Resumo rápido
- O donanemabe é um anticorpo monoclonal que se liga a uma forma modificada da proteína beta-amiloide presente nas placas cerebrais da doença de Alzheimer e ajuda a removê-las.
- No Brasil e na União Europeia, a indicação é para adultos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve pela doença de Alzheimer que sejam heterozigotos ou não portadores do gene ApoE ε4.
- A aplicação é uma infusão na veia, de cerca de 30 minutos, a cada 4 semanas, com ressonâncias magnéticas programadas para vigiar alterações no cérebro.
- O principal risco são as anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide (ARIA), com inchaço ou micro-hemorragias cerebrais, tema da advertência em destaque (tarja) do rótulo norte-americano.
- O Kisunla tem registro ativo na ANVISA desde abril de 2025, mas não consta do protocolo do SUS para a doença nem das diretrizes do Rol da ANS; o acesso passa pelo custeio.
O que é Kisunla (donanemabe)?
Kisunla é a marca do donanemabe, anticorpo monoclonal humanizado da classe IgG1 desenvolvido pela Eli Lilly para a doença de Alzheimer em fase sintomática inicial. O medicamento é fornecido em frasco-ampola com 350 mg em 20 mL (17,5 mg/mL), que deve ser diluído em soro fisiológico antes da infusão. Nos estudos, o donanemabe desacelerou o declínio cognitivo e das atividades do dia a dia; a doença continuou a progredir nos dois grupos, porém mais devagar com o tratamento.
Registro no Brasil, nos EUA e na Europa
No Brasil, o registro do Kisunla (1.1260.0207, Eli Lilly do Brasil) foi publicado no Diário Oficial da União em 22/04/2025, após análise prioritária, e vence em abril de 2035. Nos Estados Unidos, o BLA 761248 foi aprovado em 02/07/2024, e um suplemento de 01/07/2025 trouxe um esquema de doses com aumento mais gradual. Na União Europeia, a autorização saiu em 24/09/2025, em nome da Eli Lilly Nederland B.V., e o medicamento está sob monitoramento adicional.
Mecanismo de ação
O acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro é uma marca da doença de Alzheimer. O donanemabe reconhece uma forma específica dessa proteína, truncada na ponta inicial e modificada (beta-amiloide piroglutamato), que existe nas placas e não é detectada no sangue nem no líquor. Ao se ligar a ela, o anticorpo favorece a remoção das placas pelas células de defesa do cérebro, a micróglia.
No estudo principal, entre os pacientes da população indicada na Europa, a placa caiu abaixo do limite de depuração (24,1 centiloides na tomografia por emissão de pósitrons, a PET) em 32,5% na semana 24, 69,5% na semana 52 e 80,8% na semana 76. Depois da interrupção, os valores de amiloide voltam a subir, com mediana de 2,80 centiloides por ano, segundo o rótulo da FDA.
Indicações
| Agência | Indicação |
|---|---|
| ANVISA (Brasil) | Comprometimento cognitivo leve e/ou demência leve associados à doença de Alzheimer, em adultos heterozigotos ou não portadores do gene ApoE ε4 |
| EMA (União Europeia) | Adultos com diagnóstico clínico de comprometimento cognitivo leve e demência leve devidos à doença de Alzheimer, heterozigotos ou não portadores de ApoE ε4, com patologia amiloide confirmada |
| FDA (EUA) | Doença de Alzheimer, com início do tratamento nas fases de comprometimento cognitivo leve ou demência leve |
A diferença central está nos homozigotos para ApoE ε4, que herdaram duas cópias dessa variante: no Brasil e na Europa, eles ficam fora da indicação, porque o risco de ARIA é maior. Nos Estados Unidos, o rótulo recomenda o teste antes do início para informar esse risco, mas admite o tratamento sem ele, caso em que o genótipo fica desconhecido.
Quem é candidato: os requisitos antes da primeira dose
- Diagnóstico de comprometimento cognitivo leve ou demência leve pela doença de Alzheimer, feito por médico experiente.
- Confirmação da presença de amiloide por exame validado, como PET de amiloide ou análise do líquor.
- Genotipagem do ApoE ε4 antes do início, com aconselhamento prévio.
- Ressonância magnética recente (até 6 meses, pela bula europeia) para afastar ARIA prévia, micro-hemorragias e sinais de angiopatia amiloide cerebral.
- Acesso rápido a ressonância e equipe treinada para reconhecer ARIA e reações à infusão.
Evidências clínicas
O estudo de fase 3 TRAILBLAZER-ALZ 2 (NCT04437511), randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, incluiu 1.736 pessoas com doença de Alzheimer sintomática inicial, com amiloide e proteína tau confirmadas por PET e pontuação de 20 a 28 no Miniexame do Estado Mental. Os pacientes receberam 700 mg de donanemabe nas três primeiras infusões e depois 1.400 mg a cada 4 semanas (860 pessoas), ou placebo (876), por até 72 semanas; quem atingia a depuração da placa passava, sem saber, para placebo. O desfecho principal foi a variação na escala integrada de avaliação da doença de Alzheimer (iADRS), que soma cognição e funcionamento diário, na semana 76.
- Tau baixa ou intermediária: a pontuação caiu 6,02 pontos com donanemabe e 9,27 com placebo (diferença de 3,25; P<0,001).
- População total: queda de 10,2 contra 13,1 pontos (diferença de 2,92; P<0,001). Na escala de gravidade da demência CDR-SB, a piora foi 0,70 ponto menor, o que corresponde a uma desaceleração de 29%, segundo o rótulo da FDA.
- Tau alta: em análise posterior, a diferença na iADRS não foi estatisticamente significativa (0,41; intervalo de confiança de 95%: −2,52 a 3,34).
- Interrupção por depuração: 17%, 47% e 69% dos tratados puderam passar para placebo nas semanas 24, 52 e 76.
Em análise posterior da população indicada no Brasil e na Europa (heterozigotos e não portadores), a diferença foi de 2,65 pontos na iADRS e de −0,69 na CDR-SB.
Titulação modificada: o estudo TRAILBLAZER-ALZ 6
O TRAILBLAZER-ALZ 6 (NCT05738486), de fase 3b, randomizou 843 pacientes para quatro esquemas com a mesma quantidade total de medicamento. Com a subida gradual (350 mg, 700 mg e 1.050 mg antes de chegar a 1.400 mg), a ARIA com edema ocorreu em 13,7% até a semana 24, contra 23,7% no esquema original, com redução de amiloide semelhante. Com base nesse resultado, o esquema gradual passou a ser o recomendado nos Estados Unidos e é o adotado na bula europeia.
| Esquema | Doses a cada 4 semanas | Onde aparece |
|---|---|---|
| Original | 700 mg, 700 mg, 700 mg e depois 1.400 mg | Estudo TRAILBLAZER-ALZ 2; registro brasileiro divulgado pela ANVISA em 2025 |
| Titulação modificada | 350 mg, 700 mg, 1.050 mg e depois 1.400 mg | Rótulo da FDA desde 07/2025 e bula europeia |
Posologia e administração
O donanemabe é diluído em cloreto de sódio a 0,9% e infundido na veia em cerca de 30 minutos, a cada 4 semanas; a bula europeia pede observação de pelo menos 30 minutos após cada infusão. No registro brasileiro, a ANVISA divulgou o esquema de 700 mg nas três primeiras doses e 1.400 mg a partir da quarta, mantido até a depuração da placa ou por até 18 meses quando não for possível monitorar a depuração com método validado; o esquema a seguir é o da bula aprovada no país, definido pelo médico. Na Europa, a duração máxima é de 18 meses, e a suspensão antes disso deve ser considerada se a doença avançar para a fase moderada. Se uma infusão for perdida, a aplicação é retomada o quanto antes, na mesma dose.
Ressonâncias de monitoramento
Além da ressonância antes do início, os rótulos norte-americano e europeu preveem exames antes da 2ª, da 3ª, da 4ª e da 7ª infusões. A bula europeia acrescenta uma ressonância com um ano de tratamento, antes da 12ª dose, para quem tem fatores de risco, como heterozigotos para ApoE ε4 ou quem já teve ARIA. Sintomas sugestivos de ARIA exigem avaliação clínica e ressonância a qualquer momento, e a dose é suspensa ou interrompida conforme a gravidade.
Segurança
O rótulo da FDA traz advertência em destaque (tarja) para ARIA. A ARIA com edema (ARIA-E) aparece como inchaço ou acúmulo de líquido no cérebro; a ARIA com depósito de hemossiderina (ARIA-H) inclui micro-hemorragias e siderose superficial. Em geral surge no início do tratamento e não causa sintomas, mas pode ser grave e até fatal, e a classe desses anticorpos já registrou hemorragias intracerebrais maiores que 1 cm, algumas fatais.
- Frequência: com o esquema original, ARIA ocorreu em 36% dos tratados (ARIA-E em 24% e ARIA-H em 31%), contra 14% com placebo; ARIA-E com sintomas ocorreu em 6%. Com a titulação modificada, as taxas foram de 29%, 16% e 25%, e a ARIA-E sintomática, de 3%.
- Genótipo: ARIA atingiu 55% dos homozigotos para ApoE ε4 (22% com placebo), 36% dos heterozigotos (13%) e 25% dos não portadores (12%).
- Hemorragia intracerebral maior que 1 cm: 0,5% com donanemabe e 0,2% com placebo no estudo principal. No TRAILBLAZER-ALZ 2, três mortes no grupo donanemabe e uma no grupo placebo foram consideradas relacionadas ao tratamento.
- Reações à infusão: 9% contra 0,5% com placebo, a maioria nas quatro primeiras infusões; há relatos de anafilaxia e angioedema.
No rótulo da FDA, a única contraindicação é a hipersensibilidade grave ao donanemabe ou aos componentes da fórmula. A ANVISA informou que o uso é contraindicado em quem toma anticoagulantes, incluindo a varfarina, e em quem tem angiopatia amiloide cerebral na ressonância antes do início. A bula europeia contraindica ainda distúrbios de coagulação não controlados, doença grave da substância branca, hipertensão mal controlada e condições que impedem a ressonância, como claustrofobia, marca-passo ou implantes metálicos ferromagnéticos.
Sintomas de ARIA e cuidado com trombólise
Quando há sintomas, os mais relatados são dor de cabeça, confusão, alterações visuais, tontura, náusea e dificuldade para andar; também podem ocorrer déficits focais e convulsões. Como a ARIA-E pode imitar um AVC isquêmico, a equipe deve considerar essa hipótese antes de aplicar trombolítico em quem usa donanemabe; houve hemorragia fatal nesse contexto nos dois estudos citados. O paciente deve levar consigo a informação de que está em tratamento.
Como funciona o acesso no Brasil
O Kisunla tem registro ativo na ANVISA (1.1260.0207, Eli Lilly do Brasil, consulta em 23/09/2026), e a aquisição é nacional; a importação não é o caminho para este medicamento. A infusão acontece em serviço de saúde com acesso a ressonância, e os exames exigidos (confirmação de amiloide, genotipagem e ressonâncias seriadas) precisam ser planejados junto com a medicação.
No SUS
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Alzheimer vigente (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 27, de 27/11/2025) prevê donepezila, galantamina, rivastigmina e memantina. O donanemabe não faz parte do protocolo e, portanto, não integra a oferta padronizada do SUS para a doença.
No plano de saúde
O donanemabe não consta das diretrizes de utilização do Rol da ANS (Anexo II, atualizado até a RN 676/2026), de modo que a cobertura não é automática. O pedido à operadora deve vir com relatório médico que documente o estágio da doença, a confirmação de amiloide, o genótipo e o plano de monitoramento por ressonância. Diante de negativa, é possível registrar reclamação na ANS e, se for o caso, discutir o custeio na Justiça; trata-se de custeio de medicamento registrado, e não de importação, e cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Comparação com o que existe no Brasil
Os medicamentos do protocolo do SUS são de uso oral ou por adesivo; segundo o PCDT, os inibidores da acetilcolinesterase podem melhorar sintomas cognitivos e a função global. Os anticorpos antiamiloides atuam sobre as placas e exigem infusão e monitoramento por imagem. Além do Kisunla, a ANVISA registra o Leqembi (lecanemabe, Eisai), outro anticorpo dirigido contra a beta-amiloide.
Perguntas Frequentes
O donanemabe interrompe a doença de Alzheimer?
Não. Nos estudos, houve declínio nos dois grupos, mas ele foi mais lento com o donanemabe, sobretudo em quem tinha carga baixa ou intermediária de tau.
Quem não pode usar o Kisunla?
No Brasil e na Europa, homozigotos para ApoE ε4 estão fora da indicação. Também não devem iniciar o tratamento pessoas em uso de anticoagulantes ou com sinais de angiopatia amiloide cerebral na ressonância, entre outras situações da bula.
Por quanto tempo o tratamento dura?
Até a depuração das placas confirmada por exame. Na Europa, o limite é de 18 meses; no Brasil, a ANVISA citou 18 meses quando não for possível monitorar a depuração por método validado.
Por que fazer o teste genético de ApoE ε4?
Porque o risco de ARIA, inclusive grave, é maior em quem tem duas cópias da variante. O resultado define a elegibilidade no Brasil e na Europa e deve ser discutido com o paciente e a família antes do exame.
O SUS ou o plano de saúde cobrem o Kisunla?
Não de forma automática: o donanemabe não está no protocolo do SUS nem nas diretrizes do Rol da ANS, e o acesso depende de pedido e, se houver negativa, da discussão sobre o custeio.
Conclusão
O Kisunla é um dos primeiros anticorpos antiamiloides registrados no Brasil e mostrou desacelerar o declínio na doença de Alzheimer inicial, sem interromper sua progressão. O benefício vem acompanhado de risco real de ARIA, maior em homozigotos para ApoE ε4, o que explica os requisitos de confirmação de amiloide, genotipagem e ressonâncias seriadas. No país, o acesso depende de custeio pelo plano, pelo poder público ou pela família, e a indicação deve ser avaliada por médico com experiência no diagnóstico e no tratamento da doença.
Fontes
- FDA, rótulo de Kisunla (donanemabe) injeção (DailyMed), Eli Lilly and Company, versão 8 publicada em 01/2026; setid 190352d4-ef62-4679-b4fa-e846e2766afa.
- FDA, Drugs@FDA — BLA 761248 (Kisunla), aprovação em 02/07/2024; suplemento de eficácia com titulação modificada aprovado em 01/07/2025.
- EMA — Kisunla, EPAR e resumo das características do medicamento, EMEA/H/C/006024, titular Eli Lilly Nederland B.V., autorização em 24/09/2025.
- ANVISA — Consulta de medicamentos: Kisunla, registro 1.1260.0207, Eli Lilly do Brasil Ltda, ativo, vencimento 04/2035, consulta em 23/09/2026.
- ANVISA — Novos medicamentos e indicações: Kisunla (donanemabe), novo registro, publicado em 22/04/2025.
- ANVISA — Consulta de medicamentos: Leqembi (lecanemabe), registro 1.7310.0008, Eisai Laboratórios Ltda, ativo, consulta em 23/09/2026.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 27, de 27/11/2025 (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Alzheimer).
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, Anexo II (Diretrizes de Utilização), RN 465/2021 com alterações até a RN 676/2026.
- Sims JR et al., JAMA, 2023;330(6):512-527. PMID 37459141.
- ClinicalTrials.gov NCT04437511 (TRAILBLAZER-ALZ 2).
- Wang H et al., Alzheimers Dement, 2025;21(4):e70062. PMID 40172303.
- ClinicalTrials.gov NCT05738486 (TRAILBLAZER-ALZ 6).
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