Tegsedi (inotersena): oligonucleotídeo antissenso na polineuropatia da amiloidose hereditária por transtirretina

Resumo rápido

  • O Tegsedi (inotersena) é um oligonucleotídeo antissenso subcutâneo e semanal que reduz a produção de transtirretina (TTR), usado em adultos com polineuropatia da amiloidose hereditária por TTR; tem registro ativo na ANVISA (1.5770.0002, PTC Farmacêutica do Brasil).
  • No estudo NEURO-TTR, a inotersena superou o placebo na semana 66: diferença de −19,7 pontos no escore de neuropatia mNIS+7 e de −11,7 no questionário de qualidade de vida Norfolk QOL-DN.
  • O rótulo norte-americano trazia quadro de advertência em destaque para queda de plaquetas e glomerulonefrite; o uso exige exames frequentes de sangue e de urina e suplementação de vitamina A.
  • No exterior, o produto está saindo do mercado: aprovação retirada a pedido da titular nos Estados Unidos (14/02/2025), registro cancelado no Canadá (24/10/2024) e descontinuação comercial na União Europeia a partir de 01/12/2026.
  • No Brasil, o Tegsedi consta como comercializado em 2025, mas não foi incorporado ao SUS, que fornece o tafamidis; nos planos de saúde, a questão é de custeio, não de importação.

O que é Tegsedi (inotersena)?

Tegsedi é o nome comercial da inotersena (no registro brasileiro, inotersena nonadecassódica), oligonucleotídeo antissenso em solução injetável para uso subcutâneo, em seringa preenchida de dose única. É a única marca, sem genéricos. A União Europeia o autorizou em 06/07/2018, e a FDA, em 05/10/2018 (NDA 211172), em aprovação regular e como medicamento órfão. No Brasil, o registro 1.5770.0002 está ativo em nome da PTC Farmacêutica do Brasil, com vencimento em 10/2029.

Cada seringa de 1,5 mL contém 284 mg de inotersena, equivalentes a 300 mg do sal; por isso a CMED descreve a apresentação brasileira como 200 mg/mL, em caixa com 4 seringas.

Mecanismo de ação

A transtirretina (TTR) é uma proteína produzida principalmente pelo fígado. Na amiloidose hereditária por TTR, uma alteração genética a torna instável, e ela se deposita como amiloide em nervos e outros órgãos, causando a polineuropatia: perda de sensibilidade e de força e alterações das funções automáticas.

A inotersena é um oligonucleotídeo antissenso (ASO) da química 2′-MOE: uma fita curta de material genético sintético que se liga ao RNA mensageiro da TTR e provoca sua degradação, o que reduz a produção da proteína mutante e da normal (selvagem). Como a TTR participa do transporte da vitamina A, o nível da vitamina também cai.

A inotersena, semanal, não deve ser confundida com a eplontersena (Wainua), outro ASO, mensal, nem com os siRNA patisirana (Onpattro) e vutrisirana (Amvuttra).

Indicações

A indicação é a polineuropatia da amiloidose hereditária por TTR, somente em adultos: o uso pediátrico não foi estabelecido, e a União Europeia dispensou estudos em crianças. Entre as agências, muda o estágio da doença.

Estados Unidos (FDA)

Enquanto esteve aprovado, o rótulo americano (revisão de 01/2024) indicava o tratamento da polineuropatia da amiloidose hereditária mediada por transtirretina em adultos, sem limitar o estágio.

União Europeia (EMA)

A bula europeia restringe o uso a adultos em estágio 1 (caminha sem ajuda) ou 2 (caminha com ajuda); o estágio 3 fica fora. A autorização, renovada em 24/03/2023 com validade ilimitada, segue em vigor, com descontinuação anunciada para 01/12/2026.

Evidências clínicas

Estudo NEURO-TTR

O NEURO-TTR (NCT01737398), registrado como fase 2/3 e publicado como fase 3, foi randomizado (2 para 1), duplo-cego e controlado por placebo. Dos 173 adultos randomizados, 172 foram tratados (112 com inotersena e 60 com placebo), todos no estágio 1 ou 2, com escore de comprometimento neuropático (NIS) entre 10 e 130; a inotersena foi aplicada em 284 mg por via subcutânea, semanalmente, por 65 semanas. Três centros eram brasileiros: UFRJ, AACD e UNIFESP.

Na semana 66, a diferença entre inotersena e placebo foi de −19,7 pontos no mNIS+7, que mede o comprometimento neuropático (IC 95% −26,4 a −13,0; P < 0,001), e de −11,7 pontos no questionário de qualidade de vida Norfolk QOL-DN (IC 95% −18,3 a −5,1; P < 0,001); nas duas escalas, pontuação maior indica mais comprometimento. O efeito foi consistente por estágio, mutação e presença de cardiomiopatia, e 81% concluíram o estudo. Houve 5 mortes no grupo da inotersena e nenhuma no placebo, além de 3 casos de glomerulonefrite e 3 de queda grave de plaquetas, um deles fatal.

Extensão aberta e troca para eplontersena

Na extensão aberta (NCT02175004), o benefício se manteve com exposição mediana de 3 anos, sem novos sinais de segurança com até 6,2 anos de uso. Em publicação de 2024, 20 de 24 pacientes trocaram a inotersena pela eplontersena: a redução da TTR passou de −74,3% para −80,6%, a doença ficou estável e as plaquetas se normalizaram. Em comparação indireta, a Conitec (2023) considerou a patisirana superior à inotersena em mNIS+7, Norfolk QOL-DN, índice de massa corporal e escore PND.

Posologia e administração

Nos rótulos americano e europeu, a dose é de 284 mg de inotersena em injeção subcutânea, uma vez por semana, sempre no mesmo dia. Não há pré-medicação, e a duração do tratamento não é definida.

  • Aplicação: a primeira autoaplicação é orientada por um profissional de saúde; os locais são abdome, coxa ou face externa do braço (no braço, só se outra pessoa aplicar), com rodízio, evitando cintura, cicatrizes e tatuagens.
  • Preparo: tirar da geladeira pelo menos 30 minutos antes; a seringa é de uso único.
  • Dose esquecida: aplicar assim que possível; se a próxima estiver a 2 dias ou menos, pular a esquecida.
  • Vitamina A: o rótulo americano previa suplementar a ingestão diária recomendada, sem doses maiores; a bula europeia indica cerca de 3.000 UI por dia, corrigindo o retinol antes do início.
  • Rins e fígado: sem ajuste na insuficiência renal leve ou moderada (a grave não foi estudada) nem na insuficiência hepática leve.
  • Conservação: de 2 °C a 8 °C, na embalagem, protegida da luz e sem congelar; até 6 semanas a no máximo 30 °C.

Segurança

O rótulo norte-americano trazia quadro de advertência em destaque (tarja) para trombocitopenia, queda de plaquetas súbita e potencialmente fatal (houve uma morte por hemorragia intracraniana), e para glomerulonefrite, inflamação dos filtros dos rins que podia exigir imunossupressão ou levar à diálise; o acesso nos Estados Unidos era só pelo programa de controle de riscos TEGSEDI REMS. A bula europeia não tem tarja, mas prevê materiais educativos e cartão de alerta para o paciente.

Contraindicações no rótulo americano: plaquetas abaixo de 100 × 10⁹/L; história de glomerulonefrite aguda causada pelo Tegsedi; e história de hipersensibilidade ao Tegsedi. Na bula europeia: hipersensibilidade; plaquetas abaixo de 100 × 10⁹/L antes do início; relação proteína/creatinina na urina (UPCR) de 113 mg/mmol (1 g/g) ou mais antes do início; taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) abaixo de 45 mL/min/1,73 m²; e insuficiência hepática grave.

Exames de controle: rótulo americano e bula europeia

Exame Rótulo americano (revisão de 01/2024) Bula europeia
Plaquetas Toda semana A cada 2 semanas
Plaquetas de 75 a menos de 100 × 10⁹/L Interromper e retomar só acima de 100 × 10⁹/L Contagem semanal; aplicação passa a ser a cada 2 semanas
Rim A cada 2 semanas UPCR e TFGe a cada 3 meses
Fígado Todo mês Aos 4 meses e depois uma vez por ano; todo mês após transplante de fígado

Pelo rótulo americano, de 25 a menos de 75 × 10⁹/L a contagem passava a 2 vezes por semana e o tratamento só voltava após 3 valores seguidos acima de 100; abaixo de 50, recomendava-se corticoide; abaixo de 25, a contagem passava a diária e o tratamento era suspenso de vez. UPCR de 1.000 mg/g ou mais ou TFGe abaixo de 45 suspendiam a aplicação, e UPCR de 2.000 mg/g ou mais pedia investigação de glomerulonefrite aguda; os exames seguiam por 8 semanas após a parada. A bula europeia também pede contagem 2 vezes por semana abaixo de 75, com a aplicação pausada até 3 valores seguidos acima de 100 e retomada a cada 2 semanas.

Outras advertências (inotersena contra placebo):

  • Plaquetas: abaixo de 100 × 10⁹/L em 25% contra 2%, e abaixo de 25 × 10⁹/L em 3%; a aglutinação de plaquetas na amostra (às vezes ligada ao EDTA) tornou ao menos uma contagem ininterpretável em 23% contra 13%.
  • Vasos e imunidade: AVC e dissecção de artérias do pescoço e da cabeça em 0,6%, até 2 dias após a primeira dose; efeitos inflamatórios e imunes, inclusive vasculite ANCA positiva.
  • Fígado: ALT acima de 3 vezes o limite superior em 8% contra 3%; houve rejeição de fígado transplantado.
  • Outros: hipersensibilidade levou 4% a interromper; a vitamina A no sangue caiu em média 63% na semana 65, e cegueira noturna exige oftalmologista.
  • Gravidez e amamentação: sem dados em humanos; a bula europeia exige excluir gravidez e usar contracepção eficaz.
  • Interações: cautela com AAS, AINEs, clopidogrel, varfarina, heparinas, anti-Xa, dabigatrana e nefrotóxicos; sem relevância para as enzimas CYP.

Reações mais comuns, com inotersena contra placebo: no local da injeção (49% contra 10%), náusea (31% contra 12%), dor de cabeça (26% contra 12%), fadiga (25% contra 20%), queda de plaquetas (24% contra 2%) e febre (20% contra 8%); eventos adversos graves, 32% contra 21%.

Como funciona o acesso no Brasil

O Tegsedi tem registro ativo na ANVISA (1.5770.0002, PTC Farmacêutica do Brasil; dados abertos consultados em 02/10/2026), e a lista de preços da CMED gerada em 23/09/2026 aponta comercialização em 2025. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.

Saída do mercado no exterior

Nos Estados Unidos, a titular, Akcea, encerrou a comercialização em 27/09/2024 e pediu a retirada da aprovação por não comercializar mais o produto; a retirada valeu a partir de 14/02/2025, sem motivo de segurança citado pela FDA. No Canadá, o registro foi cancelado em 24/10/2024. Na União Europeia, o produto segue autorizado, mas comunicado de 03/07/2026 anunciou a descontinuação permanente a partir de 01/12/2026, por motivo comercial (baixo uso), não de segurança, eficácia ou qualidade; a orientação é não iniciar novos pacientes e trocar o tratamento dos atuais.

No SUS

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das amiloidoses associadas à TTR (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 12, de 24/07/2025) prevê tafamidis meglumina 20 mg na polineuropatia em estágio I, sem transplante, tafamidis 61 mg na cardiomiopatia e transplante de fígado; o uso de inotersena, patisirana e vutrisirana “não é preconizado”.

A pedido da PTC, a Conitec avaliou a inotersena em 2023, sem incorporação para o estágio 2 nem para quem não respondeu ao tafamidis, pela relação de custo-efetividade (Relatório nº 799; Portaria SECTICS/MS nº 24/2023), e em 2024, de novo sem incorporação para o estágio 2, mesmo com desconto de 47% (Portaria SECTICS/MS nº 47, de 03/10/2024). Patisirana (Portaria nº 58/2023) e vutrisirana no estágio II (Portaria nº 11, de 18/02/2025) também não foram incorporadas.

Planos de saúde e negativas

Nos planos, a cobertura segue a Lei 9.656/1998 e as normas da ANS; como a inotersena é aplicada em casa, convém confirmar a cobertura com a operadora, por escrito. Havendo negativa, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação, com relatório médico detalhado e orientação jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

O Tegsedi foi retirado do mercado?

Nos Estados Unidos, sim: a aprovação foi retirada em 14/02/2025, a pedido da titular, que já não o comercializava; a FDA não citou motivo de segurança. No Canadá, o registro foi cancelado em 24/10/2024; na União Europeia, a descontinuação comercial começa em 01/12/2026. No Brasil, o registro está ativo, e a continuidade da oferta deve ser confirmada com o médico e o fornecedor.

Preciso importar a inotersena?

Em regra, não. O Tegsedi tem registro ativo na ANVISA e consta como comercializado no Brasil em 2025, e lá fora está saindo de linha. A dificuldade costuma ser o custeio.

O SUS fornece a inotersena?

Não. Ela não foi incorporada em 2023 nem em 2024, e o protocolo das amiloidoses por TTR diz que seu uso “não é preconizado”. Na polineuropatia, o SUS fornece tafamidis meglumina 20 mg no estágio I, sem transplante.

Por que é preciso tomar vitamina A?

Porque a inotersena reduz a vitamina A no sangue (queda média de 63% na semana 65). A suplementação segue as doses da bula, listadas acima.

A inotersena serve para a cardiomiopatia por TTR?

Não. A cardiomiopatia (ATTR-CM) nunca foi indicação aprovada nos Estados Unidos nem na União Europeia, e um estudo de fase 2 nessa forma da doença (NCT03702829) foi encerrado por falta de recrutamento na pandemia de COVID-19, sem resultados no registro. Para ela, o protocolo do SUS prevê tafamidis 61 mg (no Brasil, Vynkella).

Conclusão

A inotersena reduz a produção de TTR e, no NEURO-TTR, superou o placebo na neuropatia e na qualidade de vida, mas exige vigilância frequente de plaquetas, rins e fígado e suplementação de vitamina A. Está saindo do mercado no exterior. No Brasil, tem registro ativo e está fora do SUS; a continuidade da oferta deve ser confirmada com o médico e o fornecedor, e negativas de cobertura são questão de custeio.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Tegsedi (inotersena) (DailyMed), Akcea Therapeutics, revisão 01/2024; setid 8513207e-b55f-417b-9473-af785146a543.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 211172 (Tegsedi), aprovação em 05/10/2018; carta S-015 de 22/11/2024.
  3. FDA, Federal Register 90 FR 3877 — retirada da NDA 211172 (Tegsedi) em 14/02/2025.
  4. EMA — Tegsedi, EPAR, EMEA/H/C/004782.
  5. EMA — Tegsedi, comunicado de descontinuação de 03/07/2026.
  6. ANVISA — Dados abertos de medicamentos: Tegsedi (inotersena nonadecassódica), registro 1.5770.0002, PTC Farmacêutica do Brasil Ltda., ativo, vencimento 10/2029; consulta em 02/10/2026.
  7. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMVG), gerada em 23/09/2026: Tegsedi 200 mg/mL, solução injetável subcutânea, 4 seringas preenchidas de 1,5 mL, comercializado em 2025.
  8. Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 12, de 24 de julho de 2025: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas das Amiloidoses Associadas à Transtirretina.
  9. Conitec — Relatório de Recomendação nº 799: inotersena, 2023.
  10. Ministério da Saúde — Portaria SECTICS/MS nº 47, de 3 de outubro de 2024 (inotersena).
  11. Benson MD et al., N Engl J Med, 2018;379(1):22-31. PMID 29972757 (NEURO-TTR; ClinicalTrials.gov NCT01737398).
  12. Brannagan TH et al., J Neurol, 2022;269(12):6416-6427. PMID 35908242 (ClinicalTrials.gov NCT02175004).
  13. Conceição I et al., J Neurol, 2024;271(10):6655-6666. PMID 39138650.

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

Precisa de mais informações sobre este medicamento?

Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.


💬 Fale pelo WhatsApp

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp

Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.

Preencha os campos para liberar

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tegsedi (inotersena): oligonucleotídeo antissenso na polineuropatia da amiloidose hereditária por transtirretina

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

DEIXE UM COMENTÁRIO

Rolar para cima