Doxorrubicina: antraciclina citotóxica no tratamento de câncer de mama, linfomas e sarcomas

Resumo rápido

  • A doxorrubicina é uma antraciclina citotóxica de uso exclusivo intravenoso, em uso desde a década de 1970 em tumores sólidos e neoplasias hematológicas.
  • O rótulo vigente do FDA a indica no câncer de mama adjuvante com linfonodo axilar acometido e em leucemias agudas, linfomas e uma lista definida de tumores metastáticos.
  • Tem advertência em quadro destacado do FDA para cardiomiopatia, neoplasias secundárias, extravasamento com necrose e mielossupressão grave.
  • No Brasil há dois registros ativos na ANVISA: Accord Farmacêutica, 1.5537.0063, e Eurofarma, 1.0043.0004, conforme consulta à base oficial em 11/09/2026.
  • É um injetável citotóxico hospitalar: quem compra é o serviço de saúde que administra a quimioterapia, não o paciente. Não é caso de importação para uso próprio.

O que é a doxorrubicina?

A doxorrubicina, apresentada como cloridrato de doxorrubicina, é um antineoplásico da classe das antraciclinas. A aprovação original nos Estados Unidos é de 07/08/1974, sob a aplicação NDA 050467. O cloridrato de doxorrubicina também é comercializado sob a marca Docks, da Accord Farmacêutica, registro 1.5537.0067, conforme a bula da própria empresa, e foi historicamente vendido nos Estados Unidos como Adriamycin.

Essa marca merece esclarecimento, porque circula em textos desatualizados: no Drugs@FDA, todas as apresentações da NDA 050467 constam descontinuadas, e o rótulo vigente não usa mais esse nome. O que se comercializa hoje nos Estados Unidos é a solução injetável da NDA 050629, aprovada em 23/12/1987.

No Brasil vale o mesmo. A apresentação da Accord, registro 1.5537.0063, é solução injetável de 2 mg/mL em frascos-ampola de 10 mg em 5 mL e de 50 mg em 25 mL. A Eurofarma detém o registro 1.0043.0004.

Mecanismo de ação

A molécula se intercala entre os pares de bases do DNA e inibe a topoisomerase II, enzima que desfaz e refaz as quebras transitórias da dupla-fita na replicação: bloqueada a enzima, as quebras se tornam permanentes e a célula entra em morte programada. Há ainda a geração de radicais livres derivados do anel quinona, mecanismo associado ao dano ao miócito cardíaco, tecido de baixa capacidade antioxidante e de regeneração — daí a toxicidade cardíaca ser cumulativa e, em boa medida, irreversível.

Indicações aprovadas

Estados Unidos, rótulo vigente do FDA

No câncer de mama adjuvante o rótulo é preciso: a doxorrubicina é indicada como componente de quimioterapia adjuvante multiagente para mulheres com linfonodos axilares acometidos após ressecção do câncer de mama primário. Não é indicação genérica para câncer de mama inicial.

Nas demais, o rótulo lista leucemia linfoblástica aguda, leucemia mieloblástica aguda, linfoma de Hodgkin, linfoma não Hodgkin e, na condição metastática, câncer de mama, tumor de Wilms, neuroblastoma, sarcoma de tecidos moles, sarcoma ósseo, ovário, células transicionais de bexiga, tireoide, gástrico e broncogênico.

Brasil, bula aprovada

A bula brasileira descreve a indicação como regressão de diversas condições neoplásicas e repete em boa parte a lista norte-americana — leucemia aguda, tumor de Wilms, neuroblastoma, sarcomas, mama, linfomas, broncogênico, tireoide e ovário —, acrescentando hepatomas, que a lista do FDA não traz: divergência real de escopo entre as jurisdições.

Convencional e lipossomal não são o mesmo medicamento

Esta é a confusão mais frequente e a mais perigosa no assunto. As duas formas compartilham o princípio ativo, mas têm indicações, doses, toxicidade e aplicações regulatórias diferentes. O rótulo do produto lipossomal norte-americano, NDA 050718, revisado em 02/05/2022, instrui expressamente a não substituir uma pela outra.

Item Convencional Lipossomal peguilada
Identificadores NDA 050629 e NDA 050467; ANVISA 1.5537.0063 e 1.0043.0004 NDA 050718; EMEA/H/C/000089
Indicações mama adjuvante e metastática, leucemias agudas, linfomas, sarcomas, Wilms, neuroblastoma, ovário, bexiga, tireoide, gástrico, broncogênico ovário após esquema à base de platina; sarcoma de Kaposi associado à aids; mieloma múltiplo com bortezomibe
Doses 60 a 75 mg/m² a cada 21 dias em monoterapia 50 mg/m² a cada 28 dias no ovário; 20 mg/m² a cada 21 dias no Kaposi
Segurança cardiomiopatia, neoplasias secundárias, extravasamento, mielossupressão cardiomiopatia em 11% com 450 a 550 mg/m² acumulados; reações à infusão em 11%

Na União Europeia, a forma lipossomal tem duas autorizações centralizadas: Caelyx pegylated liposomal, EMEA/H/C/000089, de 20/06/1996, e Myocet liposomal, EMEA/H/C/000297, de 13/07/2000. A convencional não tem autorização centralizada: é autorizada por procedimento nacional em cada Estado-membro, como outras antraciclinas antigas, e afirmar que foi aprovada pela EMA é incorreto. A situação da forma lipossomal na ANVISA deve ser verificada à parte.

Evidências clínicas

A aprovação de 1974 é anterior ao registro público de ensaios clínicos: não há ensaio pivotal identificado por número de registro sustentando-a. A evidência do uso atual vem da meta-análise citada no rótulo do FDA e dos ensaios modernos em que a doxorrubicina é braço de comparação.

Câncer de mama adjuvante

O rótulo do FDA se apoia em meta-análise do Early Breast Cancer Trialists Collaborative Group sobre seis ensaios que compararam esquemas com doxorrubicina ao esquema CMF em 3.510 mulheres com câncer de mama inicial e linfonodo axilar acometido, entre eles o NSABP B-15, com 1.562 pacientes: razão de risco de 0,91 para sobrevida livre de doença, com intervalo de confiança de 95% entre 0,82 e 1,01, e de 0,91 para sobrevida global, com intervalo de 95% entre 0,81 e 1,03.

A meta-análise mais ampla do mesmo grupo, de 2012, com 123 ensaios e cerca de 100 mil mulheres, refinou o quadro: quatro ciclos do esquema AC padrão foram equivalentes ao CMF padrão, com risco relativo de 0,98 e erro padrão de 0,05, enquanto esquemas com antraciclina em dose acumulada maior foram superiores, com risco relativo de 0,78, erro padrão de 0,06 e p de 0,0004.

Sarcoma de tecidos moles avançado

O ensaio EORTC 62012, identificador NCT00061984, é o estudo de fase 3 que definiu o papel da doxorrubicina em monoterapia na primeira linha do sarcoma de tecidos moles avançado. Foram randomizados 455 pacientes: 228 para doxorrubicina isolada e 227 para doxorrubicina intensificada com ifosfamida.

A sobrevida global mediana foi de 12,8 meses com doxorrubicina isolada, com intervalo de confiança de 95,5% entre 10,5 e 14,3, contra 14,3 meses na combinação, com intervalo de 95,5% entre 12,5 e 16,5: razão de risco de 0,83, intervalo de 95,5% entre 0,67 e 1,03 e p de 0,076, sem significância estatística no desfecho principal. A sobrevida livre de progressão mediana foi de 4,6 contra 7,4 meses, com razão de risco de 0,74, intervalo de 95% entre 0,60 e 0,90 e p de 0,003, e a resposta objetiva, de 14% contra 26%. Na combinação, porém, neutropenia febril de grau 3 ou 4 ocorreu em 46% contra 13%.

Posologia e via de administração

A via é intravenosa exclusiva — a bula brasileira registra a expressão em caixa alta no campo de via. Não existe apresentação oral.

No câncer de mama adjuvante, o rótulo do FDA recomenda 60 mg/m² em bolus intravenoso no dia 1 de cada ciclo de 21 dias, com ciclofosfamida, por quatro ciclos. Em monoterapia, 60 a 75 mg/m² a cada 21 dias, faixa reproduzida pela bula brasileira; com outros quimioterápicos, 40 a 75 mg/m² a cada 21 a 28 dias.

O limite de dose acumulada é o dado mais importante desta seção: doses acima de 550 mg/m² se associam a risco aumentado de cardiomiopatia. O valor consta do rótulo norte-americano e da bula brasileira, e por isso o total já administrado precisa ser rastreado em toda a história oncológica do paciente. Em insuficiência hepática, o rótulo prevê redução de 50% da dose com bilirrubina entre 1,2 e 3 mg/dL e de 75% entre 3,1 e 5 mg/dL; acima de 5 mg/dL, ou em Child-Pugh classe C, é contraindicado. Diante de sinais ou sintomas de cardiomiopatia, determina a descontinuação.

Segurança

O rótulo do FDA traz advertência em quadro destacado, com quatro blocos:

  • Cardiomiopatia: dano miocárdico, incluindo falência ventricular esquerda aguda, com incidência de 1% a 20% para doses acumuladas de 300 a 500 mg/m² a cada três semanas, maior com terapia cardiotóxica concomitante. Avaliar a fração de ejeção do ventrículo esquerdo antes, durante e depois do tratamento.
  • Neoplasias secundárias: leucemia mieloide aguda e síndrome mielodisplásica ocorrem em incidência maior com antraciclinas.
  • Extravasamento e necrose tecidual: pode exigir excisão ampla e enxerto de pele. Interromper a administração imediatamente e aplicar gelo no local.
  • Mielossupressão grave: infecção séria, choque séptico, transfusão, hospitalização e morte.

Análise retrospectiva de três estudos prospectivos publicada por Swain e colaboradores estimou probabilidade acumulada de 26% de insuficiência cardíaca congestiva relacionada à doxorrubicina em dose acumulada de 550 mg/m², com idade acima de 65 anos como fator de risco — frequência maior e em dose menor do que se relatava antes.

Contraindicações

O rótulo lista cinco contraindicações, e apenas essas: insuficiência miocárdica grave; infarto do miocárdio recente, ocorrido nas últimas quatro a seis semanas; mielossupressão grave e persistente induzida por medicamento; insuficiência hepática grave, definida como Child-Pugh classe C ou bilirrubina sérica acima de 5 mg/dL; e reação de hipersensibilidade grave à doxorrubicina, incluindo anafilaxia.

Outras advertências e populações especiais

A seção de advertências inclui ainda arritmias, síndrome de lise tumoral, potencialização da toxicidade da radiação com fenômeno de recall e toxicidade embriofetal. O medicamento pode causar dano fetal e foi detectado no leite materno por até 72 horas, com pico 4,4 vezes maior que a concentração plasmática: o rótulo orienta não amamentar durante o tratamento e por 10 dias após a última dose. Em pediatria, há risco aumentado de disfunção cardiovascular tardia. As reações adversas mais comuns, acima de 10%, são alopecia, náusea e vômito.

Situação regulatória e como funciona o acesso no Brasil

Registro

A consulta à base oficial da ANVISA em 11/09/2026 localizou 15 registros para doxorrubicina, dos quais dois ativos: cloridrato de doxorrubicina da Accord Farmacêutica, registro 1.5537.0063, e da Eurofarma, registro 1.0043.0004. Os demais estão inativos: é medicamento registrado e disponível no país, com genérico.

Quem adquire o medicamento

É o ponto que define o acesso na prática. A doxorrubicina exige preparo em central de manipulação de quimioterápicos e administração por equipe treinada em oncologia. A aquisição é institucional: quem compra é o hospital, a clínica oncológica ou a rede pública, nunca o paciente.

Na rede pública, o tratamento corre pelos serviços habilitados em oncologia. Em 20/10/2025, a Portaria GM/MS nº 8.477 instituiu o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia, o AF-Onco, que reorganiza o financiamento e a disponibilização dos medicamentos oncológicos no SUS, com regulamentação complementar ao longo de 2026.

Por que este não é um caso de importação

Vale dizer com clareza, porque a pergunta aparece: a doxorrubicina não é caso de importação para uso próprio. Os três motivos que justificam importação são a ausência de registro no país, o custo comparado ao equivalente nacional e o desabastecimento comprovado por fonte oficial. Nenhum se aplica: são dois registros ativos na ANVISA, um citotóxico clássico de baixo custo relativo com genérico nacional, e não há fonte oficial de desabastecimento no Brasil.

As discussões de acesso em oncologia que chegam ao Judiciário tratam de cobertura e custeio de protocolos ou de medicamentos negados pelo plano de saúde — são disputas sobre financiamento, não sobre a existência do medicamento no país. Avaliação assim depende de orientação médica e jurídica individualizada e não tem resultado previsível; para quem está em tratamento, a conduta correta é conversar com a equipe que o acompanha.

Perguntas Frequentes

A doxorrubicina tem registro na ANVISA?

Sim: dois registros ativos na consulta oficial de 11/09/2026 — Accord Farmacêutica, 1.5537.0063, e Eurofarma, 1.0043.0004.

Qual a diferença entre doxorrubicina convencional e lipossomal?

São medicamentos diferentes com o mesmo princípio ativo: a forma lipossomal peguilada tem indicações, doses e toxicidade próprias. O rótulo do produto lipossomal, NDA 050718, instrui expressamente a não substituir uma forma pela outra.

Existe dose máxima de doxorrubicina ao longo da vida?

O rótulo não fixa um teto absoluto, mas registra que doses acumuladas acima de 550 mg/m² se associam a risco aumentado de cardiomiopatia — por isso a dose total já recebida é rastreada em todo o histórico do paciente.

A doxorrubicina pode ser importada pelo paciente?

Não é o caso. Tem registro ativo no Brasil e é um injetável citotóxico hospitalar, comprado pela instituição que administra a quimioterapia. A importação para uso próprio se aplica quando o medicamento não existe registrado no país.

Conclusão

A doxorrubicina segue em uso mais de cinco décadas após a aprovação original. O que muda não é o papel do medicamento, mas a precisão com que se administra: limite de dose acumulada, monitoramento da função ventricular, ajuste na insuficiência hepática e cuidado com o extravasamento. Quanto ao acesso no Brasil, o quadro é direto — registrado, com genérico nacional, aquisição institucional e caminho do paciente pelo serviço de oncologia.

Fontes

  1. Food and Drug Administration. Rótulo de cloridrato de doxorrubicina injetável, NDA 050467 e 050629, revisão de 03/2020.
  2. DailyMed. Cloridrato de doxorrubicina solução injetável, Pfizer, setid d31d7f58-66d0-4826-b6b5-5914c031965f, revisão de julho de 2024.
  3. Drugs@FDA, NDA 050467, aprovação em 07/08/1974, apresentações descontinuadas.
  4. Drugs@FDA, NDA 050629, aprovação em 23/12/1987, apresentações de 2 mg/mL e 200 mg/100 mL sob prescrição.
  5. Food and Drug Administration. Rótulo de doxorrubicina lipossomal, NDA 050718, revisão de 02/05/2022.
  6. Agência Europeia de Medicamentos. Caelyx pegylated liposomal, EMEA/H/C/000089, autorização de 20/06/1996.
  7. Agência Europeia de Medicamentos. Myocet liposomal, EMEA/H/C/000297, autorização de 13/07/2000.
  8. ANVISA. Consulta à base oficial em 11/09/2026: cloridrato de doxorrubicina, Accord Farmacêutica, 1.5537.0063, e Eurofarma, 1.0043.0004.
  9. Bula profissional de cloridrato de doxorrubicina solução injetável 2 mg/mL, Accord Farmacêutica, aprovada em 06/11/2020.
  10. Judson I et al. Lancet Oncol. 2014;15(4):415-423. PMID 24618336. Registro do ensaio: NCT00061984.
  11. Early Breast Cancer Trialists Collaborative Group. Lancet. 2012;379(9814):432-444. PMID 22152853.
  12. Swain SM et al. Cancer. 2003;97(11):2869-2879. PMID 12767102.
  13. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.477, de 20/10/2025, e Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS nº 2, de 21/07/2026.

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

Precisa de mais informações sobre este medicamento?

Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.


💬 Fale pelo WhatsApp

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp

Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.

Preencha os campos para liberar

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Doxorrubicina: antraciclina citotóxica no tratamento de câncer de mama, linfomas e sarcomas

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

DEIXE UM COMENTÁRIO

Rolar para cima