Mylotarg (gentuzumabe ozogamicina): conjugado anticorpo-fármaco anti-CD33 para leucemia mieloide aguda

Resumo rápido

  • O gentuzumabe ozogamicina é um conjugado anticorpo-fármaco: um anticorpo contra a proteína CD33, encontrada na superfície das células da leucemia mieloide aguda (LMA) CD33-positiva, ligado a um agente que quebra o DNA da célula doente.
  • Nos Estados Unidos, é indicado na LMA CD33-positiva recém-diagnosticada (a partir de 1 mês de vida) e na recidivada ou refratária (a partir de 2 anos); na União Europeia e na indicação divulgada pela ANVISA, em combinação com quimioterapia na LMA não tratada, a partir de 15 anos.
  • A aplicação é uma infusão na veia de 2 horas, com pré-medicação e monitoramento frequente do sangue e do fígado.
  • O rótulo norte-americano traz advertência em destaque (tarja) para toxicidade hepática, incluindo a doença veno-oclusiva do fígado, que pode ser fatal.
  • O Mylotarg tem registro ativo na ANVISA, em nome da Pfizer; é aplicado em serviço especializado, e o acesso passa pelo hospital, pelo plano de saúde e, se houver negativa, pela discussão do custeio.

O que é Mylotarg (gentuzumabe ozogamicina)?

Mylotarg é a marca do gentuzumabe ozogamicina, da Pfizer. A molécula une um anticorpo monoclonal humanizado da classe IgG4, dirigido ao antígeno CD33, a um derivado da caliqueamicina, substância citotóxica. O medicamento é fornecido como pó liofilizado em frasco de dose única com 4,5 mg, que é reconstituído e diluído antes da infusão.

Uma história regulatória singular

O Mylotarg recebeu aprovação acelerada nos Estados Unidos em 17/05/2000, em monoterapia na dose de 9 mg/m², para pacientes com 60 anos ou mais em primeira recidiva que não eram candidatos a quimioterapia citotóxica. O estudo confirmatório SWOG S0106, com 637 pacientes com menos de 60 anos, não mostrou ganho em remissão completa, sobrevida livre de doença ou sobrevida global e registrou mais mortes por toxicidade na indução (5,8% contra 1,3%). A pedido da FDA, a Wyeth retirou o produto do mercado em 2010, e a aprovação foi formalmente retirada em 25/10/2010. Na Europa, o primeiro pedido foi recusado em 14/04/2008.

A volta veio com doses menores e fracionadas. A FDA aprovou o BLA 761060 em 01/09/2017, e a EMA autorizou o medicamento em 19/04/2018, como medicamento órfão, em nome da Pfizer Europe MA EEIG. No Brasil, um primeiro registro, publicado em 2001, venceu em 2011; o registro atual (1.2110.0480, Pfizer Brasil) está ativo, e a ANVISA divulgou em 01/02/2021 a indicação em combinação na LMA recém-diagnosticada, após análise priorizada.

Mecanismo de ação

O CD33 é uma proteína de adesão encontrada na superfície dos blastos da leucemia mieloide e de células imaturas normais da linhagem mielomonocítica, mas não nas células-tronco hematopoéticas normais. O anticorpo se liga ao CD33, o complexo é internalizado e o derivado da caliqueamicina é liberado dentro da célula. Ali, ele se liga ao DNA e provoca quebras de fita dupla, que levam à parada do ciclo celular e à morte da célula.

Indicações

Agência Indicação Faixa etária
FDA (EUA) LMA CD33-positiva recém-diagnosticada Adultos e crianças a partir de 1 mês
FDA (EUA) LMA CD33-positiva recidivada ou refratária Adultos e crianças a partir de 2 anos
EMA (União Europeia) Combinação com daunorrubicina e citarabina na LMA CD33-positiva de novo não tratada, exceto leucemia promielocítica aguda A partir de 15 anos
ANVISA (Brasil), indicação divulgada em 2021 Combinação com daunorrubicina e citarabina na LMA primária CD33-positiva não tratada, exceto leucemia promielocítica aguda A partir de 15 anos

A página da ANVISA que divulgou a indicação, em 01/02/2021, descreve a terapia de combinação na doença recém-diagnosticada; o uso em recidiva ou refratariedade é indicação aprovada pela FDA. O uso aprovado no país é o definido na bula brasileira vigente.

Quem é candidato

A indicação é restrita à LMA CD33-positiva. No estudo que embasou o uso em combinação, o benefício foi observado em pacientes de 50 a 70 anos com LMA de novo. No subgrupo com citogenética de risco adverso, a adição do medicamento não melhorou a sobrevida livre de eventos (razão de risco 1,11; intervalo de confiança de 95%: 0,63 a 1,95), e o rótulo da FDA orienta reavaliar a continuidade do tratamento quando o resultado citogenético estiver disponível.

Evidências clínicas

  • ALFA-0701 (NCT00927498): estudo de fase 3, aberto, que na análise da FDA incluiu 271 pacientes de 50 a 70 anos com LMA de novo não tratada, tratados com daunorrubicina e citarabina com ou sem gentuzumabe 3 mg/m² nos dias 1, 4 e 7 da indução e no dia 1 de duas consolidações. A sobrevida livre de eventos mediana foi de 17,3 meses com o medicamento e de 9,5 meses sem ele (razão de risco 0,56; intervalo de confiança de 95%: 0,42 a 0,76). Na análise apresentada no rótulo da FDA, não houve diferença estatisticamente significativa de sobrevida global.
  • AML-19 (NCT00091234): estudo de fase 3 com 237 pacientes com LMA recém-diagnosticada, acima de 75 anos ou de 61 a 75 anos sem condições ou sem disposição para quimioterapia intensiva. A monoterapia com gentuzumabe, comparada ao melhor cuidado de suporte, reduziu o risco de morte (razão de risco 0,69; intervalo de confiança de 95%: 0,53 a 0,90; p=0,005), com sobrevida mediana de 4,9 contra 3,6 meses.
  • MyloFrance-1: estudo de fase 2, de braço único, com 57 adultos em primeira recidiva, tratados com um único curso de 3 mg/m² nos dias 1, 4 e 7. A remissão completa foi alcançada por 26% (intervalo de confiança de 95%: 16% a 40%), com sobrevida livre de recidiva mediana de 11,6 meses.
  • AAML0531: estudo randomizado com 1.063 pacientes de 0 a 29 anos com LMA recém-diagnosticada. A adição de uma dose na primeira indução e outra na segunda intensificação resultou em razão de risco de 0,84 para eventos (intervalo de confiança de 95%: 0,71 a 0,99); em 5 anos, 48% dos pacientes estavam livres de eventos, contra 40% sem o medicamento, sem diferença de sobrevida global.

Posologia e administração

A dose é calculada pela superfície corporal. O pó é reconstituído, diluído e infundido na veia em 2 horas, com filtro em linha e bolsa protegida da luz. Antes de cada dose, o rótulo da FDA prevê paracetamol, anti-histamínico (difenidramina) e corticoide (metilprednisolona 1 mg/kg). Também são recomendadas medidas para prevenir a síndrome de lise tumoral e, se os leucócitos estiverem em 30 × 10⁹/L ou mais, a redução prévia da contagem (citorredução).

Situação (rótulo da FDA) Esquema
LMA recém-diagnosticada, em combinação (adultos) Indução: 3 mg/m² (até um frasco de 4,5 mg) nos dias 1, 4 e 7, com daunorrubicina e citarabina; consolidação: 3 mg/m² no dia 1, em dois ciclos. Não se aplica o medicamento numa segunda indução.
LMA recém-diagnosticada, em combinação (a partir de 1 mês) 3 mg/m² (superfície corporal a partir de 0,6 m²) ou 0,1 mg/kg (abaixo de 0,6 m²), uma vez na primeira indução e uma vez na segunda intensificação.
LMA recém-diagnosticada, em monoterapia (adultos) 6 mg/m² no dia 1 e 3 mg/m² no dia 8; depois, até oito ciclos de 2 mg/m² a cada 4 semanas.
LMA recidivada ou refratária (adultos e a partir de 2 anos) 3 mg/m² (até um frasco de 4,5 mg) nos dias 1, 4 e 7, em curso único.

Monitoramento durante o tratamento

Antes de cada dose, dosam-se ALT, AST, bilirrubina total e fosfatase alcalina. O hemograma deve ser acompanhado com frequência, e hemograma e bioquímica, pelo menos três vezes por semana até a recuperação. A dose é adiada se a bilirrubina passar de duas vezes o limite normal ou as transaminases de 2,5 vezes, e o medicamento é suspenso se surgir doença veno-oclusiva. Em quem tem risco de prolongamento do intervalo QT, recomendam-se eletrocardiograma e eletrólitos. No ALFA-0701, recomendou-se intervalo de 2 meses entre a última dose e um transplante de células-tronco.

Segurança

O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para hepatotoxicidade, incluindo a doença veno-oclusiva do fígado (também chamada de síndrome de obstrução sinusoidal), grave ou fatal, relatada tanto em monoterapia quanto em combinação. No rótulo da FDA, a única contraindicação é a hipersensibilidade (inclusive anafilaxia) ao medicamento ou a seus componentes.

  • Doença veno-oclusiva: ocorreu em 6 de 131 adultos (5%) no ALFA-0701, com três mortes, e em 5% das crianças no AAML0531. O risco foi maior com doses mais altas em monoterapia, com insuficiência hepática moderada ou grave antes do tratamento (8,7 vezes), no uso após transplante (2,6 vezes) e no transplante feito depois do medicamento (2,9 vezes).
  • Sangramento: no ALFA-0701, houve sangramento em 90% dos pacientes, de grau 3 ou 4 em 21% e fatal em 3%, ligado à queda prolongada de plaquetas.
  • Reações à infusão: podem ser graves ou fatais durante a infusão ou até 24 horas depois; o paciente é observado por pelo menos 1 hora após o término.
  • Gravidez: pode causar dano ao feto; recomenda-se contracepção eficaz por pelo menos 6 meses após a última dose para mulheres e 3 meses para homens com parceira que possa engravidar.
  • Reações comuns: infecção, febre, náusea, vômitos, constipação, dor de cabeça, elevação de enzimas do fígado, erupção na pele, mucosite, neutropenia febril e perda de apetite.

Doença veno-oclusiva do fígado: sinais de alerta

Os sinais incluem aumento de ALT, AST e bilirrubina, fígado aumentado, que pode doer, ganho rápido de peso e ascite, o acúmulo de líquido no abdome. O rótulo alerta que monitorar só a bilirrubina pode não identificar todos os pacientes em risco, e o acompanhamento deve continuar após um eventual transplante.

Como funciona o acesso no Brasil

O Mylotarg tem registro ativo na ANVISA (1.2110.0480, Pfizer Brasil, vencimento em fevereiro de 2029, consulta em 23/09/2026). É um medicamento aplicado em serviço especializado: a aquisição, o preparo e a infusão ficam a cargo do hospital ou da clínica que trata a leucemia, e a compra é feita no mercado nacional. A importação não é o caminho para este medicamento.

No SUS: responsabilidade do hospital habilitado

Segundo as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do adulto (Portaria SAS/MS nº 705/2014), pacientes com 19 anos ou mais devem ser atendidos em hospitais habilitados em oncologia com serviço de hematologia. Com exceção do imatinibe e da L-asparaginase, o Ministério da Saúde e as secretarias não padronizam nem fornecem antineoplásicos: cada hospital habilitado define, compra e fornece os medicamentos que usa. O gentuzumabe ozogamicina não é citado nessas diretrizes, e a disponibilidade depende da padronização do hospital.

No plano de saúde

Nos planos com cobertura hospitalar, a Lei 9.656/1998 (art. 12, inciso II, alínea “d”) prevê o fornecimento de medicamentos e de sessões de quimioterapia prescritos pelo médico assistente e ministrados durante a internação. O pedido parte do médico assistente, com relatório que documente o diagnóstico, a expressão de CD33 e o esquema proposto. Diante de negativa, é possível registrar reclamação na ANS e discutir o custeio na Justiça; trata-se de custeio de um medicamento registrado, e não de importação, e cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

O Mylotarg é quimioterapia?

É um conjugado anticorpo-fármaco, que leva um agente citotóxico até as células com CD33. Na indicação europeia e na divulgada pela ANVISA, é usado junto com a quimioterapia de indução e consolidação (daunorrubicina e citarabina).

Por que o Mylotarg saiu do mercado e voltou?

O esquema original, de dose alta, não confirmou benefício e teve mais mortes por toxicidade no estudo SWOG S0106, o que levou à retirada em 2010. A reaprovação, em 2017, baseou-se em doses menores e fracionadas.

Qual é o principal risco do tratamento?

A toxicidade hepática, com a doença veno-oclusiva do fígado, além de sangramentos pela queda de plaquetas e reações durante a infusão.

Crianças podem receber o Mylotarg?

Nos Estados Unidos, sim: a partir de 1 mês na doença recém-diagnosticada e a partir de 2 anos na recidivada ou refratária. Na Europa e na indicação divulgada pela ANVISA, a partir de 15 anos.

Quem fornece o Mylotarg no SUS?

O hospital habilitado em oncologia que trata o paciente, que padroniza e compra os antineoplásicos que utiliza; o Ministério da Saúde não fornece o medicamento diretamente.

Conclusão

O Mylotarg voltou ao arsenal contra a LMA depois de uma retirada marcante, agora com doses menores e fracionadas que, no ALFA-0701, prolongaram a sobrevida livre de eventos quando somadas à quimioterapia padrão. O risco de doença veno-oclusiva do fígado, de sangramento e de reações à infusão exige pré-medicação, exames frequentes e equipe experiente. No Brasil, o medicamento é registrado e aplicado em serviço especializado, e a indicação e o momento do tratamento devem ser definidos pela equipe de hematologia que acompanha o caso.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Mylotarg (gentuzumabe ozogamicina) injeção (DailyMed), Wyeth Pharmaceuticals LLC, subsidiária da Pfizer, versão 19 publicada em 12/2025; setid 32fd2bb2-1cfa-4250-feb8-d7956c794e05.
  2. FDA, Drugs@FDA — BLA 761060 (Mylotarg), aprovação em 01/09/2017.
  3. FDA, Summary Review do BLA 761060 (Mylotarg), 2017 — histórico da aprovação acelerada de 2000 (NDA 021174) e da retirada de 2010.
  4. EMA — Mylotarg, EPAR, EMEA/H/C/004204, titular Pfizer Europe MA EEIG, autorização em 19/04/2018.
  5. EMA — Mylotarg (Wyeth Europa Ltd), recusa de autorização, EMEA/H/C/000705, 14/04/2008.
  6. ANVISA — Consulta de medicamentos: Mylotarg, registro 1.2110.0480, Pfizer Brasil Ltda, ativo, vencimento 02/2029, consulta em 23/09/2026.
  7. ANVISA — Novos medicamentos e indicações: Mylotarg (gentuzumabe ozogamicina), nova indicação, publicado em 01/02/2021.
  8. Ministério da Saúde — Portaria SAS/MS nº 705, de 12/08/2014 (Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Leucemia Mieloide Aguda do Adulto).
  9. Brasil — Lei nº 9.656, de 03/06/1998, art. 12, inciso II, alínea “d” (texto compilado, planalto.gov.br).
  10. Castaigne S et al., Lancet, 2012;379(9825):1508-1516. PMID 22482940.
  11. ClinicalTrials.gov NCT00927498 (ALFA-0701).
  12. Amadori S et al., J Clin Oncol, 2016;34(9):972-979. PMID 26811524.
  13. ClinicalTrials.gov NCT00091234 (AML-19).

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