Sprycel (dasatinibe): inibidor de tirosina quinase na leucemia mieloide crônica e na leucemia linfoblástica aguda Ph+

Resumo rápido

  • O Sprycel (dasatinibe) é um inibidor de quinase oral, em comprimidos, com registro ativo na ANVISA (1.0180.0392, Bristol-Myers Squibb) e outros nove registros ativos de dasatinibe no país.
  • Pelo rótulo da FDA, é indicado em adultos na leucemia mieloide crônica (LMC) Ph+ em fase crônica recém-diagnosticada ou em fase crônica, acelerada ou blástica com resistência/intolerância à terapia anterior e na leucemia linfoblástica aguda (LLA) Ph+ resistente/intolerante; em crianças a partir de 1 ano, na LMC em fase crônica e na LLA Ph+ recém-diagnosticada, com quimioterapia.
  • Em adultos, a dose é de 100 mg uma vez ao dia na fase crônica e de 140 mg nas fases acelerada e blástica e na LLA Ph+; antiácidos exigem pelo menos 2 horas de intervalo, e anti-H2 e inibidores da bomba de prótons não devem ser usados com o dasatinibe.
  • O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque nem contraindicações; derrame pleural, queda das células do sangue, sangramento e hipertensão arterial pulmonar estão entre as advertências.
  • No SUS (LMC do adulto, após o imatinibe) e nos planos de saúde (DUT 64 da ANS), o dasatinibe entra em casos resistentes ou intolerantes; a questão é de custeio, não de importação.

O que é Sprycel (dasatinibe)?

Sprycel é o nome comercial do dasatinibe, inibidor de quinase de uso oral da Bristol-Myers Squibb. No Brasil, também há registros ativos de dasatinibe da Dr. Reddy’s, Accord, Teva, Torrent e Instituto Vital Brazil e das marcas Ladizac, Dazanyn, Dasnar e Zevuxa (EMS). Nos rótulos americano e europeu, há comprimidos revestidos de 20, 50, 70, 80, 100 e 140 mg; a União Europeia autoriza ainda pó para suspensão oral (10 mg/mL), ausente do rótulo americano.

A FDA autorizou o Sprycel em 28/06/2006 (NDA 021986), por aprovação acelerada e como medicamento órfão; a indicação na LLA Ph+ saiu no mesmo dia (NDA 022072). Vieram depois a primeira linha da LMC (28/10/2010, também por aprovação acelerada), a LMC pediátrica (09/11/2017) e a LLA Ph+ pediátrica (21/12/2018). Na União Europeia, a autorização é de 20/11/2006.

Mecanismo de ação

O dasatinibe bloqueia quinases, enzimas que transmitem sinais de crescimento. Pelo rótulo da FDA, age sobre a BCR-ABL, a família SRC, c-KIT, EPHA2 e PDGFRβ. A BCR-ABL é a proteína anormal gerada pelo cromossomo Philadelphia (Ph), presente na LMC e em parte das LLA; sempre ativa, estimula a multiplicação das células leucêmicas.

Com base em dados de laboratório, o dasatinibe não parece ser ativo contra a mutação T315I. Pelo protocolo do SUS para a LMC do adulto, as mutações Y253H, E255K/V e F359V/C/I favorecem o dasatinibe, e F317L/V/I/C, T315A e V299L, o nilotinibe.

Indicações

Estados Unidos (FDA)

Pelo rótulo (revisão de 09/2026), em adultos: LMC Ph+ em fase crônica recém-diagnosticada; LMC Ph+ em fase crônica, acelerada ou blástica (mieloide ou linfoide) com resistência ou intolerância à terapia anterior, incluindo o imatinibe; e LLA Ph+ com resistência ou intolerância à terapia anterior. Em crianças a partir de 1 ano: LMC Ph+ em fase crônica e LLA Ph+ recém-diagnosticada, em combinação com quimioterapia.

União Europeia (EMA)

No EPAR (última decisão em 03/09/2026), as indicações são as mesmas, com duas diferenças: a LMC em fase blástica linfoide aparece expressamente ao lado da LLA Ph+, e, em crianças, a LMC em fase crônica pode ser recém-diagnosticada ou resistente ou intolerante à terapia anterior, incluindo o imatinibe.

Evidências clínicas

LMC recém-diagnosticada: estudo DASISION

O DASISION (NCT00481247) comparou dasatinibe 100 mg com imatinibe 400 mg em 519 pacientes com LMC recém-diagnosticada em fase crônica. Em 12 meses, a resposta citogenética completa confirmada foi de 77% contra 66% (P = 0,007), e a resposta molecular maior, de 46% contra 28% (P < 0,0001). Em 5 anos, pelo rótulo, a resposta molecular maior foi de 76,4% contra 64,2%; a sobrevida estimada, de 90,9% contra 89,6%; a progressão para fase acelerada ou blástica, de 3% contra 6%; e o derrame pleural (todos os graus), de 28% contra 1%.

LMC resistente ou intolerante: estudo CA180-034

No CA180-034 (NCT00123474), com 670 pacientes em fase crônica resistentes ou intolerantes ao imatinibe, 100 mg uma vez ao dia teve eficácia comparável à de 70 mg duas vezes ao dia, com menos derrame pleural (7% contra 16%) e menos queda de plaquetas de grau 3 ou 4 (22% contra 37%).

Crianças e adolescentes

No CA180-226 (NCT00777036), na LMC pediátrica, as respostas citogenética completa e molecular maior em 12 meses foram de 92% e 52% nos recém-diagnosticados e de 76% e 41% nos resistentes ou intolerantes; a sobrevida livre de progressão em 48 meses, de 93% e 78%. Não houve derrame pleural nem hipertensão pulmonar relacionados.

No CA180-372 (COG AALL1122; NCT01460160), estudo de fase 2 de braço único com 106 pacientes pediátricos com LLA Ph+ recém-diagnosticada, a sobrevida livre de eventos em 3 anos foi de 65,5% com dasatinibe e quimioterapia, contra 49,2% em controles históricos tratados só com quimioterapia (P = 0,032); o resultado foi não inferior ao de controles históricos com imatinibe e quimioterapia (59,1%), mas não superior. No grupo usado no rótulo da FDA, foi de 64,1%.

Posologia e administração

O dasatinibe é tomado por via oral, em comprimidos revestidos engolidos inteiros, uma vez ao dia, com ou sem refeição, de manhã ou à noite. Pelo rótulo da FDA:

  • Adultos, LMC em fase crônica: 100 mg; sem resposta, até 140 mg.
  • Adultos, fases acelerada e blástica e LLA Ph+: 140 mg; sem resposta, até 180 mg.
  • Adultos, queda das células do sangue na fase crônica: retomada com 80 mg no segundo episódio; no terceiro, 50 mg (recém-diagnosticados) ou suspensão (resistentes ou intolerantes).
  • Crianças: dose por peso, recalculada a cada 3 meses; abaixo de 10 kg, o comprimido não é recomendado. Na LLA Ph+, o dasatinibe começa até o 15º dia da indução e segue por 2 anos, sem escalonamento.
Peso da criança Dose inicial Escalonamento na LMC
10 a menos de 20 kg 40 mg até 50 mg
20 a menos de 30 kg 60 mg até 70 mg
30 a menos de 45 kg 70 mg até 90 mg
45 kg ou mais 100 mg até 120 mg

Com o comprimido disperso em suco, a exposição em crianças foi 36% menor, com efeito clínico incerto; a informação europeia orienta não dispersar.

Interações que mudam a tomada

  • Antiácidos: pelo menos 2 horas de intervalo; tomados juntos, reduziram a exposição ao dasatinibe em 55%.
  • Anti-H2 e inibidores da bomba de prótons: não usar junto com o dasatinibe; a famotidina reduziu a exposição em 61%, e o omeprazol, em 43%.
  • Inibidores fortes do CYP3A4 e suco de toranja: evitar; se inevitável, considerar reduzir a dose de 140 para 40 mg, de 100 para 20 mg ou de 70 para 20 mg.
  • Indutores fortes do CYP3A4 e erva-de-são-joão: evitar.
  • Metotrexato acima de 500 mg/m²: o dasatinibe pode atrasar a eliminação do metotrexato (alerta do rótulo americano, ausente na informação europeia de 09/2026).

Segurança

O rótulo da FDA não tem quadro de advertência em destaque (tarja), e a seção de contraindicações diz “nenhuma”; na União Europeia, a hipersensibilidade é contraindicação. As reações mais comuns em monoterapia (15% ou mais) foram queda das células do sangue, retenção de líquidos, diarreia, dor de cabeça, erupção cutânea, sangramento, falta de ar, fadiga, náusea e dor musculoesquelética.

Advertências e monitoramento

  • Sangue: hemograma a cada 2 semanas por 12 semanas e depois trimestral na fase crônica; semanal por 2 meses e depois mensal nas fases avançadas e na LLA Ph+.
  • Sangramento: grau 3 ou 4 em 5,8% dos adultos; grau 5 (fatal) em 0,4%.
  • Líquidos e coração: retenção de líquidos (grau 3 ou 4 em 5% no DASISION, em 5 anos), inclusive derrame pleural; toxicidade cardiovascular (isquemia cardíaca em 3,9% contra 1,6% com imatinibe, no mesmo estudo); e prolongamento do intervalo QT.
  • Hipertensão arterial pulmonar: se confirmada, o dasatinibe é suspenso definitivamente.
  • Outras: reações cutâneas graves, incluindo síndrome de Stevens-Johnson; síndrome de lise tumoral; hepatotoxicidade, com transaminases mensais; e efeitos sobre o crescimento infantil.
  • Gravidez e amamentação: toxicidade embriofetal; contracepção até 30 dias após a última dose, para mulheres e para homens com parceira fértil; não amamentar até 2 semanas após a última dose.

Após a comercialização, foram relatados reativação de hepatite B, fibrilação atrial, doença pulmonar intersticial, quilotórax, síndrome nefrótica e microangiopatia trombótica.

Como funciona o acesso no Brasil

O Sprycel tem registro ativo na ANVISA (1.0180.0392, Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda., vencimento em 12/2027; consulta em 02/10/2026), e há outros nove registros ativos de dasatinibe. Na lista de preços da CMED gerada em 23/09/2026, o Sprycel de 20 mg (60 comprimidos) e de 100 mg (30 comprimidos) consta como comercializado em 2025; já as apresentações de genéricos e similares listadas, da Dr. Reddy’s, EMS, Torrent e Accord, constam sem comercialização em 2025. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.

No SUS

Na LMC do adulto, vale o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 04, de 01/03/2021: imatinibe 400 mg na primeira linha; dasatinibe ou nilotinibe na segunda, após falha ou toxicidade insuperável ao imatinibe. Na ausência de mutação, o protocolo admite preferir o dasatinibe, por facilitar a adesão. Em crianças e adolescentes com LMC, o PCDT (Portaria Conjunta nº 10/2021) prevê só o imatinibe; na LLA Ph+, as diretrizes do adulto e da pediatria (Portarias Conjuntas nº 21/2021 e nº 11/2021) usam o imatinibe, e a Conitec recomendou não ampliar o uso do dasatinibe para adultos resistentes ou intolerantes ao imatinibe (Relatório nº 584).

Pelo PCDT, o Ministério da Saúde compra imatinibe, dasatinibe e nilotinibe, com APAC obrigatória. No elenco do AF-Onco (Portaria GM/MS nº 8.477/2025) atualizado em 02/09/2026, o dasatinibe de 20 e 100 mg é de compra centralizada e pode exigir autorização prévia (Portaria SAES nº 4.329/2026); o Ministério tem contratos vigentes com a Teva para o genérico. O PCDT está em revisão (a minuta da Consulta Pública nº 75/2025 mantém o dasatinibe na segunda linha, antes do ponatinibe), mas, até 02/10/2026, o de 2021 segue vigente.

Nos planos de saúde

A cobertura do dasatinibe segue a diretriz de utilização (DUT) 64 do Rol da ANS (RN nº 465/2021, atualizada pela RN nº 676/2026): LMC em fase crônica, acelerada ou blástica com resistência ou intolerância ao tratamento anterior, incluindo o imatinibe, e LLA Ph+ com resistência ou intolerância à terapia anterior. Não estão cobertas a primeira linha nem a LLA Ph+ recém-diagnosticada.

Quando a cobertura é negada

Fora desses critérios ou diante de negativa, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com fase da doença, tratamentos anteriores, resposta, intolerâncias e mutações. Pela Portaria GM/MS nº 8.477/2025 (art. 30), ações judiciais sobre medicamentos oncológicos incorporados de compra centralizada vão para a Justiça Federal. Cada caso pede orientação jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

Preciso importar o dasatinibe?

Em regra, não. O Sprycel tem registro ativo e foi comercializado em 2025, há outros nove registros de dasatinibe, e o SUS compra o genérico para a segunda linha; a dificuldade costuma ser o custeio, sobretudo fora dos critérios do SUS e da DUT 64.

Posso tomar omeprazol ou antiácido durante o tratamento?

Omeprazol e outros inibidores da bomba de prótons, assim como anti-H2 como a famotidina, não devem ser usados com o dasatinibe, porque reduzem a quantidade de dasatinibe no sangue. Antiácidos exigem pelo menos 2 horas de intervalo da dose. Remédios novos devem passar pelo hematologista.

Dá para parar o dasatinibe se a doença estiver controlada?

Não por conta própria. No DASFREE (NCT01850004), com 84 pacientes, 46% seguiam em remissão sem tratamento em 2 anos e 44% em 5 anos, e quem teve recaída recuperou a resposta molecular maior ao retomar o medicamento. Mesmo assim, a suspensão não é indicação de bula: o rótulo americano diz que seu efeito não foi estabelecido.

Por que o SUS começa pelo imatinibe?

Porque, para o protocolo da LMC do adulto, o dasatinibe antecipa a resposta, mas sem impacto na sobrevida global. Ele entra após falha ou toxicidade insuperável ao imatinibe; em crianças e adolescentes com LMC, o SUS usa só o imatinibe.

Conclusão

O dasatinibe é um inibidor de quinase oral para a LMC e a LLA Ph+ que exige atenção aos redutores de acidez, às interações pelo CYP3A4 e a efeitos como derrame pleural, queda das células do sangue e hipertensão arterial pulmonar. No Brasil, tem registro ativo, é fornecido pelo SUS na segunda linha da LMC do adulto e é coberto pelos planos em casos resistentes ou intolerantes; negativas são questão de custeio, não de importação.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Sprycel (dasatinibe) (DailyMed), Bristol-Myers Squibb, revisão 09/2026; setid 4764f37b-c9e6-4ede-bcc2-8a03b7c521df.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 021986 (Sprycel), aprovação em 28/06/2006.
  3. EMA — Sprycel, EPAR, EMEA/H/C/000709; informação de produto de 09/2026.
  4. ANVISA — Dados abertos de medicamentos: Sprycel, registro 1.0180.0392, Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda., ativo, vencimento 12/2027; consulta em 02/10/2026.
  5. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMVG), gerada em 23/09/2026: comercialização em 2025 das apresentações de dasatinibe.
  6. Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 04, de 1º de março de 2021: PCDT da Leucemia Mieloide Crônica do Adulto.
  7. Ministério da Saúde — AF-Onco: Portaria GM/MS nº 8.477/2025 e elenco de medicamentos atualizado em 02/09/2026.
  8. ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, Anexo II da RN nº 465/2021 (atualizado pela RN nº 676/2026), diretriz de utilização 64.
  9. Kantarjian H et al., N Engl J Med, 2010;362(24):2260-2270. PMID 20525995 (DASISION; ClinicalTrials.gov NCT00481247).
  10. Shah NP et al., J Clin Oncol, 2008;26(19):3204-3212. PMID 18541900 (CA180-034; ClinicalTrials.gov NCT00123474).
  11. Gore L et al., J Clin Oncol, 2018;36(13):1330-1338. PMID 29498925 (CA180-226; ClinicalTrials.gov NCT00777036).
  12. Hunger SP et al., Lancet Haematol, 2023;10(7):e510-e520. PMID 37407142 (CA180-372/COG AALL1122; ClinicalTrials.gov NCT01460160).
  13. Shah NP et al., Br J Haematol, 2023;202(5):942-952. PMID 37246588 (DASFREE; ClinicalTrials.gov NCT01850004).

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