Resumo rápido
- Besponsa é o inotuzumabe ozogamicina, um conjugado de anticorpo e quimioterápico que se liga à proteína CD22 das células leucêmicas e libera dentro delas um derivado da caliqueamicina.
- É indicado na leucemia linfoblástica aguda (LLA) de precursor B CD22-positiva recidivada ou refratária: nos Estados Unidos, em adultos e crianças a partir de 1 ano; na União Europeia, em adultos e, desde maio de 2026, em crianças a partir de 1 ano em situações específicas.
- No estudo de fase 3 INO-VATE ALL, 80,7% dos adultos alcançaram remissão completa, com ou sem recuperação total do sangue, contra 29,4% com a quimioterapia padrão.
- O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para lesão do fígado, incluindo a doença veno-oclusiva hepática, e para maior mortalidade não relacionada à recidiva após o transplante de células-tronco hematopoéticas.
- Tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0447, Pfizer) desde 2019; o acesso é nacional, pelo serviço de hematologia, e a discussão, quando há negativa, é de custeio.
O que é Besponsa (inotuzumabe ozogamicina)?
Besponsa é um conjugado anticorpo-fármaco. Ele reúne três partes: o inotuzumabe, anticorpo humanizado dirigido contra a proteína CD22; a N-acetil-gama-caliqueamicina, uma substância tóxica para as células; e um ligante que prende uma à outra e se rompe em meio ácido. Cada anticorpo carrega, em média, cerca de seis moléculas do derivado da caliqueamicina. O produto vem em frasco de dose única com 0,9 mg de pó liofilizado, reconstituído e diluído para infusão na veia.
Quem fabrica e onde está aprovado
O titular é a Pfizer. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou o Besponsa em 17/08/2017 (BLA 761040), para adultos, e estendeu a indicação a crianças a partir de 1 ano em 06/03/2024. Na União Europeia, a autorização é de 28/06/2017, com designação de medicamento órfão, e a extensão pediátrica foi decidida em 06/05/2026. No Brasil, o registro foi publicado em 21/01/2019, com análise priorizada na categoria de doença rara.
Mecanismo de ação
O inotuzumabe reconhece especificamente a proteína CD22 humana, presente na superfície dos linfoblastos da LLA de precursor B CD22-positiva. Depois da ligação, o conjunto é internalizado pela célula; lá dentro, o ligante se rompe e libera o derivado da caliqueamicina, que provoca quebras nas duas fitas do DNA, interrompe o ciclo celular e leva à morte programada da célula. Segundo dados não clínicos, a atividade contra o tumor depende dessa ligação às células que expressam CD22.
Indicações
- Estados Unidos (FDA): LLA de precursor B CD22-positiva recidivada ou refratária em adultos e em pacientes pediátricos a partir de 1 ano.
- União Europeia (EMA), adultos: monoterapia na LLA de precursor B CD22-positiva recidivada ou refratária; na doença com cromossomo Philadelphia (Ph+), após falha de pelo menos um inibidor de tirosina quinase.
- União Europeia (EMA), crianças a partir de 1 ano: monoterapia na primeira recidiva após transplante alogênico de células-tronco, após qualquer primeira recidiva com doença de muito alto risco, após a segunda recidiva ou em doença refratária; na doença Ph+, depois de esgotadas as opções dirigidas ao BCR-ABL.
No Brasil, as indicações aprovadas são as que constam da bula registrada na ANVISA.
Quem participou do estudo em adultos
No INO-VATE ALL, os pacientes tinham 18 anos ou mais, pelo menos 5% de blastos na medula e uma ou duas quimioterapias de indução prévias; os com cromossomo Philadelphia precisavam ter falhado a pelo menos um inibidor de tirosina quinase. A mediana de idade foi de 47 anos, e 85% tinham doença sem cromossomo Philadelphia. O texto europeu exige, antes de iniciar, a confirmação da positividade para CD22 com teste validado e sensível.
Evidências clínicas
O INO-VATE ALL (NCT01564784) foi um estudo de fase 3, randomizado e aberto, que comparou o inotuzumabe com a quimioterapia escolhida pelo investigador (FLAG, mitoxantrona com citarabina ou citarabina em alta dose) em 326 adultos. Na análise dos primeiros 218 pacientes, a remissão completa, com ou sem recuperação total das células do sangue, ocorreu em 80,7% no grupo do inotuzumabe e em 29,4% no grupo da quimioterapia. Entre os que responderam, a doença residual mínima ficou negativa em 78,4%, contra 28,1%, e 48% dos pacientes do grupo do inotuzumabe seguiram para transplante, contra 22%. Os resultados foram publicados por Kantarjian e colaboradores em 2016.
Na análise principal, a sobrevida global não atingiu o limite estatístico definido previamente (mediana de 7,7 contra 6,7 meses). No relatório final, com pelo menos 2 anos de acompanhamento, 22,8% dos pacientes tratados com inotuzumabe estavam vivos em 2 anos, contra 10,0% no grupo da quimioterapia (Kantarjian e colaboradores, 2019).
Em crianças, o rótulo americano descreve um estudo de braço único com 53 pacientes de 1 a menos de 18 anos: 42% alcançaram remissão completa, com duração mediana de 8,2 meses, e 21 dos 22 que entraram em remissão tiveram doença residual mínima negativa por citometria de fluxo.
| Estudo | População | Resultado principal |
|---|---|---|
| INO-VATE ALL (fase 3) | Adultos com LLA recidivada ou refratária | Remissão completa em 80,7% versus 29,4% com quimioterapia |
| Estudo pediátrico (braço único) | 53 crianças e adolescentes de 1 a menos de 18 anos | Remissão completa em 42% |
Posologia e administração
Doses do rótulo americano, para informação; o esquema é definido e aplicado pela equipe de hematologia, por via intravenosa.
- Antes de cada infusão: corticoide, antitérmico e anti-histamínico; observação durante a infusão e por pelo menos 1 hora depois. Se houver blastos no sangue, recomenda-se reduzi-los a no máximo 10.000/mm³ antes da primeira dose.
- Ciclo 1: 0,8 mg/m² no dia 1 e 0,5 mg/m² nos dias 8 e 15 (total de 1,8 mg/m²), em ciclo de 21 dias que pode chegar a 28.
- Ciclos seguintes: com remissão completa, 0,5 mg/m² nos dias 1, 8 e 15; sem remissão, repete-se o esquema do ciclo 1; os ciclos têm 28 dias. Sem remissão em até 3 ciclos, o tratamento é interrompido.
- Número de ciclos: para quem vai ao transplante, 2 ciclos, com um terceiro considerado se não houver remissão com doença residual mínima negativa; para quem não vai ao transplante, até 6 ciclos.
Monitoramento durante o tratamento
As provas de função do fígado (ALT, AST, bilirrubina total e fosfatase alcalina) devem ser feitas antes e depois de cada dose, e, após o transplante, pelo menos semanalmente no primeiro mês. O rótulo também pede hemograma, eletrocardiograma e dosagem de eletrólitos no início e durante o tratamento, por causa do risco de prolongamento do intervalo QT.
Segurança
O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para dois riscos:
- Lesão do fígado, incluindo doença veno-oclusiva hepática (também chamada de síndrome de obstrução sinusoidal), às vezes fatal. No INO-VATE ALL, ocorreu em 14% dos adultos tratados e em 23% dos que foram ao transplante; no estudo pediátrico, em 15%. O risco aumenta com condicionamento para transplante com dois agentes alquilantes e com bilirrubina acima do normal antes do transplante, além de doença hepática prévia, transplante anterior, idade maior e mais ciclos.
- Maior mortalidade não relacionada à recidiva após o transplante: 39% dos pacientes do grupo do inotuzumabe que foram ao transplante, contra 23% no grupo da quimioterapia, principalmente por doença veno-oclusiva e infecções.
O rótulo americano não lista contraindicações. O texto europeu contraindica o uso em caso de hipersensibilidade, de doença veno-oclusiva grave prévia confirmada ou em curso e de doença hepática grave em curso, como cirrose, hiperplasia nodular regenerativa ou hepatite ativa. As advertências incluem queda das células do sangue, reações à infusão, prolongamento do intervalo QT e dano ao feto: mulheres devem usar contracepção eficaz por 8 meses após a última dose, e homens com parceiras em idade fértil, por 5 meses; a amamentação deve ser evitada durante o tratamento e por 2 meses depois.
Crianças e fígado
No estudo pediátrico, as alterações graves das enzimas do fígado foram mais frequentes do que em adultos (aumento de AST e ALT de grau 3 ou 4 em 21% das crianças, contra 4% dos adultos).
Como funciona o acesso no Brasil
O Besponsa tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0447), em nome da Pfizer Brasil, com vencimento em 01/2029. Por estar registrado, não é caso de importação: a aquisição é nacional e, como a infusão exige supervisão de médico experiente e local com recursos completos de reanimação, costuma ser conduzida pelo serviço de hematologia que acompanha o paciente.
No SUS
Não há relatório de avaliação da Conitec sobre o inotuzumabe ozogamicina (consulta ao portal da Conitec em 23/09/2026). O acesso pelo SUS deve ser discutido com o serviço de hematologia responsável pelo tratamento.
Nos planos de saúde
Pela Lei nº 9.656/1998, o plano com internação cobre os medicamentos e as sessões de quimioterapia prescritos durante a internação. Pela Resolução Normativa nº 465/2021 da ANS, o plano com cobertura ambulatorial inclui a quimioterapia oncológica ambulatorial, isto é, os medicamentos para o câncer que precisam ser aplicados sob supervisão de profissionais de saúde em estabelecimento de saúde. A análise depende da indicação na bula brasileira e do contrato.
Custeio: quando a cobertura é negada
Diante de uma negativa, o caminho começa pela via administrativa, com a prescrição e o relatório do hematologista. Se a recusa se mantiver, a discussão judicial é sobre custeio de um medicamento registrado no Brasil, e não sobre importação. Cada caso exige orientação jurídica individualizada e não tem resultado garantido.
Perguntas Frequentes
Besponsa é quimioterapia?
É um conjugado anticorpo-fármaco: o anticorpo leva até as células com CD22 uma substância citotóxica derivada da caliqueamicina, que quebra o DNA da célula leucêmica por dentro.
O Besponsa tem registro na ANVISA?
Sim. O registro 1.2110.0447, da Pfizer Brasil, está ativo, com vencimento em 01/2029.
Crianças podem receber Besponsa?
Nos Estados Unidos, a indicação inclui crianças a partir de 1 ano com LLA de precursor B CD22-positiva recidivada ou refratária; na União Europeia, desde maio de 2026, em situações pediátricas específicas. No Brasil, vale a bula registrada.
Por que o número de ciclos é limitado antes do transplante?
Porque o risco de doença veno-oclusiva do fígado aumenta com o transplante e com o número de ciclos. Por isso, o rótulo recomenda 2 ciclos para quem vai ao transplante.
Conclusão
O Besponsa é um conjugado anticorpo-fármaco anti-CD22 para a LLA de precursor B recidivada ou refratária, que no INO-VATE ALL elevou a taxa de remissão completa e permitiu que mais pacientes chegassem ao transplante. O principal cuidado é o fígado, sobretudo em quem vai ao transplante. Com registro ativo na ANVISA, é adquirido no Brasil pelo serviço de hematologia, e as decisões sobre o tratamento cabem à equipe médica.
Fontes
- FDA, rótulo de Besponsa (DailyMed), Wyeth Pharmaceuticals (Pfizer), revisão 02/2026; setid cc7014b1-c775-411d-b374-8113248b4077
- FDA, Drugs@FDA — BLA 761040 (Besponsa), aprovação em 17/08/2017; suplemento de eficácia (pediatria) aprovado em 06/03/2024
- EMA — Besponsa, EPAR, EMEA/H/C/004119
- EMA — Besponsa, variação EMA/VR/0000257310 (extensão pediátrica), decisão em 06/05/2026
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos registrados: Besponsa, registro 1.2110.0447, Pfizer Brasil, biológico, ativo, vencimento 01/2029, consulta em 23/09/2026
- ClinicalTrials.gov NCT01564784 (INO-VATE ALL)
- Kantarjian HM et al., N Engl J Med, 2016;375(8):740-753. PMID 27292104.
- Kantarjian HM et al., Cancer, 2019;125(14):2474-2487. PMID 30920645.
- ANS — Resolução Normativa nº 465, de 24/02/2021 (Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde), art. 18, IX
- Presidência da República — Lei nº 9.656, de 03/06/1998, art. 12, II, d
- Conitec — Portal de avaliações de tecnologias em saúde: sem relatório sobre inotuzumabe ozogamicina, consulta em 23/09/2026
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