Resumo rápido
- A treprostinila é um análogo da prostaciclina; na forma injetável (Remodulin e genéricos), é dada em infusão contínua sob a pele, com bomba portátil, ou na veia, por cateter.
- Nos EUA, o Remodulin é indicado na hipertensão arterial pulmonar (HAP) e na troca do epoprostenol; na Europa, o Trepulmix, subcutâneo, é autorizado na hipertensão pulmonar tromboembólica crônica (HPTEC) inoperável ou persistente.
- Nos estudos de registro, o ganho na caminhada de 6 minutos foi pequeno, e 85% tiveram dor no local da infusão.
- A bula americana não tem tarja nem contraindicações; a via venosa traz risco de infecção grave pelo cateter, e a infusão não pode parar abruptamente.
- No Brasil, só a forma inalatória tem registro (Tyvaso, condicional, desde 29/07/2026, sem preço na CMED); a injetável não tem, e o acesso é por importação em nome do paciente, com receita.
O que é a treprostinila (Remodulin)?
Treprostinila (DCB nº 9589) é o princípio ativo do Remodulin, solução injetável em frascos de 20 mL com 1; 2,5; 5 (100 mg por frasco) ou 10 mg/mL, entre outras. Aprovado pela FDA em 21/05/2002 (NDA 021272), é da United Therapeutics e tem genéricos equivalentes (Sandoz, Teva, Dr. Reddy’s e Alembic). A molécula também existe inalada (Tyvaso, Tyvaso DPI e Yutrepia) e em comprimidos (Orenitram).
A hipertensão pulmonar e seus grupos
Pelo PCDT do Ministério da Saúde (2023), a hipertensão pulmonar é definida no cateterismo cardíaco direito por pressão média na artéria pulmonar acima de 20 mmHg e tem cinco grupos: a HAP é o grupo 1; a ligada a doenças do pulmão, como a doença pulmonar intersticial, o grupo 3; e a HPTEC, com obstrução das artérias pulmonares por trombos organizados após embolia, o grupo 4. Causa falta de ar progressiva, cansaço, angina e desmaios.
Mecanismo de ação
Pela bula americana, a treprostinila imita a prostaciclina: dilata diretamente as artérias pulmonares e sistêmicas e inibe a agregação das plaquetas. A meia-vida terminal é de cerca de 4 horas, e o uso é só em infusão contínua. É metabolizada no fígado, sobretudo pela CYP2C8.
Indicações
Estados Unidos (FDA)
Pela bula vigente do Remodulin (20/07/2026), as indicações são a HAP (grupo 1 da OMS), para diminuir os sintomas ao exercício, e a HAP em quem precisa sair do epoprostenol, para reduzir a velocidade de piora clínica. Em crianças, segurança e eficácia não foram estabelecidas. O Tyvaso é indicado na HAP e, desde 2021, na hipertensão pulmonar da doença pulmonar intersticial (grupo 3), para melhorar a capacidade de exercício; o Orenitram, na HAP, para retardar a progressão e melhorar a capacidade de exercício.
União Europeia (EMA)
O Remodulin não tem autorização centralizada: segundo a EMA, foi autorizado pela França em 10/08/2005 (FR/H/0278/001) para a HAP idiopática ou hereditária em classe funcional III. O Trepulmix, órfão, autorizado em 03/04/2020, é indicado, por via subcutânea, em adultos em classe funcional III ou IV com HPTEC inoperável, ou persistente ou recorrente após a cirurgia, para melhorar a capacidade de exercício. O pedido do Tyvaso foi retirado em 2010: a EMA considerava não confiável o estudo principal, por falhas de boas práticas clínicas.
Brasil (ANVISA)
O Tyvaso 0,6 mg/mL, solução para inalação, foi registrado como medicamento novo para a Pint Pharma (1.3900.0013) pela Resolução-RE nº 2.942 (DOU de 29/07/2026), com vencimento em 07/2029. O registro é condicional, pelo procedimento para doenças raras (RDC nº 205/2017), e o termo de compromisso o descreve para a hipertensão pulmonar da doença pulmonar intersticial em adultos. O Remodulin da Bagó (1.5626.0010) está inativo, vencido em 01/2012; não há registro ativo da forma injetável nem da oral.
Evidências clínicas
Infusão subcutânea na HAP
Dois estudos idênticos de fase 3 (um deles, NCT00004497), duplo-cegos, de 12 semanas, compararam a infusão subcutânea com placebo em 470 pacientes com HAP. Na publicação, a diferença mediana na caminhada de 6 minutos foi de 16 metros (p = 0,006); pela bula americana, porém, o efeito foi pequeno e sem significância estatística convencional (+10 metros contra 0), embora a falta de ar tenha melhorado. Em estudo de 8 semanas, 13 de 14 pacientes trocaram o epoprostenol pela treprostinila, contra 1 de 8 com placebo (p = 0,0002).
HPTEC: o estudo CTREPH
No CTREPH (NCT01416636), de fase 3, 105 adultos com HPTEC inoperável ou persistente após a cirurgia receberam por 24 semanas infusão subcutânea com dose-alvo alta (cerca de 30 ng/kg/min) ou baixa (cerca de 3 ng/kg/min). A caminhada de 6 minutos aumentou 44,98 e 4,29 metros: diferença de 40,69 metros (IC 95%: 15,86 a 65,53; p = 0,0016).
Formas inalatória e oral
Estudos contra placebo das outras vias embasaram as indicações americanas:
| Estudo | Pacientes | Resultado principal |
|---|---|---|
| TRIUMPH I (NCT00147199), fase 3, Tyvaso | 235 com HAP, com bosentana ou sildenafila | +20 metros na caminhada em 12 semanas (p = 0,0004); sem melhora no tempo até a piora clínica |
| INCREASE (NCT02630316), fase 2/3, Tyvaso | 326 com hipertensão pulmonar por doença intersticial | +31,12 metros em 16 semanas (p < 0,001); piora clínica em 22,7% contra 33,1% |
| FREEDOM-EV (NCT01560624), fase 3, Orenitram | 690 com HAP em monoterapia oral | Piora clínica em 26% contra 36% (razão de risco 0,74; p = 0,028) |
Posologia e administração
Pela bula americana, a dose é em ng/kg/min, só em infusão contínua: de preferência subcutânea, por cateter ligado a bomba portátil; a venosa, por cateter central, é para quem não tolera a dor local.
- Início e ajustes: sem prostaciclina prévia, 1,25 ng/kg/min (0,625 se não tolerado), com aumentos semanais de 1,25 ng/kg/min nas 4 primeiras semanas e de 2,5 depois, conforme a resposta.
- Fígado e rins: na insuficiência hepática leve ou moderada, início com 0,625 ng/kg/min; a grave não foi estudada; nos rins, sem ajuste.
- Troca do epoprostenol: em hospital, começando com 10% da dose dele.
- Equipamento: bomba com alarmes e, à mão, bomba e conjuntos reserva; após pausa de poucas horas, retoma-se na mesma vazão.
- Conservação: a 25 °C, com variações de 2 °C a 30 °C; frasco aberto, em até 30 dias.
Segurança
A bula americana não tem advertência em destaque (tarja) nem contraindicações. O resumo europeu do Trepulmix lista várias, como doença veno-oclusiva pulmonar, insuficiência hepática grave, sangramento gastrointestinal, infarto nos últimos 6 meses e uso com outros prostanoides.
Advertências e reações adversas
- Infecção pelo cateter: a infusão venosa prolongada por cateter central traz risco de infecção da corrente sanguínea e sepse, que podem ser fatais (cerca de 1 episódio a cada 3 a 5 anos de uso); por isso, prefere-se a via subcutânea.
- Retirada: parar ou reduzir muito a dose de forma abrupta pode piorar a HAP.
- Pressão e sangramento: pode causar queda sintomática da pressão (hipotensão em 4% contra 2% com placebo) e aumenta o risco de sangramento, por inibir as plaquetas.
- Local da infusão: dor em 85% (27% com placebo), intensa em 39%, e reação, como vermelhidão ou endurecimento, em 83%; 32% tiveram prescrição de opioides.
- Outras: dor de cabeça (27% contra 23%), diarreia (25% contra 16%) e dor na mandíbula (13% contra 5%).
Interações, gravidez e amamentação
Inibidores da CYP2C8, como a genfibrozila (dobrou a exposição à forma oral), e indutores, como a rifampicina, podem exigir ajuste de dose. Anticoagulantes e antiagregantes podem aumentar o risco de sangramento. Na gravidez, os dados são insuficientes, e a HAP eleva o risco de morte da mãe e do feto; em coelhos, houve malformações. Na Europa, recomenda-se contracepção e suspender a amamentação.
Situação regulatória e como funciona o acesso
Nos dados abertos da ANVISA de 23/10/2026, só o Tyvaso inalatório (1.3900.0013) tem registro ativo, e a Lista CMED de 09/10/2026 não traz a treprostinila, que também não consta da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (RDC nº 1.036/2026). Para as formas injetável e oral, sem registro, o acesso é a importação em nome do paciente, com receita, dos EUA ou, para a injetável, também da Europa.
Tyvaso: ainda sem preço
Registrado em 2026, o Tyvaso não teve comercialização em 2025 nem tem preço na CMED; sem oferta no país, a importação com receita pode ser avaliada.
No SUS e nos planos de saúde
A treprostinila não consta do PCDT da Hipertensão Pulmonar (Portaria Conjunta nº 10, de 18/07/2023), que prevê, entre outros, sildenafila, bosentana, ambrisentana, iloprosta inalatória e selexipague, e a Lei 8.080/1990 (art. 19-T) veda, como regra, ao SUS dispensar medicamento sem registro. Nos planos, a Lei 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui os medicamentos de uso domiciliar, salvo antineoplásicos orais, e, pelo Tema 990 do STJ, não há obrigação de fornecer medicamento sem registro; para o Tyvaso, a cobertura fora do Rol segue os critérios do STF na ADI 7265 (18/09/2025).
Compra judicial: quando o tratamento é pedido na Justiça
Para a forma injetável, sem registro, vale o Tema 500 da repercussão geral (RE 657.718, julgado em 22/05/2019): o STF definiu que, como regra, a falta de registro na ANVISA impede o fornecimento de medicamento por decisão judicial. A exceção depende de mora irrazoável da agência na análise do pedido de registro (prazo superior ao da Lei 13.411/2016) e de três requisitos: pedido de registro no Brasil (salvo medicamentos órfãos para doenças raras e ultrarraras), registro em renomadas agências reguladoras no exterior e inexistência de substituto terapêutico registrado no país; a ação é proposta contra a União.
Na HAP, há tratamentos registrados no Brasil, como sildenafila, bosentana, ambrisentana, riociguate, selexipague, sotatercepte e a iloprosta inalatória, outro análogo da prostaciclina; eles pesam contra o pedido, e o relatório médico precisa explicar por que não servem ao paciente. Para o Tyvaso, a discussão é de custeio (no SUS, Temas 6 e 1.234 do STF): registro sem comercialização não é falta de registro. Cada caso exige orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado. É comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.
Como a Medicsupply conduz a importação
Vale só para as formas injetável e oral, sem registro no Brasil, e para a inalatória sem oferta nacional. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:
| Origem | Prazo médio |
|---|---|
| EUA (FDA) | 10 dias |
| Canadá (Health Canada) | 17 dias |
| Europa (EMA) | 16 dias úteis |
| Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) | 16 dias úteis |
Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.
- Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
- Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
- Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
- Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; sem cadeia fria, pois o frasco é conservado a 25 °C, com variações de 2 °C a 30 °C.
Perguntas Frequentes
A treprostinila (Remodulin) tem registro na ANVISA?
Na forma injetável, não: o registro do Remodulin da Bagó está inativo, vencido em 01/2012. Só o Tyvaso inalatório é registrado, desde 29/07/2026, ainda sem preço.
Preciso importar o Remodulin?
Sim: sem registro da forma injetável, o acesso é por importação em nome do paciente, com receita, dos EUA ou da Europa.
Como é a infusão no dia a dia?
Pela via subcutânea, o medicamento corre sem parar por um cateter sob a pele, ligado a uma bomba portátil, com bomba e conjuntos reserva à mão, e início e ajustes ficam com equipe especializada.
O SUS fornece a treprostinila?
Não: ela não está no PCDT da Hipertensão Pulmonar, que oferece outros medicamentos para a HAP.
Conclusão
A treprostinila, em infusão contínua, reduz os sintomas ao esforço na HAP e melhora a capacidade de exercício na HPTEC inoperável, com dor local frequente e risco de infecção do cateter venoso. No Brasil, só a forma inalatória tem registro, ainda sem preço; a injetável depende de importação em nome do paciente, com receita.
Fontes
- FDA — Remodulin (treprostinila), bula vigente: NDA 021272, United Therapeutics Corporation; DailyMed, versão 35, de 20/07/2026.
- FDA — Drugs@FDA: NDA 021272, aprovação de 21/05/2002; Tyvaso DPI (NDA 214324); Yutrepia (NDA 213005); genéricos ANDA 203649, 206648, 210214 e 211574.
- FDA — Tyvaso (NDA 022387; DailyMed, versão 32, de 20/04/2026) e Orenitram (NDA 203496), United Therapeutics: bulas vigentes.
- EMA — Trepulmix, EPAR, EMEA/H/C/005207 (SciPharm Sàrl): resumo das características do medicamento e relatório EMA/CHMP/86002/2020; Tyvaso, pedido retirado em 17/02/2010.
- Simonneau G et al., Am J Respir Crit Care Med, 2002;165(6):800-804. PMID 11897647 (ClinicalTrials.gov NCT00004497).
- Sadushi-Kolici R et al., Lancet Respir Med, 2019;7(3):239-248. PMID 30477763 (CTREPH; ClinicalTrials.gov NCT01416636).
- McLaughlin VV et al., J Am Coll Cardiol, 2010;55(18):1915-1922. PMID 20430262 (TRIUMPH I; ClinicalTrials.gov NCT00147199).
- Waxman A et al., N Engl J Med, 2021;384(4):325-334. PMID 33440084 (INCREASE; ClinicalTrials.gov NCT02630316).
- White RJ et al., Am J Respir Crit Care Med, 2020;201(6):707-717. PMID 31765604 (FREEDOM-EV; ClinicalTrials.gov NCT01560624).
- ANVISA — Dados abertos (23/10/2026), Lista CMED de 09/10/2026, Lista de DCB (nº 9589) e RDC nº 1.036/2026: Tyvaso 1.3900.0013 (Pint Pharma), ativo, vencimento 07/2029; Remodulin 1.5626.0010 (Bagó), inativo.
- ANVISA — Resolução-RE nº 2.942, de 28/07/2026 (DOU de 29/07/2026), e extrato do termo de compromisso do Tyvaso (DOU de 21/07/2026).
- Ministério da Saúde — PCDT da Hipertensão Pulmonar, Portaria Conjunta nº 10, de 18/07/2023.
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