Resumo rápido
- O Ultomiris (ravulizumabe) é um anticorpo que bloqueia a proteína C5 do complemento, em infusão intravenosa a cada 8 semanas nos adultos, com registro ativo na ANVISA (1.1618.0301, AstraZeneca do Brasil).
- Indicações: hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) e síndrome hemolítico-urêmica atípica (SHUa), em adultos e crianças; miastenia gravis generalizada AChR+ e doença do espectro da neuromielite óptica (NMOSD) AQP4+, em adultos.
- Na HPN, foi não inferior ao eculizumabe dado a cada 2 semanas (73,6% contra 66,1% sem transfusão); na NMOSD, nenhum dos 58 pacientes teve surto adjudicado.
- O rótulo americano tem tarja para infecção meningocócica grave: vacina contra os sorogrupos A, C, W, Y e B ao menos 2 semanas antes da primeira dose.
- O SUS incorporou o ravulizumabe para HPN em 2024, mas, em 2026, só o eculizumabe está disponível, e a Conitec reavalia o tema; nos planos, a DUT 65.19 cobre a HPN. Negativas são questão de custeio.
O que é Ultomiris (ravulizumabe)?
Ultomiris é o nome comercial do ravulizumabe, anticorpo monoclonal humanizado que inibe a proteína C5 do complemento, em concentrado de 100 mg/mL (frascos de 300 mg/3 mL e 1.100 mg/11 mL) para infusão intravenosa. Deriva do eculizumabe (Soliris), do mesmo fabricante, a Alexion: liga-se ao mesmo ponto da C5, mas tem meia-vida maior, o que alonga a manutenção de 2 para 8 semanas nos adultos.
A FDA o aprovou em 21/12/2018 (BLA 761108) para HPN em adultos; vieram depois SHUa (10/2019), HPN pediátrica (06/2021), miastenia gravis generalizada (04/2022) e NMOSD (03/2024). A União Europeia o autorizou em 02/07/2019. No Brasil, o registro original da Alexion (1.9811.0004, de 2019) está inativo, e o ativo é o 1.1618.0301, da AstraZeneca do Brasil Ltda., com vencimento em 09/2029.
A forma subcutânea, aprovada nos EUA em 07/2022, saiu do rótulo em 06/2024, e o frasco de 10 mg/mL foi retirado lá em 09/2025.
Mecanismo de ação
O complemento é um conjunto de proteínas do sangue que ajuda a destruir micro-organismos. Ao se ligar à C5, o ravulizumabe impede sua quebra em C5a, inflamatória, e C5b, que inicia o complexo de ataque à membrana (C5b-9), capaz de perfurar células. Na HPN, isso freia a destruição de glóbulos vermelhos dentro dos vasos; na SHUa, a microangiopatia trombótica (MAT), com lesão de pequenos vasos, queda de plaquetas e dano a órgãos como os rins. Na miastenia gravis e na NMOSD, presume-se que reduza o depósito de C5b-9 provocado pelos autoanticorpos anti-receptor de acetilcolina e anti-aquaporina-4.
As etapas iniciais do complemento, que marcam bactérias para destruição, são preservadas. A meia-vida média vai de 49,6 dias, na HPN, a 64,3, na NMOSD.
Indicações
As quatro indicações coincidem nos EUA e na União Europeia; mudam o piso de idade ou de peso e alguns critérios. A FDA não aprova indicação nova desde 03/2024.
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo (revisão de 09/2025): HPN e SHUa em adultos e crianças a partir de 1 mês (a SHU por E. coli produtora de toxina Shiga fica fora); miastenia gravis generalizada em adultos com anticorpo anti-receptor de acetilcolina (AChR) positivo; e NMOSD em adultos com anticorpo anti-aquaporina-4 (AQP4) positivo. Não há uso estabelecido em crianças com miastenia gravis ou NMOSD.
União Europeia e Brasil (EMA e ANVISA)
Pelo resumo europeu: HPN a partir de 10 kg, com hemólise e sintomas de alta atividade ou estável após ao menos 6 meses de eculizumabe; SHUa a partir de 10 kg, sem inibidor prévio ou após ao menos 3 meses de eculizumabe com resposta; miastenia gravis generalizada AChR+ e NMOSD AQP4+ em adultos. Na miastenia gravis, é complemento à terapia padrão e não é recomendado a quem não respondeu ao eculizumabe. Na bula brasileira, segundo a Conitec, HPN e SHUa também partem de 10 kg.
Evidências clínicas
Os estudos do ravulizumabe descritos a seguir foram de fase 3, patrocinados pela Alexion, com o esquema intravenoso por peso.
HPN: estudos 301 e 302
O 301 (NCT02946463) comparou, de forma aberta e por 26 semanas, ravulizumabe a cada 8 semanas e eculizumabe a cada 2 em 246 adultos sem inibidor prévio: 73,6% contra 66,1% ficaram sem transfusão, e o LDH se normalizou em 53,6% contra 49,4%, com não inferioridade em todos os desfechos. No 302 (NCT03056040), com 195 adultos estáveis com eculizumabe, a troca manteve o controle da hemólise (LDH −0,82% contra +8,4%). Não houve infecção meningocócica, e a fadiga não diferiu. No estudo pediátrico 304 (NCT03406507), 11 de 13 pacientes de 9 a 17 anos ficaram sem transfusão.
SHUa: estudos 311 e 312
Sem grupo controle, avaliaram a resposta completa de MAT: plaquetas e LDH normais e creatinina ao menos 25% melhor. No 311 (NCT02949128), ela veio em 53,6% de 56 adultos, e 17 dos 29 em diálise a deixaram; houve 4 mortes, nenhuma atribuída ao medicamento pelos investigadores. No 312 (NCT03131219), pediátrico, foi de 71% em 14 crianças na análise interina.
Miastenia gravis e NMOSD
No CHAMPION MG (NCT03920293), duplo-cego, com 175 adultos, a escala de atividades diárias MG-ADL (0 a 24) melhorou 3,1 pontos contra 1,4 com placebo em 26 semanas (diferença −1,6; IC 95% −2,6 a −0,7; p<0,001), e a escala QMG melhorou 5 pontos ou mais em 30,0% contra 11,3%. No CHAMPION-NMOSD (NCT04201262), aberto, nenhum dos 58 pacientes teve surto adjudicado em mediana de 73,5 semanas, contra 20 dos 47 do grupo placebo do estudo PREVENT, do eculizumabe, usado como comparação externa (redução de risco de 98,6%). Esse grupo tinha mais surtos prévios e mais uso de imunossupressores. Dois pacientes tiveram infecção meningocócica e se recuperaram.
Posologia e administração
O concentrado é diluído em soro fisiológico até 50 mg/mL e infundido na veia, com filtro de 0,2 µm, por profissional de saúde. A dose segue o peso: ataque, primeira manutenção 2 semanas depois e manutenção a cada 8 semanas (a cada 4 abaixo de 20 kg).
| Peso | Ataque | Manutenção | Intervalo |
|---|---|---|---|
| 5 a menos de 10 kg (só EUA) | 600 mg | 300 mg | 4 semanas |
| 10 a menos de 20 kg | 600 mg | 600 mg | 4 semanas |
| 20 a menos de 30 kg | 900 mg | 2.100 mg | 8 semanas |
| 30 a menos de 40 kg | 1.200 mg | 2.700 mg | 8 semanas |
| 40 a menos de 60 kg | 2.400 mg | 3.000 mg | 8 semanas |
| 60 a menos de 100 kg | 2.700 mg | 3.300 mg | 8 semanas |
| 100 kg ou mais | 3.000 mg | 3.600 mg | 8 semanas |
Abaixo de 40 kg, só HPN e SHUa. Pelo rótulo da FDA e pelo resumo europeu:
- Troca a partir do eculizumabe: nos adultos, ataque na data da próxima dose prevista dele.
- Calendário: variação de até 7 dias, exceto na primeira manutenção; doses suplementares após plasmaférese, troca plasmática ou imunoglobulina intravenosa.
- Infusão: de 25 a 55 minutos, no mínimo, em adultos com 40 kg ou mais; observação por ao menos 1 hora depois (FDA).
- Duração: contínua na HPN; na SHUa, ao menos 6 meses e, depois, individualizada.
- Rins e fígado: sem ajuste de dose previsto.
- Local: no Brasil, as apresentações de 100 mg/mL têm restrição hospitalar; na Europa, a infusão em casa por profissional pode ser considerada após boa tolerância na clínica.
- Conservação: geladeira (2 a 8 °C), protegido da luz, sem congelar nem agitar.
Segurança
O rótulo americano tem quadro de advertência em destaque (tarja) para infecções meningocócicas graves, que já foram fatais com inibidores do complemento mesmo em vacinados. A vacinação contra os sorogrupos A, C, W, Y e B deve ser completada ou atualizada ao menos 2 semanas antes da primeira dose; se o início for urgente, usa-se antibiótico profilático. Nos EUA, o medicamento só é dispensado por programa restrito (REMS), comum ao Soliris, e o paciente leva um cartão de segurança até 8 meses após a última dose.
Contraindicação (FDA): iniciar o tratamento com infecção meningocócica grave não resolvida. Na Europa, também hipersensibilidade e falta de vacinação, salvo com antibiótico até 2 semanas após a vacina.
Advertências principais
- Outras infecções: bactérias encapsuladas, como pneumococo e Haemophilus influenzae, e gonorreia disseminada; crianças precisam dessas vacinas em dia.
- Reações à infusão: em 1% a 7% nos estudos; há relatos de anafilaxia.
- Suspensão: monitorar hemólise por ao menos 16 semanas na HPN e sinais de MAT por ao menos 12 meses na SHUa.
- Fígado: desde 09/2024, o rótulo cita lesão hepática com outro inibidor de C5 na SHUa.
Reações mais comuns (FDA): na HPN, infecção de vias aéreas superiores (39%, igual ao eculizumabe) e dor de cabeça (32% contra 26%); na SHUa, também diarreia, náusea, vômitos, pressão alta e febre; na miastenia gravis, diarreia e infecção de vias aéreas superiores; na NMOSD, covid-19 e dor de cabeça (24% cada).
Gravidez, amamentação e interações
Não há dados de uso em gestantes; anticorpos IgG atravessam a placenta, e HPN e SHUa não tratadas também trazem riscos. Na Europa, recomenda-se contracepção durante o uso e por 8 meses depois; a amamentação é suspensa durante o tratamento e por 8 meses após a última dose. Plasmaférese e imunoglobulina intravenosa reduzem o nível do ravulizumabe; bloqueadores do FcRn, como o efgartigimode, podem diminuir sua eficácia, e ele pode reduzir o efeito do rituximabe.
Como funciona o acesso no Brasil
O Ultomiris tem registro ativo na ANVISA (1.1618.0301, AstraZeneca do Brasil Ltda., vencimento em 09/2029; consulta de 09/10/2026). Na lista da CMED de 09/10/2026, o frasco de 300 mg/3 mL consta como comercializado em 2025, ainda sob o registro da Alexion; o de 1.100 mg/11 mL, não. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
Na HPN, o eculizumabe, incorporado em 2018, é a opção do protocolo clínico de 2019 (Portaria Conjunta nº 18, de 20/11/2019) para hemólise ativa com complicações, como anemia sintomática, trombose ou dano renal. O ravulizumabe foi incorporado pela Portaria SECTICS/MS nº 10, de 05/03/2024, após nova proposta de preço, mas o protocolo não foi atualizado, e, segundo a Conitec, em 2026 só o eculizumabe está disponível. Em 11/05/2026, a Conitec deu recomendação preliminar desfavorável ao ravulizumabe (quanto a manter a incorporação), ao crovalimabe, à pegcetacoplana e à iptacopana, pela incerteza de preços com a chegada de biossimilares do eculizumabe; o tema passou pela Consulta Pública nº 49/2026, e o desfecho deve ser acompanhado. Na SHUa, a Portaria SECTICS/MS nº 54, de 28/07/2025, decidiu não incorporar o ravulizumabe.
Nos planos de saúde
Desde 07/05/2024 (RN nº 604/2024), a DUT 65.19 da ANS garante o ravulizumabe na HPN acima de 14 anos, na forma hemolítica com alta atividade ou em quem está estável após ao menos 6 meses de eculizumabe. Não há DUT do ravulizumabe para SHUa, miastenia gravis ou NMOSD. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7265, em 18/09/2025: prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com o diagnóstico (na HPN, por citometria de fluxo) e os tratamentos anteriores; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
Ultomiris e Soliris são a mesma coisa?
Não. Os dois bloqueiam a C5 e são da Alexion, mas o ravulizumabe dura mais: nos adultos, a manutenção é a cada 8 semanas, e a do eculizumabe (Soliris), a cada 2. No Brasil, o eculizumabe tem registro ativo como Soliris, Bekemv, Epysqli e Herculiz.
Por que preciso de vacina antes do tratamento?
Porque o bloqueio da C5 aumenta o risco de infecção meningocócica grave. A vacina vem ao menos 2 semanas antes da primeira dose ou, se o início for urgente, com antibiótico profilático. Mesmo vacinado, febre com manchas na pele ou dor de cabeça com rigidez de nuca pedem atendimento imediato.
Existe Ultomiris subcutâneo?
A forma subcutânea foi aprovada nos EUA em 07/2022 e saiu do rótulo em 06/2024. Hoje, nos EUA, na Europa e no Brasil, o ravulizumabe é só intravenoso.
Preciso importar o ravulizumabe?
Em regra, não. O Ultomiris tem registro ativo e consta como comercializado em 2025 na CMED; a dificuldade costuma ser o custeio, pelo SUS ou pelo plano.
Conclusão
O ravulizumabe é um inibidor de C5 de manutenção a cada 8 semanas nos adultos, indicado na HPN, na SHUa, na miastenia gravis generalizada AChR+ e na NMOSD AQP4+, com eficácia comparável à do eculizumabe na HPN. Exige vacinação meningocócica e vigilância de infecções. No Brasil, tem registro ativo e uso hospitalar; o acesso é questão de custeio, com cobertura dos planos na HPN e situação no SUS em reavaliação.
Fontes
- FDA, rótulo de Ultomiris (ravulizumabe-cwvz) (DailyMed), Alexion Pharmaceuticals, revisão 09/2025; setid a9a590d9-0217-43c7-908d-e62a71279791.
- FDA, Drugs@FDA — BLA 761108: aprovação em 21/12/2018 e suplementos de SHUa (S-001), HPN pediátrica (S-012), miastenia gravis (S-023), via subcutânea (S-021 e S-036), NMOSD (S-026) e retirada do frasco de 10 mg/mL (S-041, 26/09/2025).
- EMA — Ultomiris, EPAR, EMEA/H/C/004954; informação do produto de 21/07/2026.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (09/10/2026): Ultomiris 1.1618.0301 (ativo) e 1.9811.0004 (inativo); Soliris, Bekemv, Epysqli e Herculiz (eculizumabe, ativos).
- CMED/ANVISA — Lista de preços publicada em 09/10/2026: Ultomiris 100 mg/mL, frasco de 3 mL, comercializado em 2025.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 875 (ravulizumabe na HPN), março de 2024; Portaria SECTICS/MS nº 10, de 5 de março de 2024.
- Conitec — Relatório preliminar sobre ravulizumabe, crovalimabe, pegcetacoplana e iptacopana na HPN (maio de 2026); Consulta Pública SCTIE/MS nº 49, de 12 de junho de 2026.
- Conitec — Relatório técnico e Relatório para a sociedade nº 525 (ravulizumabe na SHUa); Portaria SECTICS/MS nº 54, de 28 de julho de 2025.
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, Anexo II (RN nº 680/2026), DUT 65.19, incluída pela RN nº 604/2024.
- Lee JW et al., Blood, 2019;133(6):530-539. PMID 30510080 (ALXN1210-PNH-301; ClinicalTrials.gov NCT02946463).
- Rondeau E et al., Kidney Int, 2020;97(6):1287-1296. PMID 32299680 (ALXN1210-aHUS-311; ClinicalTrials.gov NCT02949128).
- Vu T et al., NEJM Evid, 2022;1(5):EVIDoa2100066. PMID 38319212 (CHAMPION MG; ClinicalTrials.gov NCT03920293).
- Pittock SJ et al., Ann Neurol, 2023;93(6):1053-1068. PMID 36866852 (CHAMPION-NMOSD; ClinicalTrials.gov NCT04201262).
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