Cuvposa (glicopirrônio): anticolinérgico oral para sialorreia crônica grave em crianças com condições neurológicas

Resumo rápido

  • Cuvposa é a solução oral de glicopirrônio aprovada pela FDA para reduzir a sialorreia (baba excessiva) crônica grave em pacientes de 3 a 16 anos com condições neurológicas, como a paralisia cerebral.
  • Na União Europeia, a solução oral com a mesma finalidade é o Sialanar, autorizado para crianças e adolescentes a partir de 3 anos com doenças neurológicas crônicas.
  • No estudo controlado por placebo descrito no rótulo da FDA, 75% das crianças tratadas tiveram redução de pelo menos 3 pontos na escala de sialorreia, contra 11% no placebo.
  • Na base de medicamentos da ANVISA (consulta em 18/09/2026), o glicopirrônio só aparece com registro ativo em inaladores de uso respiratório; a solução oral está sem registro ativo localizado.
  • O acesso à forma oral ocorre por importação para uso próprio, em nome do paciente, a partir da receita médica e sob acompanhamento médico.

O que é Cuvposa (glicopirrônio)?

Cuvposa é o nome comercial, nos Estados Unidos, da solução oral de glicopirrolato, nome adotado no país para o brometo de glicopirrônio. O titular é a Merz Pharmaceuticals, e o registro NDA 022571 foi aprovado pela FDA em 28/07/2010. Na União Europeia, a solução oral com a mesma finalidade é comercializada como Sialanar, da Proveca Pharma. O Cuvposa é uma solução transparente, sabor cereja, com 1 mg a cada 5 mL (0,2 mg/mL), e há versões genéricas da solução oral aprovadas pela FDA com a mesma indicação.

O princípio ativo é usado nos EUA desde 1961 e existe em outras formas, com indicações próprias: comprimidos (adjuvante no tratamento da úlcera péptica em adultos), injetável (uso em anestesia) e um lenço tópico de tosilato de glicopirrônio (Qbrexza) para hiperidrose axilar a partir de 9 anos. Nenhuma delas tem aprovação para sialorreia.

Mecanismo de ação

O glicopirrônio é um anticolinérgico (antimuscarínico) de amônio quaternário. Ele compete com a acetilcolina pelos receptores muscarínicos das glândulas salivares e de outros tecidos periféricos e, com isso, reduz a produção de saliva. Por ser quaternário, atravessa pouco a barreira hematoencefálica; ainda assim, a bula europeia descreve efeitos no sistema nervoso central, como irritabilidade, sonolência e mudanças de comportamento.

A absorção oral é baixa e variável (biodisponibilidade absoluta de cerca de 3%). Em adultos saudáveis, uma refeição rica em gordura reduziu a concentração máxima em cerca de 74% e a exposição total em cerca de 78%, razão pela qual a dose é dada longe das refeições.

Indicações

FDA (EUA): Cuvposa é indicado para reduzir a sialorreia crônica grave em pacientes de 3 a 16 anos com condições neurológicas associadas à baba problemática, como a paralisia cerebral. Não foi estudado em menores de 3 anos.

EMA (União Europeia): Sialanar é indicado para o tratamento sintomático da sialorreia grave (baba patológica crônica) em crianças e adolescentes a partir de 3 anos com doenças neurológicas crônicas. Foi autorizado em 15/09/2016, por procedimento centralizado, como autorização de comercialização para uso pediátrico. A bula restringe o uso à população pediátrica, desaconselha o tratamento da sialorreia leve a moderada e recomenda uso intermitente e de curta duração, por falta de dados de segurança de longo prazo.

Agência Produto e titular Indicação em sialorreia Situação
FDA (EUA) Cuvposa, 1 mg/5 mL (Merz Pharmaceuticals) 3 a 16 anos, condições neurológicas Aprovado em 28/07/2010 (NDA 022571)
EMA (União Europeia) Sialanar, 320 microgramas/mL (Proveca Pharma) A partir de 3 anos, doenças neurológicas crônicas Autorizado em 15/09/2016 (EMEA/H/C/003883)
ANVISA (Brasil) Apenas inaladores de uso respiratório Nenhuma Forma oral sem registro ativo localizado (consulta em 18/09/2026)

Evidências clínicas

O estudo que sustenta a indicação americana é de fase 3, multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 8 semanas de duração e 38 pacientes de 3 a 23 anos (36 entre 3 e 16 anos) com paralisia cerebral, deficiência intelectual ou outra condição neurológica e baba intensa. A dose foi titulada nas primeiras 4 semanas, e o desfecho principal foi a proporção de respondedores, com redução de pelo menos 3 pontos na escala mTDS, que vai de 1 (seco) a 9 (baba profusa).

  • Rótulo da FDA: 75% de respondedores com glicopirrolato (15/20) contra 11% com placebo (2/18) na semana 8.
  • Análise publicada (3 a 16 anos): 73,7% (14/19) contra 17,6% (3/17), p = 0,0011; melhora média de 3,94 contra 0,71 pontos (p < 0,0001), com efeito a partir da segunda semana.
  • Estudo aberto de fase 3 (NCT00491894): em 137 pacientes de 3 a 18 anos, 52,3% eram respondedores na semana 24 (IC 95%: 43,7 a 60,9); 13,9% interromperam por evento adverso.
  • Estudo cruzado controlado por placebo (Mier e colaboradores, 2000): entre os 27 que concluíram, o escore médio foi de 1,85 com glicopirrolato contra 6,33 com placebo (p < 0,001); cerca de 20% das crianças tiveram efeitos adversos que exigiram suspensão.

O estudo randomizado e o de Mier foram os dois estudos principais avaliados pela EMA para o Sialanar. A agência ressalta que não há dados controlados por placebo além de 8 semanas nem dados publicados de segurança além de 24 semanas.

Posologia e administração

O resumo abaixo reproduz as bulas e não substitui a prescrição: a dose é definida e ajustada pelo médico, com acompanhamento contínuo.

  • Cuvposa (FDA): início com 0,02 mg/kg por via oral três vezes ao dia, com aumentos de 0,02 mg/kg a cada 5 a 7 dias conforme resposta e tolerância, até no máximo 0,1 mg/kg três vezes ao dia, sem ultrapassar 1,5 a 3 mg por dose, conforme o peso. A titulação dura cerca de 4 semanas.
  • Sialanar (EMA): início com cerca de 12,8 microgramas/kg três vezes ao dia, com aumentos a cada 7 dias, até no máximo 64 microgramas/kg ou 6 mL por dose, o que for menor. Na insuficiência renal leve a moderada, a dose é reduzida em 30%, e a resposta deve ser reavaliada em intervalos de no máximo 3 meses.
  • Administração: pelo menos 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições, com a dose medida em seringa oral ou copo dosador; colher doméstica não é medida precisa.
  • Concentrações diferentes: o produto americano tem 0,2 mg/mL de glicopirrolato; o europeu, 0,4 mg/mL de brometo de glicopirrônio (0,32 mg/mL de glicopirrônio). O volume em mL de um não vale para o outro.

Segurança

O rótulo do Cuvposa não traz advertência em quadro destacado, o nível máximo de alerta da FDA. Os efeitos anticolinérgicos, porém, exigem vigilância, sobretudo porque muitas crianças não conseguem relatar o que sentem.

  • Contraindicações (FDA): condições que impedem a terapia anticolinérgica, como glaucoma, íleo paralítico, instabilidade cardiovascular na hemorragia aguda, colite ulcerativa grave, megacólon tóxico e miastenia grave; e uso de cloreto de potássio em forma sólida oral.
  • Contraindicações (EMA): hipersensibilidade, gravidez e amamentação, glaucoma, retenção urinária, insuficiência renal grave, histórico de obstrução intestinal, colite ulcerativa, íleo paralítico, estenose pilórica ou miastenia grave, e uso com cloreto de potássio sólido oral ou outros anticolinérgicos.
  • Intestino: a constipação é comum e pode limitar a dose, devendo ser avaliada 4 a 5 dias após o início ou cada aumento. Há relatos de pseudo-obstrução intestinal, e a diarreia pode ser sinal precoce de obstrução incompleta, sobretudo com ileostomia ou colostomia.
  • Calor: como reduz o suor, pode causar febre e intermação em ambientes quentes.
  • Outros efeitos: retenção urinária (15% no estudo controlado, contra 0% no placebo), secreções respiratórias mais espessas com risco de pneumonia, sonolência e visão borrada. A menor produção de saliva exige higiene bucal diária e acompanhamento odontológico.
  • Mais comuns: boca seca e vômitos (40% cada, contra 11% no placebo), constipação (35%), rubor (30%) e congestão nasal (30%).
  • Interações: outros anticolinérgicos, amantadina e topiramato somam efeitos; o rótulo americano cita ainda metformina, atenolol, digoxina de dissolução lenta, haloperidol e levodopa.

Não há dados em gestantes no rótulo americano, e a bula europeia contraindica o uso na gravidez e na amamentação. Diante de constipação, retenção urinária, pneumonia, reação alérgica, febre, calor intenso ou mudança de comportamento, as bulas orientam suspender o medicamento e procurar o médico prescritor.

Situação regulatória e como funciona o acesso

Na base de medicamentos da ANVISA (consulta em 18/09/2026), o glicopirrônio tem registro ativo apenas em inaladores: Seebri, Ultibro e Enerzair (Novartis), Bevespi Aerosphere e Breztri Aerosphere (AstraZeneca) e Trimbow (Chiesi). São produtos para doenças respiratórias como DPOC e asma, com dose e via próprias, sem indicação para sialorreia. As formas oral, injetável e tópica estão sem registro ativo localizado na base de medicamentos da ANVISA.

Assim, o caminho para a solução oral é a importação para uso próprio, em nome do paciente, começando pela receita médica, que define o produto, a concentração e o esquema de titulação. Na ausência de registro vigente da apresentação oral, algumas famílias buscam o custeio ou o fornecimento pela via judicial (a chamada compra judicial), decisão que deve contar com orientação médica e jurídica.

Como a Medicsupply conduz a importação

A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos. O prazo médio depende da origem do produto:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul.

Perguntas Frequentes

Os inaladores com glicopirrônio registrados no Brasil servem para a baba?

Não. Eles são destinados a doenças respiratórias e não têm indicação para sialorreia. A indicação para baba excessiva é da solução oral, que está sem registro ativo localizado no Brasil.

A partir de que idade o glicopirrônio oral é indicado?

Nos EUA, o Cuvposa é indicado de 3 a 16 anos; na Europa, o Sialanar, a partir de 3 anos. Não há dados de segurança e eficácia estabelecidos em menores de 3 anos.

Em quanto tempo o efeito aparece?

No estudo randomizado, a melhora começou cerca de 2 semanas após o início, durante a titulação de 4 semanas. A dose ideal é individual e definida pelo médico.

Posso trocar Cuvposa por Sialanar mantendo a mesma dose em mL?

Não. As concentrações são diferentes, e qualquer troca precisa ser recalculada e prescrita pelo médico.

Preciso de receita para importar?

Sim. A importação para uso próprio começa pela receita médica e corre sempre em nome do paciente.

Conclusão

O Cuvposa é a solução oral de glicopirrônio aprovada pela FDA para reduzir a sialorreia crônica grave de 3 a 16 anos em condições neurológicas, e o Sialanar tem papel equivalente na União Europeia. No Brasil, o princípio ativo só tem registro ativo em inaladores respiratórios, o que faz da importação o caminho para a forma oral. O tratamento exige titulação cuidadosa e vigilância dos efeitos anticolinérgicos, sempre sob prescrição e acompanhamento médico.

Fontes

  1. DailyMed (NLM/FDA) — rótulo de Cuvposa (glicopirrolato) solução oral, Merz Pharmaceuticals, revisão 12/2024; setid d200bd44-9856-4104-a29e-a4cca3db6737.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 022571 (Cuvposa), aprovação original em 28/07/2010.
  3. EMA — Sialanar, resumo das características do medicamento; autorizações EU/1/16/1135/001-002, titular Proveca Pharma, primeira autorização em 15/09/2016.
  4. EMA — Sialanar, relatório público de avaliação (EPAR), procedimento EMEA/H/C/003883/0000, documento EMA/CHMP/436684/2016.
  5. Zeller RS et al., Ther Clin Risk Manag, 2012;8:15-23. PMID 22298950.
  6. Zeller RS et al., Ther Clin Risk Manag, 2012;8:25-32. PMID 22298951. ClinicalTrials.gov NCT00491894.
  7. Mier RJ et al., Arch Pediatr Adolesc Med, 2000;154(12):1214-8. PMID 11115305.
  8. DailyMed — rótulo de glicopirrolato comprimidos, Par Health, revisão 07/2026; setid 1f266d77-4f9e-44c9-a000-2f8fea3ac80b.
  9. DailyMed — rótulo de Glyrx-PF (glicopirrolato injetável), Exela Pharma Sciences, revisão 07/2025; NDA 210997.
  10. DailyMed — rótulo de Qbrexza (tosilato de glicopirrônio) lenço tópico, Journey Medical, revisão 05/2026; NDA 210361.
  11. ANVISA — consulta à base de medicamentos em 18/09/2026: glicopirrônio com registro ativo em Seebri (1.0068.1117), Ultibro (1.0068.1123), Enerzair (1.0068.1182), Bevespi Aerosphere (1.1618.0283), Breztri Aerosphere (1.1618.0302) e Trimbow (1.0058.0120); sem registro ativo localizado de apresentação oral, injetável ou tópica.

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