Resumo rápido
- O Reblozyl (luspatercepte) é uma proteína de fusão que favorece a maturação dos glóbulos vermelhos, aplicada sob a pele a cada 3 semanas na anemia da beta-talassemia e da síndrome mielodisplásica (SMD) de baixo risco, em adultos.
- Tem registro ativo na ANVISA (1.0180.0411, Bristol-Myers Squibb) e é comercializado com restrição hospitalar; desde 08/2025, a bula brasileira inclui a beta-talassemia não dependente de transfusão, que a FDA não aprovou.
- No estudo COMMANDS, em SMD sem uso prévio de eritropoetina, 60% ficaram 12 semanas ou mais sem transfusão, com alta da hemoglobina, contra 35% com alfaepoetina.
- Não há advertência em destaque nos Estados Unidos, mas é preciso vigiar trombose, pressão alta e massas de hematopoiese extramedular; pode causar dano ao feto.
- O SUS decidiu não incorporá-lo na beta-talassemia dependente de transfusão, e ele não consta do Rol da ANS; negativas são questão de custeio.
O que é Reblozyl (luspatercepte)?
Reblozyl é o nome comercial do luspatercepte, proteína de fusão recombinante que une o domínio extracelular modificado do receptor de ativina tipo IIB humano à fração Fc de uma imunoglobulina G1 humana. É um agente de maturação eritroide, em pó liofilizado para injeção subcutânea, em frascos de 25 mg e 75 mg. O titular é a Bristol-Myers Squibb: Celgene Corporation nos Estados Unidos (BLA 761136), Bristol-Myers Squibb Pharma EEIG na União Europeia e Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda. no Brasil.
A FDA o aprovou em 08/11/2019, a União Europeia em 25/06/2020, e o registro brasileiro saiu em 06/12/2021. Em 2023, a empresa registrou no Brasil o Rojuzda (1.0180.0416), clone do Reblozyl.
Beta-talassemia
Doença hereditária em que a cadeia beta da hemoglobina é pouco ou nada produzida: os precursores dos glóbulos vermelhos amadurecem mal (eritropoiese ineficaz), e surge anemia crônica. Nas formas dependentes de transfusão, o sangue é reposto em intervalos regulares, e a sobrecarga de ferro é tratada com quelantes; nas não dependentes, as transfusões são ocasionais. Não há protocolo clínico do SUS para a doença.
Síndromes mielodisplásicas de baixo risco
São neoplasias clonais da medula óssea, com produção ineficaz de células do sangue. Na SMD de baixo risco, a primeira linha do protocolo do SUS para a anemia é a alfaepoetina, um agente estimulador da eritropoiese (AEE); quando esses agentes falham, o paciente costuma depender de transfusões.
Mecanismo de ação
Em modelos de beta-talassemia e SMD e na medula de pacientes com SMD, a sinalização da via Smad2/3 é anormalmente alta, o que bloqueia a maturação dos glóbulos vermelhos. O luspatercepte se liga a ligantes da superfamília do fator de crescimento transformador beta (TGF-β), como o GDF-11 e a ativina B, reduz essa sinalização e aumenta a diferenciação dos precursores tardios (normoblastos). A hemoglobina volta ao nível inicial de 6 a 8 semanas após a última dose.
Indicações
Todas as indicações são para adultos; nenhuma das três agências aprovou o uso em crianças. O luspatercepte não substitui a transfusão quando a anemia precisa de correção imediata.
Estados Unidos (FDA)
- Beta-talassemia (desde 08/11/2019): anemia em quem precisa de transfusões regulares; o rótulo afirma que não é indicado na forma não dependente de transfusão.
- SMD sem uso prévio de AEE (desde 28/08/2023): anemia na SMD de risco muito baixo a intermediário em quem pode precisar de transfusões regulares.
- SMD com sideroblastos em anel (desde 03/04/2020): anemia após falha de AEE, com 2 ou mais unidades de hemácias em 8 semanas, na SMD de risco muito baixo a intermediário com sideroblastos em anel ou na neoplasia mielodisplásica/mieloproliferativa com sideroblastos em anel e trombocitose.
União Europeia (EMA)
Na SMD de risco muito baixo, baixo e intermediário, cobre a anemia dependente de transfusão, sem exigir sideroblastos em anel nem falha da eritropoetina desde 27/03/2024. Na beta-talassemia, cobre as formas dependente e não dependente de transfusão; a segunda entrou em 27/02/2023.
Brasil (ANVISA)
Pela bula aprovada em 11/08/2025: anemia por SMD de risco muito baixo a intermediário que requeira transfusão; anemia dependente de transfusão por SMD de risco muito baixo a intermediário com sideroblastos em anel, em pacientes refratários, intolerantes ou inelegíveis a AEE; e anemia da beta-talassemia dependente ou não dependente de transfusão. A primeira foi aprovada em 28/08/2023 (Resolução-RE nº 3.171/2023), e a forma não dependente, em 11/08/2025 (Resolução-RE nº 2.969/2025).
Evidências clínicas
Na tabela, os desfechos principais dos estudos de registro, como publicados.
| Estudo | População | Desfecho principal | Resultado |
|---|---|---|---|
| BELIEVE (336, fase 3) | Talassemia dependente de transfusão | Redução de ao menos 33% das transfusões, com ao menos 2 unidades a menos, nas semanas 13 a 24 | 21,4% contra 4,5% com placebo (p<0,001) |
| BEYOND (145, fase 2) | Talassemia não dependente de transfusão | Alta média de 1 g/dL ou mais na hemoglobina, sem transfusão, nas semanas 13 a 24 | 77% contra 0% com placebo (p<0,0001) |
| MEDALIST (229, fase 3) | SMD com sideroblastos em anel após AEE | 8 semanas ou mais sem transfusão nas semanas 1 a 24 | 38% contra 13% com placebo (p<0,001) |
| COMMANDS (363, fase 3) | SMD sem uso prévio de AEE | 12 semanas ou mais sem transfusão, com alta média de 1,5 g/dL ou mais na hemoglobina, nas semanas 1 a 24 | 60% contra 35% com alfaepoetina (p<0,0001) |
Beta-talassemia: BELIEVE e BEYOND
O BELIEVE (NCT02604433), duplo-cego, incluiu adultos com 6 a 20 unidades de hemácias a cada 24 semanas; em qualquer intervalo de 12 semanas, 70,5% contra 29,5% reduziram as transfusões em ao menos um terço. O BEYOND (NCT03342404), também duplo-cego, exigia hemoglobina de 10 g/dL ou menos, e não houve evento tromboembólico na fase duplo-cega.
SMD: MEDALIST e COMMANDS
O MEDALIST (NCT02631070), duplo-cego, incluiu pacientes sem deleção 5q que não responderam a AEE, não os toleraram ou tinham eritropoetina sérica acima de 200 U/L; 28% contra 8% ficaram 12 semanas ou mais sem transfusão nas semanas 1 a 24. O COMMANDS (NCT03682536), aberto, exigia eritropoetina sérica abaixo de 500 U/L e 2 a 6 unidades de hemácias a cada 8 semanas; a diferença foi de 25,4 pontos percentuais (IC 95% 15,8 a 35,0). Pelo resumo europeu, sem sideroblastos em anel, o efeito foi comparável ao da alfaepoetina.
Posologia e administração
O pó é reconstituído com água para injetáveis (50 mg/mL) e aplicado sob a pele do braço, da coxa ou do abdômen por profissional de saúde; volumes acima de 1,2 mL são divididos. Pela bula brasileira:
| Indicação | Dose inicial | Aumento | Dose máxima |
|---|---|---|---|
| SMD | 1 mg/kg a cada 3 semanas | 1,33 e depois 1,75 mg/kg, se ainda houver transfusão após 2 doses em cada nível | 1,75 mg/kg |
| Talassemia dependente de transfusão | 1 mg/kg a cada 3 semanas | 1,25 mg/kg, se as transfusões não caírem após 2 doses | 1,25 mg/kg |
| Talassemia não dependente de transfusão | 1 mg/kg a cada 3 semanas | 1,25 mg/kg, se a hemoglobina subir menos de 2 g/dL após 2 doses | 1,25 mg/kg |
- Antes de cada dose: avaliar a hemoglobina (a pré-transfusional, se houve transfusão) e a pressão arterial.
- Adiamento e redução: adiar com hemoglobina de 11,5 g/dL ou mais sem transfusão recente, até cair a 11 g/dL ou menos; reduzir um nível se subir mais de 2 g/dL em 3 semanas, até o mínimo de 0,8 mg/kg (0,6 mg/kg na forma não dependente).
- Suspensão: sem benefício após 3 doses (9 semanas) na dose máxima, toxicidade inaceitável ou massas de hematopoiese extramedular com complicações graves.
- Conservação: geladeira (2 a 8 °C), sem congelar.
Segurança
O rótulo americano não tem advertência em destaque (tarja) nem lista contraindicações. Na União Europeia e no Brasil, são contraindicações a hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos excipientes, a gravidez e a necessidade de tratar o crescimento de massas de hematopoiese extramedular. Pelo rótulo da FDA, as reações mais comuns foram dor de cabeça (26%) e dor óssea (20%) no BELIEVE e cansaço no MEDALIST (41%) e no COMMANDS (22%).
Advertências principais
- Trombose: eventos tromboembólicos, como trombose venosa profunda, embolia pulmonar e AVC isquêmico, em 3,6% dos tratados com talassemia dependente de transfusão, contra 0,9% com placebo; todos tinham o baço retirado e outro fator de risco. Considera-se profilaxia nos de maior risco.
- Pressão alta: em 11,4% dos tratados, de grau 3 ou 4 em 2% a 9,6%; na Europa, só se inicia com a pressão controlada.
- Hematopoiese extramedular: massas de tecido formador de sangue fora da medula em 3,2% dos pacientes com talassemia dependente de transfusão, com compressão da medula espinhal em 1,9%, e em 6,3% dos não dependentes, contra 2% com placebo.
- Fraturas traumáticas: 8,3% na forma não dependente, contra 2% com placebo.
Pode causar dano ao feto: faz-se teste de gravidez antes do início, com contracepção eficaz durante o tratamento e por ao menos 3 meses depois; não se amamenta durante o uso nem por 3 meses após a última dose. Não há estudos formais de interação; quelantes de ferro não alteram a farmacocinética.
Como funciona o acesso no Brasil
O Reblozyl tem registro ativo na ANVISA (1.0180.0411, Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda., vencimento em 12/2031; dados abertos de 16/10/2026), e os frascos de 25 mg e 75 mg constam como comercializados em 2025 na Lista CMED de 09/10/2026, com restrição hospitalar. O clone Rojuzda (1.0180.0416), também ativo, não foi comercializado em 2025. Não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
Não incorporado. Na beta-talassemia dependente de transfusão, a Conitec recomendou a não incorporação (Relatório nº 1090, Registro de Deliberação nº 1091/2026), por incertezas sobre a efetividade sustentada e a segurança na prática real, falta de critérios para prever quem responde, custo e impacto orçamentário; a decisão saiu na Portaria SCTIE/MS nº 15, de 10/03/2026, e os recursos foram negados em 10/06/2026 (Despacho GM/MS nº 48). Na SMD de baixo risco, o protocolo clínico do SUS (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 22, de 03/11/2022) não inclui o luspatercepte e prevê, para a anemia, a alfaepoetina, pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.
Nos planos de saúde
O luspatercepte não consta do Rol da ANS nem tem diretriz de utilização (Anexos I e II atualizados até a RN nº 681/2026); na SMD de baixo risco, a DUT 158 garante a alfaepoetina em primeira linha. Fora do Rol, valem os cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7265, em 18/09/2025: prescrição do médico assistente, ausência de negativa expressa ou de análise pendente na ANS, falta de alternativa adequada no Rol, comprovação científica de eficácia e segurança e registro na ANVISA.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. O Ministério da Saúde publica chamamentos para contratação direta de luspatercepte “por força de determinação judicial” (por exemplo, no DOU de 27/06/2025). Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com o diagnóstico, a categoria de risco, o histórico de transfusões e os tratamentos anteriores; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
Preciso importar o Reblozyl?
Em regra, não: tem registro ativo e consta como comercializado na CMED; a dificuldade costuma ser o custeio.
O Reblozyl substitui a transfusão de sangue?
Não. Nos estudos, parte dos pacientes reduziu ou suspendeu as transfusões, mas a resposta é avaliada ao longo de semanas e não ocorre em todos; também não substitui a transfusão quando a anemia exige correção imediata.
Reblozyl e Rojuzda são o mesmo medicamento?
São registros da mesma Bristol-Myers Squibb para o luspatercepte: o Rojuzda foi registrado em 2023 como clone do Reblozyl, com as mesmas apresentações. Pela CMED, só o Reblozyl foi comercializado em 2025.
Serve para a talassemia não dependente de transfusão?
No Brasil e na União Europeia, sim, em adultos; nos Estados Unidos, não. Nesse grupo, massas de hematopoiese extramedular e fraturas foram mais frequentes que com placebo.
Conclusão
O luspatercepte age na etapa final da produção de glóbulos vermelhos: reduziu transfusões na beta-talassemia dependente de transfusão e na SMD de baixo risco, superou a alfaepoetina em quem nunca usou AEE e elevou a hemoglobina na forma não dependente. Exige controle da pressão e atenção a trombose, hematopoiese extramedular e gravidez. No Brasil, tem registro ativo e é comercializado; o acesso é questão de custeio.
Fontes
- FDA — Reblozyl (luspatercepte-aamt), bula vigente: BLA 761136, Celgene Corporation (Bristol-Myers Squibb); DailyMed, revisão 02/2026; cartas de aprovação (2019, 2020, S-009 e S-015).
- EMA — Reblozyl, EPAR, EMEA/H/C/004444 (Bristol-Myers Squibb Pharma EEIG): resumo das características do medicamento; variações II/0009 e II/0021 (decisões de 27/02/2023 e 27/03/2024).
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): Reblozyl 1.0180.0411 e Rojuzda 1.0180.0416; Resoluções-RE nº 4.504/2021, 3.171/2023, 4.568/2023 e 2.969/2025.
- ANVISA — Reblozyl, bula para o profissional de saúde aprovada em 11/08/2025, Bristol-Myers Squibb Farmacêutica Ltda.
- CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Reblozyl 25 mg e 75 mg, comercializados em 2025, restrição hospitalar; Rojuzda, não comercializado.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 1090, março de 2026; Portaria SCTIE/MS nº 15, de 10/03/2026; Despacho GM/MS nº 48, de 10/06/2026.
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 22, de 03/11/2022 (PCDT da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco).
- Ministério da Saúde — Aviso de chamamento público por força de determinação judicial, DOU de 27/06/2025, seção 3.
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, Anexos I e II (RN nº 465/2021, atualizados pela RN nº 681/2026), DUT 158.
- Cappellini MD et al., N Engl J Med, 2020;382(13):1219-1231. PMID 32212518 (BELIEVE; ClinicalTrials.gov NCT02604433).
- Taher AT et al., Lancet Haematol, 2022;9(10):e733-e744. PMID 36007538 (BEYOND; ClinicalTrials.gov NCT03342404).
- Fenaux P et al., N Engl J Med, 2020;382(2):140-151. PMID 31914241 (MEDALIST; ClinicalTrials.gov NCT02631070).
- Della Porta MG et al., Lancet Haematol, 2024;11(9):e646-e658. PMID 39038479 (COMMANDS; ClinicalTrials.gov NCT03682536).
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