Resumo rápido
- A amilorida é um diurético poupador de potássio que bloqueia o canal epitelial de sódio no túbulo distal e no ducto coletor.
- No Brasil só existe registro da associação de amilorida com hidroclorotiazida. A amilorida isolada não tem registro na ANVISA.
- A indicação aprovada é adjuvante a diuréticos tiazídicos ou de alça, para restaurar o potássio ou prevenir hipocalemia — o rótulo diz que raramente deve ser usada sozinha.
- A hipercalemia é o risco central e figura em advertência em quadro tanto no rótulo da amilorida isolada quanto no da associação.
- O Moduretic teve o registro cancelado no Brasil em 2021. A referência atual da associação é o produto da EMS, registro 1.0235.0675.
O que é a amilorida?
A amilorida, na forma de cloridrato de amilorida, é um diurético poupador de potássio — também chamado de antikaliurético. Nos Estados Unidos, a marca de referência da apresentação isolada é o Midamor, NDA 018200, comprimido de 5 mg, hoje sob titularidade da Padagis. O registro segue vigente, mas a marca não é mais comercializada: o que circula naquele mercado é a amilorida sem marca, como genérico autorizado da própria NDA e por meio de outras ANDAs.
A associação com hidroclorotiazida era comercializada nos Estados Unidos como Moduretic 5-50, NDA 018201, da Merck, hoje com status de descontinuado — e o FDA registrou que a retirada não decorreu de questões de segurança ou eficácia.
No Brasil o quadro é diferente e é o ponto central deste artigo. A Lista A de Medicamentos de Referência da ANVISA, que reúne os produtos de princípio ativo único, não traz nenhuma entrada de amilorida. O que existe registrado é somente a associação:
- Moduretic, da MSD, registro 1.0029.0137 — registro cancelado, com exclusão da lista de referência em 12 de janeiro de 2021.
- Cloridrato de amilorida com hidroclorotiazida, da EMS, registro 1.0235.0675, nas apresentações de 2,5 mg com 25 mg e de 5 mg com 50 mg — incluído em 7 de maio de 2021 como o medicamento de referência atual da associação, assumindo o posto deixado pelo Moduretic.
- Amilorid, da Brainfarma, que apesar do nome também é a associação de 5 mg com 50 mg, e não amilorida isolada.
A Farmacopeia Brasileira confirma esse desenho: há monografia de produto acabado apenas para a associação em comprimidos, e para a amilorida isolada existe somente monografia de insumo farmacêutico ativo.
Mecanismo de ação
A amilorida inibe a reabsorção de sódio no túbulo contorcido distal, no túbulo coletor cortical e no ducto coletor. Ao reduzir o potencial negativo do lúmen tubular, diminui a secreção de potássio e de hidrogênio — daí o efeito poupador de potássio.
Um ponto que a bula faz questão de esclarecer: a amilorida não é antagonista da aldosterona. Seus efeitos ocorrem mesmo na ausência do hormônio, o que a distingue da espironolactona. Sua atividade natriurética, diurética e anti-hipertensiva isolada é fraca em comparação com a dos tiazídicos.
Indicações aprovadas
A indicação aprovada da amilorida isolada é adjuvante: uso associado a diuréticos tiazídicos ou a outros diuréticos caliuréticos, na insuficiência cardíaca congestiva ou na hipertensão, para ajudar a restaurar níveis séricos normais de potássio em pacientes que desenvolveram hipocalemia, ou para prevenir a hipocalemia em pacientes sob risco particular.
O rótulo é explícito ao dizer que a amilorida raramente deve ser usada sozinha. O uso isolado fica reservado a situações de hipocalemia persistente documentada, com titulação cuidadosa e monitoramento estreito de eletrólitos.
No Brasil, a bula da associação registrada indica hipertensão arterial sistêmica, edema de origem cardíaca e cirrose hepática com ascite e edema, nos casos em que se espera alteração do potássio.
Posologia
A via é oral, com alimento. Para a apresentação isolada, o rótulo recomenda início com 5 mg ao dia, podendo chegar a 10 mg ao dia — e registra que mais de dois comprimidos de 5 mg por dia usualmente não são necessários. Em hipocalemia persistente, admite-se chegar a 15 ou 20 mg ao dia, sempre com monitoramento eletrolítico cuidadoso.
Para a associação registrada no Brasil, a posologia usual é de um comprimido de 5 mg com 50 mg ao dia, com máximo de dois comprimidos dessa concentração ao dia.
Segurança
A hipercalemia — potássio sérico acima de 5,5 mEq/L — é o risco central da amilorida e pode ser fatal se não corrigida. A incidência varia conforme o uso: cerca de 10% quando a amilorida é usada sem um diurético caliurético, e cerca de 1% a 2% quando usada em associação com tiazídico. O risco é maior em pacientes com insuficiência renal, com diabetes mellitus — com ou sem insuficiência renal reconhecida — e em idosos.
A amilorida tem advertência em quadro (boxed warning) sobre hipercalemia, tanto na apresentação isolada quanto na associação. O texto do rótulo da forma isolada é próprio do fármaco: como outros agentes poupadores de potássio, a amilorida pode causar hipercalemia, com potássio sérico acima de 5,5 mEq/L, que é potencialmente fatal se não corrigida. É dentro desse quadro que aparecem as incidências citadas acima.
Uma ressalva de leitura, para quem consulta os documentos originais: nem todos os fabricantes codificam o texto na mesma seção do arquivo eletrônico de bula — alguns o registram como quadro destacado, outros o inserem no corpo das advertências. A diferença é de formatação do documento, não de estatuto regulatório.
As contraindicações do rótulo da apresentação isolada são: hipercalemia; uso concomitante de outros agentes poupadores de potássio ou de suplementação de potássio, salvo em hipocalemia grave ou refratária; anúria, insuficiência renal aguda ou crônica e evidência de nefropatia diabética; e hipersensibilidade ao produto.
Evidência clínica
Convém dizer o que existe e o que não existe. A amilorida é um fármaco anterior a 1982, e não há ensaio pivotal moderno sustentando a indicação aprovada — a base do registro é anterior à era dos estudos de desfecho duro. Preencher essa lacuna com um ensaio inventado ou com um estudo tangencial seria distorção.
O ensaio moderno relevante é o PATHWAY-3 (NCT00797862), de fase 4. Nele, a amilorida isolada e a combinação de amilorida com hidroclorotiazida produziram melhor tolerância à glicose do que a hidroclorotiazida isolada — a glicemia de duas horas foi cerca de 0,55 mmol/L menor com amilorida, com p igual a 0,0093, e 0,42 mmol/L menor com a combinação, com p igual a 0,048. A combinação também reduziu mais a pressão sistólica domiciliar do que a hidroclorotiazida isolada, com p igual a 0,0068, enquanto a amilorida isolada não diferiu da hidroclorotiazida quanto à pressão arterial.
Situação regulatória e como funciona o acesso
- Estados Unidos: a apresentação isolada segue registrada sob a NDA 018200, com genéricos disponíveis; a marca Midamor não é mais comercializada. A associação Moduretic está descontinuada, com genéricos remanescentes.
- União Europeia: não há EPAR nem procedimento centralizado para a amilorida — a molécula é anterior à criação desse procedimento, e na Europa o acesso se dá por autorizações nacionais. Dizer que a amilorida é “aprovada pela EMA” seria incorreto.
- Brasil: a associação está registrada e disponível; a amilorida isolada não tem registro na ANVISA. O medicamento também não consta da RENAME 2024, que traz hidroclorotiazida e espironolactona.
A consequência prática é direta. Para a associação, o ângulo de importação não se sustenta: é medicamento oral de baixo custo, com referência nacional vigente e similares disponíveis. Quem procura o produto encontra na farmácia.
O caso muda quando o médico prescreve o poupador de potássio sem o tiazídico — situação que ocorre, por exemplo, em intolerância ao tiazídico, hipocalemia persistente documentada ou hipertensão resistente com componente mineralocorticoide. Nesse recorte não existe produto nacional equivalente, e a rota prevista é a importação para uso próprio, em nome do paciente e a partir da receita médica, já que a apresentação de 5 mg é comercializada nos Estados Unidos. Por se tratar de apresentação sem registro vigente na ANVISA, a via judicial pode ser discutida nesse recorte específico — informação de caráter informativo, cuja avaliação depende de orientação médica e jurídica.
Prazos médios por origem
| Origem | Agência sanitária | Prazo médio |
|---|---|---|
| Estados Unidos | FDA | 10 dias |
| Canadá | Health Canada | 17 dias |
| Europa | EMA | 16 dias úteis |
| Ásia (Índia, China, Japão) | CDSCO, NMPA, PMDA | 16 dias úteis |
Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de remessa e a eventual necessidade de Autorização Excepcional de Importação. A confirmação de prazo para um caso específico é feita pelo time de compras.
Modalidades e documentação
A maior parte das remessas para uso próprio segue por courier (remessa expressa). A DSI vem sendo substituída pela DUIMP, o novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite que as anuências corram em paralelo.
A cadeia documental é sempre a mesma: Proforma Invoice, Commercial Invoice, Packing List, AWB e, por fim, DIR, DSI ou DUIMP. O processo corre sempre em nome do paciente e começa pela receita médica.
A formação do valor final combina o preço do fornecedor internacional, o câmbio do dia, os impostos e taxas alfandegárias e o frete. A Medicsupply mantém canal direto com FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul.
Perguntas Frequentes
Existe amilorida sozinha no Brasil?
Não foi localizado registro de amilorida isolada na ANVISA. O que existe registrado é a associação com hidroclorotiazida.
O Amilorid é amilorida pura?
Não. Apesar do nome, o Amilorid, da Brainfarma, é a associação de amilorida com hidroclorotiazida.
O Moduretic ainda existe?
O registro do Moduretic no Brasil foi cancelado, com exclusão da lista de referência em 12 de janeiro de 2021. A referência atual da associação é o produto da EMS, registro 1.0235.0675.
A amilorida pode ser usada sozinha?
O rótulo diz que raramente deve ser usada sozinha, reservando o uso isolado a hipocalemia persistente documentada, com monitoramento eletrolítico estreito. A decisão é do médico assistente.
Quem tem diabetes ou problema nos rins pode usar?
A anúria, a insuficiência renal aguda ou crônica e a evidência de nefropatia diabética são contraindicações. O diabetes é fator de risco reconhecido para hipercalemia com o medicamento. A avaliação é obrigatoriamente médica.
Conclusão
A amilorida é um diurético poupador de potássio de uso essencialmente adjuvante, cujo risco central — a hipercalemia — está bem caracterizado e é maior justamente quando ela é usada sozinha. No Brasil, a associação com hidroclorotiazida está registrada e disponível, e para ela não há tese de importação. A lacuna real está na apresentação isolada, que não tem registro nacional e cuja prescrição, quando ocorre, encontra a importação para uso próprio como caminho — sempre com receita e acompanhamento médico.
Fontes
- FDA, Drugs@FDA e Orange Book — NDA 018200, Midamor (cloridrato de amilorida 5 mg), detentor Padagis US, status de prescrição, RLD.
- FDA, Orange Book — NDA 018201, Moduretic 5-50 (amilorida com hidroclorotiazida), Merck Research Laboratories, status descontinuado, com registro de que a retirada não decorreu de questões de segurança ou eficácia.
- DailyMed — bula do cloridrato de amilorida em comprimido, genérico autorizado sob a NDA 018200, Padagis US, atualizada em 5 de maio de 2023.
- DailyMed — bulas do cloridrato de amilorida isolado (Sigmapharm, ANDA 079133, com a advertência em quadro sobre hipercalemia) e da associação de cloridrato de amilorida com hidroclorotiazida (Teva, ANDA 071111).
- ANVISA — Lista B de Medicamentos de Referência, arquivo de excluídos: Moduretic, MSD, registro 1.0029.0137, exclusão em 12 de janeiro de 2021 por cancelamento de registro.
- ANVISA — Lista B de Medicamentos de Referência, arquivo de incluídos: cloridrato de amilorida com hidroclorotiazida, EMS, registro 1.0235.0675, inclusão em 7 de maio de 2021.
- ANVISA — Lista A de Medicamentos de Referência: sem entrada para amilorida isolada.
- ANVISA — Farmacopeia Brasileira, 6ª edição: cloridrato de amilorida IF111-00 (insumo) e cloridrato de amilorida com hidroclorotiazida comprimidos EF069-00 (produto acabado).
- Ministério da Saúde — RENAME 2024: amilorida ausente; hidroclorotiazida e espironolactona presentes.
- Brown MJ et al., Lancet Diabetes and Endocrinology, 2016;4(2):136-147, PMID 26489809 (PATHWAY-3, NCT00797862).
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