Resumo rápido
- O Gonal-f (alfafolitropina) é o hormônio folículo-estimulante (FSH) recombinante da Merck, de uso subcutâneo: faz crescer os folículos do ovário e, com hCG, induz a produção de espermatozoides.
- Nos EUA e na União Europeia, é indicado para induzir a ovulação, estimular vários folículos na reprodução assistida e, com hCG, tratar a infertilidade do hipogonadismo hipogonadotrófico masculino; na UE, também com LH na deficiência grave de LH e FSH.
- Contra o FSH urinário, rendeu mais oócitos (11,0 contra 8,8) com menos dias de estímulo; os biossimilares europeus tiveram número equivalente de oócitos.
- O rótulo americano não tem advertência em destaque (boxed warning); os riscos centrais são a síndrome de hiperestimulação ovariana, a gestação múltipla, a trombose, a torção ovariana e a gravidez ectópica.
- Tem registro ativo na ANVISA (1.0089.0363, Merck S/A), com canetas de 300, 450 e 900 UI comercializadas em 2025; não está na Rename, e a lei permite que os planos o excluam.
O que é Gonal-f (alfafolitropina)?
Gonal-f é o nome comercial da alfafolitropina, FSH humano recombinante produzido em células de ovário de hamster chinês, com estrutura proteica indistinguível da do hormônio natural. A União Europeia o autorizou em 20/10/1995 (titular atual: Merck Europe B.V.), e a FDA, em 29/09/1997 (BLA 020378, hoje em frascos multidose); as canetas americanas, chamadas Gonal-f RFF Redi-ject, estão no BLA 021684, ambos da EMD Serono. No Brasil, o registro é da Merck S/A, em canetas de 300, 450 e 900 UI, as mesmas doses das americanas.
A infertilidade e o papel do FSH
Pela Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida (Portaria GM/MS nº 426/2005), infertilidade é a ausência de gravidez após 12 meses de relações regulares sem contracepção, e cerca de 8% a 15% dos casais têm algum problema de fertilidade, segundo a OMS. A hipófise libera o FSH, que faz crescer os folículos, e o LH, que atua na maturação. Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), que atinge 6% a 19% das mulheres em idade reprodutiva, segundo o protocolo do Ministério da Saúde, a infertilidade está entre as principais manifestações; no hipogonadismo hipogonadotrófico, faltam as gonadotrofinas que estimulam ovários ou testículos.
Mecanismo de ação
A alfafolitropina reproduz o FSH: estimula o crescimento dos folículos em mulheres sem falência ovariana primária e, com hCG, a espermatogênese no homem com deficiência de gonadotrofinas. Como o FSH não desencadeia a ovulação, a maturação final exige hCG ou alfacoriogonadotropina. Por via subcutânea, a biodisponibilidade é de 66%, e a resposta varia muito entre as pacientes.
Indicações
Estados Unidos (FDA)
No frasco multidose: indução da ovulação em mulheres inférteis oligoanovulatórias, quando a causa é funcional e não há falência ovariana primária; desenvolvimento de vários folículos em mulheres ovulatórias num ciclo de reprodução assistida; e indução da espermatogênese em homens com hipogonadismo hipogonadotrófico, sem falência testicular primária. A caneta Gonal-f RFF Redi-ject tem só as indicações femininas. Segurança e eficácia em crianças não foram estabelecidas.
União Europeia (EMA)
Em adultos: anovulação, inclusive na SOP, sem resposta ao clomifeno; estímulo multifolicular na reprodução assistida; com preparação de LH, deficiência grave de LH e FSH (LH abaixo de 1,2 UI/L nos estudos); e, no homem, espermatogênese no hipogonadismo hipogonadotrófico congênito ou adquirido, com hCG. Há dois biossimilares com as mesmas indicações, o Ovaleap (2013) e o Bemfola (2014).
Evidências clínicas
Indução da ovulação e reprodução assistida
Nos EUA, num estudo aberto contra a urofolitropina, as 118 mulheres oligoanovulatórias tratadas com Gonal-f tiveram ovulação acumulada de 58%, 72% e 81% em três ciclos e gravidez clínica acumulada de 37%. Com o Gonal-f RFF, a ovulação no primeiro ciclo foi de 72% entre 83 mulheres, não inferior a outro FSH recombinante; na reprodução assistida, 237 mulheres tiveram média de 6,3 oócitos fertilizados, também não inferior, e gravidez clínica de 33,5% por tentativa. Na SOP, após falha do clomifeno, a revisão Cochrane de 2025 apontou provavelmente mais nascidos vivos com FSH do que mantendo o clomifeno (risco relativo 1,24; IC 95% 1,05 a 1,46).
Contra o FSH urinário e a menotropina
No estudo GF 8407, em reprodução assistida, o Gonal-f (130 mulheres) rendeu mais oócitos que o FSH urinário (116): 11,0 contra 8,8, com 11,7 contra 14,5 dias de estímulo e menor dose total (p<0,05). Na revisão Cochrane de 2026 (59 estudos, 18.119 mulheres em fertilização in vitro ou injeção intracitoplasmática de espermatozoides), o FSH recombinante provavelmente resultou em menos nascidos vivos que a menotropina (razão de chances 0,83; IC 95% 0,73 a 0,95) e em mais hiperestimulação (1,42; IC 95% 1,12 a 1,80); contra o FSH urinário altamente purificado, houve pouca ou nenhuma diferença (1,02; IC 95% 0,86 a 1,21).
Biossimilares
No estudo de fase 3 do Bemfola (NCT01121666), com 372 mulheres de 20 a 38 anos, o número de oócitos foi equivalente (10,8 contra 10,6 com o Gonal-f); no do Ovaleap (EudraCT 2009-017674-20), com 299 mulheres, foram 12,2 contra 12,1 oócitos. Na revisão Cochrane de 2026, porém, o FSH recombinante de referência provavelmente teve mais nascidos vivos que os biossimilares (razão de chances 1,29; IC 95% 1,09 a 1,54).
Homens com hipogonadismo hipogonadotrófico
Em três estudos abertos e sem grupo controle (rótulo da FDA), 63 homens com azoospermia receberam hCG por 3 a 6 meses e, depois, Gonal-f com hCG por 18 meses: chegaram a ao menos 1,5 milhão de espermatozoides por mL 46,2%, 62,5% e 80% dos avaliados, em mediana de 9 a 12,4 meses.
Posologia e administração
Pelos rótulos da FDA e europeu, a injeção é subcutânea, sob supervisão de médico experiente em infertilidade. A dose é individual, guiada por ultrassom dos folículos e estradiol.
- Indução da ovulação: nos EUA, 75 UI ao dia por 14 dias, depois aumentos de até 37,5 UI a cada 7 dias, até 300 UI ao dia; na UE, dose inicial individualizada (de menos de 75 a 150 UI ao dia), sem passar de 225 UI ao dia.
- Reprodução assistida: do 2º ou 3º dia do ciclo, 150 a 225 UI ao dia, com ajustes não mais que a cada 3 a 5 dias e máximo de 450 UI ao dia, em geral por até 10 dias.
- Ovulação final: hCG (5.000 a 10.000 UI) ou 250 mcg de alfacoriogonadotropina 24 a 48 horas após a última dose; o hCG é suspenso se houver risco de hiperestimulação.
- Deficiência de LH e FSH (UE): 75 UI de alfalutropina com 75 a 150 UI de alfafolitropina ao dia.
- Homens: 150 UI três vezes por semana com hCG, por ao menos 4 meses (UE); nos EUA, até 300 UI três vezes por semana, por até 18 meses.
- Conservação: geladeira (2 a 8 °C), sem congelar, ou até 25 °C por até 3 meses antes do uso; aberta, a caneta vale por 28 dias.
Segurança
O rótulo americano não tem advertência em destaque (boxed warning). São contraindicações, pela FDA, alergia ao FSH recombinante, FSH alto por falência gonadal primária, doença de tireoide, suprarrenal ou hipófise não controlada, tumores dependentes de hormônios sexuais, tumores de hipófise ou hipotálamo e, na mulher, sangramento uterino ou cisto ovariano de causa indeterminada; a UE inclui câncer de ovário, útero ou mama e a falta de chance de resposta, como na falência ovariana ou testicular primária. Nos estudos do Gonal-f RFF, foram comuns dor de cabeça (até 26,5%), dor abdominal (até 23,2%) e reações no local da injeção; nos estudos em homens, acne (27%) e aumento das mamas (6%).
Advertências principais
- Síndrome de hiperestimulação ovariana: acúmulo de líquido no abdome e no tórax, com pico 7 a 10 dias após o estímulo e mais grave se houver gravidez; ocorreu em 7,2% e 4,6% nos estudos do Gonal-f RFF. Idade jovem, SOP, doses altas e muitos folículos elevam o risco (UE).
- Trombose e pulmão: tromboembolia venosa ou arterial e complicações pulmonares, raramente fatais, sobretudo com história de trombose, obesidade grave ou trombofilia.
- Gestação múltipla: 20% dos nascidos vivos na indução da ovulação e 35,1% na reprodução assistida.
- Torção e aumento ovariano: torção ligada à hiperestimulação, à gravidez, a cirurgia abdominal e a cistos; com ovários muito aumentados, não aplicar o hCG.
- Gravidez ectópica e aborto: mais frequentes após a reprodução assistida e com doença tubária; confirmar cedo a gestação no útero.
- Outros: anafilaxia, muito rara; tumores ovarianos relatados após vários ciclos, sem relação causal estabelecida.
Gravidez, amamentação e interações
Não há indicação na gravidez, e a FDA exige teste negativo antes do uso. Malformações podem ser um pouco mais frequentes após fertilização in vitro ou injeção intracitoplasmática, por características dos pais e gestações múltiplas, sem indício de efeito das gonadotrofinas. A FDA desaconselha amamentar, pois a prolactina pode prejudicar a resposta. Não há estudos formais de interação; clomifeno e hCG podem potencializar a resposta (UE).
Como funciona o acesso no Brasil
O Gonal-f tem registro ativo na ANVISA (1.0089.0363, Merck S/A, vencimento em 12/2026; dados abertos de 13/10/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, as canetas de 300, 450 e 900 UI constam como comercializadas em 2025, sem restrição hospitalar; não há frasco multidose. A alfafolitropina só tem registro ativo nos produtos da Merck (Ovaleap e Bemfola não são registrados) e não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036, de 09/07/2026). A compra é nacional, e a questão é quem paga.
Outras gonadotrofinas registradas
| Substância | Produto (titular) | Registro | Comercializado em 2025 |
|---|---|---|---|
| Alfafolitropina + alfalutropina | Pergoveris (Merck) | 1.0089.0360 | Sim |
| Betafolitropina | Puregon (Organon) | 1.0029.0205 | Sim |
| Alfacorifolitropina | Elonva (Organon) | 1.0029.0210 | Sim |
| Deltafolitropina | Rekovelle (Ferring) | 1.2876.0020 | Sim |
| Menotropina | Menopur (Ferring) | 1.2876.0011 | Sim |
| Urofolitropina | Fostimon-M (Besins) | 1.8759.0013 | Não |
Na UE, o Pergoveris é indicado na deficiência grave de LH e FSH (a alfalutropina isolada, Luveris, tem registro inativo aqui); a alfacorifolitropina substitui com uma injeção os 7 primeiros dias de FSH diário; e a deltafolitropina, produzida em linhagem celular humana, tem dose calculada pelo hormônio antimülleriano e pelo peso. Para a ovulação final, a alfacoriogonadotropina (Ovidrel, 1.0089.0376) tem caneta comercializada em 2025.
No SUS
A Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, de 2005, prevê a fertilização in vitro na alta complexidade, e a Portaria GM/MS nº 3.149/2012 destinou recursos a serviços que a realizam pelo SUS em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Ribeirão Preto e Recife (e, em 2013, Natal). A Portaria GM/MS nº 11.523/2026 permitiu ofertar reprodução assistida pelo programa Agora Tem Especialistas, com valores ainda a definir. Nenhuma gonadotrofina consta da Rename 2024, não há avaliação da Conitec sobre a alfafolitropina, e o protocolo clínico da SOP (Portaria Conjunta nº 6/2019) não inclui indutores de ovulação.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 permite excluir a inseminação artificial (art. 10, III) e os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais (art. 10, VI). A RN nº 465/2021 da ANS define a inseminação artificial incluindo a indução da ovulação (art. 4º, VII, “g”) e mantém a exclusão (art. 17, parágrafo único, III). No Tema Repetitivo 1.067, o STJ fixou que, “salvo disposição contratual expressa, os planos de saúde não são obrigados a custear o tratamento médico de fertilização in vitro”. A cobertura depende do contrato, e negativas pedem orientação jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
O Gonal-f tem registro na ANVISA?
Sim: 1.0089.0363, da Merck S/A; as canetas de 300, 450 e 900 UI constam como comercializadas em 2025.
Preciso importar o Gonal-f?
Não: tem registro ativo e oferta no país, além de outras gonadotrofinas comercializadas; os biossimilares europeus não têm registro no Brasil.
Gonal-f e Pergoveris são a mesma coisa?
Não: o Pergoveris associa alfafolitropina e alfalutropina (LH); o Gonal-f contém só FSH.
O plano de saúde cobre o Gonal-f?
Em regra, não: a lei permite excluir a inseminação artificial, que a ANS define incluindo a indução da ovulação, e os medicamentos de uso domiciliar; antes da quimioterapia do câncer, o STJ tem obrigado o custeio do congelamento de óvulos.
O Gonal-f serve para homens?
Sim, com hCG, no hipogonadismo hipogonadotrófico (nos EUA, no frasco multidose; na UE); não há resposta na falência testicular primária.
Conclusão
A alfafolitropina é o FSH recombinante de referência para induzir a ovulação, estimular vários folículos na reprodução assistida e, com hCG, a espermatogênese no hipogonadismo hipogonadotrófico. Rendeu mais oócitos que o FSH urinário; na revisão Cochrane, o FSH recombinante teve provavelmente menos nascidos vivos que a menotropina. O uso exige ultrassom e estradiol para limitar hiperestimulação e gestação múltipla. No Brasil, é registrado e comercializado; não está na Rename, e a cobertura pelo plano depende do contrato. A indicação cabe à equipe médica.
Fontes
- FDA — Gonal-f (alfafolitropina), bulas vigentes: BLA 020378 (frasco multidose; DailyMed, versão 15, de 02/09/2025) e BLA 021684 (Gonal-f RFF Redi-ject; DailyMed, versão 13, de 03/04/2025), EMD Serono, Inc.
- FDA — Drugs@FDA: BLA 020378, aprovação em 29/09/1997; BLA 021684, aprovação em 25/05/2004.
- EMA — GONAL-f, EPAR, EMEA/H/C/000071 (Merck Europe B.V.): RCM; autorização em 20/10/1995; EPAR atualizado em 21/10/2026.
- EMA — EPARs de Ovaleap (EMEA/H/C/002608), Bemfola (EMEA/H/C/002615), Pergoveris (EMEA/H/C/000714), Elonva (EMEA/H/C/001106) e Rekovelle (EMEA/H/C/003994).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (base de 13/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Gonal-f 1.0089.0363 e demais gonadotrofinas citadas; Luveris 1.0089.0354 (inativo); RDC nº 1.036, de 09/07/2026 (Portaria 344/1998).
- Ministério da Saúde — Portarias GM/MS nº 426/2005, nº 3.149/2012 e nº 11.523/2026; Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024); PCDT da SOP (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6/2019).
- Brasil — Lei nº 9.656/1998, art. 10, III e VI; ANS — RN nº 465/2021, art. 4º, VII, “g”, e art. 17, parágrafo único, III.
- STJ — Tema Repetitivo 1.067 (REsp 1.822.420/SP, julgado em 13/10/2021); Jurisprudência em Teses nº 271 (19/11/2025), tese 3.
- Rettenbacher M et al., Reprod Biomed Online, 2015;30(5):504-513. PMID 25735918 (estudo FIN3001; ClinicalTrials.gov NCT01121666).
- Strowitzki T et al., Reprod Biol Endocrinol, 2016;14:1. PMID 26733057 (EudraCT 2009-017674-20).
- Berkhout RP et al., Cochrane Database Syst Rev, 2026;7(7):CD005354. PMID 42445958.
- Weiss NS et al., Cochrane Database Syst Rev, 2025;4(4):CD010290. PMID 40193219.
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