Auvelity (dextrometorfano com bupropiona): depressão maior e a nova indicação em agitação na doença de Alzheimer

Resumo rápido

  • O Auvelity combina dextrometorfano e bupropiona em comprimido bicamada — a liberação estendida é da bupropiona —, sob a NDA 215430, da Axsome, aprovada em 18 de agosto de 2022.
  • São duas indicações aprovadas: transtorno depressivo maior em adultos e, desde 30 de abril de 2026, agitação associada à demência da doença de Alzheimer.
  • Existem duas concentrações — 45 mg com 105 mg e 30 mg com 105 mg —, com titulações diferentes conforme a indicação.
  • A advertência em quadro é de ideação e comportamento suicidas em pacientes pediátricos e adultos jovens, efeito de classe dos antidepressivos.
  • Não foi localizado registro na União Europeia. No Brasil, o registro e o enquadramento em controle especial precisam ser verificados antes de qualquer decisão.

O que é o Auvelity?

O Auvelity é um comprimido bicamada que combina bromidrato de dextrometorfano e cloridrato de bupropiona. A liberação estendida é da bupropiona; o dextrometorfano é de liberação imediata. Foi aprovado pelo FDA em 18 de agosto de 2022, sob a NDA 215430, da Axsome Therapeutics.

duas concentrações: dextrometorfano 45 mg com bupropiona 105 mg, e dextrometorfano 30 mg com bupropiona 105 mg. A segunda foi introduzida junto com a nova indicação, em 2026.

Na União Europeia, não foi localizado relatório público de avaliação para a associação — a página correspondente não existe na base da Agência Europeia de Medicamentos. Não se deve afirmar aprovação, submissão nem retirada sem documento.

Mecanismo de ação — e por que são dois fármacos

A explicação está no próprio rótulo e é elegante: o dextrometorfano é um antagonista incompetitivo do receptor NMDA e agonista do receptor sigma-1. Isoladamente, porém, ele é rapidamente metabolizado pela enzima CYP2D6 e não alcança níveis plasmáticos úteis por via oral.

A bupropiona entra justamente aí: inibe competitivamente o CYP2D6 e, com isso, eleva os níveis plasmáticos do dextrometorfano. Ela tem também efeito antidepressivo próprio, atribuído a mecanismos noradrenérgicos e dopaminérgicos — o rótulo registra que esse mecanismo não está totalmente elucidado e que a bupropiona não inibe a monoaminoxidase nem a recaptação de serotonina.

Uma nota de tradução que importa: o rótulo diz “uncompetitive”, que em farmacologia significa incompetitivo, e não “não competitivo”. São conceitos distintos.

Indicações aprovadas

São duas, e qualquer material que descreva o Auvelity apenas como antidepressivo está desatualizado:

  • Transtorno depressivo maior em adultos, desde a aprovação original de 2022.
  • Agitação associada à demência da doença de Alzheimer, aprovada em 30 de abril de 2026. O rótulo traz uma limitação de uso: não é indicado como tratamento de resgate, tomado apenas quando necessário.

Evidências clínicas

Aqui é preciso ler o desenho de cada estudo com atenção, porque dois deles não têm o mesmo comparador.

O GEMINI (NCT04019704), de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, avaliou o transtorno depressivo maior ao longo de 6 semanas. O desfecho primário era a variação do escore total da escala de depressão de Montgomery-Åsberg. O resultado foi de −15,9 pontos no braço ativo contra −12,1 no placebo, com diferença de tratamento de −3,9 pontos e intervalo de confiança de 95% entre −6,4 e −1,4.

O ASCEND (NCT03595579) foi randomizado e duplo-cego, mas com comparador ativo: bupropiona de liberação sustentada isolada, e não placebo. O objetivo era demonstrar que o dextrometorfano contribui para o efeito — e é isso que o estudo mostra. Não é prova de eficácia contra placebo, e não deve ser apresentado como tal.

O estudo da agitação na doença de Alzheimer teve 5 semanas e três braços: 152 pacientes no braço ativo, 156 no placebo e 49 em bupropiona de liberação sustentada isolada — este último encerrado precocemente. O desfecho primário era a variação do inventário de agitação de Cohen-Mansfield até a semana 5, e o resultado foi de −14,9 contra −11,6, com diferença de −3,3 pontos e intervalo de confiança de 95% entre −5,8 e −0,8.

Os dois efeitos são estatisticamente demonstrados e de magnitude modesta. É assim que devem ser apresentados.

Posologia

No transtorno depressivo maior: um comprimido de 45 mg com 105 mg uma vez ao dia, pela manhã; no dia 4, passa a duas vezes ao dia, separadas por no mínimo 8 horas. O máximo é de dois comprimidos ao dia.

Na agitação da doença de Alzheimer: a titulação é outra e mais lenta. Começa com 30 mg com 105 mg uma vez ao dia; no dia 8, duas vezes ao dia com intervalo mínimo de 8 horas; no dia 15, passa a 45 mg com 105 mg duas vezes ao dia, conforme tolerância.

Na insuficiência renal moderada e em metabolizadores lentos do CYP2D6 há esquemas reduzidos específicos para cada indicação.

Segurança

O Auvelity tem advertência em quadro (boxed warning) sobre risco de pensamentos e comportamentos suicidas: antidepressivos aumentaram esse risco em pacientes pediátricos e adultos jovens em estudos de curta duração. Essa análise por faixa etária — risco aumentado abaixo de 18 anos e entre 18 e 24 anos, risco reduzido entre 25 e 64 anos e acima de 65 — não está no quadro: consta da seção 5.1 do rótulo. O quadro em si exige monitoramento de piora clínica e de ideação suicida e registra que o produto não é aprovado em pacientes pediátricos. A tarja permanece vigente mesmo com a nova indicação em população idosa.

As contraindicações são: transtorno convulsivo; diagnóstico atual ou prévio de bulimia ou anorexia nervosa; descontinuação abrupta de álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos ou antiepilépticos; uso de inibidores da MAO ou dentro de 14 dias da suspensão, incluindo os reversíveis como a linezolida e o azul de metileno intravenoso; e hipersensibilidade conhecida à bupropiona, ao dextrometorfano ou aos componentes.

As advertências cobrem: ideação e comportamento suicidas em adolescentes e adultos jovens; convulsão — o risco pela bupropiona de liberação sustentada é de cerca de 0,1% até 300 mg ao dia e de 0,4% a 400 mg ao dia; aumento da pressão arterial e hipertensão; ativação de mania ou hipomania; psicose e outras reações neuropsiquiátricas; glaucoma de ângulo fechado; tontura; síndrome serotoninérgica; toxicidade embriofetal; e hiponatremia — esta especialmente relevante na população idosa da nova indicação.

Situação regulatória e como funciona o acesso

  • Estados Unidos: registrado sob a NDA 215430, com as duas indicações e as duas concentrações.
  • União Europeia: não foi localizado relatório público de avaliação.
  • Brasil: o registro deve ser verificado na consulta de medicamentos da ANVISA.

Há aqui uma segunda verificação, que é a que realmente decide o caminho: a bupropiona é substância sujeita a controle especial no Brasil, e o enquadramento exato da associação nas listas da Portaria SVS/MS nº 344/98 precisa ser confirmado na lista vigente. Isso importa porque a possibilidade de importação por pessoa física depende diretamente da lista em que a substância se encontra: para algumas listas, a importação é vedada ou exige autorização em caráter excepcional da ANVISA.

Enquanto essa classificação não estiver confirmada em fonte oficial, este artigo não oferece caminho de importação. A informação correta a dar ao leitor é outra e é útil: o medicamento existe, tem duas indicações aprovadas nos Estados Unidos, não foi localizado registro no Brasil, e a conversa sobre alternativas disponíveis no país — assim como sobre a viabilidade de qualquer via de acesso — precisa começar pelo médico assistente.

Vale ainda um lembrete de segurança que vem do próprio rótulo: nenhum dos componentes é medicamento de uso casual. O risco de convulsão, as contraindicações extensas e a advertência em quadro fazem deste um tratamento de prescrição e acompanhamento próximos.

Perguntas Frequentes

O Auvelity é só antidepressivo?

Não. Desde 30 de abril de 2026, também tem indicação aprovada para agitação associada à demência da doença de Alzheimer, com concentração e titulação próprias.

Por que combina dois fármacos?

Porque o dextrometorfano isolado é rapidamente metabolizado pelo CYP2D6. A bupropiona inibe essa enzima e eleva os níveis plasmáticos do dextrometorfano, além de ter efeito antidepressivo próprio.

Age mais rápido que os antidepressivos convencionais?

Os estudos mediram o desfecho principal em 6 semanas, com diferença de 3,9 pontos na escala de depressão em relação ao placebo. Comparações de velocidade de início com outras classes exigiriam estudos de comparação direta, que não foram o desenho dos ensaios registrais.

Quem tem epilepsia pode usar?

Não. Transtorno convulsivo é contraindicação formal, e o risco de convulsão é uma das advertências principais.

É possível importar?

O registro no Brasil e o enquadramento da associação nas listas de controle especial precisam ser verificados antes de qualquer afirmação. Enquanto isso não estiver esclarecido, não há caminho de importação a oferecer — a conversa começa pelo médico assistente.

Conclusão

O Auvelity é uma combinação com racional farmacológico claro: um fármaco antigo, o dextrometorfano, viabilizado por outro que bloqueia sua degradação. Os efeitos demonstrados nas duas indicações são estatisticamente consistentes e de magnitude modesta, e o produto carrega advertência em quadro e uma lista extensa de contraindicações. No Brasil, antes de discutir acesso, é preciso resolver duas questões documentais — registro e controle especial —, e essa é uma verificação que precede qualquer decisão.

Fontes

  1. FDA, Drugs@FDA — NDA 215430, Auvelity (bromidrato de dextrometorfano com cloridrato de bupropiona), Axsome Therapeutics, aprovação original em 18 de agosto de 2022; suplementos de eficácia e de rotulagem aprovados em 30 de abril de 2026.
  2. FDA — bula vigente do Auvelity, revisão de 2026: indicações, posologia por indicação, advertência em quadro, contraindicações, advertências e estudos clínicos.
  3. FDA — bula original do Auvelity, de 2022, com os estudos 1 e 2.
  4. DailyMed — bula do Auvelity, Axsome Therapeutics, publicada em 6 de agosto de 2026.
  5. Iosifescu DV et al., Journal of Clinical Psychiatry, 2022;83(4):21m14345 (GEMINI, NCT04019704).
  6. Tabuteau H et al., American Journal of Psychiatry, 2022;179(7):490-499 (ASCEND, NCT03595579, comparador ativo).
  7. Agência Europeia de Medicamentos — não localizado relatório público de avaliação para a associação de dextrometorfano com bupropiona, em consulta de 3 de setembro de 2026.
  8. ANVISA — Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, e suas atualizações: enquadramento da bupropiona a verificar na lista vigente.

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