Jevtana (cabazitaxel): taxano para câncer de próstata metastático resistente à castração

Resumo rápido

  • Jevtana (cabazitaxel) é um taxano indicado em combinação com prednisona no câncer de próstata metastático resistente à castração previamente tratado com regime contendo docetaxel.
  • O medicamento tem registro na ANVISA sob o número 1.8326.0312, da Sanofi Medley, e conta com genérico e similar nacionais da Eurofarma.
  • A dose de bula no Brasil e na Europa é de 25 mg/m² a cada três semanas; nos Estados Unidos, o FDA reduziu a dose recomendada para 20 mg/m² em 2017.
  • O rótulo traz advertência em quadro com dois itens: neutropenia com casos de óbito e reações de hipersensibilidade graves.
  • É antineoplásico de infusão intravenosa hospitalar. A aquisição é institucional, e não por importação para uso próprio.

O que é Jevtana (cabazitaxel)?

Jevtana é a marca do cabazitaxel da Sanofi, e é a mesma nos três mercados de referência: Estados Unidos, União Europeia e Brasil. Não há divergência de nome comercial entre países, ao contrário do que ocorre com outros oncológicos.

O cabazitaxel é um taxano de segunda geração, aprovado pelo FDA em 17 de junho de 2010 sob a NDA 201023, e autorizado na União Europeia em 17 de março de 2011 pelo procedimento EMEA/H/C/002018. No Brasil, o registro do Jevtana é o 1.8326.0312, da Sanofi Medley Farmacêutica.

A patente já caiu e existem alternativas nacionais registradas: o cabazitaxel genérico da Eurofarma, registro 1.0043.1196, e o Proazitax, similar equivalente ao medicamento de referência, registro 1.0043.1198. Nos Estados Unidos há genérico da Accord pela ANDA 207693, e na União Europeia o Cabazitaxel Accord, autorizado em 28 de agosto de 2020.

Mecanismo de ação

O cabazitaxel liga-se à tubulina e promove a montagem de microtúbulos, ao mesmo tempo em que inibe sua desmontagem. O resultado é a estabilização dos microtúbulos, que bloqueia a divisão celular nas fases G2 e M e leva a célula tumoral à morte.

A característica que distingue o cabazitaxel do docetaxel é a menor afinidade pela glicoproteína P, uma bomba de efluxo que retira o fármaco de dentro da célula. Essa diferença sustenta a atividade em tumores que já progrediram sob docetaxel. O cabazitaxel também atravessa a barreira hematoencefálica, o que o docetaxel não faz — argumento usado pelo CHMP em 2019 para recusar um pedido de genérico que se apoiava no docetaxel como referência de suporte.

Indicações aprovadas

A indicação é única e permanece a mesma desde a aprovação original: tratamento do câncer de próstata metastático resistente à castração, em combinação com prednisona, em pacientes previamente tratados com regime contendo docetaxel.

Três elementos fazem parte da indicação e não são recomendações acessórias: a doença precisa ser metastática e resistente à castração; o paciente precisa ter recebido docetaxel antes; e a prednisona é obrigatória, na dose de 10 mg por via oral ao dia.

Na União Europeia a indicação restringe-se explicitamente a pacientes adultos. Quanto ao corticosteroide, o texto do FDA cita apenas prednisona, enquanto a bula brasileira e o documento europeu admitem prednisona ou prednisolona. Nos Estados Unidos não há piso etário no texto da indicação, mas a segurança e a eficácia em população pediátrica não foram estabelecidas.

Não houve indicação nova nem indicação retirada desde 2010. A mudança de redação de “refratário à hormonioterapia” para “resistente à castração” é atualização de terminologia, formalizada na Europa pela variação II/0034 em 2017. E não existe indicação de primeira linha em nenhuma agência: o estudo FIRSTANA testou exatamente isso e não atingiu o desfecho primário.

Evidências clínicas

O TROPIC (NCT00417079) é o estudo que sustenta a aprovação. Ensaio de fase 3, aberto e randomizado, com 755 pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração previamente tratados com docetaxel, comparou cabazitaxel 25 mg/m² com mitoxantrona 12 mg/m², ambos com prednisona. A sobrevida global mediana foi de 15,1 meses com cabazitaxel contra 12,7 meses com mitoxantrona, com razão de risco de 0,70, intervalo de confiança de 95% entre 0,59 e 0,83 e p menor que 0,0001. A neutropenia de graus 3 e 4 ocorreu em 82% dos pacientes do braço cabazitaxel.

O PROSELICA (NCT01308580) foi o estudo de não inferioridade que originou a divergência de dose entre as agências. Com 1.200 pacientes, comparou 20 mg/m² com 25 mg/m². A sobrevida global mediana foi de 13,4 meses com a dose menor contra 14,5 meses com a maior, com razão de risco de 1,024 e intervalo de confiança de 97,78% entre 0,886 e 1,184 — a não inferioridade foi demonstrada. A taxa de resposta do PSA, porém, foi significativamente menor com 20 mg/m²: 29,5% contra 42,9%.

O FIRSTANA (NCT01308567) testou o cabazitaxel em primeira linha, em 1.168 pacientes virgens de quimioterapia, comparando 20 mg/m² e 25 mg/m² com docetaxel 75 mg/m². Nenhuma das doses foi superior ao docetaxel, e o desfecho primário não foi atingido.

O CARD (NCT02485691), de fase 4, avaliou 255 pacientes que já haviam recebido docetaxel e progrediram em até 12 meses sob abiraterona ou enzalutamida. A sobrevida livre de progressão radiográfica foi de 8,0 meses com cabazitaxel contra 3,7 meses com o agente dirigido ao receptor androgênico, com razão de risco de 0,54 e p menor que 0,0001. A sobrevida global foi de 13,6 contra 11,0 meses, com razão de risco de 0,64 e p igual a 0,008. O estudo entrou na bula como informação de estudos clínicos, sem alterar a indicação.

Posologia e a divergência de dose entre as agências

Este é um ponto em que a informação disponível em português costuma estar errada, porque reproduz a bula americana.

Mercado Dose recomendada
Brasil (bula ANVISA) 25 mg/m² a cada 3 semanas
União Europeia 25 mg/m² a cada 3 semanas
Estados Unidos 20 mg/m² a cada 3 semanas, com 25 mg/m² reservado a pacientes selecionados

As duas agências analisaram o mesmo estudo, o PROSELICA, e decidiram de forma oposta. O FDA priorizou a não inferioridade em sobrevida global e reduziu a dose recomendada para 20 mg/m² em 2017. A Agência Europeia de Medicamentos avaliou os mesmos dados na variação II/0034 e manteve os 25 mg/m², registrando que a dose menor produziu taxa de resposta do PSA significativamente inferior. A bula brasileira segue o padrão europeu.

A infusão dura uma hora e é repetida a cada três semanas, sempre acompanhada de prednisona ou prednisolona 10 mg por via oral ao dia. A pré-medicação é obrigatória e deve ser administrada pelo menos 30 minutos antes de cada infusão, com três componentes: um anti-histamínico, um corticosteroide e um antagonista H2. A profilaxia antiemética é recomendada.

Há ajuste de dose por toxicidade e por função hepática. Na insuficiência hepática leve a dose cai para 20 mg/m², na moderada para 15 mg/m², e na insuficiência hepática grave o medicamento é contraindicado. A neuropatia periférica de grau 3 ou superior exige descontinuação definitiva.

Segurança

O cabazitaxel tem advertência em quadro no rótulo do FDA, com dois itens de peso equivalente.

O primeiro é a neutropenia. Foram relatados óbitos por neutropenia. O rótulo determina monitoramento com hemogramas frequentes, contraindica o uso com contagem de neutrófilos igual ou inferior a 1.500 por mm³ e recomenda profilaxia primária com fator estimulador de colônias de granulócitos em pacientes com características clínicas de alto risco, orientando considerar essa profilaxia em todos os pacientes que recebam 25 mg/m².

O segundo é a hipersensibilidade grave, que pode se manifestar como exantema ou eritema generalizado, hipotensão e broncoespasmo. A reação exige interrupção imediata da infusão e tratamento apropriado. O quadro nomeia expressamente o polissorbato 80: pacientes com história de reação de hipersensibilidade grave ao cabazitaxel ou a outros medicamentos formulados com polissorbato 80 não devem receber o produto.

As contraindicações do rótulo americano são três: contagem de neutrófilos igual ou inferior a 1.500 por mm³; história de hipersensibilidade grave ao cabazitaxel ou a outros medicamentos formulados com polissorbato 80; e insuficiência hepática grave, com bilirrubina total acima de três vezes o limite superior da normalidade.

O documento europeu acrescenta duas contraindicações que não constam do rótulo americano e são relevantes no Brasil: hipersensibilidade a outros taxanos e vacinação concomitante contra febre amarela.

Há ainda um alerta geriátrico documentado no TROPIC: entre os pacientes com 65 anos ou mais, 6% morreram em até 30 dias do fim do tratamento, contra 2% dos pacientes mais jovens, e a neutropenia de graus 3 e 4 ocorreu em 87% deles, contra 74%.

Como funciona o acesso no Brasil

Aqui é preciso ser direto: este não é um caso de importação.

O cabazitaxel tem três produtos registrados e vigentes na ANVISA — o Jevtana de referência, um genérico e um similar equivalente. Nenhum dos motivos que justificam a importação para uso próprio se aplica: não falta registro, não há indício de desabastecimento e a existência de genérico e similar nacionais retira a base de comparação de preço.

Além disso, o medicamento não é adquirido pelo paciente. Trata-se de antineoplásico de infusão intravenosa aplicado ao longo de uma hora, a cada três semanas, com pré-medicação de três fármacos e necessidade frequente de fator estimulador de colônias. A administração ocorre em serviço de oncologia habilitado.

No SUS, a oncologia é financiada por procedimentos quimioterápicos de alta complexidade, autorizados por APAC e custeados pelo bloco de Média e Alta Complexidade, em hospital habilitado como CACON ou UNACON. Quem compra o medicamento é o hospital; o SUS remunera o procedimento. As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, aprovadas pela Portaria nº 498 de 11 de maio de 2016, citam o cabazitaxel como evidência de segunda linha, mas recomendam o docetaxel com prednisona como fármaco de escolha. Na saúde suplementar, a aquisição também é do hospital ou da clínica, e o plano remunera o procedimento.

Quando há disputa judicial envolvendo cabazitaxel, ela é de custeio — discute-se quem paga —, e não de importação. O medicamento está registrado e disponível no país, de modo que não há o que trazer do exterior. Situações de custeio dependem de orientação médica e jurídica e não envolvem assessoria de importação.

Perguntas Frequentes

Qual é a dose correta do cabazitaxel no Brasil?

A bula brasileira, tanto do Jevtana quanto dos produtos da Eurofarma, traz 25 mg/m² a cada três semanas. A dose de 20 mg/m² é a recomendação do FDA nos Estados Unidos e não corresponde à bula nacional.

O cabazitaxel pode ser usado antes do docetaxel?

Não segundo a indicação aprovada. O tratamento prévio com regime contendo docetaxel faz parte do texto da indicação, e o estudo FIRSTANA, que testou o uso em primeira linha, não atingiu o desfecho primário.

É preciso importar o cabazitaxel?

Não. O medicamento tem registro na ANVISA, com genérico e similar nacionais, e é adquirido pela instituição de saúde que administra o tratamento.

Existe genérico de cabazitaxel no Brasil?

Sim. A Eurofarma tem o cabazitaxel genérico, registro 1.0043.1196, e o Proazitax, similar equivalente ao medicamento de referência, registro 1.0043.1198.

O cabazitaxel está incorporado ao SUS?

Não foi localizada incorporação específica do cabazitaxel pela CONITEC. O tratamento oncológico no SUS é financiado por procedimento em hospital habilitado, e a diretriz vigente recomenda o docetaxel como fármaco de escolha nessa situação clínica.

Conclusão

O cabazitaxel é uma opção estabelecida de segunda linha no câncer de próstata metastático resistente à castração, com ganho de sobrevida demonstrado no TROPIC e reforçado pelo CARD em um cenário clínico específico. É também um medicamento de toxicidade relevante, com advertência em quadro e necessidade de monitoramento hematológico. No Brasil, está registrado, tem alternativas nacionais e é adquirido pela instituição que trata o paciente — o acesso não passa por importação.

Fontes

  1. ANVISA — Lista A de Medicamentos de Referência: Jevtana, cabazitaxel, Sanofi Medley Farmacêutica, registro 1.8326.0312, inclusão em 23 de setembro de 2014.
  2. ANVISA — bulas do cabazitaxel genérico, registro 1.0043.1196, e do Proazitax, registro 1.0043.1198, Eurofarma Laboratórios.
  3. FDA, Drugs@FDA — NDA 201023, Jevtana, Sanofi-Aventis U.S., aprovação em 17 de junho de 2010; rótulo revisado em maio de 2025.
  4. Agência Europeia de Medicamentos — Jevtana, EMEA/H/C/002018, autorização EU/1/11/676/001 de 17 de março de 2011; variação II/0034 de 2017.
  5. de Bono JS et al., Lancet, 2010;376(9747):1147-1154, PMID 20888992 (TROPIC, NCT00417079).
  6. Eisenberger M et al., Journal of Clinical Oncology, 2017;35(28):3198-3206, PMID 28809610 (PROSELICA, NCT01308580).
  7. Oudard S et al., Journal of Clinical Oncology, 2017;35(28):3189-3197, PMID 28753384 (FIRSTANA, NCT01308567).
  8. de Wit R et al., New England Journal of Medicine, 2019;381(26):2506-2518, PMID 31566937 (CARD, NCT02485691).
  9. Ministério da Saúde — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria nº 498, de 11 de maio de 2016.

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Bruno Moura

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