Resumo rápido
- O efavirenz é um inibidor não nucleosídeo da transcriptase reversa (ITRNN) indicado pelo FDA, sempre em combinação com outros antirretrovirais, para a infecção pelo HIV-1 em adultos e em crianças a partir de 3 meses e 3,5 kg.
- No Brasil, o acesso é pelo SUS, gratuito por lei; o PCDT vigente o mantém como alternativa, e o esquema inicial preferencial é tenofovir + lamivudina + dolutegravir.
- Dose adulta do rótulo: 600 mg por via oral, uma vez ao dia, com o estômago vazio e de preferência ao deitar.
- Não há advertência em caixa preta no rótulo americano; os cuidados principais envolvem sintomas psiquiátricos e neurológicos, erupção cutânea, toxicidade hepática, intervalo QT e risco fetal no primeiro trimestre.
- Na ANVISA (consulta em 18/09/2026), há registros ativos de efavirenz 600 mg, de solução oral e de dose fixa combinada; a marca Stocrin está inativa desde 11/2018.
O que é o efavirenz (Stocrin)?
O efavirenz é um antirretroviral de uso oral da classe dos ITRNN. Stocrin é uma marca de efavirenz cujo registro na ANVISA está inativo desde novembro de 2018; nos Estados Unidos e na União Europeia, o fármaco também foi comercializado como Sustiva. No SUS, o efavirenz é distribuído isolado, em comprimidos, e em dose fixa combinada com tenofovir e lamivudina.
O FDA aprovou o efavirenz em 17/09/1998 (NDA 020972, cápsulas) e o comprimido de 600 mg em 2002 (NDA 021360), ambos hoje em nome da Bristol-Myers Squibb. Hoje os produtos Sustiva constam como descontinuados no Drugs@FDA, sem relação com segurança ou eficácia, e genéricos seguem aprovados.
Mecanismo de ação
O efavirenz inibe de forma não competitiva a transcriptase reversa do HIV-1, enzima que converte o RNA viral em DNA; não inibe a do HIV-2. É metabolizado principalmente pelas enzimas CYP3A e CYP2B6 e induz ambas, o que explica as muitas interações medicamentosas. A meia-vida terminal é de 40 a 55 horas com doses repetidas. A barreira genética é baixa: em monoterapia, a resistência surge rapidamente, e uma única mutação pode afetar todos os ITRNN de primeira geração.
Indicações
FDA: em combinação com outros antirretrovirais, para a infecção pelo HIV-1 em adultos e em pacientes pediátricos com pelo menos 3 meses de idade e 3,5 kg. Não deve ser usado isoladamente nem acrescentado sozinho a um esquema em falha.
Brasil: para o início do tratamento, o PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1 (Portaria SECTICS/MS nº 56, de 18/10/2023), prevê o efavirenz em duas situações:
- substituto do dolutegravir em caso de intolerância ou contraindicação (ao lado de darunavir com ritonavir), de preferência com carga viral detectável e genotipagem que comprove sensibilidade, sem adiar o início do tratamento;
- alternativa na coinfecção tuberculose/HIV, na dose fixa tenofovir 300 mg + lamivudina 300 mg + efavirenz 600 mg (a pílula “3 em 1”), quando a genotipagem pré-tratamento puder ser realizada, reavaliando a troca por dolutegravir ao fim do tratamento da tuberculose.
O protocolo justifica a mudança pelo risco de resistência transmitida: a prevalência estimada da mutação K103N no país varia de 3,4% a 5,5% e pode superar 10%.
| Agência | Situação |
|---|---|
| FDA (EUA) | Sustiva (NDA 020972 e 021360) descontinuado; genéricos aprovados; rótulo de referência revisado em 11/2023 |
| EMA (UE) | Sustiva retirado em 01/02/2024 e Stocrin em 30/09/2025, a pedido dos titulares, por razões comerciais; há genéricos autorizados |
| ANVISA (Brasil) | Efavirenz 600 mg comprimido revestido (Fundação Oswaldo Cruz/Farmanguinhos, 1.1063.0126, institucional), ativo até 01/2029; EVIR solução oral 30 mg/mL (Cristália, 1.0298.0318), ativo até 04/2028; Triplivir, tenofovir + lamivudina + efavirenz (Blanver, 1.1524.0026, institucional), registrado em 29/06/2026 e ativo até 06/2036; Stocrin (1.0029.0018) inativo desde 11/2018 |
Evidências clínicas
Estudo 006 (fase 3, aberto, randomizado; NCT00002410). Em pacientes sem uso prévio de lamivudina, ITRNN ou inibidor de protease, a carga viral ficou indetectável em 70% com efavirenz + zidovudina + lamivudina, contra 48% com indinavir + zidovudina + lamivudina (P<0,001), segundo a publicação com 450 pacientes.
SINGLE (fase 3, duplo-cego; NCT01263015). Em 833 adultos sem tratamento prévio, dolutegravir + abacavir/lamivudina foi superior a efavirenz/tenofovir/entricitabina: 88% contra 81% com RNA do HIV-1 abaixo de 50 cópias/mL em 48 semanas (P=0,003). As interrupções por eventos adversos foram de 2% contra 10%.
ENCORE1 (fase 3, duplo-cego; NCT01011413). Em 630 adultos, efavirenz 400 mg foi não inferior a 600 mg, ambos com tenofovir + entricitabina: carga viral abaixo de 200 cópias/mL em 48 semanas em 94,1% contra 92,2% (IC 95% da diferença de -2,1 a 5,79). A dose padrão do rótulo americano do efavirenz isolado e do PCDT segue sendo 600 mg.
Posologia e administração
Adultos (rótulo FDA): 600 mg por via oral, uma vez ao dia, em combinação, com o estômago vazio e de preferência ao deitar. O alimento eleva a concentração do fármaco e pode aumentar os efeitos adversos; a dose noturna pode melhorar a tolerância aos sintomas neurológicos. O comprimido revestido deve ser engolido inteiro, sem partir ou triturar. O PCDT orienta a tomada antes de dormir, duas horas após o jantar.
Crianças: a partir de 3 meses e 3,5 kg, dose por peso: de 100 mg a 400 mg ao dia abaixo de 40 kg e 600 mg a partir de 40 kg.
Ajustes: com voriconazol, o rótulo reduz o efavirenz para 300 mg ao dia e aumenta a dose do voriconazol; com rifampicina, em pacientes com 50 kg ou mais, recomenda 800 mg ao dia. Já o PCDT considera sem impacto clínico a redução de nível causada pela rifampicina e mantém a dose na coinfecção com tuberculose. Não é recomendado na insuficiência hepática moderada ou grave. Doses e ajustes são definidos pelo médico.
Segurança
Advertência em caixa preta: não há no rótulo americano (revisão 11/2023).
Contraindicações: hipersensibilidade clinicamente significativa prévia (como síndrome de Stevens-Johnson, eritema multiforme ou erupções cutâneas tóxicas) a qualquer componente; e uso com elbasvir/grazoprevir.
- Sintomas psiquiátricos graves, como depressão grave (2,4% contra 0,9% nos controles) e ideação suicida (0,7% contra 0,3%), exigem avaliação médica imediata.
- Sintomas do sistema nervoso (53% contra 25%), como tontura, insônia e sonhos anormais, costumam melhorar em 2 a 4 semanas; há relatos de neurotoxicidade tardia, com ataxia e encefalopatia, meses a anos após o início.
- Erupção cutânea (26% contra 17%), em geral leve a moderada; suspender em caso de erupção grave com bolhas, descamação, acometimento de mucosas ou febre.
- Hepatotoxicidade, inclusive hepatite fulminante; monitorar enzimas hepáticas antes e durante o uso.
- Prolongamento do intervalo QT, convulsões, aumento de colesterol e triglicerídeos, síndrome de reconstituição imune e redistribuição de gordura corporal.
Gravidez e amamentação: evitar no primeiro trimestre, pelo risco potencial de defeitos do tubo neural (relação causal não estabelecida); teste de gravidez antes do início e contracepção eficaz durante o uso e por 12 semanas após a suspensão, com método de barreira associado a outro; métodos hormonais com progesterona podem perder eficácia. O rótulo desaconselha a amamentação, pelo risco de transmissão do HIV.
Como funciona o acesso no Brasil
O efavirenz é de fornecimento público. A Lei nº 9.313/1996 garante às pessoas vivendo com HIV o recebimento gratuito, pelo SUS, de toda a medicação necessária ao tratamento, padronizada pelo Ministério da Saúde. O efavirenz 600 mg e a dose fixa tenofovir/lamivudina/efavirenz constam da lista de antirretrovirais do Apêndice A do PCDT.
O caminho é o serviço do SUS que acompanha a pessoa vivendo com HIV: a equipe indica o esquema conforme o protocolo, e as retiradas periódicas são registradas no Siclom, o sistema de controle logístico de medicamentos do Ministério da Saúde. O paciente não compra o medicamento, e os registros ativos na ANVISA tornam desnecessária a importação para uso próprio.
Perguntas Frequentes
O efavirenz é distribuído pelo SUS?
Sim. Os antirretrovirais são gratuitos pela Lei nº 9.313/1996, e o efavirenz consta do PCDT em comprimido de 600 mg e na dose fixa com tenofovir e lamivudina. O acesso começa no serviço que acompanha o paciente.
Por que o efavirenz deixou de ser o esquema preferencial?
O PCDT aponta risco relevante de resistência transmitida no Brasil e registra que o efavirenz foi inferior ao dolutegravir após 48 semanas, diferença atribuída a mais interrupções por eventos adversos.
Por que tomar ao deitar e com o estômago vazio?
Segundo o rótulo, o alimento eleva a concentração do efavirenz e pode aumentar os efeitos adversos, e a tomada ao deitar pode melhorar a tolerância a sintomas do sistema nervoso, como tontura e insônia.
O efavirenz pode ser usado na gravidez?
O rótulo orienta evitá-lo no primeiro trimestre e recomenda teste de gravidez e contracepção eficaz. A decisão cabe ao médico que acompanha a paciente.
O efavirenz altera exames de urina para canabinoides?
Pode. O rótulo descreve falso-positivos em alguns testes de triagem e orienta a confirmação do resultado positivo por método mais específico.
Conclusão
O efavirenz segue útil em situações específicas, como alternativa ao dolutegravir e na coinfecção com tuberculose. No Brasil, é distribuído gratuitamente pelo SUS conforme o PCDT, sob prescrição e acompanhamento médico, com atenção a efeitos neuropsiquiátricos, interações e planejamento reprodutivo.
Fontes
- FDA. Rótulo de Sustiva (efavirenz), NDA 020972 e NDA 021360, Bristol-Myers Squibb, revisão 11/2023.
- DailyMed. Rótulo de efavirenz comprimidos (Cipla USA), setid 92603fa5-7a2c-4bfb-9a70-aadb4fba952c, revisão 3/2024.
- Drugs@FDA. NDA 020972 e NDA 021360 (Sustiva): produtos descontinuados.
- EMA. Sustiva (efavirenz), EMEA/H/C/000249: autorização retirada em 01/02/2024.
- EMA. Stocrin (efavirenz), EMEA/H/C/000250: autorização retirada em 30/09/2025.
- EMA. Efavirenz Teva (efavirenz), EMEA/H/C/002352: genérico autorizado desde 09/01/2012.
- ANVISA. Consulta à base de medicamentos em 18/09/2026: registros 1.1063.0126, 1.0298.0318, 1.1524.0026 e 1.0029.0018.
- Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1: Tratamento. Portaria SECTICS/MS nº 56, de 18/10/2023.
- Brasil. Lei nº 9.313, de 13/11/1996.
- Staszewski S et al., N Engl J Med, 1999;341(25):1865-73. PMID 10601505. NCT00002410.
- Walmsley SL et al., N Engl J Med, 2013;369(19):1807-18. PMID 24195548. NCT01263015.
- ENCORE1 Study Group, Lancet, 2014;383(9927):1474-82. PMID 24522178. NCT01011413.
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