Tibsovo (ivosidenibe): inibidor de IDH1 para leucemia mieloide aguda e colangiocarcinoma

Resumo rápido

  • O Tibsovo (ivosidenibe), da Servier, é um inibidor oral da enzima IDH1 mutada, em comprimidos de 250 mg, para adultos com mutação IDH1 confirmada em teste.
  • Nos Estados Unidos, tem quatro indicações, em situações específicas de leucemia mieloide aguda (LMA), síndrome mielodisplásica (SMD) e colangiocarcinoma; na União Europeia e no Brasil, o escopo é menor.
  • No estudo de fase 3 AGILE, com azacitidina, a sobrevida global mediana foi de 24,0 contra 7,9 meses com placebo e azacitidina.
  • O rótulo americano tem advertência em destaque (tarja) para a síndrome de diferenciação na LMA e na SMD; o tratamento exige eletrocardiogramas, pelo risco de QT longo.
  • Tem registro ativo na ANVISA, mas consta sem comercialização em 2025 na CMED; não está no Rol da ANS nem no SUS.

O que é Tibsovo (ivosidenibe)?

Tibsovo é o nome comercial do ivosidenibe, inibidor da enzima isocitrato desidrogenase 1 (IDH1) mutada, em comprimidos revestidos de 250 mg de uso oral. Os titulares são a Servier Pharmaceuticals LLC nos Estados Unidos (NDA 211192, aprovado em 20/07/2018), a Les Laboratoires Servier na União Europeia (EMEA/H/C/005936, 04/05/2023) e a Laboratórios Servier do Brasil Ltda. no país (registro de 16/04/2024).

Mutação IDH1 e o teste antes do início

Mutações no IDH1 aparecem em 6% a 10% dos casos de LMA e em cerca de 13% dos colangiocarcinomas intra-hepáticos. A mutação precisa ser confirmada; nos estudos, foram usados o Abbott RealTime IDH1 (sangue ou medula óssea) na LMA e na SMD e o Oncomine Dx Target Test (tecido do tumor) no colangiocarcinoma.

Mecanismo de ação

A IDH1 com mutação no códon R132 converte alfa-cetoglutarato em 2-hidroxiglutarato (2-HG), que bloqueia a diferenciação das células e favorece o tumor. Em laboratório, o ivosidenibe inibe a enzima mutada em concentrações bem menores que as que afetam a normal; com 500 mg ao dia, o 2-HG caiu em média 93,1% na medula e 82,2% nos tumores biliares. Na LMA, isso reduz os blastos e faz as células mieloides amadurecerem, processo ligado à síndrome de diferenciação.

Indicações

Todas as indicações são para adultos com mutação IDH1 confirmada.

Estados Unidos (FDA)

  • LMA recém-diagnosticada, a partir de 75 anos ou com comorbidades que impedem a quimioterapia intensiva de indução: isolado (02/05/2019) ou com azacitidina (25/05/2022).
  • LMA recidivada ou refratária (20/07/2018) e SMD recidivada ou refratária (24/10/2023).
  • Colangiocarcinoma localmente avançado ou metastático, já tratado (25/08/2021).

União Europeia (EMA)

Com mutação IDH1 R132: com azacitidina, na LMA recém-diagnosticada de quem não pode receber quimioterapia de indução padrão; isolado, no colangiocarcinoma localmente avançado ou metastático após ao menos uma linha sistêmica. LMA recidivada e SMD não constam.

Brasil (ANVISA)

O registro de 2024 previa só o colangiocarcinoma, em monoterapia. A Resolução-RE nº 3.082/2025 (08/2025) incluiu a LMA recém-diagnosticada, com azacitidina, de quem não pode receber quimioterapia intensiva, e a LMA recidivada ou refratária. A bula de 03/07/2026 não inclui a SMD nem o uso isolado na LMA recém-diagnosticada.

Evidências clínicas

LMA: AGILE e AG120-C-001

O AGILE (NCT03173248), de fase 3 e duplo-cego, randomizou 146 adultos com LMA recém-diagnosticada com mutação IDH1, sem condição de receber quimioterapia intensiva, para ivosidenibe ou placebo, com azacitidina. O desfecho principal, sobrevida livre de eventos, melhorou: razão de risco 0,33 (IC 95% 0,16-0,69; p=0,002). A sobrevida global mediana foi de 24,0 contra 7,9 meses (razão de risco 0,44; IC 95% 0,27-0,73; p=0,001) e, na análise atualizada, de 29,3 contra 7,9 meses; a remissão completa, de 47% contra 15%. Houve mais neutropenia de grau 3 ou mais (27% contra 16%), mais sangramentos de qualquer grau (41% contra 29%) e menos infecções (28% contra 49%).

No estudo de fase 1 AG120-C-001 (NCT02074839), aberto, o ivosidenibe isolado deu remissão completa ou com recuperação hematológica parcial a 32,8% de 174 pacientes com LMA recidivada ou refratária e a 42,9% de 28 com LMA recém-diagnosticada nas condições do AGILE; na SMD recidivada ou refratária, 7 de 18 tiveram remissão completa.

Colangiocarcinoma: ClarIDHy

O ClarIDHy (NCT02989857), de fase 3 e duplo-cego, randomizou 185 adultos com colangiocarcinoma avançado com mutação IDH1, após uma ou duas linhas de tratamento, para ivosidenibe ou placebo (2 para 1), com troca permitida na progressão. A sobrevida livre de progressão mediana, desfecho principal, foi de 2,7 contra 1,4 meses (razão de risco 0,37; IC 95% 0,25-0,54; p unilateral <0,0001); em 6 meses, 32% seguiam sem progressão, contra nenhum no placebo, e a resposta objetiva foi de 2,4%. A sobrevida global mediana foi de 10,3 contra 7,5 meses (razão de risco 0,79; IC 95% 0,56-1,12), sem significância estatística, com 70,5% do placebo tendo trocado de braço; com ajuste para a troca, a do placebo seria de 5,1 meses.

Posologia e administração

São 500 mg (dois comprimidos de 250 mg) por via oral, uma vez ao dia, no mesmo horário, até progressão ou toxicidade inaceitável; na LMA, por ao menos 6 meses se não houver progressão nem toxicidade. Pela bula brasileira e pelo rótulo americano:

  • Com azacitidina: início no dia 1 do ciclo 1, com azacitidina 75 mg/m² na veia ou sob a pele nos dias 1 a 7 (ou 1 a 5 e 8 a 9) de ciclos de 28 dias.
  • Como tomar: com ou sem alimento, mas não com refeição rica em gordura; comprimidos inteiros, com água. O resumo europeu pede jejum de 2 horas antes até 1 hora depois.
  • Dose esquecida: tomar assim que possível, sem duas doses em menos de 12 horas; a vomitada não é reposta.
  • Ajustes: 250 mg ao dia com inibidor moderado ou potente do CYP3A4 inevitável (pelo rótulo americano, só o potente) e na retomada após QTc acima de 500 ms.
  • Conservação: no Brasil, 15 a 30 °C, protegido da umidade; aberto o frasco, vale 30 dias.

Segurança

O rótulo americano tem advertência em destaque (tarja) para a síndrome de diferenciação na LMA e na SMD, que pode ser fatal, e não lista contraindicações. A bula brasileira e o resumo europeu contraindicam o uso com hipersensibilidade, indutores potentes do CYP3A4 ou dabigatrana, QT longo congênito, história familiar de morte súbita ou arritmia ventricular polimórfica e QT/QTc acima de 500 ms; no Brasil, também abaixo de 18 anos.

  • Síndrome de diferenciação: febre, falta de ar, queda do oxigênio, infiltrados nos pulmões, derrame pleural ou pericárdico, ganho rápido de peso, inchaço, pressão baixa e piora do fígado ou dos rins, do 1º dia a 3 meses após o início; ocorreu em 15% com azacitidina e em 19% na LMA recidivada ou refratária, e trata-se com corticoide e monitoramento.
  • Coração: QTc acima de 500 ms em 14% com azacitidina, 9% em monoterapia nos cânceres do sangue e 2% no colangiocarcinoma; houve um caso de fibrilação ventricular.
  • Síndrome de Guillain-Barré: 0,8% (2 de 265) no AG120-C-001; fraqueza, formigamento ou dificuldade para respirar pedem avaliação, e o diagnóstico leva à suspensão definitiva.

Com azacitidina, destacaram-se vômito (41% contra 27% com placebo) e dores articulares e musculoesqueléticas (30% contra 8%); no colangiocarcinoma, cansaço (43% contra 31%), diarreia (35% contra 17%) e tosse (27% contra 9%).

Interações, gravidez e amamentação

Inibidores do CYP3A4, como itraconazol e claritromicina, elevam o ivosidenibe e o risco de QT longo; indutores potentes, como rifampicina e erva-de-são-joão, o reduzem. Evitam-se outros remédios que prolongam o QT e a toranja; o ivosidenibe pode reduzir o efeito de anticoncepcionais hormonais. Houve dano ao feto em animais: pela bula brasileira, faz-se teste de gravidez antes, e mulheres férteis e homens com parceira fértil usam contracepção eficaz durante o uso e por ao menos 1 mês depois, com método de barreira, DIU, implante ou injetável; não se amamenta no mesmo período.

Situação regulatória e como funciona o acesso

O Tibsovo tem registro ativo na ANVISA (1.1278.0089, Laboratórios Servier do Brasil Ltda., vencimento em 04/2034; dados abertos de 16/10/2026). Na lista da CMED de 09/10/2026, a única apresentação, de 250 mg com 60 comprimidos, consta sem comercialização em 2025, sem restrição hospitalar. Não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998. Para o que for adquirido no país, a questão é quem paga.

No SUS

Não foi incorporado. Pelas Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LMA do adulto (Portaria SAS/MS nº 705/2014), anteriores a ele, o hospital habilitado em oncologia adquire, fornece e registra o antineoplásico como procedimento; o Ministério da Saúde já convocou fornecedores de ivosidenibe para contratação direta por determinação judicial (DOU de 07/06/2024).

Nos planos de saúde

A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória o medicamento para tratamento domiciliar, salvo antineoplásicos orais, como o ivosidenibe. A ANS lista os cobertos na DUT 64 do Rol, que não inclui o ivosidenibe (Anexo II até a RN nº 681/2026); no colangiocarcinoma, a ANS negou a incorporação em 04/04/2025 (UAT nº 148), e nova proposta (UAT nº 219) está em análise técnica. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos do STF na ADI 7265 (18/09/2025): prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.

A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e o relatório médico com o laudo da mutação; cada caso exige orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Sem comercialização em 2025: quando falta oferta no país

Registro sem comercialização não é falta de registro. Se o paciente não encontrar o Tibsovo no país, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada a partir dos Estados Unidos ou da União Europeia, onde é aprovado; se o custeio for à Justiça, é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Vale só para quando não há oferta nacional, não para o Tibsovo que estiver à venda no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; sem cadeia fria.

Perguntas Frequentes

O Tibsovo tem registro na ANVISA?

Sim, registro ativo (1.1278.0089) para colangiocarcinoma e LMA com mutação IDH1 R132. Como a CMED o lista sem comercialização em 2025, a importação com receita só se discute se faltar oferta no país.

Quem pode usar o ivosidenibe?

Adultos com mutação IDH1 confirmada em teste, nas indicações da bula; no Brasil, a SMD e o uso isolado na LMA recém-diagnosticada não constam.

Por que fazer eletrocardiogramas?

Porque o ivosidenibe pode prolongar o intervalo QT e causar arritmias; o exame é feito antes, semanalmente nas 3 primeiras semanas e depois todo mês.

O plano de saúde cobre o Tibsovo?

Não há cobertura obrigatória pelo Rol, pois o ivosidenibe não está na DUT 64; fora do Rol, valem os critérios da ADI 7265, e a negativa é questão de custeio.

Conclusão

O ivosidenibe é dirigido à mutação IDH1 R132: com azacitidina, prolongou a sobrevida na LMA recém-diagnosticada de quem não pode receber quimioterapia intensiva e, no colangiocarcinoma já tratado, adiou a progressão. Exige teste da mutação, eletrocardiogramas e atenção à síndrome de diferenciação. No Brasil, o acesso passa pelo custeio e, sem oferta no país, pela importação com receita; a indicação cabe ao médico.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Tibsovo (ivosidenibe) (DailyMed), Servier Pharmaceuticals LLC, revisão 10/2023; setid 65d254c0-67ad-42c4-b972-ad463b755b2d.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 211192: aprovação de 20/07/2018 e suplementos S-001 (02/05/2019), S-008 (25/08/2021), S-009 (25/05/2022) e S-011 (24/10/2023).
  3. EMA — Tibsovo, EPAR, EMEA/H/C/005936, Les Laboratoires Servier: resumo das características do medicamento de 25/02/2026.
  4. ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): Tibsovo 1.1278.0089, ativo; Resoluções-RE nº 1.437/2024 e nº 3.082/2025 (DOU).
  5. Laboratórios Servier do Brasil — Tibsovo, bula para o profissional de saúde aprovada pela ANVISA em 03/07/2026.
  6. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Tibsovo 250 mg, comercialização em 2025.
  7. ANS — RN nº 465/2021, Anexo II (DUT 64), atualizado até a RN nº 681/2026; UAT nº 148 e Consulta Pública nº 150/2025; UAT nº 219 (situação em 14/10/2026).
  8. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998 (planos de saúde), art. 10, VI, e art. 12.
  9. Ministério da Saúde — Portaria SAS/MS nº 705/2014 (Diretrizes da LMA do adulto); aviso de chamamento público, DOU de 07/06/2024.
  10. DiNardo CD et al., N Engl J Med, 2018;378(25):2386-2398. PMID 29860938 (AG120-C-001; ClinicalTrials.gov NCT02074839).
  11. Montesinos P et al., N Engl J Med, 2022;386(16):1519-1531. PMID 35443108 (AGILE; ClinicalTrials.gov NCT03173248).
  12. Abou-Alfa GK et al., Lancet Oncol, 2020;21(6):796-807. PMID 32416072 (ClarIDHy; ClinicalTrials.gov NCT02989857).
  13. Zhu AX et al., JAMA Oncol, 2021;7(11):1669-1677. PMID 34554208 (ClarIDHy, sobrevida global final; ClinicalTrials.gov NCT02989857).

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

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