Uloric (febuxostate): inibidor da xantina oxidase para a gota que não responde ao alopurinol ou não o tolera

Resumo rápido

  • O Uloric (febuxostate) é um inibidor oral da xantina oxidase que reduz o ácido úrico no sangue; não tem registro na ANVISA.
  • Nos Estados Unidos, é indicado para adultos com gota que não atingem a meta com a dose máxima de alopurinol, não o toleram ou não podem usá-lo; não é recomendado para ácido úrico alto sem gota.
  • O rótulo americano tem advertência em destaque de morte cardiovascular, baseada no estudo CARES; no estudo europeu FAST, o febuxostate não foi inferior ao alopurinol em eventos cardiovasculares.
  • No Brasil há alopurinol e benzbromarona com registro ativo; o febuxostate chega por importação, em nome do paciente e com receita.
  • Sem registro, o fornecimento pelo poder público por ordem judicial é excepcional (Tema 500 do STF), e os planos de saúde não são obrigados a fornecê-lo (Tema 990 do STJ).

O que é Uloric (febuxostate)?

Uloric é o nome comercial, nos Estados Unidos, do febuxostate, em comprimidos de 40 mg e 80 mg para o controle prolongado do ácido úrico na gota. Também é comercializado como Adenuric, na União Europeia. A FDA o aprovou em 13/02/2009 (NDA 021856), hoje em nome da Takeda Pharmaceuticals America, e há genéricos aprovados nos Estados Unidos; o Adenuric (Menarini) foi autorizado na União Europeia em 21/04/2008, com genéricos da Viatris e da Krka.

No Brasil, a ANVISA não tem registro de febuxostate, pela marca nem pelo princípio ativo.

Mecanismo de ação

O ácido úrico é o produto final do metabolismo das purinas, formado em duas etapas (de hipoxantina a xantina e de xantina a ácido úrico) catalisadas pela enzima xantina oxidase. Segundo a bula europeia, o febuxostate é um inibidor seletivo e não purínico dessa enzima, ativo sobre suas formas oxidada e reduzida; nas doses terapêuticas, não inibe outras enzimas do metabolismo de purinas e pirimidinas. A meta do tratamento, pelo rótulo americano, é manter o ácido úrico abaixo de 6 mg/dL.

Indicações

Estados Unidos (FDA)

Manejo crônico da hiperuricemia em adultos com gota com resposta inadequada à dose máxima titulada de alopurinol, intolerância ao alopurinol ou para quem ele não é aconselhável. O rótulo não recomenda o uso na hiperuricemia assintomática nem quando a formação de urato está muito aumentada, como em doença maligna e seu tratamento; em crianças, segurança e eficácia não foram estabelecidas.

União Europeia (EMA)

Adenuric 80 mg e 120 mg: hiperuricemia crônica em adultos com depósito de urato já ocorrido (tofo ou artrite gotosa, atuais ou prévios), sem exigir falha do alopurinol. Só a dose de 120 mg inclui também a prevenção e o tratamento da hiperuricemia em adultos em quimioterapia para neoplasias hematológicas com risco intermediário a alto de síndrome de lise tumoral.

Quem é candidato

Pelo rótulo americano, a pessoa com gota, e não apenas com ácido úrico alto, em quem o alopurinol falhou na dose máxima, causou intolerância ou não é aconselhável. Quem já teve reação grave de pele ao alopurinol exige monitoramento próximo, porque muitos casos de reação grave ao febuxostate ocorreram nesse grupo. Na doença cardiovascular estabelecida, o rótulo pede pesar riscos e benefícios.

Evidências clínicas

Redução do ácido úrico

Três estudos de fase 3, randomizados e duplo-cegos, mediram a proporção de pacientes com ácido úrico abaixo de 6 mg/dL na visita final. No CONFIRMS (NCT00430248), com 2.268 pacientes por 6 meses, a meta foi atingida por 67% com 80 mg, 45% com 40 mg e 42% com alopurinol: a dose de 80 mg foi superior, e a de 40 mg, eficaz, mas não superior. No APEX (NCT00174915), de 6 meses, foram 72% com 80 mg, 39% com alopurinol e 1% com placebo; no FACT (NCT00102440), de 12 meses, 74% contra 36%.

Segurança cardiovascular: CARES e FAST

Os dois grandes estudos compararam febuxostate e alopurinol, com resultados diferentes para a mortalidade.

Estudo Quem entrou Desenho Resultado
CARES (NCT01101035) 6.190 pessoas com gota e doença cardiovascular estabelecida Duplo-cego; seguimento mediano de 2,6 anos Eventos cardiovasculares maiores semelhantes (10,8% contra 10,4%); morte cardiovascular 4,3% contra 3,2% (razão de risco 1,34) e morte por qualquer causa 7,8% contra 6,4%
FAST 6.128 pessoas de 60 anos ou mais, já em uso de alopurinol, com fator de risco cardiovascular (Reino Unido, Dinamarca e Suécia) Aberto, com desfechos avaliados às cegas Não inferior no desfecho cardiovascular combinado (razão de risco ajustada 0,85); óbitos 7,2% contra 8,6%

O FAST excluiu quem teve infarto ou AVC nos 6 meses anteriores, insuficiência cardíaca grave ou insuficiência renal grave.

Posologia e administração

O febuxostate é tomado por via oral, uma vez ao dia, com ou sem alimento; pelo rótulo americano, independentemente de antiácidos.

  • Estados Unidos: 40 mg por dia; se o ácido úrico não ficar abaixo de 6 mg/dL após 2 semanas, 80 mg. Na insuficiência renal grave, limite de 40 mg.
  • União Europeia: 80 mg por dia; se o ácido úrico passar de 6 mg/dL após 2 a 4 semanas, pode-se considerar 120 mg. Na síndrome de lise tumoral, 120 mg a partir de 2 dias antes da quimioterapia, por pelo menos 7 dias.

Crises no início do tratamento

A queda do ácido úrico mobiliza depósitos de urato, e as crises de gota ficam mais frequentes no começo. O rótulo americano recomenda profilaxia com anti-inflamatório não esteroide ou colchicina desde o início, útil por até 6 meses; a bula europeia fala em pelo menos 6 meses. Se houver crise, o febuxostate não precisa ser suspenso.

Segurança

O rótulo americano tem advertência em destaque (tarja/quadro de advertência) de morte cardiovascular: pacientes com gota e doença cardiovascular estabelecida tratados com febuxostate tiveram mais mortes cardiovasculares que os tratados com alopurinol. Por isso, o uso fica restrito a quem não respondeu ao alopurinol na dose máxima, não o tolera ou não pode usá-lo. A morte súbita cardíaca foi a causa mais comum (2,7% contra 1,8%), e o rótulo sugere considerar ácido acetilsalicílico em baixa dose em quem tem história cardiovascular. Na União Europeia, a bula pede cautela e monitoramento regular nas doenças cardiovasculares maiores.

Contraindicações e interações

Nos Estados Unidos, é contraindicado com azatioprina ou mercaptopurina, cujas concentrações podem subir a níveis tóxicos. Na União Europeia, a contraindicação é a hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos excipientes, e a associação com azatioprina ou mercaptopurina não é recomendada; se inevitável, a dose delas cai para 20% ou menos. A teofilina exige cautela.

Fígado, pele e acompanhamento

  • Fígado: houve insuficiência hepática, inclusive fatal; exames do fígado antes de iniciar e diante de sintomas, com suspensão definitiva se a lesão se confirmar sem outra causa.
  • Pele: síndrome de Stevens-Johnson, reação com eosinofilia e sintomas sistêmicos (DRESS) e necrólise epidérmica tóxica foram relatadas; diante da suspeita, o medicamento é suspenso.
  • Coração: vigiar sinais de evento cardiovascular e buscar atendimento imediato se surgirem.
  • Reações comuns (1% ou mais): alteração dos exames do fígado, náusea, dor articular e erupção cutânea.

Situação regulatória e como funciona o acesso

O febuxostate tem registro nos Estados Unidos (Uloric e genéricos) e na União Europeia (Adenuric e genéricos), mas não no Brasil, e não há recomendação da Conitec sobre ele. O acesso ocorre por importação para uso próprio, com receita médica.

O que existe no Brasil

Na base da ANVISA, o alopurinol tem registro ativo como Zyloric (Aspen Pharma) e em genéricos, e a benzbromarona, como Zilaricina (Brasterapica), ambos na classe dos antigotosos; a colchicina, usada na prevenção de crises, também é registrada. A escolha entre essas opções e o febuxostate cabe ao médico assistente.

Como a Medicsupply conduz a importação

No caso do febuxostate, a Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos. O processo corre sempre em nome do paciente e começa pela receita médica. O prazo médio depende da origem do produto:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul.

Compra judicial: quando o custeio passa pela Justiça

Como regra, a falta de registro na ANVISA impede que o poder público seja obrigado a fornecer o medicamento por decisão judicial (Tema 500 do STF, RE 657.718, julgado em 22/05/2019). A exceção exige mora irrazoável da ANVISA na análise de um pedido de registro, além de registro em agências reguladoras renomadas no exterior e ausência de substituto terapêutico registrado no Brasil; essas ações são propostas contra a União. No febuxostate, o último requisito pesa: o alopurinol é registrado, e o relatório médico precisa detalhar por que ele não serve ao caso.

Nos planos de saúde, o STJ decidiu que as operadoras não são obrigadas a fornecer medicamento não registrado pela ANVISA (Tema 990), e a Lei 9.656/1998 exclui da cobertura obrigatória os medicamentos importados não nacionalizados (art. 10, V). Quem avalia a via judicial precisa de receita, relatório médico detalhado e orientação jurídica individualizada, sem garantia de resultado; é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Perguntas Frequentes

O febuxostate é vendido no Brasil?

Não. Não há registro na ANVISA, pela marca nem pelo princípio ativo; o acesso é por importação em nome do paciente, com receita.

Qual a diferença entre Uloric e Adenuric?

Ambos são febuxostate. O Uloric, americano, tem comprimidos de 40 e 80 mg e indicação restrita a quem não pode usar o alopurinol ou não respondeu a ele; o Adenuric, europeu, vem em 80 e 120 mg, sem essa restrição, e a dose de 120 mg também cobre a síndrome de lise tumoral.

O febuxostate faz mal ao coração?

No CARES, em pessoas com doença cardiovascular estabelecida, houve mais mortes cardiovasculares que com alopurinol; no FAST, o febuxostate foi não inferior. Nos Estados Unidos, o uso é restrito e há advertência em destaque; na União Europeia, a bula pede cautela nesse grupo.

Serve para ácido úrico alto sem crises?

Não. O rótulo americano não recomenda o febuxostate na hiperuricemia assintomática; a indicação é a gota.

Por que as crises aumentam no começo?

Porque a queda do ácido úrico mobiliza depósitos de urato. Por isso se recomenda profilaxia com anti-inflamatório ou colchicina, sem suspender o febuxostate se houver crise.

Conclusão

O febuxostate é uma opção para a gota quando o alopurinol não funciona ou não pode ser usado. Na dose de 80 mg, superou o alopurinol em doses fixas na meta de ácido úrico, mas tem advertência cardiovascular nos Estados Unidos e pede cautela na Europa. Sem registro no Brasil, chega por importação para uso próprio, com receita; o custeio judicial é excepcional e depende de relatório médico detalhado e orientação jurídica.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Uloric (febuxostate) (DailyMed), Takeda Pharmaceuticals America, revisão 12/2025; setid 54de10ef-fe5f-4930-b91d-6bbb04c664bd.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 021856 (Uloric), aprovação em 13/02/2009.
  3. EMA — Adenuric, EPAR e resumo das características do produto, EMEA/H/C/000777.
  4. ANVISA — Consulta de medicamentos (dados abertos): febuxostate, nenhum registro pela marca (Uloric, Adenuric) ou pelo princípio ativo, consulta em 23/09/2026.
  5. ANVISA — Consulta de medicamentos: Zyloric (alopurinol), registro 1.3764.0122, Aspen Pharma Indústria Farmacêutica Ltda., ativo, consulta em 23/09/2026.
  6. ANVISA — Consulta de medicamentos: Zilaricina (benzbromarona), registro 1.0038.0103, Brasterapica Pharmaceutica Ltda., ativo, consulta em 23/09/2026.
  7. Becker MA et al., N Engl J Med, 2005;353(23):2450-2461. PMID 16339094 (FACT; ClinicalTrials.gov NCT00102440).
  8. Becker MA et al., Arthritis Res Ther, 2010;12(2):R63. PMID 20370912 (CONFIRMS; ClinicalTrials.gov NCT00430248).
  9. White WB et al., N Engl J Med, 2018;378(13):1200-1210. PMID 29527974 (CARES; ClinicalTrials.gov NCT01101035).
  10. Mackenzie IS et al., Lancet, 2020;396(10264):1745-1757. PMID 33181081 (FAST; ISRCTN72443728).
  11. STF — Tema 500 da repercussão geral (RE 657.718), julgado em 22/05/2019.
  12. STJ — Tema 990 dos recursos repetitivos (REsp 1.712.163/SP e REsp 1.726.563/SP), 2018.
  13. Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998 (planos de saúde), art. 10, V.

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