Crexont (carbidopa e levodopa de liberação prolongada): menos tomadas na doença de Parkinson avançada

Resumo rápido

  • O Crexont é uma cápsula de liberação prolongada de carbidopa e levodopa, aprovada pelo FDA em 7 de agosto de 2024, sob a NDA 217186, da Amneal.
  • A cápsula combina grânulos de liberação imediata de carbidopa e levodopa com péletes de liberação prolongada que contêm apenas levodopa.
  • No estudo pivotal, o ganho foi de 0,53 hora por dia de tempo “on” sem discinesia incômoda, com três tomadas diárias contra cinco do comparador.
  • Não há advertência em quadro. A única contraindicação é o uso atual ou recente, nas duas semanas anteriores, de inibidor da MAO não seletivo.
  • Na Europa o produto tramita como Hopledo, com parecer positivo do CHMP em junho de 2026. No Brasil, o registro deve ser verificado.

O que é o Crexont?

O Crexont é uma cápsula de liberação prolongada de carbidopa e levodopa, aprovada pelo FDA em 7 de agosto de 2024 sob a NDA 217186, cujo titular é a Impax Laboratories, subsidiária da Amneal. Está disponível em quatro concentrações: 35 com 140 mg, 52,5 com 210 mg, 70 com 280 mg e 87,5 com 350 mg de carbidopa e levodopa, respectivamente.

A arquitetura da cápsula é o que a distingue: ela contém grânulos de liberação imediata de carbidopa e levodopa junto com péletes de liberação prolongada que contêm somente levodopa. A ideia é oferecer início rápido de efeito com manutenção estendida, reduzindo o número de tomadas diárias.

Uma observação de leitura de bula: o cabeçalho do rótulo traz “primeira aprovação nos Estados Unidos: 1975”. Essa data se refere à molécula, não ao Crexont.

Onde ele se encaixa entre os produtos de carbidopa e levodopa

Entender a família ajuda a situar o Crexont — e evita a confusão mais comum, que é achar que “carbidopa com levodopa” é um produto só.

  • Sinemet — comprimido de liberação imediata, NDA 017555, aprovado antes de 1982, hoje sob a Organon; comercializado.
  • Sinemet CR — comprimido de liberação controlada, NDA 019856, descontinuado nos Estados Unidos, e não por razões de segurança ou eficácia.
  • Rytary — cápsula de liberação prolongada, NDA 203312, de 2015, também da Amneal; é o antecessor direto do Crexont e segue ativo.
  • Duopa — suspensão entérica para infusão intestinal contínua por bomba, NDA 203952, de 2015, da AbbVie, para flutuações motoras na doença avançada. Na Europa chama-se Duodopa.
  • Vyalev — foscarbidopa com foslevodopa, injeção subcutânea contínua, NDA 216962, aprovada em 16 de outubro de 2024, da AbbVie, para flutuações motoras em adultos com doença de Parkinson avançada. Na Europa, o mesmo produto se chama Produodopa.

Convém acrescentar, para o leitor brasileiro, que o Prolopa — levodopa com benserazida — é produto diferente: usa outro inibidor de descarboxilase e não é equivalente aos anteriores.

Mecanismo de ação

A levodopa é a precursora da dopamina e atravessa a barreira hematoencefálica, sendo descarboxilada a dopamina no sistema nervoso central. A carbidopa é inibidora periférica da descarboxilase de aminoácidos aromáticos — sua função é reduzir a conversão da levodopa fora do cérebro, aumentando a fração que chega ao alvo e diminuindo efeitos periféricos como náusea. O rótulo do Sinemet registra que a carbidopa não atravessa a barreira hematoencefálica e não afeta o metabolismo da levodopa no sistema nervoso central.

Indicações aprovadas

O texto do rótulo é literal: o Crexont é indicado para o tratamento da doença de Parkinson, do parkinsonismo pós-encefalítico e do parkinsonismo que pode seguir intoxicação por monóxido de carbono ou por manganês, em adultos.

Evidências clínicas

O estudo pivotal é o RISE-PD (NCT03670953), de fase 3, randomizado, duplo-cego, com duplo-dummy e controle ativo. Foram 630 participantes inscritos e 506 randomizados — 256 para o produto de liberação prolongada e 250 para carbidopa e levodopa de liberação imediata.

O desfecho primário era a variação do tempo “on” sem discinesia incômoda ao longo do dia, até a semana 20. O resultado foi de +0,53 hora por dia a favor da formulação de liberação prolongada, com intervalo de confiança de 95% entre 0,09 e 0,97 e p igual a 0,02 — obtido com três tomadas diárias contra cinco do comparador. A redução do tempo “off” também foi favorável, com p igual a 0,025 conforme a seção de estudos clínicos do rótulo.

É importante ler esse número pelo que ele é: cerca de meia hora a mais de bom controle motor por dia, com menos tomadas. Não é ganho de sobrevida, não modifica o curso da doença e não é cura. Para um paciente com flutuações motoras e cinco doses diárias, porém, meia hora e duas tomadas a menos podem ter significado prático relevante — e essa avaliação é do neurologista.

Posologia

Para o paciente virgem de levodopa, o início é com 35 com 140 mg duas vezes ao dia, por três dias.

A conversão a partir da carbidopa e levodopa de liberação imediata não é de um para um: depende da dose diária total de levodopa e da dose única mais frequente. Para dose diária abaixo de 500 mg, o rótulo prevê 280 mg duas vezes ao dia quando a tomada única era de 100 mg, 420 mg duas vezes ao dia quando era de 150 mg, e 560 mg duas vezes ao dia quando era de 200 mg. Para dose diária de 500 mg ou mais, esses mesmos valores passam a três vezes ao dia, e a tomada única acima de 200 mg corresponde a 700 mg três vezes ao dia. A dose máxima é de 525 mg de carbidopa e 2.100 mg de levodopa por dia.

A cápsula deve ser engolida inteira, com ou sem alimento. Duas informações de farmacocinética que constam do rótulo e importam na prática: refeição rica em gordura e calorias atrasa o pico plasmático em cerca de duas horas, e refeições ricas em proteína podem reduzir a absorção da levodopa.

Segurança

O Crexont não possui advertência em quadro (boxed warning). A ausência está registrada aqui de forma explícita.

A contraindicação é uma só: uso atual de inibidor da MAO não seletivo, ou uso nas duas semanas anteriores, pelo risco de hipertensão.

As advertências e precauções cobrem os riscos característicos da terapia dopaminérgica: adormecimento súbito durante atividades diárias e sonolência; hiperpirexia e confusão associadas à retirada; eventos isquêmicos cardiovasculares; alucinações e psicose; transtornos do controle de impulsos e comportamentos compulsivos — jogo, compras, alimentação e hipersexualidade; discinesia; deficiência de vitamina B6 e convulsões; úlcera péptica; e glaucoma.

Dois esclarecimentos de leitura de rótulo, porque a informação circula deslocada: a hipotensão ortostática não figura entre as advertências dessa seção — aparece no capítulo de interações, no contexto do uso com inibidores seletivos da MAO-B, e na informação ao paciente. E melanoma não aparece em nenhum ponto do rótulo do Crexont, ao contrário do que consta de outros produtos de levodopa.

Situação regulatória e como funciona o acesso

  • Estados Unidos: aprovado em 7 de agosto de 2024, com as quatro concentrações ativas e bula revisada em 2026.
  • União Europeia: o nome Crexont não existe na Europa. A mesma formulação tramita como Hopledo, com parecer positivo do CHMP em 25 de junho de 2026 e indicação europeia proposta mais estreita — adultos com doença de Parkinson e flutuações motoras moderadas a graves que não foram suficientemente estabilizados com regimes orais de levodopa associada a inibidor da descarboxilase. Até o momento não há decisão da Comissão Europeia registrada. Vale notar que o Numient, versão europeia do Rytary, foi autorizado em 2015 e retirado em 2 de abril de 2019, sem nunca ter sido comercializado na Europa.
  • Brasil: o registro do Crexont deve ser verificado na consulta de medicamentos da ANVISA.

Confirmada a ausência de registro, o caminho seria a importação para uso próprio, em nome do paciente e a partir da receita médica, com a menção informativa à via judicial que cabe a medicamentos sem registro vigente — sempre dependente de orientação médica e jurídica.

É preciso, porém, delimitar honestamente o recorte. Carbidopa com levodopa de liberação imediata é amplamente disponível no Brasil, e nenhum paciente precisa importar “levodopa”. O que o Crexont oferece é uma formulação diferente, para uma situação clínica específica: o paciente com doença de Parkinson avançada, já otimizado em carbidopa e levodopa de liberação imediata, que convive com flutuações motoras e múltiplas tomadas diárias. Fora desse recorte, a discussão de importação não se sustenta.

Prazos médios por origem

Origem Agência sanitária Prazo médio
Estados Unidos FDA 10 dias
Canadá Health Canada 17 dias
Europa EMA 16 dias úteis
Ásia (Índia, China, Japão) CDSCO, NMPA, PMDA 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de remessa e a eventual necessidade de Autorização Excepcional de Importação. A confirmação de prazo para um caso específico é feita pelo time de compras.

Modalidades e documentação

A maior parte das remessas para uso próprio segue por courier (remessa expressa). A DSI vem sendo substituída pela DUIMP, o novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite que as anuências corram em paralelo.

A cadeia documental é sempre a mesma: Proforma Invoice, Commercial Invoice, Packing List, AWB e, por fim, DIR, DSI ou DUIMP. O processo corre sempre em nome do paciente e começa pela receita médica.

A formação do valor final combina o preço do fornecedor internacional, o câmbio do dia, os impostos e taxas alfandegárias e o frete. A Medicsupply mantém canal direto com FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul.

Perguntas Frequentes

O Crexont é melhor que o Sinemet?

São formulações diferentes. No estudo pivotal, a formulação de liberação prolongada acrescentou 0,53 hora por dia de tempo “on” sem discinesia incômoda, com três tomadas diárias em vez de cinco. A escolha é do neurologista, conforme o quadro clínico.

Existe no Brasil?

O registro do Crexont deve ser verificado na consulta de medicamentos da ANVISA. Carbidopa com levodopa de liberação imediata, essa sim, é amplamente disponível no país.

Pode ser tomado com comida?

A cápsula é engolida inteira, com ou sem alimento. O rótulo registra que refeição rica em gordura atrasa o pico plasmático em cerca de duas horas, e que refeições ricas em proteína podem reduzir a absorção da levodopa.

Quais os riscos mais importantes?

Adormecimento súbito durante atividades diárias, alucinações e psicose, e transtornos do controle de impulsos — incluindo jogo, compras e hipersexualidade. Todos exigem conversa franca com o médico e com a família.

A conversão de dose é direta?

Não. O rótulo traz uma tabela específica de conversão, que depende da dose diária total de levodopa e da dose por tomada. A conversão é feita pelo prescritor.

Conclusão

O Crexont é uma engenharia de formulação aplicada a um problema antigo da doença de Parkinson avançada: a flutuação entre doses. O ganho medido é real e modesto — cerca de meia hora a mais de bom controle motor por dia, com duas tomadas a menos. Não é cura nem modificação de curso. No Brasil, a base do tratamento continua disponível, e a discussão sobre o Crexont só faz sentido no recorte estreito do paciente com flutuações motoras já otimizado na terapia convencional.

Fontes

  1. FDA — carta de aprovação da NDA 217186, de 7 de agosto de 2024, Impax Laboratories.
  2. FDA, DailyMed — bula do Crexont, revisão de maio de 2026: indicação, posologia, tabela de conversão, contraindicação, advertências e farmacocinética.
  3. FDA, Orange Book — NDA 217186, quatro concentrações com status de prescrição.
  4. Hauser RA et al., JAMA Neurology, 2023;80(10):1062-1069, PMID 37578800 (RISE-PD).
  5. ClinicalTrials.gov — NCT03670953 (RISE-PD, fase 3).
  6. FDA, Orange Book — NDA 017555 (Sinemet) e NDA 019856 (Sinemet CR, descontinuado).
  7. FDA — cartas de aprovação da NDA 203312 (Rytary, 2015), NDA 203952 (Duopa, 2015) e NDA 216962 (Vyalev, 16 de outubro de 2024).
  8. Agência Europeia de Medicamentos — Numient, autorizado em 19 de novembro de 2015 e retirado em 2 de abril de 2019.
  9. Agência Europeia de Medicamentos — Hopledo, parecer positivo do CHMP em 25 de junho de 2026, requerente Zambon.

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