Baclofeno (Lioresal): relaxante muscular de ação central no tratamento da espasticidade

Resumo rápido

  • O Baclofeno é um relaxante muscular e antiespasmódico de ação central.
  • É utilizado no tratamento da espasticidade muscular, sobretudo na esclerose múltipla e em doenças e lesões da medula espinhal.
  • Atua no sistema nervoso central como agonista dos receptores GABA-B, reduzindo a hiperatividade muscular.
  • Está disponível em formulação oral e em formulação intratecal, administrada diretamente no líquido cefalorraquidiano.
  • No Brasil, o baclofeno oral tem registro na ANVISA e é comercializado, mas não foi incorporado ao SUS para o tratamento da espasticidade.
  • A descontinuação do medicamento deve ser gradual, sob orientação médica, para evitar reações adversas.

O Que É Baclofeno? Definição e Classificação Farmacológica

O Baclofeno é um princípio ativo classificado como agonista do receptor GABA-B, pertencente à classe dos relaxantes musculares de ação central. Terapeuticamente, é empregado para reduzir a espasticidade muscular por meio de sua ação sobre o sistema nervoso central. Está disponível em duas apresentações principais: comprimidos para uso oral e solução injetável para administração intratecal. A escolha da apresentação está ligada à gravidade do quadro e à resposta individual de cada paciente.

Como o Baclofeno Atua? Mecanismo de Ação Detalhado

O Baclofeno atua como agonista seletivo dos receptores GABA-B, o ácido gama-aminobutírico, presentes na medula espinhal. Ao estimular esses receptores, o medicamento inibe a liberação de neurotransmissores excitatórios, como o glutamato e o aspartato. Essa inibição reduz a transmissão reflexa monossináptica e polissináptica, diminuindo a excitabilidade dos neurônios motores. O resultado clínico é o relaxamento muscular, com redução do tônus muscular e da frequência de espasmos, o que alivia a rigidez característica dos quadros de espasticidade.

Para Quem o Baclofeno É Indicado? Condições Tratadas

No Brasil, a bula aprovada pela ANVISA indica o baclofeno para a espasticidade dos músculos esqueléticos na esclerose múltipla, para os estados espásticos nas mielopatias de origem infecciosa, degenerativa, traumática, neoplásica ou desconhecida e para o espasmo muscular de origem cerebral, com uso restrito a adultos.

A bula norte-americana da apresentação oral é mais restrita: indica o medicamento para a espasticidade decorrente da esclerose múltipla, com alívio dos espasmos flexores, da dor concomitante, do clônus e da rigidez muscular, e registra que o produto pode ter utilidade em lesões e doenças da medula espinhal. Essa mesma bula orienta cautela em pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC), pois o baclofeno não trouxe benefício significativo nesse grupo, e não indica o medicamento para espasmo muscular decorrente de doenças reumáticas.

A apresentação intratecal tem indicação própria: é aprovada pelo FDA para o manejo da espasticidade grave, de origem espinhal ou cerebral. O paciente precisa responder a uma dose de triagem antes de ser considerado para infusão prolongada e, nos quadros de origem espinhal, a infusão crônica por bomba implantável é reservada a quem não respondeu ao baclofeno oral ou não tolerou seus efeitos sobre o sistema nervoso central.

Na via oral, a bula descreve início com 5 mg três vezes ao dia por três dias, com aumentos graduais a cada três dias para 10 mg, 15 mg e 20 mg três vezes ao dia, até o limite de 80 mg por dia. Indicação, via de administração e dose devem ser definidas e ajustadas exclusivamente por um profissional de saúde.

Baclofeno: Evidências Clínicas e Contexto Regulatório

O Baclofeno é um medicamento consolidado no tratamento da espasticidade, com eficácia avaliada em estudos que utilizam escalas clínicas específicas, como a escala de Ashworth. Revisão sistemática com documento de consenso sobre o manejo farmacológico da espasticidade na esclerose múltipla posiciona o baclofeno oral entre as opções de primeira linha e reconhece o papel da via intratecal nos quadros graves sem resposta adequada ao tratamento oral. [1]

No âmbito regulatório dos Estados Unidos, o FDA mantém aprovações distintas por apresentação. Para uso intratecal há a NDA 020075, do baclofeno injetável comercializado sob a marca Lioresal e hoje sob titularidade da Amneal Pharmaceuticals, e a NDA 022462, do Gablofen, da Piramal Critical Care. Entre as formas orais, a NDA 208193 corresponde às soluções Ozobax e Ozobax DS, da Metacel Pharmaceuticals, e a NDA 215602 à suspensão Fleqsuvy, da Azurity. O granulado oral Lyvispah, aprovado em 2021 sob a NDA 215422, consta na base Drugs@FDA com situação de comercialização descontinuada.

Na Europa, o baclofeno não possui autorização centralizada concedida pela EMA. É um princípio ativo autorizado nacionalmente pelos países do bloco, anterior ao modelo de avaliação centralizada; a EMA atua pela avaliação única dos relatórios periódicos de segurança desses produtos, procedimento PSUSA/00000294/202309 para a via oral.

No Brasil, o baclofeno tem registro na ANVISA e é comercializado. A Lista A de Medicamentos de Referência designa como referência do fármaco o BACLOFEN, do Laboratório Teuto Brasileiro, registro 1.0370.0111, comprimido de 10 mg. O registro do LIORESAL comprimido de 10 mg, da Novartis Biociências, registro 1.0068.0059, foi cancelado, e o produto foi excluído da lista de referência em 6 de janeiro de 2025. Genéricos e similares de fabricantes nacionais seguem disponíveis no mercado brasileiro.

Baclofeno vs. Outros Relaxantes Musculares: Diferenciais

Aspecto Baclofeno Tizanidina / Diazepam
Mecanismo Agonista GABA-B Tizanidina: agonista alfa-2 adrenérgico; Diazepam: agonista GABA-A
Local de ação predominante Ação predominantemente medular Tizanidina: medula espinhal; Diazepam: ação mais ampla no SNC
Perfil de efeitos Sonolência transitória é o efeito adverso mais frequente descrito em bula Tizanidina: boca seca e hipotensão; Diazepam: maior potencial sedativo e risco de dependência
Critério de escolha Depende da condição e das comorbidades do paciente Depende do perfil de efeitos adversos e da resposta individual

Segurança do Baclofeno: Efeitos Colaterais e Precauções

O Baclofeno pode causar efeitos colaterais comuns como sonolência, tontura, fraqueza muscular, náuseas e confusão mental. Efeitos graves são raros e incluem convulsões, depressão respiratória e alucinações, sobretudo em situações de superdosagem ou de retirada abrupta. O medicamento é contraindicado em casos de hipersensibilidade ao Baclofeno. A bula do FDA traz uma advertência em destaque exclusiva para a forma intratecal: a descontinuação abrupta do baclofeno intratecal pode causar sequelas graves, como febre alta, alteração do estado mental, espasticidade rebote exagerada e rigidez muscular, podendo, em casos raros, evoluir para rabdomiólise, falência de múltiplos órgãos e morte; a forma oral não possui essa advertência em destaque, embora sua bula também alerte para reações à descontinuação abrupta, entre elas alucinações e convulsões. Em ambas as apresentações, a retirada deve ser gradual e acompanhada por profissional de saúde.

Acesso ao Baclofeno no Brasil: Registro, SUS e Planos de Saúde

O baclofeno oral tem registro válido na ANVISA e é comercializado por laboratórios nacionais. O acesso, portanto, não depende de importação: o produto existe no mercado interno. A dificuldade relatada por pacientes costuma ser de cobertura e custeio, não de disponibilidade.

O baclofeno oral não foi incorporado ao Sistema Único de Saúde para o tratamento da espasticidade, conforme a Portaria SCTIE/MS nº 25, publicada no Diário Oficial da União nº 52, seção 1, página 74, de 17 de março de 2022. Ainda assim, secretarias estaduais e municipais podem manter o fármaco em listas próprias, e a consulta à farmácia da rede pública do município é o primeiro passo prático.

Na saúde suplementar, o caminho inicial também é administrativo: solicitação formal à operadora, com prescrição e relatório médico circunstanciado. Havendo negativa, o paciente pode registrar reclamação junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar e, se ela persistir, buscar orientação jurídica especializada, sempre apoiada na documentação médica.

A apresentação intratecal segue lógica diferente. Por ser infundida por bomba implantável, envolve procedimento cirúrgico, acompanhamento neurocirúrgico e reposições periódicas do reservatório, com aquisição conduzida pela instituição de saúde responsável pelo tratamento.

Perguntas Frequentes

Baclofeno causa dependência?

O Baclofeno não é considerado viciante no sentido clássico, mas a interrupção abrupta pode desencadear síndrome de abstinência. Por isso, a retirada deve ser sempre gradual e orientada por um médico.

Posso dirigir ou operar máquinas usando Baclofeno?

Recomenda-se cautela, pois o medicamento pode causar sonolência e tontura. Avalie sua resposta individual com o profissional de saúde antes de realizar atividades que exijam atenção.

Posso ingerir bebida alcoólica durante o tratamento?

O álcool pode potencializar os efeitos depressores do Baclofeno, aumentando a sonolência e o risco de reações adversas.

Qual a diferença entre Baclofeno oral e intratecal?

A forma oral age de modo sistêmico, enquanto a intratecal é administrada diretamente no líquido cefalorraquidiano, permitindo uma ação mais localizada com doses menores. A escolha depende da gravidade do quadro e da avaliação médica.

O Baclofeno é fornecido pelo SUS?

O baclofeno oral não foi incorporado ao SUS para o tratamento da espasticidade, conforme decisão publicada em março de 2022. Algumas secretarias estaduais e municipais mantêm o medicamento em listas próprias, por isso a consulta à rede pública local é o primeiro passo.

Baclofeno: Um Pilar no Tratamento da Espasticidade

O Baclofeno é um medicamento amplamente utilizado no manejo da espasticidade, com potencial de contribuir para a melhora da qualidade de vida dos pacientes. Seu mecanismo de ação bem compreendido e a disponibilidade em formas oral e intratecal o tornam uma opção relevante. É essencial respeitar as orientações médicas e conduzir a descontinuação de forma gradual. No Brasil, o medicamento tem registro na ANVISA e é comercializado, de modo que a discussão de acesso gira em torno de cobertura e custeio, não de disponibilidade. A pesquisa segue avaliando novas aplicações e otimizações para o uso do Baclofeno.

Fontes

  1. Otero-Romero S, et al. Mult Scler. 2016;22(11):1386-1396. PMID 27207462.
  2. FDA — Drugs@FDA, NDA 020075 (Lioresal, baclofeno injetável para uso intratecal), titular Amneal Pharmaceuticals; advertência em destaque sobre descontinuação abrupta.
  3. FDA — Drugs@FDA, NDA 022462 (Gablofen, baclofeno injetável para uso intratecal), titular Piramal Critical Care.
  4. FDA — Drugs@FDA, NDA 208193 (Ozobax e Ozobax DS, baclofeno solução oral), titular Metacel Pharmaceuticals; posologia oral e ausência de advertência em destaque.
  5. FDA — Drugs@FDA, NDA 215602 (Fleqsuvy, baclofeno suspensão oral 25 mg/5 mL), titular Azurity.
  6. FDA — Drugs@FDA, NDA 215422 (Lyvispah, baclofeno granulado oral), titular Strides Pharma; situação de comercialização descontinuada.
  7. ANVISA — Lista A de Medicamentos de Referência, versão de 10/07/2026: baclofeno, detentor Teuto, medicamento BACLOFEN, registro 1.0370.0111, 10 mg comprimido.
  8. ANVISA — Lista A de Medicamentos de Referência Excluídos, versão de 10/07/2026: baclofeno, detentor Novartis Biociências, medicamento LIORESAL, registro 1.0068.0059, 10 mg comprimido, exclusão em 06/01/2025, motivo: registro cancelado.
  9. EMA — avaliação única de relatórios periódicos de segurança PSUSA/00000294/202309, baclofeno de uso oral, com lista de medicamentos autorizados nacionalmente.
  10. CONITEC, Ministério da Saúde — Relatório de Recomendação nº 715, fevereiro de 2022, sobre baclofeno oral no tratamento da espasticidade.
  11. Ministério da Saúde — Portaria SCTIE/MS nº 25, Diário Oficial da União nº 52, seção 1, página 74, de 17 de março de 2022.

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