Resumo rápido
- A pravastatina sódica é uma estatina: inibe a enzima HMG-CoA redutase, reduz o colesterol LDL e é usada em comprimido diário para reduzir o risco de infarto, revascularização e morte cardiovascular.
- Nos estudos WOSCOPS, CARE e LIPID, a dose de 40 mg reduziu o desfecho coronariano principal em 24% a 31% em relação ao placebo, em prevenção primária e secundária.
- É hidrofílica e pouco sujeita a interações pelo citocromo P450, mas tem, no máximo, intensidade moderada: após síndrome coronariana aguda, a atorvastatina de 80 mg protegeu mais no estudo PROVE IT-TIMI 22.
- O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque; os riscos principais são musculares, inclusive a rara rabdomiólise, e hepáticos. A FDA retirou a contraindicação na gravidez em 2022; a bula brasileira a mantém.
- No Brasil, o registro do Pravacol está inativo, e a pravastatina é vendida como genérico, com dois registros ativos; no SUS, está no Componente Especializado, nos critérios do protocolo de dislipidemia.
O que é a pravastatina (Pravacol)?
A pravastatina sódica é uma estatina de uso oral, em comprimidos. No Brasil, a marca original era o Pravacol, da Bristol-Myers Squibb, cujo registro (1.0180.0101) consta como inativo nos dados abertos da ANVISA, com vencimento em 04/2015; o Mevalotin e os similares antigos também estão inativos. Hoje, os registros ativos são de dois genéricos, da Accord e da Sanofi Medley.
A FDA aprovou o Pravachol em 31/10/1991 (NDA 019898), mas a marca saiu do mercado americano: o diário oficial dos EUA (Federal Register) registrou a descontinuação em 2015 (10 mg) e em 2023 (20, 40 e 80 mg), sem relação com segurança ou eficácia, e lá a pravastatina segue como genérico.
Apresentações
| Produto | Mercado | Concentrações |
|---|---|---|
| Genérico (Sanofi Medley) | Brasil | 10, 20 e 40 mg, caixas com 30 comprimidos |
| Genérico (Accord) | Brasil | 20 mg, caixa com 30 comprimidos (única apresentação na CMED) |
| Genéricos | Estados Unidos | 10, 20, 40 e 80 mg |
Mecanismo de ação
A pravastatina inibe de forma reversível a HMG-CoA redutase, enzima que limita a produção de colesterol no fígado. Com menos colesterol sintetizado, o fígado expressa mais receptores de LDL e retira mais LDL do sangue. O efeito máximo vem em cerca de 4 semanas; nos estudos de dose do rótulo americano, o LDL caiu 22% com 10 mg, 32% com 20 mg, 34% com 40 mg e 37% com 80 mg.
Ela é hidrofílica. A bula brasileira afirma que não é metabolizada pelo citocromo P450; no rótulo americano, o itraconazol aumentou sua exposição em só 11%. Mas é substrato do transportador OATP1B1, e alguns fármacos elevam muito sua exposição: a ciclosporina, em 282%, e a claritromicina, em 110%. Na versão preliminar do novo protocolo do SUS (2026), as doses de 10 a 20 mg são de baixa intensidade, e as de 40 a 80 mg, de intensidade moderada; nenhuma é de alta intensidade.
Indicações
Os suplementos americanos de 2020 e 2022 não trouxeram indicação nova.
Estados Unidos (FDA)
- Prevenção primária: reduzir o risco de infarto, revascularização e morte cardiovascular em adultos com LDL elevado, sem doença coronariana clinicamente evidente.
- Prevenção secundária: em adultos com doença coronariana clinicamente evidente, reduzir o risco de morte coronariana, infarto, revascularização, AVC ou ataque isquêmico transitório e retardar a progressão da aterosclerose coronariana.
- Dislipidemias, com dieta: reduzir o LDL na hiperlipidemia primária do adulto e na hipercolesterolemia familiar heterozigótica a partir de 8 anos; tratar a disbetalipoproteinemia primária e a hipertrigliceridemia em adultos.
União Europeia (EMA)
A pravastatina isolada não tem autorização centralizada. Em 2004, a arbitragem da EMA sobre o Pravachol e nomes associados, como Elisor (França) e Pravasin (Alemanha), fixou quatro indicações: hipercolesterolemia primária ou dislipidemia mista; prevenção primária na hipercolesterolemia moderada ou grave com alto risco de um primeiro evento cardiovascular; prevenção secundária após infarto ou angina instável; e hiperlipidemia após transplante de órgão sólido, sob imunossupressão. Em 14/04/2011, a União Europeia autorizou o Pravafenix (fenofibrato com pravastatina) para adultos de alto risco com hiperlipidemia mista e LDL já controlado com pravastatina de 40 mg; desde 10/2024, também com outra estatina de intensidade moderada.
Brasil (ANVISA)
Pela bula do genérico da Medley aprovada em 12/2024, a pravastatina é indicada, com dieta, na hipercolesterolemia e na dislipidemia; para reduzir o risco de infarto e de morte em quem tem colesterol alto sem doença do coração; após infarto ou angina instável; para retardar a progressão da aterosclerose; e após transplante de coração ou de rim, uso ausente no rótulo americano. O uso é adulto e pediátrico acima de 8 anos.
Evidências clínicas
Os quatro grandes estudos compararam pravastatina de 40 mg por dia com placebo; nenhum consta do ClinicalTrials.gov. HR é a razão de risco.
| Estudo (pacientes) | População | Desfecho principal | Resultado |
|---|---|---|---|
| WOSCOPS (6.595) | Homens de 45 a 64 anos, colesterol alto, sem infarto prévio | Infarto não fatal ou morte coronariana | 174 contra 248 eventos (redução de 31%) |
| CARE (4.159) | Após infarto, colesterol total abaixo de 240 mg/dL | Evento coronariano fatal ou infarto não fatal | 10,2% contra 13,2% (redução de 24%) |
| LIPID (9.014) | Infarto ou internação por angina instável prévios | Morte por doença coronariana | 6,4% contra 8,3% (redução de 24%) |
| PROSPER (5.804) | 70 a 82 anos, com doença vascular ou fatores de risco | Morte coronariana, infarto não fatal ou AVC | 408 contra 473 eventos (HR 0,85) |
No WOSCOPS (4,9 anos), a morte cardiovascular caiu 32% (p=0,033), e a queda de 22% na mortalidade geral não foi significativa (p=0,051). No CARE, o AVC caiu 31% (p=0,03), sem diferença significativa na mortalidade total. No LIPID (6,1 anos), a mortalidade total foi de 11,0% contra 14,1% (redução de 22%; p<0,001).
Idosos: PROSPER
Com seguimento médio de 3,2 anos, o LDL caiu 34%, e o desfecho principal diminuiu (HR 0,85; IC 95% 0,74 a 0,97; p=0,014), assim como morte coronariana ou infarto não fatal (HR 0,81); o risco de AVC não mudou (HR 1,03). Houve mais diagnósticos de câncer (HR 1,25; IC 95% 1,04 a 1,51), mas a metanálise dos autores com os estudos de pravastatina e de estatinas não mostrou aumento. A função cognitiva não foi afetada.
Crianças e comparação com atorvastatina
Na hipercolesterolemia familiar heterozigótica, em estudo com 214 pacientes de 8 a 18 anos, por 2 anos, a pravastatina reduziu o LDL em 24,07%, contra 1,52% com placebo (rótulo americano). Já o PROVE IT-TIMI 22 (NCT00382460), com 4.162 pacientes com síndrome coronariana aguda, buscava a não inferioridade da pravastatina de 40 mg e mostrou superioridade da atorvastatina de 80 mg: desfecho combinado em 2 anos de 26,3% contra 22,4% (redução de 16% na razão de risco, a favor da atorvastatina; p=0,005).
Posologia e administração
Comprimido por via oral, uma vez ao dia. A bula brasileira orienta tomar com água, independentemente das refeições e de preferência à noite, sem partir nem mastigar; o rótulo americano admite qualquer horário, com ou sem alimento.
- Adultos: no Brasil, 10 a 40 mg ao dia, com máximo de 40 mg (40 mg na prevenção cardiovascular). Nos EUA, início com 40 a 80 mg; se for preciso estatina de alta intensidade, troca-se o tratamento.
- Crianças com hipercolesterolemia familiar: no Brasil, 10 a 20 mg de 8 a 13 anos e 10 a 40 mg de 14 a 18; nos EUA, 20 e 40 mg.
- Rins e fígado: no Brasil, início com 10 mg na insuficiência renal moderada ou grave ou na hepática significativa; nos EUA, 10 mg na renal grave, até 40 mg.
- Interações: com ciclosporina, a bula brasileira inicia com 20 mg (como após transplante), e o rótulo americano, com 10 mg, até 20 mg; com claritromicina ou eritromicina, até 40 mg (FDA); com resinas, tomar 1 hora antes ou ao menos 4 horas depois.
Segurança
O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque. As contraindicações da FDA são insuficiência hepática aguda ou cirrose descompensada e hipersensibilidade; gravidez e amamentação saíram da lista em 05/2022. A bula brasileira contraindica doença ativa do fígado, alergia aos componentes, uso com ácido fusídico, gravidez, amamentação, mulheres que possam engravidar durante o tratamento e má-absorção de glicose-galactose.
Advertências principais
- Músculos: miopatia (dor ou fraqueza com CK acima de 10 vezes o limite) em menos de 0,1% nos estudos; a rabdomiólise é rara, mas pode lesar os rins. O risco cresce com 65 anos ou mais, hipotireoidismo não controlado, doença renal, dose maior e certas associações; há ainda a rara miopatia necrosante imunomediada. Sintomas musculares sem explicação devem ser relatados logo.
- Fígado: transaminases acima de 3 vezes o normal de forma persistente em cerca de 1%, tanto com pravastatina quanto com placebo; insuficiência hepática é rara.
- Glicemia: as estatinas podem elevar a hemoglobina glicada e a glicose de jejum.
- Bula brasileira: cita ainda doença pulmonar intersticial e miastenia.
Entre as mais comuns nos estudos curtos (FDA, contra placebo): náusea ou vômito (7,4% contra 7,1%), diarreia (6,7% contra 5,6%), dor de cabeça (6,3% contra 4,6%) e erupção na pele (4,5% contra 1,4%); 3,3% suspenderam por reação adversa, contra 1,2%.
Interações, gravidez e amamentação
A FDA manda evitar a genfibrozila e pesar o risco muscular com outros fibratos, niacina e colchicina; a bula brasileira recomenda evitar fibratos e pede controle do RNI com varfarina. Na gravidez, a FDA orienta suspender ao reconhecer a gestação, ou avaliar a necessidade individual, pois o mecanismo pode prejudicar o feto, embora décadas de dados observacionais não mostrem aumento de malformações maiores. Não se recomenda amamentar: o fármaco passa para o leite.
Como funciona o acesso no Brasil
A pravastatina sódica tem dois registros ativos na ANVISA, ambos de genéricos: 1.5537.0006 (Accord Farmacêutica Ltda., vencimento em 02/2028) e 1.8326.0106 (Sanofi Medley Farmacêutica Ltda., vencimento em 06/2029), nos dados abertos de 16/10/2026. Na Lista CMED de 09/10/2026, o comprimido de 20 mg da Accord e os de 10, 20 e 40 mg da Medley constam como comercializados em 2025, sem restrição hospitalar. Não é controlada pela Portaria SVS/MS nº 344/1998; a venda é sob prescrição. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, em farmácias, e a questão é quem paga.
No SUS
A pravastatina de 10, 20 e 40 mg está na Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024), no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, como a atorvastatina; a sinvastatina fica no Componente Básico e é a única estatina do programa Farmácia Popular para dislipidemias. O acesso segue os critérios de inclusão do PCDT da Dislipidemia (Portaria Conjunta nº 8, de 30/07/2019): doença aterosclerótica, risco acima de 10% em 10 anos pelo escore de Framingham, diabetes com outro fator de risco maior (homens acima de 45 anos e mulheres acima de 50) ou hiperlipidemia familiar. Em 04/09/2026, a Conitec decidiu levar à consulta pública um protocolo atualizado que mantém as três estatinas; a rosuvastatina não foi incorporada (Portaria SCTIE/MS nº 99/2025).
Nos planos de saúde
A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória o medicamento para tratamento domiciliar, salvo exceções como os antineoplásicos orais. A pravastatina, de uso oral em casa, não está entre elas.
Perguntas Frequentes
Preciso importar a pravastatina?
Em regra, não: há dois genéricos com registro ativo, e as concentrações de 10, 20 e 40 mg constam como comercializadas em 2025 na CMED. A de 80 mg, do rótulo americano, não consta da CMED, e a bula brasileira limita a dose a 40 mg por dia.
O Pravacol ainda é vendido?
Não há registro ativo do Pravacol: nos dados abertos da ANVISA, ele consta como inativo, com vencimento em 04/2015. O princípio ativo está nos genéricos da Accord e da Medley; a troca deve ser combinada com o médico.
Qual a diferença para outras estatinas?
Como, segundo a bula brasileira, não é metabolizada pelo citocromo P450, tem menos interações com inibidores do CYP3A4, como o itraconazol. Em compensação, a redução do LDL é moderada: pelo rótulo americano, quem precisa de estatina de alta intensidade deve usar outro tratamento.
Posso tomar pravastatina na gravidez?
A bula brasileira contraindica o uso na gravidez e na amamentação. Nos EUA, a contraindicação saiu do rótulo em 2022, mas a orientação é suspender ao reconhecer a gestação, salvo necessidade individual, e não amamentar.
Conclusão
A pravastatina é uma estatina hidrofílica, de intensidade moderada, que reduziu eventos coronarianos em prevenção primária e secundária e em idosos. No Brasil, há genéricos registrados e comercializados, e ela consta do Componente Especializado do SUS; o acesso não passa por importação.
Fontes
- FDA — Pravachol, rótulo revisado em 05/2022 (NDA 019898, S-070), Bristol-Myers Squibb; Drugs@FDA, aprovação em 31/10/1991; Federal Register 80 FR 42828 (20/07/2015) e 88 FR 7736 (06/02/2023); rótulo genérico da Accord Healthcare (DailyMed, ANDA 207068, versão de 11/2025).
- EMA — Pravachol e nomes associados, arbitragem do artigo 30 (CPMP/6214/03), decisão da Comissão Europeia de 02/03/2004; Pravafenix, EPAR, EMEA/H/C/001243, Laboratoires SMB S.A.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): pravastatina sódica 1.5537.0006 (Accord) e 1.8326.0106 (Sanofi Medley), ativos; Pravacol 1.0180.0101 e Mevalotin 1.0454.0047, inativos.
- CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: pravastatina sódica 20 mg (Accord) e 10, 20 e 40 mg (Sanofi Medley), comercializadas em 2025.
- Sanofi Medley — Pravastatina sódica (genérico), bula do paciente aprovada pela ANVISA em 04/12/2024; registro 1.8326.0106.
- Ministério da Saúde — Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324, de 26/12/2024); Portaria Conjunta nº 8, de 30/07/2019 (PCDT da Dislipidemia).
- Conitec — Relatório preliminar do novo PCDT da Dislipidemia (09/2026); Portaria SCTIE/MS nº 99, de 26/12/2025.
- Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, arts. 10 e 12.
- Shepherd J et al., N Engl J Med, 1995;333(20):1301-1307. PMID 7566020 (WOSCOPS).
- Sacks FM et al., N Engl J Med, 1996;335(14):1001-1009. PMID 8801446 (CARE).
- LIPID Study Group, N Engl J Med, 1998;339(19):1349-1357. PMID 9841303 (LIPID).
- Shepherd J et al., Lancet, 2002;360(9346):1623-1630. PMID 12457784 (PROSPER).
- Cannon CP et al., N Engl J Med, 2004;350(15):1495-1504. PMID 15007110 (PROVE IT-TIMI 22; ClinicalTrials.gov NCT00382460).
Sobre a Medicsupply
Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.
Precisa de mais informações sobre este medicamento?
Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.
Fale com nossa equipe pelo WhatsApp
Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.
