Resumo rápido
- A gonadotrofina coriônica humana é um hormônio usado em medicina reprodutiva, principalmente para desencadear a ovulação depois do estímulo folicular.
- No Brasil há dois produtos distintos registrados: a forma urinária, Choriomon-M, registro 1.8759.0012, e a recombinante, Ovidrel, registro 1.0089.0376.
- O rótulo aprovado pelo FDA declara em texto destacado que a hCG não demonstrou eficácia como terapia adjuvante no tratamento da obesidade.
- A bula brasileira diz o mesmo: a gonadotrofina coriônica não possui indicações relativas ao controle de peso.
- Não há advertência em quadro. As contraindicações incluem puberdade precoce e neoplasias dependentes de androgênio.
O que é a gonadotrofina coriônica?
A gonadotrofina coriônica humana é um hormônio glicoproteico produzido pela placenta durante a gestação. Em terapêutica, atua de forma semelhante ao hormônio luteinizante, e é essa semelhança que define seus usos clínicos.
Existem duas formas farmacêuticas, que não são a mesma coisa:
- Gonadotrofina coriônica urinária, extraída da urina de gestantes. No Brasil está registrada como Choriomon-M, da Besins Healthcare Brasil, registro ANVISA 1.8759.0012, em pó liofilizado de 5.000 UI com diluente, para uso intramuscular ou subcutâneo.
- Coriogonadotrofina alfa recombinante, produzida em cultura celular. No Brasil está registrada como Ovidrel, da Merck, registro ANVISA 1.0089.0376, em caneta aplicadora preenchida de 250 mcg, para uso subcutâneo.
Nos Estados Unidos, a forma urinária é comercializada como Novarel (BLA 017016) e Pregnyl (BLA 017692), além de um produto sem marca (BLA 017067); a recombinante é o Ovidrel. Desde março de 2020, todos esses produtos passaram a ser tratados como registros biológicos. Na Europa, a recombinante é o Ovitrelle.
Uma nota sobre a pauta: “Eutrig” não é marca brasileira, americana nem europeia. Trata-se de um produto do mercado indiano, sem registro nas agências de referência. Não é o nome pelo qual o medicamento existe no Brasil.
Mecanismo de ação
A hCG liga-se aos receptores de LH nas células da granulosa do ovário e nas células de Leydig do testículo. Na mulher, desencadeia a maturação folicular final, a ruptura do folículo e a formação do corpo lúteo — é o que se chama de “gatilho” da ovulação. No homem, estimula a produção de testosterona pelas células de Leydig.
Indicações aprovadas
Aqui é preciso separar as agências, porque o escopo brasileiro é diferente do americano.
Estados Unidos, forma urinária. São três indicações, e apenas três: criptorquidia pré-puberal não decorrente de obstrução anatômica; casos selecionados de hipogonadismo hipogonadotrófico masculino; e indução da ovulação e da gravidez em mulheres anovulatórias inférteis, com anovulação secundária, previamente tratadas com menotropinas.
Estados Unidos, forma recombinante. Indução da maturação folicular final e da luteinização inicial em mulheres inférteis submetidas a dessensibilização hipofisária e pré-tratadas com FSH em programa de reprodução assistida; e indução da ovulação em pacientes anovulatórias com infertilidade funcional.
Brasil. A bula do Choriomon-M indica o produto para indução da ovulação após menotropina ou FSH, amenorreia primária, amenorreia secundária crônica, anovulação crônica e infertilidade por insuficiência de fase lútea. Um ponto que difere do rótulo americano e precisa ser dito: a bula brasileira contraindica o uso por homens. As indicações masculinas do FDA — criptorquidia e hipogonadismo — não constam do rótulo nacional.
O que o rótulo diz sobre emagrecimento
Este é o ponto pelo qual a maior parte das pessoas chega ao assunto, e é onde a informação disponível na internet mais se afasta do documento oficial. Por isso vale reproduzir o que está escrito.
O rótulo aprovado pelo FDA traz, no topo da seção de indicações e uso, um texto em caixa-alta afirmando que a hCG não demonstrou ser terapia adjuvante eficaz no tratamento da obesidade; que não há evidência substancial de que aumente a perda de peso além da que resulta da restrição calórica; de que provoque distribuição de gordura mais atraente ou mais “normal”; ou de que reduza a fome e o desconforto associados a dietas de restrição calórica. Na seção de farmacologia clínica, o rótulo acrescenta que a hCG não tem efeito conhecido sobre mobilização de gordura, apetite, sensação de fome ou distribuição da gordura corporal.
A bula brasileira do Choriomon-M, aprovada em março de 2024, diz o mesmo: não há provas de que a gonadotrofina coriônica atue sobre o metabolismo dos lipídios, sobre a distribuição dos tecidos adiposos, ou que influencie o apetite — e, consequentemente, a gonadotrofina coriônica não possui indicações relativas ao controle de peso.
Em dezembro de 2011, o FDA e a comissão federal de comércio dos Estados Unidos emitiram comunicado conjunto declarando que não existem produtos de hCG aprovados para perda de peso, acompanhado de cartas de advertência a empresas que vendiam preparações ditas homeopáticas com essa finalidade.
Não se trata, portanto, de uma controvérsia em aberto: é o que consta do documento aprovado nas duas jurisdições.
Posologia
Pelo rótulo americano, a forma urinária é administrada por via intramuscular, com esquemas que variam conforme a indicação. Na indução da ovulação, a dose é de 5.000 a 10.000 unidades, um dia após a última dose de menotropinas. Nas indicações masculinas, os esquemas se estendem por semanas a meses.
A forma recombinante é administrada em dose única de 250 mcg por via subcutânea, um dia após a última dose do agente folículo-estimulante.
A bula brasileira do Choriomon-M admite as vias intramuscular e subcutânea — o que diverge da via exclusivamente intramuscular do rótulo americano.
Segurança
Não há advertência em quadro (boxed warning) em nenhum produto de gonadotrofina coriônica, urinário ou recombinante. A ausência está registrada aqui de forma explícita.
As contraindicações variam conforme o produto, e generalizar “o rótulo americano” seria impreciso. No Novarel e no produto sem marca, são três: puberdade precoce; carcinoma de próstata ou outra neoplasia dependente de androgênio; e reação alérgica prévia à hCG — e o rótulo registra que o produto pode causar dano fetal se administrado a gestante. Já o rótulo vigente do Pregnyl lista sete contraindicações, entre elas hipersensibilidade prévia a gonadotrofinas, falência gonadal primária em mulheres, endocrinopatias não gonadais não controladas, tumores hipofisários ou hipotalâmicos e tumores hormônio-dependentes.
As contraindicações da forma recombinante são mais amplas: hipersensibilidade; falência ovariana primária; disfunção tireoidiana ou adrenal não controlada; lesão intracraniana orgânica não controlada; sangramento uterino anormal de origem indeterminada; cisto ou aumento ovariano de origem indeterminada; tumores hormônio-dependentes; e gravidez.
As advertências relevantes incluem a síndrome de hiperestímulo ovariano — relatada em cerca de 1,7% dos ciclos de reprodução assistida e 3,0% na indução da ovulação com a forma recombinante, e entre 5% e 6% conforme a bula brasileira —, ruptura de cistos ovarianos com hemoperitônio, gestação múltipla, eventos tromboembólicos arteriais e puberdade precoce em meninos tratados para criptorquidia, por indução androgênica. Produtos de origem urinária podem provocar reações anafiláticas.
Situação regulatória e como funciona o acesso
- Estados Unidos: forma urinária registrada (Novarel, Pregnyl e genérico) e recombinante registrada (Ovidrel).
- União Europeia: há aprovação centralizada apenas para a forma recombinante — o Ovitrelle, procedimento EMEA/H/C/000320, autorizado em 2 de fevereiro de 2001. Os produtos urinários europeus são de autorização nacional; dizer que a hCG urinária é “aprovada pela EMA” seria incorreto.
- Brasil: as duas formas estão registradas e vigentes — Choriomon-M, 1.8759.0012, e Ovidrel, 1.0089.0376.
A consequência é direta: não é caso de importação por falta de registro. Os produtos existem no país, com prescrição médica. Eventual discussão judicial nesse contexto seria de custeio — quem paga o tratamento —, e não de trazer o medicamento de fora.
Sobre o financiamento público, existe a Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, instituída pela Portaria GM/MS nº 426, de 22 de março de 2005, restrita a serviços habilitados. A presença específica da gonadotrofina coriônica na RENAME deve ser verificada diretamente no documento — não se deve presumir cobertura.
Perguntas Frequentes
A hCG serve para emagrecer?
Não segundo os documentos aprovados. O rótulo do FDA afirma que a hCG não demonstrou eficácia como terapia adjuvante no tratamento da obesidade e não tem efeito conhecido sobre apetite ou distribuição de gordura. A bula brasileira registra que o medicamento não possui indicações relativas ao controle de peso.
Qual a diferença entre Choriomon-M e Ovidrel?
São produtos diferentes. O Choriomon-M é gonadotrofina coriônica de origem urinária; o Ovidrel é coriogonadotrofina alfa recombinante, produzida em cultura celular. Têm registros, vias e indicações distintas.
Homem pode usar hCG no Brasil?
A bula brasileira do Choriomon-M contraindica o uso por homens. As indicações masculinas constam do rótulo americano, não do nacional. A conduta é do médico assistente.
Precisa importar hCG?
Não. As duas formas estão registradas e disponíveis no Brasil.
Qual o principal risco do tratamento?
A síndrome de hiperestímulo ovariano e a gestação múltipla são os riscos mais relevantes na indicação de fertilidade, e por isso o tratamento é conduzido com monitoramento especializado.
Conclusão
A gonadotrofina coriônica é um medicamento de medicina reprodutiva, com papel bem definido como gatilho da ovulação e riscos que exigem acompanhamento especializado. É também o alvo de uma das desinformações mais persistentes em saúde: o uso para emagrecimento, que o rótulo do FDA e a bula brasileira negam expressamente. No Brasil, as duas formas estão registradas e disponíveis — não há aqui questão de importação, e sim de prescrição e acompanhamento adequados.
Fontes
- ANVISA — bula profissional do Choriomon-M (gonadotrofina coriônica), Besins Healthcare Brasil, registro 1.8759.0012, aprovada em 4 de março de 2024.
- ANVISA — bula profissional do Ovidrel (coriogonadotrofina alfa), Merck, registro 1.0089.0376.
- ANVISA — Nota Técnica nº 104/2019/SEI/GGMED/DIRE2/ANVISA, de 1º de agosto de 2019.
- FDA, DailyMed — bula do Novarel (gonadotrofina coriônica), Ferring Pharmaceuticals, BLA 017016, revisão de maio de 2023.
- FDA, DailyMed — bula do Pregnyl (gonadotrofina coriônica), Organon, BLA 017692, revisão de março de 2025.
- FDA, DailyMed — bula do produto sem marca de gonadotrofina coriônica para injeção, BLA 017067, Fresenius Kabi.
- FDA — relação de registros de produtos biológicos convertidos em BLA em 23 de março de 2020.
- FDA, DailyMed — bula do Ovidrel (coriogonadotrofina alfa), EMD Serono.
- FDA e Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos — comunicado conjunto sobre produtos de hCG para perda de peso, de 6 de dezembro de 2011.
- Agência Europeia de Medicamentos — Ovitrelle, EMEA/H/C/000320, Merck Europe, autorização de 2 de fevereiro de 2001.
- Lijesen GK et al., British Journal of Clinical Pharmacology, 1995;40(3):237-243, PMID 8527285.
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 426, de 22 de março de 2005, consolidada na Portaria de Consolidação nº 2, de 28 de setembro de 2017.
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