Resumo rápido
- A hidroxiureia é um antimetabólito oral usado na doença falciforme e em alguns cânceres; o Hydrea tem registro inativo no Brasil, mas genéricos, similares e o Siklos têm registro ativo.
- No Brasil, a bula das cápsulas genéricas e similares de 500 mg traz indicações oncológicas, e o Siklos, em comprimidos, é indicado na doença falciforme acima dos 2 anos.
- O SUS fornece a hidroxiureia na doença falciforme, em cápsulas de 500 mg e comprimidos de 100 mg, a partir dos 9 meses em parte dos casos.
- O principal risco é a queda das células do sangue (mielossupressão); nos Estados Unidos, Droxia e Siklos têm advertência em destaque para mielossupressão e câncer.
- Com registro ativo e oferta nacional, a hidroxiureia, em regra, não depende de importação.
O que é Hydrea (hidroxiureia)?
Hydrea é um nome comercial da hidroxiureia, antimetabólito de uso oral. No Brasil, o registro do Hydrea (Bristol-Myers Squibb) está inativo; a hidroxiureia segue registrada como genérico (EMS, Blau e Instituto Vital Brazil) e como os similares Tepev, Hixu e Leux, em cápsulas de 500 mg, além do Siklos (Masters Speciality Pharma), em comprimidos revestidos de 100 mg e 1.000 mg. O Tepev FF (EMS), também em cápsulas de 500 mg, foi registrado em 2022 como medicamento novo, na classe dos antianêmicos.
Nos Estados Unidos, a hidroxiureia está disponível como Hydrea (cápsulas de 500 mg, para câncer), Droxia (cápsulas de 200, 300 e 400 mg) e Siklos (comprimidos), os dois últimos para anemia falciforme. Na União Europeia, a EMA autorizou para a doença falciforme o Siklos, em 29/06/2007, e o Xromi, em solução oral, em 01/07/2019.
Mecanismo de ação
Segundo os rótulos da FDA, o mecanismo exato não é conhecido; estudos apoiam a hipótese de que a hidroxiureia bloqueie de imediato a síntese de DNA ao inibir a enzima ribonucleotídeo redutase, sem afetar a síntese de RNA ou de proteínas. Na anemia falciforme, podem contribuir o aumento da hemoglobina fetal, que surge de 4 a 12 semanas após o início, a redução dos neutrófilos, o maior conteúdo de água e a maior deformabilidade das hemácias e a alteração da adesão delas ao endotélio. Pelo rótulo do Droxia, a redução das crises se correlacionou mais com o efeito sobre os neutrófilos do que com a hemoglobina fetal.
Indicações
Brasil (ANVISA)
Pela transcrição da Conitec (Relatório de Recomendação nº 873, 2024), as bulas das cápsulas genéricas e similares de 500 mg indicam a hidroxiureia na leucemia mielocítica crônica resistente e no melanoma e, com radioterapia, no carcinoma epidermoide primário de cabeça e pescoço (exceto lábios) e no carcinoma de colo do útero; a Conitec registrou que o uso dessas cápsulas na doença falciforme era fora da bula. Pelo Relatório nº 872 (2024), o Siklos é indicado para prevenir crises dolorosas vaso-oclusivas recorrentes, incluindo a síndrome torácica aguda, em adultos, adolescentes e crianças com mais de 2 anos com doença falciforme sintomática.
Estados Unidos (FDA)
Hydrea: leucemia mieloide crônica resistente e carcinoma epidermoide localmente avançado de cabeça e pescoço (exceto lábio), com quimiorradiação. Droxia: reduzir crises dolorosas e a necessidade de transfusões na anemia falciforme com crises recorrentes moderadas a graves. Siklos: a mesma indicação, em adultos e crianças a partir de 2 anos.
União Europeia (EMA)
Siklos: prevenção de crises dolorosas vaso-oclusivas recorrentes, incluindo a síndrome torácica aguda, em crianças e adultos com síndrome falciforme sintomática. Xromi, em solução oral: prevenção de complicações vaso-oclusivas da doença falciforme acima dos 9 meses de idade.
| Produto | Onde tem registro | Apresentação | Uso aprovado |
|---|---|---|---|
| Genéricos, Tepev, Hixu e Leux | Brasil | Cápsula de 500 mg | Oncológico em bula; doença falciforme no protocolo do SUS |
| Siklos | Brasil, EUA e UE | Comprimidos de 100 mg e 1.000 mg | Doença falciforme (acima de 2 anos no Brasil; a partir de 2 anos nos EUA) |
| Hydrea | EUA (inativo no Brasil) | Cápsula de 500 mg | Leucemia mieloide crônica resistente; cabeça e pescoço |
| Droxia | EUA | Cápsulas de 200, 300 e 400 mg | Anemia falciforme |
| Xromi | UE | Solução oral | Doença falciforme acima de 9 meses |
Quem é candidato no SUS
Pelo protocolo de doença falciforme (2024), recebem hidroxiureia pessoas com os tipos HbSS, HbSβ0, HbSβ+ grave ou HbSD Punjab a partir dos 9 meses e com os tipos HbSC, HbSD ou HbSβ-talassemia a partir dos 2 anos; nesse segundo grupo, o uso a partir dos 9 meses é possível em casos especiais, como dactilite no primeiro ano de vida, hemoglobina abaixo de 7 g/dL ou leucócitos acima de 20.000/mm³. Ficam de fora, ao iniciar, pessoas com neutrófilos, plaquetas ou hemoglobina muito baixos e gestantes ou mulheres sexualmente ativas sem contracepção.
Evidências clínicas
MSH: adultos com anemia falciforme
O MSH (NCT00000586), randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, incluiu 299 adultos com três ou mais crises por ano e foi interrompido antes do prazo previsto, pelo menor número de crises com hidroxiureia. A mediana anual de crises dolorosas caiu de 4,6 para 2,5 (46% menos), a de crises com internação, de 2,5 para 1,0, e os episódios de síndrome torácica aguda, de 101 para 56; o número de pacientes transfundidos passou de 79 para 55.
BABY HUG: bebês de 9 a 18 meses
O BABY HUG (NCT00006400) randomizou 193 crianças de 9 a 18 meses, com HbSS ou HbSβ0, para hidroxiureia líquida (20 mg/kg por dia) ou placebo por 2 anos. Os desfechos principais, de função do baço e dos rins, não diferiram, mas houve menos eventos de dor (177 contra 375) e de dactilite (24 contra 123), e a toxicidade limitou-se a neutropenia leve a moderada. Esse estudo embasou, ao lado de estudos observacionais, a avaliação da Conitec para a faixa de 9 a 24 meses.
ESCORT-HU: crianças e adolescentes
Na coorte europeia ESCORT-HU (NCT02516579), aberta e de braço único, 405 pacientes de 2 a 18 anos usaram Siklos. Entre os 141 que nunca tinham usado hidroxiureia, a proporção com pelo menos uma internação por doença falciforme caiu de 75% para 42% no primeiro ano, e a com síndrome torácica aguda, de 24% para 6%.
Posologia e administração
A hidroxiureia é tomada por via oral, uma vez ao dia, com dose calculada pelo peso real ou ideal, o menor dos dois.
- Doença falciforme (SUS): início com 15 mg/kg por dia e aumentos de 5 mg/kg a cada 4 semanas, até 35 mg/kg por dia ou até surgir toxicidade. Até 25 kg, usa-se o comprimido de 100 mg, que pode ser partido ao meio e desintegrado em água; acima disso, a cápsula de 500 mg.
- Siklos (FDA): 15 mg/kg em adultos e 20 mg/kg em crianças, com aumentos de 5 mg/kg a cada 8 semanas, ou antes se houver crise grave, até 35 mg/kg por dia.
- Droxia (FDA): 15 mg/kg, com aumentos de 5 mg/kg a cada 12 semanas até a dose máxima tolerada ou 35 mg/kg por dia.
- Hydrea, uso oncológico (FDA): dose individualizada conforme o tumor, o estágio e a resposta.
Cuidados na administração e ajustes
O rótulo americano do Hydrea orienta engolir as cápsulas inteiras, sem abrir, partir ou mastigar, por se tratar de medicamento citotóxico, e recomenda ácido fólico preventivo. O protocolo brasileiro admite dissolver a cápsula de 500 mg em água para acertar a dose e recomenda que esse preparo seja feito em farmácia de manipulação. Com depuração de creatinina abaixo de 60 mL/min, a dose cai pela metade. Segundo o protocolo brasileiro, cerca de 25% dos pacientes não têm resposta satisfatória, e a suspensão pode ser considerada após 2 anos.
Hemograma durante o tratamento
Na doença falciforme, o hemograma é feito a cada 2 semanas (rótulos do Droxia e do Siklos); no uso oncológico, ao menos uma vez por semana (Hydrea). A dose só sobe se as contagens estiverem em faixa aceitável, e o medicamento é suspenso se elas atingirem níveis tóxicos.
Segurança
Nos Estados Unidos, o Droxia e o Siklos têm advertência em destaque (tarja/quadro de advertência) para mielossupressão grave e para malignidades: a hidroxiureia é carcinogênica, e o rótulo pede proteção solar e vigilância de câncer. O rótulo atual do Hydrea não traz advertência em destaque, mas lista esses mesmos riscos entre as advertências. A contraindicação é a hipersensibilidade à hidroxiureia ou a componentes da fórmula; no Brasil, a bula do Siklos acrescenta insuficiência hepática grave e insuficiência renal grave.
Principais advertências
- Sangue: a leucopenia costuma ser a primeira manifestação; pela bula brasileira das cápsulas, o tratamento não deve começar com leucócitos abaixo de 2.500/mm³, plaquetas abaixo de 100.000/mm³ ou anemia grave.
- Gravidez: pode causar dano fetal; contracepção eficaz durante o uso e por pelo menos 6 meses após, nas mulheres, e 1 ano, nos homens.
- Pele e vasos: úlceras vasculíticas e gangrena, sobretudo em quem usa ou usou interferona; câncer de pele em uso prolongado.
- Vacinas: evitar vacinas de vírus vivo durante o tratamento.
- HIV: pancreatite, lesão hepática e neuropatia com antirretrovirais como didanosina e estavudina.
- Outros: anemia hemolítica, macrocitose, toxicidade pulmonar e resultados falsamente elevados de ácido úrico, ureia e ácido lático.
Como funciona o acesso no Brasil
A hidroxiureia tem vários registros ativos e oferta nacional: a lista da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) de 09/09/2026 aponta comercialização em 2025 de cápsulas de 500 mg (Tepev, Leux e o genérico da Blau) e do Siklos de 100 mg, todos de tarja vermelha. Em regra, não depende de importação.
No SUS: doença falciforme
O protocolo de doença falciforme (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024) prevê cápsulas de 500 mg e comprimidos revestidos de 100 mg. Em 2024, a Portaria SECTICS/MS nº 2 incorporou a hidroxiureia para crianças de 9 a 24 meses com os tipos SS, Sβ0, Sβ+ grave e SD Punjab, mesmo sem sintomas, e a Portaria SECTICS/MS nº 4 incorporou o comprimido de 100 mg, sem incorporar o de 1.000 mg. O acompanhamento é feito em centro de referência com hematologista, e o centro que tem farmacêutico pode dispensar o medicamento, seguindo as regras do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.
No SUS: uso oncológico
Na leucemia mieloide crônica do adulto, o protocolo (Portaria Conjunta nº 04/2021) usa a hidroxiureia para reduzir os leucócitos enquanto se aguarda a confirmação do diagnóstico e para citorredução, com dose inicial de 2 g por dia e manutenção de 1 a 2 g por dia; o tratamento de base é o imatinibe.
Perguntas Frequentes
O Hydrea ainda existe no Brasil?
O registro do Hydrea está inativo. A hidroxiureia continua registrada como genérico, como os similares Tepev, Hixu e Leux e como Siklos.
Qual a diferença entre o Siklos e as cápsulas de 500 mg?
O Siklos vem em comprimidos de 100 mg e 1.000 mg e tem bula para doença falciforme acima dos 2 anos; as cápsulas genéricas e similares de 500 mg têm indicações oncológicas em bula. No SUS, a doença falciforme é tratada com as cápsulas de 500 mg e os comprimidos de 100 mg.
A hidroxiureia serve para crianças pequenas?
No SUS, a partir dos 9 meses em parte dos tipos da doença, com base, entre outros, no estudo BABY HUG. O Siklos é aprovado acima dos 2 anos no Brasil e a partir dos 2 anos nos Estados Unidos; na União Europeia, o Xromi, em solução oral, acima dos 9 meses.
Quais exames são feitos durante o tratamento?
Hemograma a cada 2 semanas na doença falciforme e ao menos semanal no uso oncológico, além da função renal, que define ajuste de dose.
Preciso importar a hidroxiureia?
Em regra, não. Há registro ativo, oferta nacional e fornecimento pelo SUS na doença falciforme.
Conclusão
A hidroxiureia é um antimetabólito oral com dois grandes usos: reduzir crises e transfusões na doença falciforme e controlar algumas doenças oncológicas. O Hydrea não está mais registrado no Brasil, mas genéricos, similares e o Siklos estão, e o SUS fornece o medicamento pelo protocolo de doença falciforme. O cuidado central é o hemograma regular.
Fontes
- FDA, rótulo de Hydrea (hidroxiureia) (DailyMed), H2-Pharma LLC, revisão 01/2026; setid 6053c775-68de-45e4-9af9-33b18fd0e140.
- FDA, rótulo de Droxia (hidroxiureia) (DailyMed), H2-Pharma LLC, revisão 01/2026; setid a9494409-3571-4a81-9ad3-15ef7cb636a2.
- FDA, rótulo de Siklos (hidroxiureia) (DailyMed), Medunik, revisão 01/2026; setid 76957c0d-0f98-4376-bb06-eee651adc09d.
- EMA — Siklos, EPAR, EMEA/H/C/000689.
- EMA — Xromi, EPAR, EMEA/H/C/004837.
- ANVISA — Consulta de medicamentos: Hydrea, registro 1.0180.0093, Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda., inativo, consulta em 23/09/2026.
- ANVISA — Consulta de medicamentos: Siklos, registro 1.9453.0001, Masters Speciality Pharma Ltda., ativo, consulta em 23/09/2026.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 873: hidroxiureia para doença falciforme (SS, Sbeta0 e SD Punjab) entre 9 e 24 meses de idade, 2024.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 872: hidroxiureia 100 mg e 1.000 mg para doença falciforme a partir dos 9 meses de idade, 2024.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta nº 04, de 1º de março de 2021: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Leucemia Mieloide Crônica do Adulto.
- Charache S et al., N Engl J Med, 1995;332(20):1317-1322. PMID 7715639 (MSH; ClinicalTrials.gov NCT00000586).
- Wang WC et al., Lancet, 2011;377(9778):1663-1672. PMID 21571150 (BABY HUG; ClinicalTrials.gov NCT00006400).
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