Prograf (tacrolimo): inibidor da calcineurina para prevenir a rejeição em transplantes de rim, fígado e coração

Resumo rápido

  • O Prograf (tacrolimo), da Astellas, é um imunossupressor inibidor da calcineurina; nos EUA, previne a rejeição em transplantes de rim, fígado, coração ou pulmão, em adultos e crianças, com outros imunossupressores.
  • A dose segue o nível no sangue antes da tomada (vale), e a troca pelas versões de liberação prolongada exige supervisão médica.
  • A tarja americana alerta para câncer e infecções graves; rins, sistema nervoso, glicose e interações (azóis, claritromicina, toranja) pedem vigilância.
  • No Brasil, o registro está ativo, as cápsulas de 1 e 5 mg foram comercializadas em 2025, e o SUS as fornece nos protocolos de rim, fígado e coração.
  • Cápsula de 0,5 mg e granulado, que permitem doses abaixo de 1 mg, como as de crianças pequenas, não têm oferta no país; só para eles a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada.

O que é Prograf (tacrolimo)?

Prograf é a marca do tacrolimo (antes FK506), imunossupressor da Astellas produzido pela bactéria Streptomyces tsukubaensis. O Prograf também é comercializado como Prograft, a depender do país. A FDA aprovou cápsulas e injetável em 08/04/1994 (NDA 050708 e NDA 050709), o uso no coração em 29/03/2006 e no pulmão em 16/07/2021, e o granulado infantil (NDA 210115) em 24/05/2018.

Liberação imediata e prolongada não são intercambiáveis

Forma EUA União Europeia Brasil
Cápsula de 0,5 mg Prograf Prograf (Espanha) Não há
Granulado de 0,2 e 1 mg Prograf Granules Modigraf Não há
Liberação prolongada (Astellas) Astagraf XL Advagraf Prograf XL 1 mg

O rótulo americano relata erros de troca entre liberação imediata e prolongada, fora dos EUA, com rejeição ou reações graves; a mudança exige supervisão médica, e a bula brasileira prevê conversão 1:1 da dose diária para o Prograf XL, com nova dosagem do nível.

Mecanismo de ação

O tacrolimo se liga à proteína FKBP-12; o complexo, com cálcio e calmodulina, inibe a calcineurina e impede a ativação do fator NF-AT, o que reduz a interleucina-2 e outras citocinas e inibe a ativação e a multiplicação dos linfócitos T. A absorção oral é variável (biodisponibilidade média de 17% a 23% em transplantados) e menor com alimento gorduroso, e o metabolismo pelo CYP3A explica as interações.

Indicações

Estados Unidos (FDA)

Profilaxia da rejeição em adultos e crianças com transplante alogênico de rim, fígado, coração ou pulmão, com outros imunossupressores.

União Europeia (EMA)

O Prograf tem autorizações nacionais, com indicações harmonizadas pela EMA (artigo 30, 2006): profilaxia da rejeição em fígado, rim ou coração e tratamento da rejeição resistente a outros imunossupressores. Pela via centralizada, há o Advagraf (2007; adultos, rim ou fígado) e o Modigraf (2009; adultos e crianças, rim, fígado ou coração), ambos também na rejeição resistente. O pulmão não consta.

Brasil (ANVISA)

Pelas bulas de 18/12/2025, Prograf e Prograf XL são indicados na profilaxia da rejeição em transplantes de fígado, rins e coração, com corticosteroides, para uso adulto e pediátrico; pulmão e rejeição resistente não constam.

Evidências clínicas

Fígado e rim: menos rejeição que com a ciclosporina

Estudos pivotais abertos, com corticoide, em 12 meses:

Estudo (pacientes) Rejeição aguda (tacrolimo × ciclosporina) Outro achado
Fígado, EUA, 1994 (529) 154 × 173 pacientes (p<0,002) 37 × 13 saídas por eventos adversos
Fígado, Europa, 1994 (545) 40,5% × 49,8% (p=0,040) Sobrevida sem diferença significativa
Rim, EUA, 1997 (412) 30,7% × 46,4%, com biópsia (p=0,001) Diabetes pós-transplante: 19,9% × 4,0%

No ELITE-Symphony (NCT00231764), com 1.645 receptores de rim, o tacrolimo em dose baixa, com micofenolato e corticoide, teve em 12 meses a maior filtração glomerular estimada (65,4 mL/min, contra 56,7 a 59,4) e a menor rejeição aguda comprovada por biópsia (12,3%, contra 24,0% a 37,2%).

Coração, pulmão e crianças

No coração, pelo rótulo, a sobrevida em 18 meses foi de 92% com tacrolimo e 90% com ciclosporina (314 pacientes). No pulmão, a indicação veio de um estudo observacional do registro americano SRTR: 90,9% de sobrevida do enxerto em 1 ano após a alta com tacrolimo e micofenolato (15.478 adultos). No fígado infantil, a falha em 12 meses (rejeição comprovada, perda do enxerto, morte ou perda de seguimento) foi de 52,7% com granulado e corticoide (91 crianças) e de 61,1% com ciclosporina (90; IC 95% da diferença, −22,7 a 6,0).

Posologia e administração

Pelo rótulo da FDA, cápsulas e granulado são tomados a cada 12 horas, sempre do mesmo modo em relação à comida, sem toranja, com dose inicial por peso e ajuste pelo vale. Adultos, com cápsulas:

Transplante Dose inicial/dia (2 tomadas) Vale (ng/mL)
Rim, com azatioprina 0,2 mg/kg 7 a 20 (meses 1 a 3); 5 a 15 (4 a 12)
Rim, com micofenolato e anti-receptor de IL-2 0,1 mg/kg 4 a 11
Fígado, com corticoide 0,10 a 0,15 mg/kg 5 a 20
Coração, com azatioprina ou micofenolato 0,075 mg/kg 10 a 20 (meses 1 a 3); 5 a 15 depois
Pulmão, com azatioprina ou micofenolato 0,075 mg/kg 10 a 15 (meses 1 a 3); 8 a 12 (4 a 12)
  • Crianças: 0,3 mg/kg/dia no rim, no coração (0,1 com indução por anticorpo) e no pulmão; 0,15 a 0,2 no fígado (0,2 em granulado). Entre granulado e cápsula, a dose diária total é a mesma, com nova dosagem do nível.
  • Início: não antes de 6 horas após transplante de fígado, coração ou pulmão; no rim, em até 24 horas, adiando até a função renal se recuperar. Nunca junto com ciclosporina: um é suspenso ao menos 24 horas antes do outro. O injetável, em infusão contínua, é só para quem não pode usar a via oral, com observação de 30 minutos pelo risco de anafilaxia.
  • Preparo e ajustes: granulado em copo de vidro com 15 a 30 mL de água, sem PVC; cápsulas não devem ser abertas nem trituradas. A insuficiência hepática grave pode pedir dose menor.

Segurança

O rótulo americano tem advertência em destaque (tarja): o Prograf e outros imunossupressores aumentam o risco de infecções graves e câncer, com possibilidade de internação ou morte. Contraindicações: hipersensibilidade ao tacrolimo e, no injetável, ao HCO-60 (derivado do óleo de rícino); a bula brasileira inclui outros macrolídeos.

Advertências principais

  • Câncer e infecções: linfoma e câncer de pele (proteção solar), doença linfoproliferativa ligada ao vírus Epstein-Barr, vírus BK e JC e citomegalovírus.
  • Rim e sistema nervoso: nefrotoxicidade aguda ou crônica e potássio alto (cautela com nefrotóxicos, IECA e BRA); tremor, formigamento e, nas formas graves, encefalopatia posterior reversível, convulsões e coma, sobretudo com nível alto.
  • Metabolismo e coração: diabetes após o transplante, hipertensão, prolongamento do QT e hipertrofia do miocárdio.
  • Outros: microangiopatia trombótica, aplasia pura de série vermelha, vacinas vivas a evitar e sirolimo não recomendado no fígado e no coração.

No estudo de rim com azatioprina, tremor (54% contra 34%) e diabetes (24% contra 9%) foram mais comuns com tacrolimo que com ciclosporina. Inibidores do CYP3A elevam o nível: com voriconazol ou posaconazol, a dose cai a um terço, e, com inibidores fortes, como claritromicina e inibidores de protease, o vale é dosado em 1 a 3 dias; indutores como rifampicina e erva-de-são-joão o reduzem; o canabidiol pode elevá-lo. Há risco ao feto: no registro TPRI, entre transplantadas de rim, 49% dos nascidos vivos foram prematuros; a contracepção se discute antes do início. O tacrolimo passa ao leite materno.

Situação regulatória e como funciona o acesso

O Prograf tem registro ativo na ANVISA (1.7717.0007, Astellas Farma Brasil Importação e Distribuição de Medicamentos Ltda., vencimento em 12/2029), nos dados abertos de 16/10/2026. Na Lista CMED de 09/10/2026, sem restrição hospitalar, constam como comercializados em 2025 as cápsulas de 1 e 5 mg, a de liberação prolongada de 1 mg, o injetável de 5 mg/mL e cápsulas de outras empresas, como Tacrofort. O tacrolimo não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998. Para as cápsulas de 1 e 5 mg, a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.

No SUS: o que os protocolos garantem

As cápsulas de 1 e 5 mg integram o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (Ceaf), nos PCDTs de imunossupressão nos transplantes renal (Portaria Conjunta nº 1/2021), cardíaco (nº 2/2021) e hepático em adultos (nº 5/2017) e em pediatria (nº 4/2019), este com o tacrolimo em primeira linha. O acesso é pela farmácia do Ceaf do estado, com laudo (LME), receita e exames do protocolo. Em 07/10/2025, a Portaria SECTICS/MS nº 81 decidiu não incorporar o tacrolimo de liberação prolongada no transplante hepático de adultos (Relatório da Conitec nº 1.043).

Nos planos de saúde

A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, V e VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos importados não nacionalizados e, salvo exceções como os antineoplásicos orais, os de uso domiciliar, caso do tacrolimo oral. Diante de negativa, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação, com orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Cápsula de 0,5 mg e granulado fora do mercado brasileiro

A bula brasileira traz só cápsulas de 1 e 5 mg, a CMED não lista cápsula de 0,5 mg nem granulado de tacrolimo, e o Modigraf não tem registro na ANVISA. O PCDT renal cita a ciclosporina como opção para crianças pequenas que não engolem a cápsula ou quando a dose mínima de tacrolimo, 1 mg a cada 12 horas, daria nível acima do alvo. Para a cápsula de 0,5 mg, aprovada nos EUA e na Espanha, e para o granulado, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada. Se o custeio for à Justiça, é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Vale só para a cápsula de 0,5 mg e o granulado, não para as cápsulas de 1 e 5 mg, comercializadas no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos, sempre em nome do paciente e a partir da receita médica: faz a conversa inicial com um especialista, orienta sobre as normas da ANVISA e os documentos, apoia a documentação, conduz a importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanha tudo até a entrega. O prazo médio depende da origem:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; não há canal na América do Sul; sem cadeia fria, pois cápsulas e granulado são conservados de 20 a 25 °C.

Perguntas Frequentes

Preciso importar o Prograf?

Em regra, não: as cápsulas de 1 e 5 mg têm registro ativo, são comercializadas e fornecidas pelo SUS; a dificuldade costuma ser o custeio. A importação só se discute para a cápsula de 0,5 mg e o granulado.

Posso trocar o Prograf pelo Prograf XL ou por um genérico?

Só com o médico: a troca não supervisionada entre formulações não é segura, e toda conversão pede nova dosagem do nível.

Posso tomar suco de toranja?

Não: a toranja pode elevar o tacrolimo, com risco de neurotoxicidade e de prolongamento do QT.

Quem usa tacrolimo pode se vacinar?

Vacinas vivas, como febre amarela, tríplice viral, varicela e BCG, devem ser evitadas; o ideal é completar o calendário antes do transplante.

Conclusão

O tacrolimo reduziu a rejeição aguda frente à ciclosporina nos estudos pivotais, mas tem margem estreita: a dose segue o nível no sangue, e nenhuma troca de formulação se faz sem o médico. No Brasil, o SUS fornece as cápsulas de 1 e 5 mg; a importação se restringe à cápsula de 0,5 mg e ao granulado. A indicação cabe à equipe de transplante.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Prograf (tacrolimo) (DailyMed), Astellas Pharma US, Inc., revisão 08/2023; setid 7f667de1-9dfa-4bd6-8ba0-15ee2d78873b; NDA 050708, NDA 050709 e NDA 210115.
  2. FDA, Drugs@FDA — cartas de aprovação de 29/03/2006 (coração), 24/05/2018 (granulado) e 16/07/2021 (pulmão); rótulo do Astagraf XL (NDA 204096).
  3. EMA — Prograf, arbitragem do artigo 30 (decisão da Comissão Europeia de 10/04/2006); Advagraf, EPAR, EMEA/H/C/000712; Modigraf, EPAR, EMEA/H/C/000954.
  4. AEMPS (Espanha), CIMA — Prograf 0,5 mg cápsulas duras, nº 63189, Astellas Pharma S.A.
  5. ANVISA — Dados abertos de medicamentos, consulta em 16/10/2026: Prograf 1.7717.0007, ativo; bulas do Prograf e do Prograf XL aprovadas em 18/12/2025.
  6. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026, coluna de comercialização em 2025.
  7. Ministério da Saúde — Portarias Conjuntas nº 1 e nº 2, de 05/01/2021 (PCDTs de transplante renal e cardíaco), nº 5, de 22/06/2017 (hepático em adultos), e nº 4, de 10/01/2019 (hepático em pediatria).
  8. Conitec — Relatório de Recomendação nº 1.043 (tacrolimo de liberação prolongada), setembro de 2025; Portaria SECTICS/MS nº 81, de 07/10/2025.
  9. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998 (planos de saúde), art. 10, V e VI.
  10. U.S. Multicenter FK506 Liver Study Group, N Engl J Med, 1994;331(17):1110-1115. PMID 7523946.
  11. European FK506 Multicentre Liver Study Group, Lancet, 1994;344(8920):423-428. PMID 7520105.
  12. Pirsch JD et al., Transplantation, 1997;63(7):977-983. PMID 9112351.
  13. Ekberg H et al., N Engl J Med, 2007;357(25):2562-2575. PMID 18094377 (ELITE-Symphony; ClinicalTrials.gov NCT00231764).

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