Onivyde (irinotecano lipossomal): indicações no câncer de pâncreas metastático e acesso no Brasil

Resumo rápido

  • Onivyde é o irinotecano encapsulado em lipossomos (pequenas vesículas de gordura), uma quimioterapia intravenosa usada em combinação no adenocarcinoma de pâncreas metastático em adultos.
  • Nos Estados Unidos, na União Europeia e no Brasil, tem duas indicações: primeira linha, no esquema NALIRIFOX (com oxaliplatina, fluoruracila e leucovorina), e tratamento após progressão com gencitabina, com fluoruracila e leucovorina.
  • No estudo NAPOLI 3, a sobrevida global mediana foi de 11,1 meses com NALIRIFOX, contra 9,2 meses com gencitabina e nab-paclitaxel.
  • O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para neutropenia grave e diarreia grave, e o Onivyde não pode ser trocado pelo irinotecano convencional.
  • Tem registro ativo na ANVISA desde abril de 2025 (1.1278.0092, Servier); o acesso é nacional, pelo serviço de oncologia, e a discussão, quando há negativa, é de custeio.

O que é Onivyde (irinotecano lipossomal)?

Onivyde é a forma lipossomal do irinotecano, um quimioterápico inibidor da topoisomerase 1. Cada frasco de dose única contém 43 mg de irinotecano (expresso como base livre) em 10 mL de uma dispersão de lipossomos, aplicada por infusão na veia após diluição. Os lipossomos são vesículas de cerca de 110 nanômetros, formadas por uma bicamada de lipídios que envolve o irinotecano. No Brasil, foi registrado como medicamento novo, na forma de suspensão injetável de liberação prolongada.

Quem fabrica e onde está aprovado

Nos Estados Unidos, o titular é a Ipsen: a FDA aprovou o Onivyde em 22/10/2015 (NDA 207793) e ampliou a indicação para a primeira linha em 13/02/2024. Na União Europeia, o titular é a Les Laboratoires Servier; a autorização é de 14/10/2016, com a primeira linha incluída por decisão de 25/04/2024, e o produto tem designação de medicamento órfão desde 2011. No Brasil, o registro é da Laboratórios Servier do Brasil.

Por que não é intercambiável com o irinotecano convencional

O rótulo americano é explícito: o Onivyde não deve ser substituído por outros medicamentos que contenham cloridrato de irinotecano, e o texto europeu reforça que as formulações não são equivalentes nem intercambiáveis. A farmacocinética, a concentração e a forma de expressar a dose são diferentes: os 70 mg/m² do Onivyde correspondem ao irinotecano em base livre, o equivalente a 80 mg/m² de cloridrato tri-hidratado.

Mecanismo de ação

A topoisomerase 1 é uma enzima que alivia a tensão da molécula de DNA provocando quebras temporárias em uma das fitas. O irinotecano e seu metabólito ativo, o SN-38, se ligam ao complexo formado pela enzima e pelo DNA e impedem que essas quebras sejam reparadas, o que leva a danos nas duas fitas e à morte da célula. Na circulação, cerca de 95% do irinotecano permanece dentro dos lipossomos, e a meia-vida de eliminação do irinotecano total é de cerca de dois dias. Em camundongos com tumores humanos, doses cinco vezes menores do que as do irinotecano convencional alcançaram exposição semelhante ao SN-38 dentro do tumor.

Indicações

Segundo o rótulo da FDA, a informação do produto da EMA e a bula brasileira, o Onivyde é indicado, em adultos com adenocarcinoma de pâncreas metastático:

  • Em primeira linha: em combinação com oxaliplatina, fluoruracila e leucovorina (esquema NALIRIFOX).
  • Após progressão com terapia à base de gencitabina: em combinação com fluoruracila e leucovorina.

O Onivyde não é indicado em monoterapia. A bula brasileira registrada na ANVISA traz as mesmas duas indicações: a inclusão de nova indicação terapêutica foi aprovada pela agência em 31/08/2026, e o texto da bula foi atualizado em 01/09/2026.

Quem participou dos estudos

No NAPOLI 3, os pacientes não tinham recebido quimioterapia para a doença metastática e tinham bom estado funcional (escala ECOG 0 ou 1); 80% tinham metástases no fígado. No NAPOLI-1, todos já tinham usado gencitabina, e os critérios incluíam índice de Karnofsky de pelo menos 70, bilirrubina normal e albumina de pelo menos 3,0 g/dL. A indicação para cada paciente é definida pelo oncologista.

Evidências clínicas

O NAPOLI 3 (NCT04083235) foi um estudo de fase 3, randomizado e aberto, com 770 pacientes sem tratamento prévio para a doença metastática, que comparou NALIRIFOX com gencitabina associada a nab-paclitaxel. Segundo o rótulo da FDA, a sobrevida global mediana foi de 11,1 meses com NALIRIFOX e de 9,2 meses no grupo comparador (razão de risco de 0,84; intervalo de confiança de 95% de 0,71 a 0,99; p = 0,0403). A sobrevida livre de progressão mediana foi de 7,4 contra 5,6 meses (razão de risco de 0,70). A taxa de resposta, de 41,8% contra 36,2%, não teve diferença estatisticamente significativa. Os resultados completos foram publicados por Wainberg e colaboradores no Lancet, em 2023.

O NAPOLI-1 (NCT01494506), também de fase 3, randomizou 417 pacientes que já haviam progredido após gencitabina. Na comparação principal descrita no rótulo da FDA, a sobrevida global mediana foi de 6,1 meses com Onivyde, fluoruracila e leucovorina, contra 4,2 meses com fluoruracila e leucovorina (razão de risco de 0,68; p = 0,014), e a sobrevida livre de progressão, de 3,1 contra 1,5 meses. O Onivyde sozinho não aumentou a sobrevida em relação a fluoruracila e leucovorina. O estudo foi publicado por Wang-Gillam e colaboradores no Lancet, em 2016.

Estudo Situação Comparação Sobrevida global mediana
NAPOLI 3 (fase 3) Primeira linha NALIRIFOX versus gencitabina + nab-paclitaxel 11,1 versus 9,2 meses
NAPOLI-1 (fase 3) Após gencitabina Onivyde + fluoruracila e leucovorina versus fluoruracila e leucovorina 6,1 versus 4,2 meses

Posologia e administração

As doses abaixo são as do rótulo, para informação; o esquema é definido e aplicado pela equipe de oncologia.

  • Primeira linha (NALIRIFOX): Onivyde 50 mg/m² por infusão intravenosa em 90 minutos, seguido de oxaliplatina 60 mg/m², leucovorina 400 mg/m² e fluoruracila 2.400 mg/m² em 46 horas, a cada 2 semanas. A dose inicial é a mesma para portadores de duas cópias da variante UGT1A1*28.
  • Após gencitabina: Onivyde 70 mg/m² em 90 minutos, seguido de leucovorina 400 mg/m² e fluoruracila 2.400 mg/m² em 46 horas, a cada 2 semanas. Em quem tem duas cópias da variante UGT1A1*28, a dose inicial é de 50 mg/m², com aumento para 70 mg/m² se houver tolerância.

Recomenda-se corticoide e antiemético 30 minutos antes de cada infusão. Não há dose recomendada para pacientes com bilirrubina acima do limite superior do normal. O produto é diluído em 500 mL de glicose a 5% ou de soro fisiológico e deve ser usado em até 4 horas em temperatura ambiente, ou em até 24 horas sob refrigeração.

Monitoramento e ajustes de dose

O hemograma deve ser feito nos dias 1 e 8 de cada ciclo. A infusão é suspensa se os neutrófilos estiverem abaixo de 1.500/mm³ ou se houver febre com neutropenia. Depois de toxicidade de grau 3 ou 4, a dose é reduzida em etapas (na primeira linha, para 40, 32,5 e 25 mg/m²; após gencitabina, para 50 e 43 mg/m²). O tratamento é interrompido em caso de doença pulmonar intersticial ou de anafilaxia.

Segurança

O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para dois riscos:

  • Neutropenia grave: queda importante dos neutrófilos, com casos fatais de sepse e de febre associadas à neutropenia. No NAPOLI 3, a neutropenia de grau 3 ou 4 ocorreu em 26% dos pacientes; no NAPOLI-1, em 20%.
  • Diarreia grave: pode ser precoce, nas primeiras 24 horas, ou tardia. No NAPOLI 3, a diarreia de grau 3 ou 4 atingiu 20% dos pacientes; no NAPOLI-1, 13%. O Onivyde não deve ser aplicado em quem tem obstrução intestinal; o rótulo prevê atropina para a diarreia precoce e loperamida para a tardia.

A contraindicação, no rótulo americano, é a reação de hipersensibilidade grave ou anafilaxia ao Onivyde ou ao cloridrato de irinotecano; o texto europeu inclui também a amamentação. As advertências abrangem doença pulmonar intersticial, inclusive fatal, reações alérgicas graves e dano ao feto: mulheres em idade fértil devem usar contracepção eficaz durante o tratamento e por 7 meses após a última dose, e homens com parceiras em idade fértil devem usar preservativo por 4 meses.

Quem tem mais risco de neutropenia

A enzima UGT1A1 inativa o SN-38, e, com o irinotecano convencional, quem tem duas cópias da variante UGT1A1*28 corre mais risco de neutropenia. Com o Onivyde, a análise farmacocinética não mostrou efeito dessa variante na eliminação do SN-38, mas no NAPOLI 3 a neutropenia de grau 3 ou 4 foi de 23% nesses pacientes, contra 13% nos demais. No NAPOLI-1, pacientes asiáticos tiveram mais neutropenia grave do que pacientes brancos (55% contra 18%).

Como funciona o acesso no Brasil

O Onivyde tem registro ativo na ANVISA (1.1278.0092), publicado em 28/04/2025 em nome da Laboratórios Servier do Brasil, com vencimento em 04/2035. Por estar registrado, não é caso de importação: a aquisição é nacional e, como a infusão é feita em serviço de oncologia, costuma ser conduzida pelo hospital ou pela clínica que aplica o tratamento.

No SUS

Não há avaliação da Conitec sobre o irinotecano lipossomal nem protocolo do Ministério da Saúde específico para o câncer de pâncreas (consulta ao portal da Conitec em 23/09/2026). O acesso pelo SUS deve ser discutido com o serviço de oncologia que acompanha o paciente.

Nos planos de saúde

Pela Resolução Normativa nº 465/2021 da ANS, o plano com cobertura ambulatorial inclui a quimioterapia oncológica ambulatorial: medicamentos para o câncer que, qualquer que seja a via ou a classe, precisam ser aplicados sob supervisão direta de profissionais de saúde, dentro de um estabelecimento de saúde. O uso fora das indicações da bula registrada segue regra própria da mesma norma.

Custeio: quando a cobertura é negada

Diante de uma negativa, o caminho começa pela via administrativa, com a prescrição e o relatório do oncologista. Se a recusa se mantiver, a discussão judicial é sobre custeio, isto é, sobre quem paga um medicamento registrado no Brasil, e não sobre importação. Cada caso exige orientação jurídica individualizada e não tem resultado garantido.

Perguntas Frequentes

Onivyde é o mesmo que o irinotecano comum?

Não. É o mesmo princípio ativo em formulação lipossomal, com farmacocinética e forma de expressar a dose diferentes. O rótulo proíbe a substituição de um pelo outro.

O Onivyde tem registro na ANVISA?

Sim. O registro 1.1278.0092, da Laboratórios Servier do Brasil, foi publicado em 28/04/2025 e está ativo, com vencimento em 04/2035.

O Onivyde pode ser usado sozinho?

Não. Ele é indicado em combinação com fluoruracila e leucovorina, com ou sem oxaliplatina. No NAPOLI-1, o Onivyde isolado não aumentou a sobrevida.

Quais são os principais riscos?

Neutropenia grave, com risco de infecção fatal, e diarreia grave, objetos da advertência em destaque. Há também risco de doença pulmonar intersticial, reações alérgicas graves e dano ao feto.

O plano de saúde precisa cobrir o Onivyde?

A quimioterapia aplicada em estabelecimento de saúde faz parte da cobertura ambulatorial definida pela ANS. A análise depende da indicação na bula brasileira e do contrato; em caso de negativa, a discussão é de custeio.

Conclusão

O Onivyde é uma formulação lipossomal de irinotecano com duas indicações no adenocarcinoma de pâncreas metastático, em primeira linha no esquema NALIRIFOX e após gencitabina, apoiadas pelos estudos de fase 3 NAPOLI 3 e NAPOLI-1. Exige atenção à neutropenia e à diarreia e não pode ser trocado pelo irinotecano convencional. Com registro ativo na ANVISA, é adquirido no Brasil pelo serviço de oncologia; as decisões sobre o tratamento cabem ao oncologista.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Onivyde (DailyMed), Ipsen Biopharmaceuticals, revisão 03/2025; setid c8b58efa-1820-48a4-b70d-62918fc4abfc
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 207793 (Onivyde), aprovação em 22/10/2015; suplemento de eficácia aprovado em 13/02/2024
  3. EMA — Onivyde pegylated liposomal, EPAR, EMEA/H/C/004125
  4. EMA — Onivyde pegylated liposomal, variação EMEA/H/C/004125/II/0034 (primeira linha), decisão em 25/04/2024
  5. ANVISA — Dados abertos de medicamentos registrados: Onivyde, registro 1.1278.0092, Laboratórios Servier do Brasil, medicamento novo, ativo, vencimento 04/2035, consulta em 23/09/2026
  6. ANVISA — Bulário eletrônico: bula do profissional de saúde de Onivyde 4,3 mg/mL (Laboratórios Servier do Brasil), atualizada em 01/09/2026; inclusão de nova indicação terapêutica (expediente 0988405/25-0) aprovada em 31/08/2026; consulta em 24/09/2026
  7. ClinicalTrials.gov NCT04083235 (NAPOLI 3)
  8. Wainberg ZA et al., Lancet, 2023;402(10409):1272-1281. PMID 37708904.
  9. ClinicalTrials.gov NCT01494506 (NAPOLI-1)
  10. Wang-Gillam A et al., Lancet, 2016;387(10018):545-557. PMID 26615328.
  11. ANS — Resolução Normativa nº 465, de 24/02/2021 (Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde), art. 17 e art. 18, IX
  12. Conitec — Portal de avaliações de tecnologias em saúde: sem relatório sobre irinotecano lipossomal, consulta em 23/09/2026

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Bruno Moura

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