos, solução oral e Prednisone Intensol), bula vigente: ANDA 080352, ANDA 088703 e ANDA 088810, Hikma Pharmaceuticals USA Inc.; DailyMed, versão 24, de 09/06/2025.
  2. FDA — Prednisona de liberação retardada, bula vigente: ANDA 219477, Dr. Reddy’s Laboratories Inc.; DailyMed, versão 5, de 28/09/2026.
  3. FDA — Drugs@FDA: ANDA 080352 (21/04/1972, produto de referência); NDA 202020 (Rayos, Horizon, 26/07/2012, descontinuado); ANDA 219477 (01/10/2025) e ANDA 218035 (26/06/2026), Dr. Reddy’s.
  4. ANVISA — Meticorten (prednisona), bula para o profissional de saúde, Organon Farmacêutica Ltda., aprovada em 16/12/2025; registro 1.0029.0189.
  5. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: 22 registros ativos de prednisona e 37 apresentações comercializadas em 2025.
  6. ANVISA — RDC nº 1.036, de 09/07/2026 (DOU de 13/07/2026): Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998, sem prednisona.
  7. Ministério da Saúde — RENAME 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024): prednisona 5 mg e 20 mg nos componentes básico e estratégico; fosfato sódico de prednisolona 1 e 3 mg/mL no básico.
  8. Brasil — Lei nº 9.656/1998, art. 10, VI, e art. 12, II, “d”.
  9. Chapman KR et al., N Engl J Med, 1991;324(12):788-794. PMID 1997850.
  10. Leuppi JD et al., JAMA, 2013;309(21):2223-2231. PMID 23695200 (REDUCE; registro ISRCTN19646069).
  11. van Everdingen AA et al., Ann Intern Med, 2002;136(1):1-12. PMID 11777359.
  12. Buttgereit F et al., Ann Rheum Dis, 2013;72(2):204-210. PMID 22562974 (CAPRA-2; ClinicalTrials.gov NCT00650078).
  13. Stone JH et al., N Engl J Med, 2017;377(4):317-328. PMID 28745999 (GiACTA; ClinicalTrials.gov NCT01791153).

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