Resumo rápido
- A vancomicina tem duas apresentações com indicações diferentes e que não se substituem: a intravenosa, para infecções sistêmicas, e a oral, que age apenas no intestino.
- A vancomicina oral é indicada na diarreia associada a Clostridioides difficile e na enterocolite estafilocócica. Ela não trata infecção sistêmica.
- No Brasil há várias apresentações injetáveis registradas na ANVISA, todas de uso restrito a hospitais. Não foi localizada apresentação oral industrializada com registro.
- A vancomicina não possui advertência em quadro em nenhuma de suas apresentações.
- Nos serviços brasileiros, a via oral é obtida por manipulação ou pelo uso do frasco injetável por via oral. A importação para uso próprio é a alternativa quando há prescrição do produto industrializado.
Duas apresentações, dois tratamentos diferentes
Esta é a informação mais importante do texto, e por isso vem antes de qualquer outra.
A vancomicina intravenosa atinge concentração sistêmica e trata infecções graves por bactérias Gram-positivas, incluindo Staphylococcus aureus resistente à meticilina. Ela não alcança concentração terapêutica no lúmen do cólon.
A vancomicina oral praticamente não é absorvida. Ela permanece no lúmen intestinal e é justamente por isso que trata a colite por Clostridioides difficile e a enterocolite estafilocócica. A bula é explícita: a vancomicina administrada por via oral não é eficaz para outros tipos de infecção.
As duas vias não são intercambiáveis em nenhuma direção. Tomar a cápsula esperando tratar uma infecção sistêmica não funciona; e a ampola administrada por via intravenosa não trata a colite intestinal. Vale uma precisão: nos Estados Unidos existe um pó para injeção cujo rótulo cobre as duas vias, com indicações sistêmicas por via intravenosa e indicações intestinais por via oral. O que separa os dois tratamentos é a via, não necessariamente a embalagem.
Há ainda uma armadilha de nome que confunde inclusive profissionais. Nos Estados Unidos, Vancocin é a cápsula oral. No Brasil, Vancocina CP é pó para solução injetável, de uso exclusivo por infusão intravenosa. Nomes quase idênticos, apresentações opostas.
O que é a vancomicina?
A vancomicina é um antibiótico da classe dos glicopeptídeos. Nos Estados Unidos, a maior parte das apresentações intravenosas é comercializada sob o próprio nome genérico — a exceção é o Tyzavan, solução intravenosa da Hikma, aprovada em 15 de fevereiro de 2019 sob a NDA 211962. Nas apresentações orais, as marcas são Vancocin, em cápsulas de 125 mg e 250 mg, sob a NDA 050606, e Firvanq, solução oral de 25 mg/mL e 50 mg/mL, sob a NDA 208910.
No Brasil, as apresentações registradas são injetáveis, de vários detentores: Vancocina CP, registro 1.5562.0005; cloridrato de vancomicina da ABL Brasil, registro 1.5562.0041; da Blau, registro 1.1637.0092; do Teuto, registro 1.0370.0461; Vancotrat, da União Química, registro 1.0497.0242; e Novamicin, da Fresenius Kabi, registro 1.0041.0188. Todas trazem na bula a indicação de uso restrito a hospitais.
A denominação correta em português é vancomicina, e a forma salina usada nos rótulos brasileiros é o cloridrato de vancomicina.
Mecanismo de ação
A vancomicina liga-se com alta afinidade às terminações D-alanil-D-alanina dos precursores da parede celular bacteriana, impedindo a polimerização do peptidoglicano. Sem parede íntegra, a bactéria não sobrevive. O alvo é exclusivo de bactérias Gram-positivas, o que explica o espectro do antibiótico.
Na colite por Clostridioides difficile, o efeito terapêutico depende justamente da ausência de absorção: a molécula administrada por via oral atinge concentrações elevadas no conteúdo intestinal, onde a bactéria produz as toxinas responsáveis pela doença.
Indicações aprovadas
Apresentação oral, nos Estados Unidos: tratamento da diarreia associada a Clostridioides difficile e da enterocolite causada por Staphylococcus aureus, incluindo cepas resistentes à meticilina, em adultos e em pacientes pediátricos com menos de 18 anos. O rótulo traz limitação de uso expressa: a vancomicina oral não é eficaz para outros tipos de infecção.
Apresentação oral, na União Europeia: a informação de produto harmonizada indica a vancomicina oral para infecção por Clostridium difficile. As cápsulas ficam restritas a pacientes de 12 anos ou mais; o pó para solução oral cobre todas as faixas etárias. A enterocolite estafilocócica foi retirada das indicações orais europeias.
Apresentação intravenosa, no Brasil: infecções graves por Staphylococcus aureus resistente à meticilina, infecções por Gram-positivos em pacientes alérgicos à penicilina, septicemia, infecções ósseas, infecções do trato respiratório inferior, infecções de pele e endocardite bacteriana.
Evidências clínicas
Na colite por Clostridioides difficile, a vancomicina oral foi o comparador dos ensaios de fase 3 que registraram a fidaxomicina. Nos estudos NCT00314951, com 629 participantes, e NCT00468728, com 535 participantes, os dois braços receberam vancomicina 125 mg a cada 6 horas por 10 dias ou fidaxomicina 200 mg a cada 12 horas.
O resultado é claro e frequentemente mal resumido: as taxas de cura clínica foram equivalentes — em torno de 87% a 88% com fidaxomicina e 86% a 87% com vancomicina. A diferença apareceu na recorrência: cerca de 14% com fidaxomicina contra 26% com vancomicina na análise agrupada. É apenas essa diferença que fundamenta a preferência das diretrizes atuais.
Contra o metronidazol, o ensaio randomizado e duplo-cego de Zar e colaboradores mostrou equivalência na doença leve — cura de 90% com metronidazol e 98% com vancomicina, sem diferença estatística — e superioridade da vancomicina na doença grave: 76% contra 97%, com p igual a 0,02.
A atualização focada da Infectious Diseases Society of America e da Society for Healthcare Epidemiology of America, de 2021, sugere a fidaxomicina em vez do curso padrão de vancomicina tanto no episódio inicial quanto na recorrência, com recomendações condicionais. A saída do metronidazol da primeira linha é anterior — veio da diretriz de 2017 das mesmas sociedades; o texto de 2021 mantém o metronidazol apenas como alternativa na doença não grave quando vancomicina e fidaxomicina não estiverem disponíveis. A vancomicina oral permanece como terapia de eficácia comprovada e, no Brasil, é a opção efetivamente utilizável, já que a fidaxomicina não está disponível no país.
Posologia
Via oral, na diarreia associada a Clostridioides difficile: em adultos, 125 mg por via oral quatro vezes ao dia durante 10 dias. Em pacientes pediátricos com menos de 18 anos, 40 mg/kg ao dia divididos em três ou quatro doses, por 7 a 10 dias, sem ultrapassar 2 g ao dia.
Via oral, na enterocolite estafilocócica: em adultos, 500 mg a 2 g ao dia divididos em três ou quatro doses, por 7 a 10 dias.
Via intravenosa: em adultos, o rótulo americano traz 2 g ao dia, divididos em 500 mg a cada 6 horas ou 1 g a cada 12 horas; o documento europeu adota 15 a 20 mg/kg a cada 8 a 12 horas, sem exceder 2 g por dose.
Um parâmetro de segurança é comum às três jurisdições e não admite atalho: a infusão deve durar no mínimo 60 minutos, com velocidade máxima de 10 mg por minuto. Infundir mais rápido é a causa direta da reação de infusão descrita adiante.
O monitoramento sérico faz parte do tratamento intravenoso. A diretriz de consenso de 2020 estabeleceu como alvo a razão entre a área sob a curva e a concentração inibitória mínima entre 400 e 600 mg·hora/L nas infecções graves por Staphylococcus aureus resistente à meticilina, e abandonou o monitoramento apenas por concentração de vale como abordagem primária.
Segurança
A vancomicina não possui advertência em quadro (boxed warning) em nenhuma de suas apresentações — nem cápsula, nem solução oral, nem injetável. A ausência é informação, e está registrada aqui de forma explícita.
As advertências da apresentação intravenosa incluem reações de infusão, nefrotoxicidade com lesão renal aguda e nefrite intersticial, ototoxicidade, reações dermatológicas graves — entre elas necrólise epidérmica tóxica, síndrome de Stevens-Johnson e reação a medicamento com eosinofilia e sintomas sistêmicos —, diarreia associada a Clostridioides difficile, vasculite retiniana oclusiva hemorrágica, neutropenia e flebite.
Sobre a reação de infusão, há uma nota de nomenclatura: o rótulo americano vigente usa o termo “reações de infusão”, enquanto as bulas brasileiras ainda descrevem a “síndrome do homem vermelho”, caracterizada por calafrios, febre, hipotensão e rubor.
Nefrotoxicidade e ototoxicidade também constam do rótulo oral, e a razão é específica: pode haver absorção sistêmica em pacientes com colite grave ou com insuficiência renal. Isso não altera o fato de que a via oral não trata infecção sistêmica.
A contraindicação listada nos rótulos orais americanos é uma só: hipersensibilidade conhecida à vancomicina. As bulas brasileiras acrescentam a hipersensibilidade a outros glicopeptídeos, e o documento europeu registra que a vancomicina não deve ser administrada por via intramuscular, pelo risco de necrose. Não há contraindicação por gravidez nos rótulos.
Situação regulatória e como funciona o acesso
Cada agência precisa ser lida em sua própria fonte:
- Estados Unidos: apresentações orais aprovadas e comercializadas — Vancocin em cápsulas, pela NDA 050606, e Firvanq em solução oral, pela NDA 208910, ambos com rótulo vigente revisado em dezembro de 2025.
- União Europeia: a vancomicina é autorizada nacionalmente pelos Estados-Membros e não possui aprovação centralizada da Agência Europeia de Medicamentos. Não existe EPAR. O que houve foi uma arbitragem do artigo 31, o procedimento EMEA/H/A-31/1440, concluída em 2017, que harmonizou a informação de produto entre os países.
- Brasil: as apresentações injetáveis estão registradas, com números listados acima, e são de uso restrito a hospitais. Não foi localizada apresentação oral industrializada com registro na ANVISA.
A consequência prática dessa ausência é visível nos serviços brasileiros. Guias farmacêuticos hospitalares listam a vancomicina oral como produto manipulado, e há protocolos institucionais que orientam o uso da apresentação endovenosa por via oral justamente porque não existe apresentação oral disponível. É uma solução de contorno, não um produto registrado.
Quando o médico prescreve o produto oral industrializado, a via prevista é a importação para uso próprio, conduzida em nome do paciente e iniciada pela receita médica. Por se tratar de apresentação sem registro vigente na ANVISA, a via judicial também pode ser discutida — a informação consta aqui em caráter estritamente informativo, e a avaliação depende de orientação médica e jurídica no caso concreto.
Prazos médios por origem
| Origem | Agência sanitária | Prazo médio |
|---|---|---|
| Estados Unidos | FDA | 10 dias |
| Canadá | Health Canada | 17 dias |
| Europa | EMA | 16 dias úteis |
| Ásia (Índia, China, Japão) | CDSCO, NMPA, PMDA | 16 dias úteis |
Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de remessa e a eventual necessidade de Autorização Excepcional de Importação. A confirmação de prazo para um caso específico é feita pelo time de compras.
Modalidades e documentação
A maior parte das remessas para uso próprio segue por courier (remessa expressa). A DSI vem sendo substituída pela DUIMP, o novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite que as anuências corram em paralelo.
A cadeia documental é sempre a mesma: Proforma Invoice, Commercial Invoice, Packing List, AWB e, por fim, DIR, DSI ou DUIMP. O processo corre sempre em nome do paciente e começa pela receita médica.
A formação do valor final combina o preço do fornecedor internacional, o câmbio do dia, os impostos e taxas alfandegárias e o frete. A Medicsupply mantém canal direto com FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul.
Perguntas Frequentes
A cápsula de vancomicina trata infecção no sangue?
Não. A vancomicina oral praticamente não é absorvida e age apenas no intestino. O rótulo declara que ela não é eficaz para outros tipos de infecção.
Posso tomar o conteúdo da ampola injetável por via oral?
Essa prática existe em protocolos hospitalares brasileiros justamente pela ausência de apresentação oral registrada, mas é uma conduta médica institucional, não uma orientação de bula. A decisão é do médico assistente.
Existe vancomicina oral registrada no Brasil?
Não foi localizada apresentação oral industrializada com registro na ANVISA. As apresentações registradas no país são injetáveis e de uso restrito a hospitais.
A vancomicina ainda é a primeira escolha na colite por C. difficile?
As diretrizes de 2021 sugerem a fidaxomicina como preferencial, tanto no episódio inicial quanto na recorrência, por causa da menor taxa de recidiva. A vancomicina permanece terapia de eficácia comprovada, e a fidaxomicina não está disponível no Brasil.
Por que a infusão intravenosa precisa durar uma hora?
Porque a infusão rápida provoca reação de infusão, com rubor, calafrios, febre e hipotensão. O rótulo determina duração mínima de 60 minutos e velocidade máxima de 10 mg por minuto.
Conclusão
Tratar a vancomicina como um medicamento só é o erro mais comum e o mais perigoso. São duas apresentações com finalidades opostas: a intravenosa, hospitalar, para infecções sistêmicas; e a oral, que age no intestino e é a terapia da colite por Clostridioides difficile. No Brasil, apenas a injetável está registrada. Quando a prescrição é do produto oral industrializado, o caminho passa pela importação para uso próprio, sempre com receita e acompanhamento médico.
Fontes
- FDA, DailyMed — Vancocin, cloridrato de vancomicina em cápsulas de 125 mg e 250 mg, NDA 050606, ANI Pharmaceuticals; rótulo revisado em dezembro de 2025.
- FDA, DailyMed — Firvanq, cloridrato de vancomicina para solução oral, NDA 208910, Azurity Pharmaceuticals; rótulo revisado em dezembro de 2025.
- FDA, DailyMed — vancomicina injetável, NDA 050671, Baxter Healthcare; informação de prescrição revisada em maio de 2025.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 211962, Tyzavan (cloridrato de vancomicina, solução intravenosa), Hikma, aprovação em 15 de fevereiro de 2019; e NDA 210274, pó para injeção com rótulo para uso intravenoso e oral.
- McDonald LC et al., Clinical Infectious Diseases, 2018;66(7):e1-e48 (diretriz IDSA/SHEA de 2017).
- Agência Europeia de Medicamentos — arbitragem do artigo 31 da Diretiva 2001/83/CE, procedimento EMEA/H/A-31/1440, relatório de avaliação de 18 de maio de 2017.
- ANVISA — bulas e registros das apresentações injetáveis: Vancocina CP 1.5562.0005; cloridrato de vancomicina ABL Brasil 1.5562.0041; Blau 1.1637.0092; Teuto 1.0370.0461; Vancotrat 1.0497.0242; Novamicin 1.0041.0188.
- Johnson S et al., Clinical Infectious Diseases, 2021;73(5):e1029-e1044, PMID 34164674 (atualização focada IDSA/SHEA).
- Louie TJ et al., New England Journal of Medicine, 2011;364(5):422-431, PMID 21288078 (NCT00314951).
- Cornely OA et al., Lancet Infectious Diseases, 2012;12(4):281-289, PMID 22321770 (NCT00468728).
- Zar FA et al., Clinical Infectious Diseases, 2007;45(3):302-307, PMID 17599306 (vancomicina oral contra metronidazol).
- Rybak MJ et al., Clinical Infectious Diseases, 2020;71(6):1361-1364, PMID 32658968 (diretriz de monitoramento sérico).
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