Resumo rápido
- O Ninlaro (ixazomibe), da Takeda, é um inibidor de proteassoma oral, em cápsulas de 2,3 mg, 3 mg e 4 mg, para o mieloma múltiplo.
- Nos EUA, na União Europeia e no Brasil, é indicado com lenalidomida e dexametasona após ao menos um tratamento; no TOURMALINE-MM1, a sobrevida livre de progressão mediana foi de 20,6 contra 14,7 meses, sem diferença significativa de sobrevida global.
- Entre as três agências, só a ANVISA aprovou também a manutenção sem transplante de células-tronco; o rótulo americano não recomenda a manutenção fora de estudos, pois dois estudos tiveram mais mortes com o ixazomibe.
- Tem registro ativo na ANVISA (1.2627.0025, Takeda Farmacêutica Brasil, após transferência de titularidade publicada em 07/2026) e consta como comercializado em 2025 na CMED.
- Não consta das Diretrizes do SUS para o mieloma; nos planos, a DUT 64 da ANS cobre o ixazomibe com lenalidomida e dexametasona. Negativas são questão de custeio.
O que é Ninlaro (ixazomibe)?
Ninlaro é o nome comercial do ixazomibe, em cápsulas duras de 2,3 mg, 3 mg e 4 mg, equivalentes a 3,3 mg, 4,3 mg e 5,7 mg de citrato de ixazomibe, pró-fármaco que no organismo se converte rapidamente na forma ativa. Os titulares são a Takeda Pharmaceuticals U.S.A. nos EUA (NDA 208462), a Takeda Pharma A/S na União Europeia (EMEA/H/C/003844) e a Takeda Farmacêutica Brasil Ltda. no Brasil.
A FDA o aprovou em 20/11/2015. Na União Europeia, após parecer de recusa em 05/2016 e reexame, veio a autorização condicional, em 21/11/2016, convertida em autorização sem condições em 03/11/2023. O registro brasileiro foi publicado em 05/02/2018.
O mieloma múltiplo
É um câncer dos plasmócitos da medula óssea. Pelas Diretrizes do Ministério da Saúde, as manifestações clássicas são cálcio alto no sangue, insuficiência renal, anemia e doença óssea, e o Brasil registrou perto de 2.600 casos por ano entre 2013 e 2019.
Mecanismo de ação
O proteassoma degrada proteínas de que a célula não precisa mais. O ixazomibe se liga de forma reversível à subunidade beta 5 do proteassoma 20S e inibe, de preferência, sua atividade do tipo quimotripsina; em laboratório, induziu apoptose (morte programada) em linhagens de mieloma, foi citotóxico para células de pacientes que haviam recaído após bortezomibe, lenalidomida e dexametasona e teve efeito sinérgico com a lenalidomida. A meia-vida terminal é de 9,5 dias.
Indicações
O uso é em adultos; em crianças, segurança e eficácia não foram estabelecidas.
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo (revisão de 08/2026), em combinação com lenalidomida e dexametasona para pacientes com mieloma múltiplo que receberam ao menos um tratamento anterior. Desde 04/2022, o rótulo não recomenda o uso na manutenção nem, com lenalidomida e dexametasona, no mieloma recém-diagnosticado, fora de estudos controlados. Desde então, não houve indicação nova nem retirada.
União Europeia (EMA)
A indicação é a mesma, para adultos. A autorização condicional exigiu dados adicionais, como os da manutenção após transplante; em 2023, com as obrigações cumpridas, a autorização deixou de ser condicional, sem incluir a manutenção.
Brasil (ANVISA)
A bula aprovada em 06/07/2026 traz duas indicações: em combinação com lenalidomida e dexametasona, para pacientes com mieloma múltiplo que receberam pelo menos um tratamento anterior; e como terapia de manutenção em pacientes com mieloma múltiplo não tratados com transplante de células-tronco, incluída em 2022 (Resolução-RE nº 2.706/2022), com base no TOURMALINE-MM4. Em 07/2023, a ANVISA indeferiu outro pedido de nova indicação (Resolução-RE nº 2.448/2023); a manutenção após transplante não consta da bula.
Evidências clínicas
Estudos de fase 3, duplo-cegos, com placebo e sobrevida livre de progressão (SLP) como desfecho principal; RR é a razão de risco.
| Estudo (pacientes) | População | SLP mediana | Sobrevida global ou mortes |
|---|---|---|---|
| TOURMALINE-MM1 (722) | Após 1 a 3 tratamentos, com lenalidomida e dexametasona | 20,6 contra 14,7 meses (RR 0,74; p=0,012) | 53,6 contra 51,6 meses (RR 0,94; p=0,495) |
| TOURMALINE-MM4 (706) | Manutenção sem transplante | 17,4 contra 9,4 meses (RR 0,659; p<0,001) | Mortes: 30% contra 27% (RR 1,136) |
| TOURMALINE-MM3 (656) | Manutenção após transplante | 26,5 contra 21,3 meses (RR 0,72; p=0,0023) | Mortes: 27% contra 26% (RR 1,008) |
TOURMALINE-MM1: doença recidivada ou refratária
O estudo (NCT01564537) excluiu refratários à lenalidomida ou a inibidores de proteassoma; 69% já tinham usado bortezomibe. A resposta global foi de 78% contra 72%. Com 85 meses de acompanhamento, o ganho de SLP não se traduziu em diferença significativa de sobrevida global; os autores apontam como fator de confusão os tratamentos posteriores, sobretudo inibidores de proteassoma e daratumumabe.
Manutenção e doença recém-diagnosticada
No TOURMALINE-MM4 (NCT02312258), sem transplante, e no TOURMALINE-MM3 (NCT02181413), após transplante autólogo, quem teve ao menos resposta parcial recebeu ixazomibe isolado ou placebo por até 24 meses; no MM4, 12,9% contra 8,0% suspenderam por evento adverso. Nos dois, o rótulo da FDA registra mais mortes com o ixazomibe, com intervalos de confiança que incluem 1 (0,853 a 1,514 e 0,744 a 1,367). No recém-diagnosticado inelegível ao transplante, o TOURMALINE-MM2 (NCT01850524), com lenalidomida e dexametasona, não atingiu o desfecho principal (SLP de 35,3 contra 21,8 meses; RR 0,830; p=0,073).
Posologia e administração
Cápsula por via oral, uma vez por semana, no mesmo dia e horário, pelo menos 1 hora antes ou 2 horas depois de comer, engolida inteira com água, sem abrir, mastigar ou triturar. Pelo rótulo da FDA e pela bula brasileira:
- Com lenalidomida e dexametasona: 4 mg nos dias 1, 8 e 15 de ciclos de 28 dias; lenalidomida 25 mg nos dias 1 a 21 e dexametasona 40 mg nos dias 1, 8, 15 e 22, até progressão ou toxicidade inaceitável.
- Manutenção sem transplante (só na bula brasileira): 3 mg nos dias 1, 8 e 15 nos 4 primeiros ciclos e, se tolerado, 4 mg a partir do ciclo 5, por 24 meses ou até progressão ou toxicidade inaceitável.
- Ciclos e reduções: novo ciclo só com neutrófilos de ao menos 1.000/mm³ e plaquetas de ao menos 75.000/mm³; reduzir de 4 para 3 mg e depois 2,3 mg e, sem tolerância, suspender; na queda de plaquetas ou neutrófilos e na erupção, ajustes alternados com a lenalidomida.
- Fígado e rins: início com 3 mg (2,3 mg na manutenção) na insuficiência hepática moderada ou grave, na renal grave e na diálise, que não remove o medicamento.
- Dose esquecida: só tomar se a próxima estiver a 72 horas ou mais; não repetir após vômito nem dobrar. A superdosagem já causou mortes.
- Prevenção e conservação: considerar antiviral contra herpes-zóster e, com lenalidomida, tromboprofilaxia; guardar a 15 a 30 °C, sem congelar, na embalagem original.
Segurança
O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque, e nem ele nem a bula brasileira listam contraindicações; na União Europeia, a única é a hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos excipientes. No TOURMALINE-MM1, pelo rótulo da FDA, as reações mais comuns (ixazomibe contra placebo) foram queda de plaquetas (85% contra 67%) e de neutrófilos (74% contra 70%), diarreia (52% contra 43%), constipação (35% contra 28%), neuropatia periférica (32% contra 24%), náusea (32% contra 23%), inchaço e erupção (27% cada), vômito (26% contra 13%) e bronquite (22% contra 17%); 10% suspenderam o ixazomibe por reação adversa.
Advertências principais
- Plaquetas: queda de grau 3 em 17% e de grau 4 em 13%, com mínimo entre os dias 14 e 21; contagem ao menos mensal, mais frequente nos 3 primeiros ciclos.
- Intestino: pode exigir antidiarreico, antiemético e ajuste de dose; nos casos graves, o resumo europeu recomenda dosar o potássio.
- Nervos e pele: neuropatia, sobretudo sensitiva, de grau 3 em 2%; erupção de grau 3 em 3%; síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica, inclusive fatais, exigem suspensão.
- Microangiopatia trombótica: púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica, às vezes fatais; suspender na suspeita. Em 05/2026, a EMA incluiu alerta específico para a síndrome hemolítico-urêmica.
- Manutenção: pelo rótulo americano, mais mortes em dois estudos; não recomendada fora de estudos clínicos.
- Outros: alterações hepáticas em 10% contra 9% (monitorar enzimas); herpes-zóster em 6% contra 3%; encefalopatia posterior reversível e angioedema, raros.
Gestação, amamentação e interações
Pode causar dano ao feto: confirma-se a ausência de gravidez antes do início, e mulheres e homens com potencial reprodutivo usam contracepção eficaz durante o uso e por 90 dias depois. Como a dexametasona pode reduzir o efeito de anticoncepcionais hormonais, a FDA pede método não hormonal, e a bula brasileira e o resumo europeu, barreira associada. Não se amamenta durante o uso (nem por 90 dias depois, pelo rótulo americano); a lenalidomida tem programa próprio de prevenção da gravidez. Evitam-se indutores fortes do CYP3A, como rifampicina, fenitoína, carbamazepina e erva-de-são-joão.
Como funciona o acesso no Brasil
O Ninlaro tem registro ativo na ANVISA (1.2627.0025, Takeda Farmacêutica Brasil Ltda., vencimento em 02/2028; dados abertos de 16/10/2026), que substituiu o 1.0639.0278, da Takeda Pharma, hoje inativo, na transferência de titularidade publicada em 06/07/2026 (Resoluções-RE nº 2.633 e 2.634/2026). Na Lista CMED de 09/10/2026, as caixas de 2,3 mg, 3 mg e 4 mg constam como comercializadas em 2025, ainda sob o registro antigo, sem restrição hospitalar. O ixazomibe não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998; a lenalidomida está na lista C3. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
O ixazomibe não consta das Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 05/12/2023). Na primeira recidiva, elas recomendam esquemas triplos e citam o bortezomibe, disponível no SUS nesses casos (Portaria SCTIE/MS nº 44/2020). Pelas Diretrizes, o Ministério da Saúde e as secretarias não fornecem antineoplásicos diretamente, salvo compras centralizadas: o hospital habilitado em oncologia padroniza, compra e fornece o medicamento e o registra como procedimento do SUS.
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 exclui medicamentos de uso domiciliar da cobertura obrigatória, salvo os antineoplásicos orais (art. 10, VI, e art. 12). A DUT 64 do Rol da ANS (Anexo II da RN nº 465/2021, atualizado até a RN nº 681/2026) inclui o citrato de ixazomibe com lenalidomida e dexametasona para quem recebeu pelo menos um tratamento anterior. A manutenção sem transplante, embora esteja na bula, não está na DUT; fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7265 (18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com o diagnóstico, os tratamentos anteriores e a indicação da bula; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
O Ninlaro é uma quimioterapia oral?
É um antineoplásico oral da classe dos inibidores de proteassoma, como o bortezomibe e o carfilzomibe, que na CMED são injetáveis de uso hospitalar; o Ninlaro é o único em cápsulas.
Por que a manutenção está na bula brasileira e não no rótulo americano?
No rótulo americano, os dois estudos de manutenção mostram mais mortes no grupo do ixazomibe, sem significância estatística, e o uso fora de estudos não é recomendado; a União Europeia não tem essa indicação. A bula brasileira traz a manutenção sem transplante pelo ganho de SLP no TOURMALINE-MM4, sem esse alerta.
Posso tomar o Ninlaro com comida?
Não junto: pelo menos 1 hora antes ou 2 horas depois de comer, porque uma refeição gordurosa reduziu a exposição ao ixazomibe em 28%.
Preciso importar o Ninlaro?
Em regra, não: tem registro ativo e consta como comercializado na CMED; a dificuldade costuma ser o custeio. O número de registro mudou em 2026, com as mesmas apresentações.
Conclusão
O ixazomibe é um inibidor de proteassoma oral e semanal que, com lenalidomida e dexametasona após ao menos um tratamento, prolongou a sobrevida livre de progressão, sem diferença significativa de sobrevida global, e exige controle de plaquetas, intestino, nervos e pele. No Brasil, onde é registrado e comercializado, o acesso é questão de custeio, e a bula inclui a manutenção sem transplante, que o rótulo americano não recomenda fora de estudos.
Fontes
- FDA, rótulo de Ninlaro (ixazomibe) (DailyMed), Takeda Pharmaceuticals America, Inc., revisão 08/2026; setid 038f2461-834b-4488-9ebd-863c83eef5a7.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 208462: carta de aprovação de 20/11/2015 (Millennium Pharmaceuticals) e suplementos S-012 e S-013 (28/04/2022), S-016 (01/03/2024) e S-017 (01/07/2024).
- EMA — Ninlaro, EPAR, EMEA/H/C/003844 (Takeda Pharma A/S): resumo das características do medicamento; recusa (EMA/358656/2016); variação II/0045 (EMA/CHMP/457224/2023; decisão da Comissão Europeia de 03/11/2023); EMA/VR/0000334802 (21/05/2026).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): Ninlaro 1.2627.0025 (ativo) e 1.0639.0278 (inativo); Resoluções-RE nº 303/2018, 2.706/2022, 2.448/2023, 2.633/2026 e 2.634/2026; RDC nº 1.036/2026 (Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998).
- Takeda Farmacêutica Brasil Ltda. — Ninlaro (citrato de ixazomibe), bula para o profissional de saúde, aprovada pela ANVISA em 06/07/2026.
- CMED/ANVISA — Lista de preços (PMC) de 09/10/2026: Ninlaro 2,3, 3 e 4 mg, cápsula dura com 3, comercializados em 2025.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 05/12/2023 (Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo).
- ANS — RN nº 465/2021, Anexo II, DUT 64, atualizado até a RN nº 681/2026.
- Moreau P et al., N Engl J Med, 2016;374(17):1621-1634. PMID 27119237 (TOURMALINE-MM1; ClinicalTrials.gov NCT01564537).
- Richardson PG et al., J Clin Oncol, 2021;39(22):2430-2442. PMID 34111952 (TOURMALINE-MM1, sobrevida global final; ClinicalTrials.gov NCT01564537).
- Dimopoulos MA et al., J Clin Oncol, 2020;38(34):4030-4041. PMID 33021870 (TOURMALINE-MM4; ClinicalTrials.gov NCT02312258).
- Dimopoulos MA et al., Lancet, 2019;393(10168):253-264. PMID 30545780 (TOURMALINE-MM3; ClinicalTrials.gov NCT02181413).
- Facon T et al., Blood, 2021;137(26):3616-3628. PMID 33763699 (TOURMALINE-MM2; ClinicalTrials.gov NCT01850524).
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