Resumo rápido
- A carmustina é um agente alquilante da classe das nitrosureias, indicado como terapia paliativa em tumores cerebrais, mieloma múltiplo e linfomas recidivados ou refratários.
- No Brasil está registrada como Nibisnu, da Dr. Reddy’s, registro ANVISA 1.5143.0063, com uso restrito a hospitais.
- A advertência em quadro tem dois itens: mielossupressão, com hemograma semanal por pelo menos 6 semanas após cada dose, e toxicidade pulmonar dose-dependente que pode surgir anos depois.
- A infusão intravenosa deve durar no mínimo 2 horas — a administração mais rápida causa dor e queimação no local.
- É antineoplásico hospitalar: quem adquire é a instituição, não o paciente.
O que é a carmustina?
A carmustina, também conhecida pela sigla BCNU, é um agente alquilante da classe das nitrosureias. Foi aprovada pelo FDA em 7 de março de 1977, sob a NDA 017422, com a marca BiCNU.
A titularidade mudou de mãos ao longo do tempo: o rótulo de 2011 traz a Bristol-Myers Squibb; o de 2017 já registra fabricação pela Emcure para a Heritage Pharmaceuticals; e hoje o registro do FDA aponta a Avet Lifesciences como titular. Vale uma ressalva: o nome BiCNU não aparece no rótulo vigente do titular — o produto circula sob a denominação genérica “carmustina para injeção”. Existem ainda genéricos de vários fabricantes.
Um produto distinto e frequentemente confundido é o Gliadel Wafer, implante intracraniano de 7,7 mg de carmustina, com NDA própria (020637), aprovado em 23 de setembro de 1996 e hoje sob titularidade da Azurity. Indicação, forma de uso e perfil de segurança são diferentes — o Gliadel, por exemplo, não tem advertência em quadro e traz “nenhuma” no campo de contraindicações.
No Brasil, a carmustina está registrada: o Nibisnu, pó liofilizado de 100 mg com diluente, da Dr. Reddy’s Farmacêutica do Brasil, registro 1.5143.0063, de venda sob prescrição e uso restrito a hospitais. O Gliadel também tem registro brasileiro, 1.7310.0040, da Eisai.
Uma observação necessária sobre a pauta: “Carustine” não existe como marca em nenhuma agência — é corruptela do nome em inglês da molécula.
Mecanismo de ação
O rótulo americano registra que o mecanismo de ação não é totalmente compreendido, e descreve a carmustina como agente que alquila DNA e RNA, além de carbamoilar proteínas. A formação de ligações cruzadas entre as fitas do DNA e a passagem pela barreira hematoencefálica por alta lipossolubilidade e baixo grau de ionização constam do documento europeu — é por essa característica que o fármaco é historicamente empregado em tumores do sistema nervoso central.
Indicações aprovadas
O rótulo é explícito quanto ao caráter do tratamento: a carmustina é indicada como terapia paliativa, isolada ou em combinação estabelecida, nas seguintes situações:
- Tumores cerebrais — glioblastoma, glioma de tronco cerebral, meduloblastoma, astrocitoma, ependimoma e tumores cerebrais metastáticos. Aqui admite-se monoterapia ou combinação.
- Mieloma múltiplo, em combinação com prednisona.
- Linfoma de Hodgkin recidivado ou refratário, em combinação com outros medicamentos aprovados.
- Linfomas não Hodgkin recidivados ou refratários, em combinação com outros medicamentos aprovados.
Duas qualificações importam e costumam ser omitidas: todas as indicações são paliativas, e mieloma e linfomas só constam em combinação — no mieloma, especificamente com prednisona.
O Gliadel tem indicação própria: glioma de alto grau recém-diagnosticado, como adjuvante à cirurgia e à radioterapia, e glioblastoma recorrente, como adjuvante à cirurgia.
Evidências clínicas
É preciso dizer o que existe e o que não existe. A carmustina injetável foi aprovada em 1977, e não há ensaio pivotal moderno sustentando as indicações do rótulo — a base do registro antecede o padrão regulatório atual de estudos randomizados com desfecho duro. Preencher essa lacuna com um ensaio que não existe seria distorção.
Há dois conjuntos de dados citáveis. Para o implante, um ensaio de fase 3 com 240 pacientes com glioma maligno primário mostrou sobrevida mediana de 13,9 meses contra 11,6 meses no grupo placebo, com p igual a 0,03.
No contexto de condicionamento para transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas, o esquema BEAM — que inclui a carmustina — foi comparado a um esquema com bendamustina em ensaio de fase 2 randomizado com 108 pacientes. A toxicidade pulmonar não diferiu entre os braços, e a sobrevida e a remissão em um ano foram semelhantes; os autores concluem que ainda falta um estudo de fase 3 de não inferioridade. Ou seja: o BEAM não foi substituído.
Posologia
A dose recomendada é de 150 a 200 mg/m² por via intravenosa, a cada 6 semanas, em dose única ou dividida em 75 a 100 mg/m² em dois dias sucessivos.
A infusão deve durar no mínimo 2 horas. O rótulo é direto: administrar em período inferior a duas horas pode causar dor e queimação no local da injeção.
O ajuste de dose se faz pelo nadir hematológico da dose anterior. Mantém-se 100% da dose com leucócitos acima de 4.000/mm³ e plaquetas acima de 100.000/mm³, e também na faixa de 3.000 a 3.999 leucócitos ou 75.000 a 99.999 plaquetas. Entre 2.000 e 2.999 leucócitos ou 25.000 e 74.999 plaquetas, reduz-se para 70%. Abaixo de 2.000 leucócitos ou 25.000 plaquetas, para 50%. Nenhum novo ciclo deve ser administrado antes da recuperação hematológica.
Segurança
A carmustina injetável tem advertência em quadro (boxed warning), com dois itens.
Mielossupressão. O medicamento suprime a função medular, incluindo trombocitopenia e leucopenia, o que pode contribuir para sangramentos e infecções graves. O quadro determina monitoramento com hemograma semanal por pelo menos 6 semanas após cada dose, ajuste da dose conforme os nadires anteriores e proibição de repetir o ciclo antes da recuperação. Fora do quadro, na seção de advertências, o rótulo detalha o caráter tardio da supressão: a trombocitopenia costuma ocorrer cerca de 4 semanas após a dose, persistindo por uma a duas semanas, e a leucopenia em 5 a 6 semanas.
Toxicidade pulmonar. É dose-dependente. Pacientes que recebem dose cumulativa superior a 1.400 mg/m² estão sob risco significativamente maior. A toxicidade pulmonar tardia pode ocorrer anos após o tratamento e pode ser fatal, particularmente em pacientes tratados na infância. A seção de advertências acrescenta relatos de fibrose pulmonar até 17 anos depois do tratamento.
A contraindicação é uma só: hipersensibilidade prévia à carmustina ou a seus componentes.
Situação regulatória e como funciona o acesso
- Estados Unidos: a NDA 017422 segue ativa, com genéricos disponíveis. O Gliadel continua comercializado sob a NDA 020637.
- União Europeia: existe aprovação centralizada — o Carmustine medac, autorizado em 18 de julho de 2018 como genérico. O escopo europeu é mais amplo que o americano: além de tumores cerebrais e linfomas, cobre o condicionamento antes de transplante autólogo de células progenitoras hematopoéticas, tumores gastrointestinais e melanoma maligno. Vale registrar que o uso em condicionamento, comum na prática, não é indicação aprovada pelo FDA.
- Brasil: registrada como Nibisnu, 1.5143.0063, com uso restrito a hospitais.
Com registro vigente no país, este não é um caso de importação por falta de registro. E não é o paciente quem adquire: trata-se de antineoplásico de infusão intravenosa de duas horas, com hemograma semanal por seis semanas e uso restrito a hospitais. A compra é institucional — hospital, serviço de oncologia ou centro de transplante de medula óssea. No SUS, a oncologia é financiada por procedimentos de alta complexidade em hospital habilitado, que adquire o medicamento.
Há, porém, um ponto real de escassez que merece registro: o FDA mantém a carmustina injetável em sua lista oficial de medicamentos em falta. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Terapia Celular e Transplante de Medula Óssea emitiu alerta de iminente desabastecimento às autoridades — trata-se de manifestação de sociedade médica, e não de ato regulatório, de modo que a situação de falta no país deve ser confirmada junto à ANVISA antes de qualquer decisão. Quando há desabastecimento comprovado de um medicamento registrado, a importação pode ser discutida como alternativa temporária, e nesse cenário a demanda é institucional, não individual.
Perguntas Frequentes
Existe carmustina registrada no Brasil?
Sim. O Nibisnu, da Dr. Reddy’s, registro ANVISA 1.5143.0063, pó liofilizado de 100 mg, de uso restrito a hospitais.
Por que a infusão precisa demorar duas horas?
Porque a administração em período inferior a duas horas causa dor e queimação no local da injeção, conforme o rótulo aprovado.
Por que o hemograma é semanal por seis semanas?
Porque a supressão medular da carmustina é tardia: a queda de plaquetas costuma ocorrer cerca de quatro semanas após a dose e a de leucócitos em cinco a seis semanas. O acompanhamento precisa cobrir esse intervalo.
O Gliadel é a mesma coisa?
Não. O Gliadel é um implante intracraniano com registro próprio, indicação própria e perfil de segurança diferente — não tem advertência em quadro e não lista contraindicações.
O paciente pode importar carmustina?
O medicamento está registrado no Brasil e é de uso restrito a hospitais, adquirido pela instituição que realiza o tratamento. A discussão de importação, quando surge, é institucional e ligada a desabastecimento comprovado.
Conclusão
A carmustina é um quimioterápico antigo, de indicação declaradamente paliativa, com dois riscos que definem sua condução clínica: a mielossupressão tardia, que exige hemograma semanal por seis semanas, e a toxicidade pulmonar cumulativa, que pode aparecer anos depois. No Brasil o medicamento está registrado como Nibisnu e é adquirido pela instituição que trata o paciente — não é caso de importação individual, ainda que a escassez internacional do produto seja um tema real para os serviços.
Fontes
- FDA, Drugs@FDA — NDA 017422, BiCNU (carmustina), titular Avet Lifesciences, aprovação original em 7 de março de 1977.
- DailyMed — bula da carmustina para injeção, Heritage Pharmaceuticals sob a marca Avet Pharmaceuticals: advertência em quadro, indicações, contraindicação, posologia e tabela de ajuste por nadir.
- FDA — rótulos históricos do BiCNU: NDA 017422/S-038 (2011, Bristol-Myers Squibb) e NDA 017422/S-055 (2017, Emcure e Heritage).
- FDA, Drugs@FDA — NDA 020637, Gliadel Wafer, titular Azurity, aprovação em 23 de setembro de 1996, designação órfã.
- FDA — base oficial de medicamentos em falta: carmustina injetável listada como em desabastecimento, em consulta de 4 de setembro de 2026.
- Agência Europeia de Medicamentos — Carmustine medac, autorizado em 18 de julho de 2018 sob o nome Carmustine Obvius e renomeado em 13 de setembro de 2023; resumo das características do medicamento, seções 4.1, 5.1 e 5.2.
- ANVISA — bula profissional do Nibisnu (carmustina), Dr. Reddy’s Farmacêutica do Brasil, registro 1.5143.0063, uso restrito a hospitais.
- Westphal M et al., Neuro-Oncology, 2003;5(2):79-88, PMID 12672279.
- Keil F et al., eClinicalMedicine, 2023;66:102318, PMID 38024477.
- Sociedade Brasileira de Terapia Celular e Transplante de Medula Óssea — alerta de iminente desabastecimento de carmustina encaminhado ao Ministério da Saúde e à ANVISA.
Sobre a Medicsupply
Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.
Precisa de mais informações sobre este medicamento?
Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp
Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.
