Willentine (trientina): quelante de cobre para a doença de Wilson em pacientes intolerantes à penicilamina

Resumo rápido

  • Willentine é a marca brasileira do dicloridrato de trientina, cápsula dura de 250 mg, com registro ativo na ANVISA sob o número 1.5832.0002.
  • A bula indica o tratamento da doença de Wilson em adultos e em pacientes pediátricos com 6 anos de idade ou mais intolerantes à penicilamina.
  • É um quelante de cobre oral, tomado com o estômago vazio: 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições e com 1 hora de intervalo de qualquer outro medicamento.
  • Existem dois sais de trientina, com quantidades diferentes de trientina base por unidade, e eles não são substituíveis na mesma dose em miligramas.
  • A trientina 250 mg consta do protocolo oficial brasileiro da doença de Wilson e é dispensada pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica: a rota é o serviço público de referência, não a importação.

O que é Willentine (dicloridrato de trientina)?

Willentine é um medicamento de uso oral cujo princípio ativo é o dicloridrato de trientina. O dicloridrato de trientina também é comercializado como Syprine e Cufence, a depender do país. No Brasil, apresenta-se em cápsula dura de 250 mg, em frascos de 15, 30 ou 100 cápsulas, sob registro 1.5832.0002 da Mawdsleys Pharmaceuticals do Brasil, com fabricação da Apothecon Pharmaceuticals, na Índia.

A trientina pertence à classe dos quelantes de cobre e foi desenvolvida como alternativa à penicilamina na doença de Wilson, distúrbio genético autossômico recessivo em que o organismo não elimina adequadamente o cobre da dieta. O metal se acumula no fígado, no cérebro, nas córneas e nos rins, com manifestações hepáticas, neurológicas e psiquiátricas, e o tratamento é contínuo por toda a vida. A bula brasileira orienta conservar o frasco fechado entre 2 °C e 8 °C.

Mecanismo de ação

A trientina é uma poliamina que atua por quelação: envolve o íon de cobre e forma um complexo estável, eliminado pela urina. O resultado é a redução progressiva da carga corporal de cobre e, em especial, da fração sérica de cobre não ligada à ceruloplasmina, que é a fração tóxica e serve de marcador de controle do tratamento. A trientina também reduz a absorção intestinal do cobre.

Esse mecanismo explica a exigência de tomar o medicamento com o estômago vazio e separado de outros medicamentos: ela quela outros metais além do cobre, e alimentos ou leite diminuem a quantidade de fármaco disponível.

Indicações aprovadas

As indicações variam conforme a agência e, sobretudo, conforme o sal, o que muda a população a que o medicamento se destina.

Produto e sal Agência Indicação na doença de Wilson
Willentine, dicloridrato, cápsula de 250 mg ANVISA, registro 1.5832.0002 Adultos e pacientes pediátricos com 6 anos ou mais intolerantes à penicilamina
Syprine, dicloridrato, cápsula de 250 mg FDA, NDA 019194 Pacientes intolerantes à penicilamina
Cufence, dicloridrato, cápsula de 200 mg EMA, EMEA/H/C/004111 Adultos e crianças de 5 anos ou mais intolerantes à D-penicilamina
Cuvrior, tetracloridrato, comprimido de 300 mg FDA, NDA 215760 Adultos com doença estável, com o cobre já removido e tolerantes à penicilamina

Repare na inversão da última linha: o dicloridrato é indicado para quem não tolera a penicilamina, e o Cuvrior, de tetracloridrato, para o oposto, o adulto estável, com o cobre já removido e que tolera a penicilamina. Na Europa há um segundo produto de tetracloridrato, o Cuprior, sob o número EMEA/H/C/004005, para intolerantes à D-penicilamina de 5 anos ou mais. O rótulo do Syprine também delimita o que a trientina não é: afirma que não está indicada para cistinúria, artrite reumatoide nem cirrose biliar.

Evidências clínicas

A base de evidência precisa ser lida por sal. O dicloridrato, sal do Willentine, entrou na prática clínica a partir de séries de pacientes publicadas no início dos anos 1980, que mostraram manutenção do balanço de cobre em quem precisava interromper a penicilamina por intolerância, e foi essa experiência que sustentou a aprovação do Syprine. Não há, para o dicloridrato, ensaio de fase 3 randomizado de não inferioridade contra a penicilamina.

O tetracloridrato tem ensaio pivotal formal. O estudo CHELATE, sob o identificador NCT03539952, foi um ensaio de fase 3 randomizado, aberto e de não inferioridade, em 53 adultos de 18 a 75 anos com doença de Wilson estável, todos em penicilamina havia pelo menos um ano e tolerando o tratamento: 26 passaram para o tetracloridrato e 27 seguiram com penicilamina. O desfecho primário foi o cobre sérico não ligado à ceruloplasmina, medido por especiação 24 semanas após a randomização: 56 mcg/L, IC 95% de 44 a 67, com o tetracloridrato, contra 46 mcg/L, IC 95% de 35 a 58, com a penicilamina. A diferença entre os grupos foi de 9,1 mcg/L a menos, IC 95% de 24,2 a menos até 6,1 a mais, cujo limite inferior ficou dentro da margem de não inferioridade pré-especificada de 50 mcg/L a menos. Os autores concluíram pela não inferioridade do tetracloridrato na manutenção. Esse resultado é do tetracloridrato e não deve ser transposto para o Willentine, que é dicloridrato.

Posologia

As doses a seguir são as da bula brasileira do Willentine, e coincidem com as do rótulo do Syprine e com as do protocolo do SUS.

  • Adultos: dose inicial de 750 mg a 1.250 mg por dia, com máximo de 2.000 mg por dia.
  • Pacientes pediátricos de 6 a 12 anos: dose inicial de 500 mg a 750 mg por dia, com máximo de 1.500 mg por dia.
  • A dose diária é dividida em 2 a 4 tomadas.
  • Estômago vazio: pelo menos 1 hora antes das refeições ou 2 horas depois delas.
  • Intervalo de pelo menos 1 hora em relação a qualquer outro medicamento. O rótulo do Syprine estende o mesmo intervalo a alimentos e ao leite.

A via é exclusivamente oral, em cápsula dura; não há apresentação injetável. O ajuste de dose é clínico e laboratorial, e acompanha a excreção urinária de cobre, o cobre livre sérico e a resposta do paciente, sempre sob prescrição médica.

A posologia do tetracloridrato é diferente e não serve de referência para o Willentine: o Cuvrior é administrado 2 vezes ao dia, de 300 mg a 3.000 mg por dia, com tabela própria de conversão a partir da dose de penicilamina. A razão de os sais não serem intercambiáveis é a quantidade de trientina base por unidade, e é a base que exerce o efeito quelante: 250 mg de dicloridrato contêm 167 mg de trientina base, enquanto 300 mg de tetracloridrato contêm 150 mg. O rótulo do Cuvrior afirma que o produto não é substituível miligrama a miligrama por outros produtos de trientina, e trocar de sal é decisão médica, com recálculo de dose e monitoramento laboratorial.

Segurança

Os rótulos vigentes do Syprine e do Cuvrior não trazem tarja preta de advertência. A ausência é informação, não lacuna.

A contraindicação é única e igual nos três rótulos consultados: hipersensibilidade. A bula do Willentine registra que o medicamento não deve ser usado por quem tenha hipersensibilidade a qualquer dos componentes da formulação, e os rótulos do Syprine e do Cuvrior repetem a mesma restrição. Não há contraindicação de gravidez nem de doença hepática. As advertências que exigem mais atenção são as seguintes.

  • Piora neurológica no início do tratamento. A bula do Willentine adverte sobre piora do quadro neurológico no começo do uso, e o rótulo do Cuvrior traz a mesma advertência na introdução do quelante. É o ponto mais sensível das trocas de tratamento e exige acompanhamento neurológico próximo.
  • Deficiência de ferro, por quelação do metal, especialmente em mulheres que menstruam e em gestantes; o rótulo do Syprine descreve anemia ferropriva nesse contexto.
  • Reações do tipo lúpus. A bula menciona reações lúpicas após tratamento com trientina, e o rótulo do Syprine relata um caso de recidiva de lúpus eritematoso sistêmico.
  • Deficiência de cobre por quelação excessiva, com necessidade de monitoramento laboratorial.

Na gestação, o rótulo do Cuvrior informa que os dados clínicos disponíveis não demonstraram risco de malformações maiores associado ao fármaco, e lembra que a doença não tratada traz risco materno e fetal; a orientação é monitorar o cobre e usar a menor dose eficaz. No ensaio CHELATE, com tetracloridrato, os eventos adversos mais frequentes em comparação com a penicilamina foram dor abdominal, em 19% contra 4%, alteração do hábito intestinal, em 15% contra nenhum caso, e exantema, em 12% contra nenhum caso.

Situação regulatória e como funciona o acesso

A trientina tem registro vigente no Brasil. A consulta à base da ANVISA feita em 11 de setembro de 2026 confirma o Willentine sob o número 1.5832.0002, ativo desde fevereiro de 2021 e com vencimento em fevereiro de 2031. Não há outra marca brasileira de trientina, nem genérico nacional.

Mais do que registrada, a trientina está incorporada à assistência farmacêutica pública. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Wilson vigente foi aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 15, de 1º de novembro de 2024, e lista como opções a penicilamina 250 mg, a trientina 250 mg, a piridoxina 40 mg e o sulfato de zinco. Nele, a trientina figura como alternativa à penicilamina ou para os casos de indisponibilidade dela, e o documento registra que, no Brasil, o sal disponível é o dicloridrato.

A dispensação ocorre pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, nas unidades estaduais de medicamentos especializados, e as relações estaduais confirmam a trientina 250 mg para o código E83.0 da CID-10.

A rota administrativa, passo a passo

  • Diagnóstico documentado, com os exames comprobatórios exigidos pelo protocolo.
  • Prescrição médica, em geral em duas vias, com dose e tempo de tratamento.
  • Laudo de solicitação, avaliação e autorização de medicamento do componente especializado, o LME.
  • Termo de esclarecimento e responsabilidade, assinado pelo médico e pelo paciente.
  • Documentos pessoais, cartão nacional de saúde e comprovante de residência, com protocolo do pedido na unidade estadual.

Como a trientina é medicamento de protocolo do SUS, o ângulo de importação não se aplica a este caso. A assessoria de importação faz sentido quando o medicamento não tem registro no país, quando há falta comprovada por fonte oficial ou quando o custo justifica a operação. Nenhuma das três se verifica aqui: o registro está ativo, a trientina não consta das relações oficiais de desabastecimento consultadas em setembro de 2026 e o produto é ofertado pelo serviço público de referência.

Quando há negativa ou atraso na dispensação

Quando o medicamento está previsto em protocolo e a dispensação é negada ou fica sem prazo, a discussão é de cumprimento do protocolo e de custeio, não de importação. Antes de qualquer medida judicial, a orientação usual é esgotar as vias administrativas: protocolar o pedido, obter a negativa por escrito, registrar as datas e acionar a ouvidoria e a defensoria. A discussão judicial é individualizada e exige documentação clínica robusta. Este conteúdo é informativo, não substitui a avaliação do médico assistente nem a orientação jurídica, e nenhum resultado pode ser prometido.

Perguntas Frequentes

É possível obter trientina pelo SUS?

Sim. A trientina 250 mg está no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Wilson, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 15, de 1º de novembro de 2024, e é dispensada pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica para o código E83.0 da CID-10, mediante laudo LME, prescrição e termo de esclarecimento assinado.

Qual a diferença entre dicloridrato e tetracloridrato de trientina?

São sais diferentes da mesma molécula, com quantidades diferentes de trientina base por unidade: 250 mg de dicloridrato correspondem a 167 mg de base e 300 mg de tetracloridrato, a 150 mg. Os produtos não são substituíveis miligrama a miligrama, e a troca exige recálculo de dose pelo médico.

A trientina pode ser tomada junto com as refeições?

Não. A bula orienta o uso com o estômago vazio, pelo menos 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições, e com pelo menos 1 hora de intervalo de qualquer outro medicamento. O rótulo do Syprine estende o intervalo também a alimentos e ao leite.

Há risco de piora dos sintomas ao iniciar ou trocar o quelante?

Sim. A bula do Willentine adverte sobre piora do quadro neurológico no início do tratamento, e o mesmo alerta consta do rótulo do tetracloridrato. Por isso o início e qualquer troca de quelante pedem acompanhamento neurológico próximo e nunca devem ser feitos por iniciativa do paciente.

Conclusão

A trientina é o quelante de cobre de referência para o paciente com doença de Wilson que não tolera a penicilamina, e o Willentine representa essa molécula no Brasil, com registro ativo na ANVISA sob o número 1.5832.0002. Dois pontos concentram o risco prático: a diferença entre os sais, que impede qualquer transposição direta de dose, e a advertência de piora neurológica no início e nas trocas de tratamento.

Do ponto de vista de acesso, a situação brasileira dispensa rotas alternativas: a trientina 250 mg integra o protocolo oficial da doença de Wilson e é dispensada pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, pelo caminho do diagnóstico documentado, da prescrição e do laudo LME no serviço estadual de referência. Qual quelante usar, em que dose e por quanto tempo é sempre decisão do médico assistente.

Fontes

  1. Bula do Willentine, dicloridrato de trientina 250 mg cápsula dura, Mawdsleys Pharmaceuticals do Brasil, registro ANVISA 1.5832.0002, bula vigente em setembro de 2026.
  2. ANVISA, consulta à base de registros em 11 de setembro de 2026: WILLENTINE, registro 1.5832.0002, ativo desde fevereiro de 2021, vencimento em fevereiro de 2031.
  3. Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Wilson, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 15, de 1º de novembro de 2024.
  4. Relações estaduais do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica: trientina 250 mg para doença de Wilson, código E83.0 da CID-10, com laudo LME.
  5. FDA, rótulo do Syprine, dicloridrato de trientina 250 mg cápsula, Bausch Health US, NDA 019194, revisão de setembro de 2020.
  6. FDA, rótulo do Cuvrior, tetracloridrato de trientina 300 mg comprimido, Orphalan SA, NDA 215760, revisão de janeiro de 2024.
  7. EMA, relatório europeu de avaliação pública do Cufence, dicloridrato de trientina 200 mg cápsula, Univar Solutions BV, EMEA/H/C/004111, autorização de 25 de julho de 2019.
  8. EMA, relatório europeu de avaliação pública do Cuprior, tetracloridrato de trientina 150 mg comprimido, Orphalan, EMEA/H/C/004005, autorização de 5 de setembro de 2017.
  9. Schilsky ML, Czlonkowska A, Zuin M, Cassiman D, Twardowschy C, Poujois A, et al. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2022;7(12):1092-1102. PMID 36183738. Ensaio CHELATE, NCT03539952.
  10. Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, relação de medicamentos em desabastecimento temporário de 11 de setembro de 2026, na qual a trientina não consta.
  11. Walshe JM. Lancet. 1982;1(8273):643-647. PMID 6121964. Série clínica original do dicloridrato de trientina na doença de Wilson.

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