Resumo rápido
- O Xeljanz (tofacitinibe) é um inibidor oral de Janus quinases (JAK) em comprimidos de 5 e 10 mg, com registro ativo na ANVISA (1.2110.0465, Pfizer Brasil) e comercialização em 2025; a solução oral não consta da bula brasileira.
- Indicado a adultos com artrite reumatoide, artrite psoriásica, espondilite anquilosante e retocolite ulcerativa e, a partir de 2 anos, na artrite idiopática juvenil (AIJ) poliarticular (no Brasil, com 40 kg ou mais) e, nos EUA e na UE, na artrite psoriásica juvenil. Nos EUA, todas as indicações exigem falha ou intolerância a bloqueador de TNF.
- No ORAL Surveillance (4.362 pessoas com artrite reumatoide, 50 anos ou mais e risco cardiovascular), não demonstrou não inferioridade ao anti-TNF: câncer, razão de risco 1,48 (IC 95% 1,04 a 2,09); eventos cardiovasculares maiores, 1,33 (IC 95% 0,91 a 1,94).
- A tarja americana cobre infecções graves, mortalidade, câncer, eventos cardiovasculares maiores e trombose; na Europa, com 65 anos ou mais ou risco cardiovascular ou de câncer, só se usa sem alternativa adequada.
- O SUS o prevê nos protocolos de artrite reumatoide, artrite psoriásica e retocolite, não na espondilite nem na AIJ; não há DUT na ANS. Negativas são questão de custeio.
O que é Xeljanz (tofacitinibe)?
Xeljanz é o nome comercial do tofacitinibe (na forma de citrato), inibidor de JAK oral da Pfizer, aprovado pela FDA em 06/11/2012 (NDA 203214) e na União Europeia em 22/03/2017. Nos EUA, há também o Xeljanz XR, de liberação prolongada, e, desde 25/09/2020, solução oral de 1 mg/mL. No Brasil, a Pfizer Brasil registra comprimidos de 5 e 10 mg, fabricados na Alemanha, em frascos de 60.
Artrites inflamatórias e retocolite ulcerativa
A artrite reumatoide é inflamatória e crônica, destrói as articulações de forma irreversível e é mais frequente em mulheres e entre 30 e 50 anos (prevalência de 0,46% em estudo de Minas Gerais). A artrite psoriásica une artrite a placas descamativas na pele; a espondilite anquilosante inflama as articulações da coluna; a retocolite ulcerativa causa inflamação recorrente e úlceras na mucosa do intestino grosso; e a AIJ poliarticular acomete mais de quatro articulações nos seis primeiros meses.
Mecanismo de ação
As JAKs são enzimas intracelulares que transmitem sinais de citocinas e fatores de crescimento e influenciam a formação do sangue e a função imune: fosforilam e ativam as proteínas STAT, que modulam a expressão de genes. O tofacitinibe impede essa ativação; em laboratório, inibiu mais JAK1/JAK3 (IC50 de 56 nM) que JAK1/JAK2 (406 nM) e JAK2/JAK2 (1.377 nM), sem relevância clínica conhecida de cada combinação.
Indicações
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo revisado em 09/2026, as indicações exigem resposta inadequada ou intolerância a um ou mais bloqueadores de TNF: artrite reumatoide moderada a grave, espondilite anquilosante e retocolite moderada a grave em adultos; artrite psoriásica em adultos e, desde 10/2025, a partir de 2 anos; e AIJ de curso poliarticular a partir de 2 anos. Até 12/2021, na artrite reumatoide, bastava a falha do metotrexato; a mudança veio após o ORAL Surveillance.
União Europeia (EMA)
Em adultos: artrite reumatoide moderada a grave e artrite psoriásica após resposta inadequada ou intolerância a medicamento modificador do curso da doença (DMARD), com metotrexato (na artrite reumatoide, sozinho se ele não for tolerado ou adequado); espondilite anquilosante sem resposta adequada à terapia convencional; e retocolite moderada a grave após terapia convencional ou biológico. A partir de 2 anos: AIJ poliarticular e artrite psoriásica juvenil, após DMARDs. Não há indicação para espondiloartrite axial não radiográfica. Com 65 anos ou mais, doença cardiovascular aterosclerótica ou outros fatores de risco cardiovascular (inclusive tabagismo de longa data) ou fatores de risco de câncer, só deve ser usado sem alternativa adequada.
Brasil (ANVISA)
Pela bula aprovada em 16/03/2026: artrite reumatoide moderada a grave em adultos após um ou mais DMARDs; artrite psoriásica em adultos após um ou mais bloqueadores de TNF; espondilite anquilosante sem resposta adequada à terapia convencional; colite ulcerativa moderada a grave após corticoides, azatioprina, 6-mercaptopurina ou anti-TNF; e AIJ poliarticular acima de 2 anos e com 40 kg ou mais, após DMARDs. Só há comprimidos, sem solução oral.
Evidências clínicas
Artrite reumatoide: ORAL Standard e ORAL Step
No ORAL Standard (NCT00853385), de fase 3, 717 pacientes em uso de metotrexato receberam 5 ou 10 mg duas vezes ao dia, adalimumabe ou placebo: no mês 6, a resposta ACR20 foi de 51,5% e 52,6%, contra 47,2% com adalimumabe e 28,3% com placebo (p<0,001 contra placebo). No ORAL Step (NCT00960440), de fase 3, em 399 pacientes sem resposta adequada a anti-TNF, foi de 41,7% (5 mg; p=0,0024) e 48,1% (10 mg; p<0,0001) no mês 3, contra 24,4%.
Retocolite ulcerativa: programa OCTAVE
Nos estudos de fase 3 OCTAVE Induction 1 (NCT01465763) e 2 (NCT01458951), em adultos, 10 mg duas vezes ao dia por 8 semanas levaram à remissão 18,5% contra 8,2% com placebo (p=0,007) e 16,6% contra 3,6% (p<0,001). No OCTAVE Sustain (NCT01458574), entre 593 que responderam, a remissão em 52 semanas foi de 34,3% (5 mg) e 40,6% (10 mg), contra 11,1% (p<0,001); após falha de anti-TNF, de 24% e 37%, contra 11% (rótulo da FDA).
Segurança contra anti-TNF: ORAL Surveillance
O ORAL Surveillance (NCT02092467), de fase 4 e aberto, comparou 5 mg (1.455 pacientes) e 10 mg (1.456) duas vezes ao dia com anti-TNF (1.451) em artrite reumatoide ativa apesar do metotrexato, a partir de 50 anos e com ao menos um fator de risco cardiovascular. Em mediana de 4 anos, com as doses somadas, eventos cardiovasculares maiores ocorreram em 3,4% contra 2,5% (razão de risco 1,33; IC 95% 0,91 a 1,94), e câncer, exceto o de pele não melanoma, em 4,2% contra 2,9% (1,48; IC 95% 1,04 a 2,09), sem demonstrar não inferioridade (limite de 1,8). Por 100 pacientes-ano, a mortalidade foi de 0,88 (5 mg) e 1,23 (10 mg), contra 0,69, e a embolia pulmonar, de 0,18 e 0,49, contra 0,05.
Posologia e administração
Pela bula brasileira e pelos rótulos da FDA e europeu: via oral, com ou sem alimento; no Brasil, o comprimido é engolido inteiro. Antes de começar, avaliam-se tuberculose, hepatites virais, hemograma e fígado, e as vacinas são atualizadas; pelo rótulo americano, evita-se iniciar com linfócitos abaixo de 500/mm³, neutrófilos abaixo de 1.000/mm³ ou hemoglobina abaixo de 9 g/dL.
- Artrites do adulto: 5 mg duas vezes ao dia na artrite reumatoide (sozinho ou com DMARD não biológico), na artrite psoriásica (com DMARD sintético) e na espondilite; 10 mg duas vezes ao dia não é recomendado.
- Retocolite: 10 mg duas vezes ao dia por ao menos 8 semanas, prorrogável até 16, com suspensão se não houver benefício; manutenção com 5 mg duas vezes ao dia, com 10 mg só na perda de resposta e pelo menor tempo.
- AIJ poliarticular: no Brasil, 5 mg duas vezes ao dia com 40 kg ou mais; nos EUA e na Europa, abaixo disso, solução oral de 3,2 mg (10 a menos de 20 kg) ou 4 mg (20 a menos de 40 kg) duas vezes ao dia.
- Ajustes (rótulo da FDA): insuficiência renal moderada ou grave, hepática moderada, cetoconazol ou fluconazol levam 5 mg duas vezes ao dia a uma vez ao dia, e 10 mg a 5 mg duas vezes ao dia; com rifampicina, o uso não é recomendado.
- Dose esquecida: tomar ao lembrar; se a próxima estiver perto, pular, sem dobrar. Guardar de 15 a 30 °C.
Segurança
O rótulo americano tem advertência em destaque (tarja) para cinco riscos: infecções graves, inclusive tuberculose e oportunistas, que podem levar a internação ou morte, a maioria com metotrexato ou corticoides associados; mortalidade por qualquer causa, inclusive morte súbita cardiovascular, e câncer, com mais linfomas e câncer de pulmão, ambos mais frequentes que com anti-TNF no ORAL Surveillance; eventos cardiovasculares maiores, com suspensão após infarto ou AVC; e trombose venosa e arterial, às vezes fatal: evitar o uso em quem tem risco e suspender diante de sintomas. Fumantes e ex-fumantes têm risco adicional.
Nos EUA, o rótulo não lista contraindicações; na Europa e no Brasil, são a hipersensibilidade, tuberculose ativa, infecções graves ou oportunistas (no Brasil, qualquer infecção ativa), insuficiência hepática grave, gravidez e amamentação. Na artrite reumatoide, as reações mais comuns foram infecção de vias aéreas superiores, nasofaringite, diarreia e dor de cabeça (4% com 5 mg, contra 2% a 3% com placebo) e hipertensão (2% contra 1%), pelo rótulo da FDA.
Advertências principais
- Infecções: risco aumentado de herpes-zóster, maior no Japão e na Coreia; reativação de hepatite B e leucoencefalopatia multifocal progressiva relatadas após a comercialização.
- Exames: linfócitos no início e a cada 3 meses; neutrófilos e hemoglobina no início, após 4 a 8 semanas e a cada 3 meses; enzimas do fígado; lipídios após 4 a 8 semanas.
- Outros riscos: perfuração gastrointestinal, doença pulmonar intersticial, hipoglicemia em diabéticos, câncer de pele não melanoma, fraturas e trombose venosa da retina (EMA).
- Vacinas: evitar vacinas vivas durante o uso; na Europa, aplicá-las ao menos 2 semanas, de preferência 4, antes do início.
Interações, gravidez e amamentação
Cerca de 70% da eliminação é hepática, sobretudo pela CYP3A4, e 30% renal: cetoconazol e fluconazol elevam a exposição e pedem redução de dose, e a rifampicina pode reduzir a resposta. Não se recomenda associar azatioprina, tacrolimo, ciclosporina ou biológicos. Houve efeitos teratogênicos em ratos e coelhos, com dados insuficientes em gestantes; na Europa e no Brasil, gravidez e amamentação são contraindicações, com contracepção eficaz durante o uso e por ao menos 4 semanas após a última dose. O tofacitinibe passa ao leite humano.
Como funciona o acesso no Brasil
O Xeljanz tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0465, Pfizer Brasil Ltda., vencimento em 12/2029; dados abertos da ANVISA de 23/10/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, os frascos com 60 comprimidos de 5 mg e de 10 mg constam como comercializados em 2025, sem restrição hospitalar; o Xeljanz XR (1.2110.0490) tem registro inativo, e os genéricos da Fiocruz (1.1063.0165) e da Teva (1.5573.0074) constam sem comercialização em 2025. A aquisição é nacional; a questão costuma ser quem paga.
No SUS
Na artrite reumatoide, o protocolo clínico (PCDT; Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 33, de 19/01/2026) o inclui na 2ª e na 3ª etapas, após ao menos dois esquemas com DMARDs sintéticos. Na artrite psoriásica (Portaria Conjunta nº 37, de 21/01/2026), entra após falha de anti-TNF. Na retocolite, foi incorporado pela Portaria SCTIE/MS nº 31, de 28/06/2021, e o PCDT de 2024 o prevê após falha de imunossupressor. Na espondilite anquilosante, a decisão foi não incorporar (Portaria SECTICS/MS nº 9, de 31/01/2025), e o PCDT de AIJ de 2026 não o inclui.
Nos planos de saúde
Não há Diretriz de Utilização (DUT) para o tofacitinibe no Rol da ANS (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026); as DUTs dessas doenças tratam de imunobiológicos injetáveis. A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais e os de controle de seus efeitos adversos. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos do STF na ADI 7265 (18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com diagnóstico, tratamentos prévios e avaliação de riscos; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
O Xeljanz tem registro na ANVISA?
Sim: 1.2110.0465, da Pfizer Brasil, válido até 12/2029, com comprimidos de 5 e 10 mg comercializados em 2025.
Preciso importar o Xeljanz?
Em regra, não: com registro ativo e oferta no país, a compra é nacional, e a dificuldade costuma ser o custeio, pelo SUS ou pelo plano.
Existe Xeljanz em solução oral no Brasil?
A solução de 1 mg/mL, usada nos EUA e na Europa abaixo de 40 kg, não consta da bula brasileira nem da CMED, e aqui a indicação juvenil exige 40 kg ou mais. A conduta abaixo de 40 kg cabe ao reumatologista pediátrico.
Quem tem 65 anos ou mais pode usar o tofacitinibe?
Com cautela: na Europa, só sem alternativa adequada; a bula brasileira pede avaliação individual de risco e benefício.
Conclusão
O tofacitinibe é um inibidor oral de JAK para artrites inflamatórias, retocolite ulcerativa e AIJ poliarticular. Superou o placebo nos estudos de registro, mas, no ORAL Surveillance, não demonstrou não inferioridade aos anti-TNF em câncer e eventos cardiovasculares, o que levou a restrições nos EUA e na Europa. No Brasil, os comprimidos são registrados e comercializados, e o acesso é questão de custeio. A indicação cabe à equipe médica.
Fontes
- FDA — Xeljanz (tofacitinibe), bula vigente: NDA 203214 (PF Prism C.V.), 208246 e 213082 (Pfizer); DailyMed, versão 55, publicada em 28/09/2026.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 203214: aprovação de 06/11/2012 e suplementos S-018, S-026, S-028, S-031 e S-039; NDA 213082 (solução oral, 25/09/2020).
- EMA — Xeljanz, EPAR, EMEA/H/C/004214 (Pfizer Europe MA EEIG): resumo das características do medicamento, atualizado em 19/08/2026.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (23/10/2026): Xeljanz 1.2110.0465 (ativo), Xeljanz XR 1.2110.0490 (inativo), citrato de tofacitinibe 1.1063.0165 e 1.5573.0074 (ativos); bula aprovada em 16/03/2026.
- CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Xeljanz 5 e 10 mg (comercializados em 2025); Xeljanz XR e genéricos (sem comercialização em 2025).
- Ministério da Saúde — Portarias Conjuntas SAES/SCTIE nº 33 e nº 34, de 19/01/2026 (PCDT da Artrite Reumatoide e da AIJ), e nº 37, de 21/01/2026 (PCDT da Artrite Psoriásica).
- Ministério da Saúde — Portaria SCTIE/MS nº 31, de 28/06/2021; Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12/09/2024 (PCDT de Retocolite Ulcerativa); Portaria SECTICS/MS nº 9, de 31/01/2025.
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (RN nº 465/2021, atualizado pela RN nº 681/2026), Anexos I e II; Lei nº 9.656/1998, art. 10, VI.
- Ytterberg SR et al., N Engl J Med, 2022;386(4):316-326. PMID 35081280 (ORAL Surveillance; ClinicalTrials.gov NCT02092467).
- van Vollenhoven RF et al., N Engl J Med, 2012;367(6):508-519. PMID 22873531 (ORAL Standard; ClinicalTrials.gov NCT00853385).
- Burmester GR et al., Lancet, 2013;381(9865):451-460. PMID 23294500 (ORAL Step; ClinicalTrials.gov NCT00960440).
- Sandborn WJ et al., N Engl J Med, 2017;376(18):1723-1736. PMID 28467869 (OCTAVE Induction 1 e 2 e OCTAVE Sustain; ClinicalTrials.gov NCT01465763, NCT01458951 e NCT01458574).
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