Resumo rápido
- A bleomicina é um quimioterápico injetável, mistura de antibióticos glicopeptídicos do Streptomyces verticillus; no Brasil, a marca comercializada é o Bonar (Aché), em frasco de 15 unidades.
- Integra o ABVD, esquema mais comum no linfoma de Hodgkin, e o BEP, nos tumores de testículo, e é usada em carcinomas espinocelulares e no derrame pleural maligno.
- O rótulo americano tem advertência em destaque para fibrose pulmonar, mais frequente em idosos e acima de 400 unidades no total, e para reação idiossincrática grave em cerca de 1% dos pacientes com linfoma.
- No RATHL, sem bleomicina após PET negativo no linfoma de Hodgkin avançado, a sobrevida livre de progressão em 3 anos foi de 84,4%, contra 85,7% com ABVD, sem diferença significativa e com eventos respiratórios menos graves.
- Tem registro ativo na ANVISA e restrição hospitalar; no SUS, é comprada pelo serviço habilitado em oncologia. O nome Bleozee não tem registro no Brasil.
O que é Bonar (bleomicina)?
Bonar é o nome comercial do sulfato de bleomicina da Aché Laboratórios Farmacêuticos S.A. (registro ANVISA 1.0573.0676), em pó liofilizado de 15 U com ampola de diluente de 5 mL. A bleomicina, mistura de antibióticos glicopeptídicos citotóxicos, tem como Denominação Comum Brasileira bleomicina (nº 01317) e sulfato de bleomicina (nº 01318), para o sal. Nos EUA, a marca original, Blenoxane (NDA 050443, aprovada em 31/07/1973), foi descontinuada sem relação com segurança ou eficácia, e só há genéricos.
Nos EUA e no Brasil, a dose é expressa em unidades (U), equivalentes à antiga “miligrama de atividade”. A ficha técnica espanhola usa a unidade internacional da Farmacopeia Europeia: 1 U equivale a 1.000 UI, e o frasco de 15 U corresponde a 15.000 UI. Por isso, a unidade do rótulo deve ser conferida antes de qualquer conversão de dose.
Onde a bleomicina entra no tratamento do câncer
No linfoma de Hodgkin, o esquema mais comum é o ABVD (doxorrubicina, bleomicina, vimblastina e dacarbazina), segundo o protocolo do Ministério da Saúde; a bleomicina também integra o BEACOPP. Nos tumores de células germinativas do testículo, compõe o BEP, com etoposídeo e cisplatina. Na cavidade pleural, age como esclerosante no derrame pleural maligno.
Mecanismo de ação
O mecanismo exato não é conhecido. A principal ação é inibir a síntese de DNA, com efeito menor sobre RNA e proteínas: a bleomicina quebra fitas simples e, em menor grau, duplas do DNA e para o ciclo celular nas fases G2 e M.
É inativada pela enzima bleomicina hidrolase, presente na maioria dos tecidos, exceto pele e pulmão, justamente os alvos de toxicidade. Cerca de 65% da dose venosa sai na urina em 24 horas, com meia-vida de 2 horas se os rins estão normais; a insuficiência renal prolonga muito a eliminação.
Indicações
Nos rótulos americano e brasileiro, é tratamento paliativo, isolada ou combinada a outros quimioterápicos.
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo vigente dos genéricos (Meitheal, revisão de 02/2026): carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço (inclusive boca, faringe, laringe e pele), pênis, colo do útero e vulva, com resposta pior após irradiação de cabeça e pescoço; linfomas de Hodgkin e não Hodgkin; carcinoma de testículo (embrionário, coriocarcinoma e teratocarcinoma); e derrame pleural maligno. Segurança e eficácia em crianças não foram estabelecidas. No estudo do rótulo, o derrame voltou em 30 dias em 36% com bleomicina e em 67% com tetraciclina (p=0,023).
União Europeia (EMA)
Não há EPAR: os produtos têm autorizações nacionais. Pela ficha técnica espanhola da Bleomicina Viatris (revisão de 04/2024): carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço, genitais externos e colo do útero; linfoma de Hodgkin; linfoma não Hodgkin de malignidade intermediária ou alta, em adultos; carcinoma de testículo (seminoma e não seminoma); e derrame pleural maligno, por via intrapleural. Em crianças, só em casos excepcionais e em centros especializados.
Brasil (ANVISA)
A bula do Blesto (Eurofarma), atualizada pela bula padrão aprovada pela ANVISA em 03/06/2026, de uso adulto e pediátrico e restrito a estabelecimentos de saúde, traz as mesmas indicações do rótulo americano.
Evidências clínicas
RATHL: retirada da bleomicina guiada pelo PET no linfoma de Hodgkin
Estudo de fase 3 (NCT00678327) com 1.214 adultos com linfoma de Hodgkin clássico avançado: 2 ciclos de ABVD e PET-CT interino. Dos 1.119 avaliados pelo protocolo, 937 (83,7%) tiveram PET negativo; 935 foram sorteados para manter o ABVD ou retirar a bleomicina (AVD) nos ciclos 3 a 6; o seguimento mediano foi de 41 meses.
| ABVD contra AVD (PET negativo) | Resultado |
|---|---|
| Sobrevida livre de progressão em 3 anos | 85,7% (IC 95% 82,1 a 88,6) contra 84,4% (80,7 a 87,5); diferença de 1,6 ponto (IC 95% −3,2 a 5,3) |
| Sobrevida global em 3 anos | 97,2% contra 97,6% |
| Margem de não inferioridade (5 pontos) | Não atingida por pouco; para os autores, a retirada reduziu a toxicidade pulmonar sem perda significativa de eficácia |
| PET positivo, passagem ao BEACOPP (172) | Sobrevida livre de progressão de 67,5% e global de 87,8% em 3 anos |
BEP no câncer de testículo
Dois estudos randomizados testaram o BEP em tumores de células germinativas disseminados:
| Estudo | Resultado |
|---|---|
| BEP contra PVB, com vimblastina (261 homens) | Livres de doença: 83% contra 74%, sem significância; com grande volume tumoral, 77% contra 61% (p<0,05); sobrevida maior com BEP (p=0,048), com menos parestesias e dores musculares |
| BEP contra etoposídeo e cisplatina, não seminoma de bom prognóstico (395 elegíveis) | Resposta completa de 95% contra 87% (p=0,0075); sem diferença significativa de sobrevida em 7,3 anos de seguimento mediano; mais toxicidade pulmonar e neurológica e 2 mortes por toxicidade pulmonar com BEP |
Posologia e administração
Pelo rótulo americano e pela bula do Blesto, as vias são muscular, venosa, subcutânea e intrapleural:
- Linfomas: 2 unidades ou menos nas duas primeiras doses, pelo risco de reação anafilactoide.
- Esquema habitual: 0,25 a 0,50 U/kg (10 a 20 U/m²) na veia, no músculo ou sob a pele, 1 ou 2 vezes por semana; no Hodgkin, após 50% de resposta, manutenção de 1 U por dia ou 5 U por semana.
- Dose total: a toxicidade pulmonar sobe de forma marcante acima de 400 U, que pedem muito cuidado. A ficha espanhola limita o total a 400 mil UI (400 U) nos carcinomas, a 225 mil UI no linfoma em monoterapia e a 100 mil UI a partir de 80 anos.
- Derrame pleural: 60 U em dose única, em 50 a 100 mL de soro fisiológico, pelo dreno de tórax.
- Rins: com depuração de creatinina abaixo de 50 mL/min, 70% da dose (40 a 50), 60% (30 a 40), 55% (20 a 30), 45% (10 a 20) e 40% (5 a 10).
- Preparo: na veia, 15 U em 5 mL de soro fisiológico, em 10 minutos, sem soro glicosado; frasco de 2 a 8 °C.
Segurança
O rótulo americano traz advertência em destaque (tarja): uso sob supervisão de médico experiente em quimioterapia, com recursos para tratar complicações; fibrose pulmonar como toxicidade mais grave, em geral após pneumonite, mais frequente em idosos e acima de 400 unidades no total, mas vista também em jovens e com doses baixas; e reação idiossincrática grave (queda de pressão, confusão mental, febre, calafrios e chiado) em cerca de 1% dos pacientes com linfoma. Nos EUA e no Brasil, a única contraindicação é hipersensibilidade ou reação idiossincrática prévia; a ficha espanhola acrescenta infecção pulmonar aguda, função pulmonar muito reduzida, toxicidade pulmonar prévia pela bleomicina, ataxia-telangiectasia e amamentação.
Advertências principais
- Pulmão: toxicidade em cerca de 10%, com fibrose e morte em cerca de 1%, mais comum acima de 70 anos; radiografia de tórax a cada 1 a 2 semanas e, se usada, difusão de monóxido de carbono mensal, com suspensão abaixo de 30% a 35% do valor inicial.
- Oxigênio: durante e após a cirurgia, manter a fração inspirada perto da do ar ambiente (25%), pois o pulmão se lesa com concentrações antes seguras.
- Reação idiossincrática: parecida com anafilaxia, imediata ou horas depois, em geral na 1ª ou 2ª dose.
- Pele e mucosas: em cerca de 50% (vermelhidão, escurecimento, unhas, queda de cabelo, estomatite), em geral após 150 a 200 U.
- Vasos e sangue: infarto, AVC e Raynaud em combinações; na União Europeia, alerta de leucemia mieloide aguda e mielodisplasia com outros antineoplásicos.
- Rins e fígado: há relatos de toxicidade, a qualquer momento do uso.
Interações, gravidez e amamentação
- Cisplatina: nefrotóxicos podem reduzir a eliminação; houve toxicidade pulmonar fatal com insuficiência renal não reconhecida causada pela cisplatina.
- Outras (ficha espanhola): reduz os níveis de fenitoína e a absorção da digoxina; radioterapia e fármacos tóxicos ao pulmão somam risco; vacinas vivas, como a de febre amarela, não devem ser usadas.
- Gravidez: pode causar dano fetal; pela ficha espanhola, homens e mulheres devem usar anticoncepção até 3 meses após o tratamento.
- Amamentação: o rótulo americano recomenda suspender; na Espanha, é contraindicação.
Como funciona o acesso no Brasil
Nos dados abertos da ANVISA de 23/10/2026, a bleomicina tem cinco registros ativos: Bonar (Aché, 1.0573.0676, até 04/2030), Blesto (Eurofarma, 1.0043.1509), Cinaleo (Cipla, 1.1541.0008) e genéricos da Eurofarma e da Accord. Na Lista CMED de 09/10/2026, só o Bonar consta como comercializado em 2025, com restrição hospitalar; o Blesto não foi comercializado em 2025, e os demais não aparecem. A bleomicina não está nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/1998. O acesso não passa por importação: quem compra é a instituição que aplica a quimioterapia.
No SUS: comprada pelo serviço habilitado
A Portaria GM/MS nº 8.477/2025 criou o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), financiado pela União, para organizar o acesso aos medicamentos oncológicos. No elenco atualizado em 02/09/2026, o sulfato de bleomicina 15 U é de aquisição descentralizada: o serviço habilitado em oncologia (UNACON ou CACON) programa, compra, armazena e administra o medicamento, com registro em APAC. Pela Lei nº 12.732/2012, o paciente tem direito a iniciar o primeiro tratamento em até 60 dias do diagnóstico em laudo patológico.
No linfoma de Hodgkin: o que diz o protocolo
O PCDT do Linfoma de Hodgkin no Adulto (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 24/2020) tem o ABVD como esquema mais comum. Na doença avançada com PET-CT negativo após 2 ciclos, os 4 ciclos restantes são sem bleomicina (AVD). Em idosos, ela pede muito cuidado e provavelmente deve ser omitida acima de 80 anos ou em quem é muito frágil, tem depuração de creatinina de até 5 mL/min, fuma ou tem doença pulmonar significativa.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 obriga o plano ambulatorial a cobrir tratamentos ambulatoriais pedidos pelo médico assistente (art. 12, I, “b”) e o hospitalar a fornecer medicamentos e sessões de quimioterapia na internação (art. 12, II, “d”) e antineoplásicos ambulatoriais ligados à continuidade da assistência hospitalar (art. 12, II, “g”). O paciente não compra a bleomicina; uma negativa é discussão de custeio, não de importação, e pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Se faltar no mercado: importação pela instituição
Segundo a ANVISA, o mercado ficou sem bleomicina entre a descontinuação do único fornecedor, notificada em 28/08/2017, e a reativação, notificada em 19/05/2020; em 2021, com oferta reduzida, a Diretoria Colegiada autorizou hospitais a importar, em caráter excepcional, frascos fabricados na Índia e sem registro no Brasil. A regra é a RDC nº 488/2021: a unidade de saúde pode importar, para uso próprio e sem revenda, produto sem registro e indisponível no país, com autorização da Diretoria Colegiada, e responde pela avaliação de benefício e risco.
Perguntas Frequentes
Preciso importar a bleomicina?
Em regra, não: o Bonar tem registro ativo e consta como comercializado em 2025 na CMED, e quem compra é o hospital ou a clínica que aplica a quimioterapia.
O Bleozee tem registro na ANVISA?
Não: o nome não consta dos dados abertos da ANVISA de 23/10/2026 nem da Lista CMED de 09/10/2026. Os registros ativos de bleomicina são Bonar, Blesto, Cinaleo e dois genéricos.
Por que a bleomicina às vezes é retirada do ABVD?
Pela toxicidade pulmonar: no RATHL e no PCDT, quem tem PET-CT negativo após 2 ciclos na doença avançada segue sem bleomicina (AVD).
Quais exames acompanham o tratamento?
Radiografia de tórax a cada 1 a 2 semanas, difusão de monóxido de carbono mensal, se usada, e função dos rins, que define o ajuste da dose.
Conclusão
A bleomicina é um quimioterápico injetável usado sobretudo no ABVD do linfoma de Hodgkin e no BEP dos tumores de testículo, com risco pulmonar maior em idosos, em doses totais altas e com rins comprometidos. No Brasil, tem registro ativo, restrição hospitalar e oferta no SUS pelos serviços habilitados em oncologia. A indicação e o esquema cabem à equipe médica.
Fontes
- FDA — Bleomicina para injeção (sulfato de bleomicina), rótulo vigente: ANDA 205030, Meitheal Pharmaceuticals, revisão de 02/2026; DailyMed, versão de 22/04/2026; Blenoxane, NDA 050443 (Bristol-Myers Squibb), descontinuado.
- EMA — Bleomicina: sem autorização centralizada (relatório de medicamentos de 23/10/2026); PSUSA/00000422/202203, posição do CMDh de 12/2022.
- AEMPS (Espanha) — Bleomicina Viatris 15.000 UI (Ph. Eur.) = 15 U (USP), ficha técnica, autorização nº 49313, revisão de 04/2024.
- ANVISA — Blesto (sulfato de bleomicina) 15 U, bula para o profissional de saúde, Eurofarma, registro 1.0043.1509, conforme bula padrão aprovada em 03/06/2026.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (23/10/2026) e Lista CMED de 09/10/2026: Bonar 1.0573.0676 (Aché; ativo até 04/2030; comercializado em 2025, restrição hospitalar), Blesto, Cinaleo e genéricos.
- ANVISA — Lista das DCB (IN nº 473/2026): bleomicina (01317) e sulfato de bleomicina (01318); RDC nº 1.036/2026 (Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998).
- ANVISA — Votos nº 58/2021 e nº 196/2021/SEI/DIRE5 (Circuitos Deliberativos 185/2021 e 677/2021); RDC nº 488/2021.
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 8.477, de 20/10/2025 (AF-Onco), e elenco do AF-Onco, atualizado em 02/09/2026.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 24, de 29/12/2020: PCDT do Linfoma de Hodgkin no Adulto.
- Brasil — Lei nº 9.656/1998 (arts. 10 e 12) e Lei nº 12.732/2012 (art. 2º).
- Johnson P et al., N Engl J Med, 2016;374(25):2419-2429. PMID 27332902 (RATHL; ClinicalTrials.gov NCT00678327).
- Williams SD et al., N Engl J Med, 1987;316(23):1435-1440. PMID 2437455.
- de Wit R et al., J Clin Oncol, 1997;15(5):1837-1843. PMID 9164193 (EORTC).
Sobre a Medicsupply
Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.
Precisa de mais informações sobre este medicamento?
Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp
Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.
