TOBI e TOBI Podhaler (tobramicina inalatória): indicações, posologia e acesso no Brasil

Resumo rápido

  • A tobramicina inalatória é um antibiótico aminoglicosídeo administrado diretamente nas vias aéreas, o que concentra o fármaco no pulmão e reduz a exposição sistêmica.
  • É indicada para o manejo de pacientes com fibrose cística, a partir dos 6 anos, com infecção por Pseudomonas aeruginosa.
  • Há duas apresentações: solução para nebulização (TOBI, 300 mg/5 mL) e pó para inalação em cápsulas (TOBI Podhaler, 28 mg).
  • O esquema é cíclico: 28 dias em tratamento seguidos de 28 dias sem o medicamento.
  • Nenhuma das duas apresentações possui advertência em quadro destacado na bula aprovada pelo FDA.
  • No Brasil, a solução para inalação tem registro na Anvisa e está prevista no protocolo do SUS para fibrose cística.

O que é a tobramicina inalatória

A tobramicina é um antibiótico aminoglicosídeo ativo contra bactérias aeróbias Gram-negativas, entre elas a Pseudomonas aeruginosa. A molécula existe também em apresentações oftálmica e injetável, que respondem a contextos próprios e não são intercambiáveis. Este artigo trata da forma inalatória, desenvolvida para a infecção pulmonar crônica na fibrose cística. A via inalatória entrega concentrações elevadas do antibiótico onde a infecção está instalada, mantendo baixa a quantidade que alcança a circulação — o que importa porque a toxicidade clássica dos aminoglicosídeos, sobre audição e rins, associa-se à exposição sistêmica prolongada.

Duas apresentações inalatórias estão aprovadas pela agência regulatória norte-americana: a solução TOBI (NDA 050753, dezembro de 1997) e o pó para inalação TOBI Podhaler (NDA 201688, março de 2013). Ambas constam hoje como produtos sob prescrição na base Drugs@FDA, e o detentor dos dois registros é a Viatris — não mais a Novartis, que originalmente desenvolveu os produtos. Na União Europeia, o TOBI Podhaler mantém autorização de comercialização desde 20 de julho de 2011, sob titularidade da Viatris Healthcare Limited.

Como age contra a Pseudomonas aeruginosa

A tobramicina liga-se à subunidade 30S do ribossomo bacteriano e interfere na leitura do código genético durante a tradução, gerando proteínas defeituosas e levando à morte da célula bacteriana. Na fibrose cística, a Pseudomonas aeruginosa coloniza cronicamente as vias aéreas e organiza-se em biofilme, estrutura que dificulta a ação de antibióticos. O objetivo do tratamento crônico é reduzir a carga bacteriana e conter o dano pulmonar progressivo, não eliminar definitivamente a bactéria. A exposição repetida seleciona cepas menos sensíveis, o que justifica o esquema intermitente e a prescrição criteriosa.

Indicações aprovadas

Segundo a bula aprovada pelo FDA, tanto o TOBI quanto o TOBI Podhaler são indicados para o manejo da fibrose cística em adultos e pacientes pediátricos a partir de 6 anos com Pseudomonas aeruginosa. As bulas registram limitações relevantes: segurança e eficácia não foram demonstradas abaixo de 6 anos, em colonizados por Burkholderia cepacia, nem fora das faixas de função pulmonar estudadas — volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) abaixo de 25% ou acima de 75% do previsto para o TOBI, e abaixo de 25% ou acima de 80% do previsto para o TOBI Podhaler.

Posologia: ciclos de 28 dias

O regime é cíclico nas duas apresentações e não é ajustado por peso corporal.

TOBI (solução para inalação): uma ampola de dose única com 300 mg em 5 mL, duas vezes ao dia, por 28 dias; em seguida, 28 dias sem o medicamento, e então reinício do ciclo.

TOBI Podhaler (pó para inalação): conteúdo de quatro cápsulas de 28 mg, duas vezes ao dia, por 28 dias, seguidos de 28 dias de intervalo.

Nos dois casos, as doses diárias devem ficar o mais próximo possível de 12 horas de intervalo e nunca menos de 6 horas. A alternância entre período com e sem medicamento integra o desenho aprovado e não deve ser alterada por conta própria.

Evidências clínicas

A base de evidência vem de dois estudos idênticos, duplo-cegos, randomizados e controlados por placebo, de 24 semanas, conduzidos em 69 centros de fibrose cística nos Estados Unidos, com 258 pacientes tratados e 262 em placebo, de 6 a 48 anos. Os resultados foram publicados por Ramsey e colaboradores.

No primeiro estudo, o grupo tratado apresentou aumento médio relativo de cerca de 11% no VEF1 em percentual do previsto, enquanto o placebo não variou; no segundo, o aumento foi de aproximadamente 7%, contra queda média de cerca de 1% no placebo. Houve ainda redução significativa das unidades formadoras de colônias de Pseudomonas aeruginosa no escarro durante os períodos com medicamento, com retorno aos valores iniciais nos períodos sem medicamento e reduções progressivamente menores a cada ciclo.

Os pacientes tratados permaneceram em média 5,1 dias hospitalizados, contra 8,1 dias no placebo, e necessitaram em média 9,6 dias de antibióticos antipseudomonas por via parenteral, contra 14,1 dias. Em seis meses, 40% dos tratados receberam esses antibacterianos parenterais, contra 53% no placebo.

Para o pó para inalação, a bula do FDA registra resultados heterogêneos: em um estudo o aumento relativo do VEF1 em percentual do previsto foi de 12,54% contra 0,09% no placebo (p = 0,002); em outro, a diferença — 8,19% contra 2,27% — não alcançou significância estatística (p = 0,167).

TOBI e TOBI Podhaler: diferenças

Aspecto TOBI (solução) TOBI Podhaler (pó)
Forma farmacêutica Solução em ampola de dose única Cápsulas de pó seco
Dose por administração 300 mg em 5 mL Quatro cápsulas de 28 mg
Ciclo 28 dias com, 28 dias sem 28 dias com, 28 dias sem
Dispositivo Nebulizador específico Inalador portátil próprio
Registro na FDA NDA 050753 NDA 201688

A diferença prática está no tempo de administração e na dependência de equipamento: o pó seco dispensa nebulizador e a rotina de limpeza associada.

Segurança: advertências e precauções

Nem o TOBI nem o TOBI Podhaler possuem advertência em quadro destacado nas bulas aprovadas pelo FDA. As advertências e precauções são as mesmas nas duas apresentações: broncoespasmo, ototoxicidade, nefrotoxicidade, distúrbios neuromusculares, toxicidade embriofetal e uso concomitante de aminoglicosídeos sistêmicos.

O broncoespasmo merece destaque por ser específico da via inalatória e mais proeminente no pó seco: é o estreitamento agudo das vias aéreas que pode surgir logo após a inalação. A ototoxicidade pode se manifestar como perda auditiva, zumbido ou alterações do equilíbrio, e a nefrotoxicidade como comprometimento da função renal — riscos de classe que exigem atenção redobrada no uso simultâneo de aminoglicosídeos sistêmicos ou de outros agentes tóxicos para rins e audição. Pacientes com distúrbios neuromusculares requerem avaliação específica, e a toxicidade embriofetal justifica cautela na gravidez, já que os aminoglicosídeos atravessam a placenta. Qualquer decisão terapêutica deve ser individualizada por médico.

Acesso à tobramicina inalatória no Brasil

A tobramicina solução para inalação 300 mg/5 mL possui registro sanitário válido no Brasil, sob a marca TOBI (registro MS 1.0068.1083, Novartis Biociências S.A.) e também em apresentação equivalente sob denominação genérica (registro MS 1.2748.0030, OPEM Representação, Importadora, Exportadora e Distribuidora Ltda.).

Além de registrada, está incorporada à assistência farmacêutica pública: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Fibrose Cística, atualizado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 30 de abril de 2024, prevê a tobramicina solução inalatória 300 mg para o tratamento da infecção por Pseudomonas aeruginosa, ao lado do colistimetato de sódio. O fornecimento ocorre pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, mediante prescrição e enquadramento nos critérios do protocolo.

A consequência prática é direta: para essa apresentação não existe lacuna de registro no Brasil. O caminho de acesso é a rede assistencial nacional, com prescrição médica e abertura de processo junto à farmácia de alto custo do estado — e não a importação, via cabível apenas em situações distintas, como a ausência de registro na Anvisa ou o desabastecimento do mercado interno, cada uma exigindo autorização sanitária específica. Quem enfrentar dificuldade de fornecimento deve verificar antes o enquadramento nos critérios do protocolo junto ao centro de referência que acompanha o caso, pois a maior parte das dificuldades relatadas é de natureza administrativa ou logística.

Perguntas frequentes

Pode ser usada em crianças?

Sim, a partir dos 6 anos. Abaixo dessa faixa, segurança e eficácia não foram demonstradas nos estudos que sustentaram o registro. A dose não é ajustada por peso: crianças a partir de 6 anos recebem o mesmo esquema dos adultos.

Por que o tratamento é feito em ciclos de 28 dias?

O esquema intermitente foi o formato testado nos estudos que embasaram a aprovação. A alternância busca preservar o benefício sobre a função pulmonar limitando a pressão seletiva contínua sobre a bactéria. O intervalo sem medicamento faz parte do tratamento e não representa interrupção indevida.

Substitui os antibióticos por via venosa?

Não. Ela integra o manejo crônico da infecção e, nos estudos, reduziu a necessidade e a duração de antibióticos parenterais, mas não os elimina. Exacerbações podem continuar exigindo tratamento sistêmico.

Existe risco de resistência bacteriana?

Sim. A exposição repetida pode selecionar cepas menos sensíveis, e os estudos mostraram reduções progressivamente menores da carga bacteriana a cada ciclo, o que reforça a importância do acompanhamento em centro especializado.

Conclusão

A tobramicina inalatória ocupa um lugar bem definido no manejo da fibrose cística: controle da infecção crônica por Pseudomonas aeruginosa a partir dos 6 anos, em esquema cíclico de 28 dias com e 28 dias sem medicamento. As duas apresentações seguem com registro ativo nos Estados Unidos e, no caso do pó para inalação, também na União Europeia, sob titularidade da Viatris. No Brasil, a solução para inalação é medicamento registrado na Anvisa e previsto no protocolo público para fibrose cística, dispensado pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica — o acesso se dá, portanto, pela via assistencial nacional, com o acompanhamento em centro de referência como elemento decisivo.

Fontes

  1. FDA — Drugs@FDA, NDA 050753, TOBI (tobramicina) solução para inalação 300 mg/5 mL. Detentor: Viatris. Aprovação em 22 de dezembro de 1997. Situação: produto sob prescrição.
  2. FDA — Drugs@FDA, NDA 201688, TOBI Podhaler (tobramicina) pó para inalação, cápsulas de 28 mg. Detentor: Viatris. Aprovação em 22 de março de 2013. Situação: produto sob prescrição.
  3. FDA e DailyMed — bula profissional do TOBI Podhaler (Viatris Specialty LLC): ausência de advertência em quadro destacado; advertências de broncoespasmo, ototoxicidade, nefrotoxicidade, distúrbios neuromusculares, toxicidade embriofetal e uso concomitante de aminoglicosídeos sistêmicos.
  4. FDA — bula profissional do TOBI, seção de estudos clínicos: dois estudos duplo-cegos, randomizados e controlados por placebo, 24 semanas, 69 centros, 258 pacientes tratados e 262 em placebo.
  5. EMA — Relatório Europeu Público de Avaliação do TOBI Podhaler. Autorização de comercialização na União Europeia em 20 de julho de 2011. Titular: Viatris Healthcare Limited. Medicamento autorizado.
  6. Ramsey BW, Pepe MS, Quan JM, et al. N Engl J Med. 1999;340(1):23-30. PMID 9878641.
  7. Anvisa — TOBI solução para inalação 300 mg/5 mL, registro MS 1.0068.1083 (Novartis Biociências S.A.).
  8. Anvisa — tobramicina solução para inalação 300 mg/5 mL, registro MS 1.2748.0030 (OPEM Representação, Importadora, Exportadora e Distribuidora Ltda.).
  9. Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Fibrose Cística, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 30 de abril de 2024: tobramicina solução inalatória 300 mg prevista para infecção por Pseudomonas aeruginosa.

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