Resumo rápido
- A anagrelida reduz a contagem de plaquetas em pacientes com trombocitemia, diminuindo o risco de trombose e de eventos trombo-hemorrágicos.
- No Brasil é comercializada como Agrylin, com registro vigente na ANVISA sob o número 1.0639.0302, importado pela Takeda Pharma. Na União Europeia, a marca é Xagrid.
- A bula brasileira indica o medicamento como terapia de segunda linha na trombocitemia essencial. A bula americana traz indicação mais ampla, para trombocitemia secundária a neoplasias mieloproliferativas.
- A dose inicial em adultos é de 0,5 mg quatro vezes ao dia ou 1 mg duas vezes ao dia, mantida por pelo menos uma semana antes de qualquer ajuste.
- Exige eletrocardiograma antes de iniciar o tratamento: a anagrelida prolonga o intervalo QT e há relatos de arritmias graves.
O que é a anagrelida
A anagrelida é um medicamento oral que age sobre a medula óssea reduzindo a produção de plaquetas. O mecanismo exato pelo qual isso ocorre não está completamente esclarecido. Embora reduza a contagem plaquetária, não interfere no processo natural de coagulação.
É usada em neoplasias mieloproliferativas, grupo de doenças em que a medula óssea produz células sanguíneas em excesso. Quando o excesso é de plaquetas, aumenta o risco de trombose — a formação de coágulo dentro do vaso, que obstrui o fluxo sanguíneo.
A anagrelida é comercializada como Agrylin no Brasil e nos Estados Unidos, e como Xagrid na União Europeia.
Para que é indicada
A indicação difere entre as agências, e a distinção importa para quem lê no Brasil.
No Brasil, a bula aprovada pela ANVISA indica o Agrylin como terapia de segunda linha no tratamento de pacientes com trombocitemia essencial — ou seja, entra depois de outra opção terapêutica.
Nos Estados Unidos, a bula aprovada pelo FDA traz indicação mais ampla: trombocitemia secundária a neoplasias mieloproliferativas, com o objetivo de reduzir a contagem elevada de plaquetas e o risco de trombose, além de atenuar sintomas associados, incluindo eventos trombo-hemorrágicos.
Nos estudos que sustentaram a aprovação americana, foram tratados pacientes com trombocitemia essencial, policitemia vera, leucemia mieloide crônica e outras neoplasias mieloproliferativas.
Posologia
A dose inicial recomendada para adultos é de 0,5 mg quatro vezes ao dia ou 1 mg duas vezes ao dia. Essa dose inicial deve ser mantida por pelo menos uma semana antes de qualquer ajuste.
A partir daí, a dose é titulada para reduzir e manter a contagem de plaquetas em faixa adequada. Os aumentos não devem ultrapassar 0,5 mg por dia a cada semana. A bula americana estabelece dose diária máxima de 10 mg.
Em pacientes pediátricos, a dose inicial recomendada é de 0,5 mg por dia. A bula brasileira registra que o medicamento não é recomendado para crianças menores de 7 anos, por falta de estudos nessa população.
A interrupção abrupta do tratamento ou a redução substancial da dose devem ser evitadas, pelo risco de elevação rápida da contagem plaquetária. O ajuste é sempre conduzido pelo médico assistente.
Segurança: o alerta cardiovascular
Este é o ponto que exige mais atenção. A anagrelida aumenta o intervalo QT do eletrocardiograma e eleva a frequência cardíaca. Há relatos de torsades de pointes e de taquicardia ventricular associados ao uso.
Por isso, a bula americana determina que se obtenha exame cardiovascular pré-tratamento, incluindo eletrocardiograma, em todos os pacientes, com monitorização cardiovascular durante o tratamento.
O medicamento não deve ser usado em pacientes com fatores de risco conhecidos para prolongamento do QT, como síndrome do QT longo congênito, história de prolongamento adquirido do QTc, uso de medicamentos que prolonguem o intervalo, ou níveis baixos de potássio, magnésio ou cálcio.
A insuficiência hepática aumenta a exposição à anagrelida e pode elevar o risco de prolongamento do QTc. A redução plaquetária é dose-dependente, o que traz risco de plaquetopenia — daí a necessidade de monitorar a contagem.
A bula brasileira acrescenta a hipersensibilidade à anagrelida ou a qualquer componente da fórmula, e recomenda cautela em gestantes e lactantes.
Situação no Brasil e acesso
O Agrylin tem registro vigente na ANVISA sob o número 1.0639.0302, com bula aprovada em dezembro de 2025. A apresentação é de cápsula dura de 0,5 mg, em embalagem com 100 cápsulas. Cada cápsula contém 0,61 mg de cloridrato de anagrelida, equivalente a 0,5 mg de base livre.
O produto é importado pela Takeda Pharma, fabricado nos Estados Unidos, e vendido sob prescrição médica. Por ter registro nacional, o acesso ocorre pelos canais regulares de distribuição no país.
Por se tratar de medicamento de alto custo para uso contínuo, pode haver discussão de custeio junto a plano de saúde ou ao sistema público. Nesses casos, o caminho inicial é a revisão administrativa junto à operadora ou ao órgão responsável, com laudo médico detalhado que justifique a indicação — e a orientação sobre eventuais medidas judiciais cabe a advogado.
Perguntas frequentes
Agrylin e Xagrid são o mesmo medicamento?
São o mesmo princípio ativo, a anagrelida, sob marcas diferentes: Agrylin no Brasil e nos Estados Unidos, Xagrid na União Europeia.
Tem registro no Brasil?
Sim, sob o número 1.0639.0302 na ANVISA, importado pela Takeda Pharma.
Precisa fazer eletrocardiograma antes?
A bula americana determina exame cardiovascular pré-tratamento com eletrocardiograma em todos os pacientes, porque a anagrelida prolonga o intervalo QT. A conduta é definida pelo médico assistente.
Pode ser usado em crianças?
A bula brasileira não recomenda o uso em crianças menores de 7 anos, por falta de estudos nessa faixa. Acima disso, existem dados de segurança e farmacocinética em pacientes de 7 a 16 anos.
O tratamento pode ser interrompido de uma vez?
Não. A interrupção abrupta ou a redução substancial da dose devem ser evitadas. Qualquer alteração é decisão do médico responsável.
Fontes
- FDA — NDA 020333 (Agrylin, cloridrato de anagrelida): indicação em trombocitemia secundária a neoplasias mieloproliferativas, posologia inicial e dose máxima diária.
- DailyMed — bula do Agrylin (cloridrato de anagrelida): advertência de prolongamento do intervalo QT, exigência de eletrocardiograma pré-tratamento e contraindicações cardiovasculares.
- ANVISA — bula do Agrylin (cloridrato de anagrelida), registro MS 1.0639.0302, Takeda Pharma Ltda., aprovada em 18/12/2025: indicação como terapia de segunda linha na trombocitemia essencial, apresentação e contraindicações.
- Gisslinger H, Gotic M, Holowiecki J, et al. Blood. 2013;121(10):1720-1728. PMID 23315161 — comparação entre anagrelida e hidroxiureia na trombocitemia essencial.
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