Oncaspar (pegaspargase): asparaginase peguilada na leucemia linfoblástica aguda

Resumo rápido

  • O Oncaspar (pegaspargase) é a L-asparaginase de E. coli ligada a polietilenoglicol, aplicada por via intramuscular ou intravenosa a cada 14 dias, só em hospital; tem registro ativo na ANVISA (1.1278.0076, Servier).
  • É parte da quimioterapia combinada da leucemia linfoblástica aguda (LLA), em crianças e adultos; nos EUA, na primeira linha e após alergia à asparaginase nativa.
  • No estudo CCG-1962, com 118 crianças, uma dose por fase deu depleção de asparagina semelhante à de 6 a 9 injeções da asparaginase nativa; a meia-vida foi de 5,5 dias, contra 26 horas.
  • Não há quadro de advertência em destaque nos EUA; as bulas contraindicam o uso em caso de pancreatite prévia (inclusive por asparaginase), trombose ou hemorragia grave com asparaginase, alergia grave ao produto ou insuficiência hepática grave.
  • No Brasil, a solução de 750 U/mL consta como comercializada em 2025 (CMED), com restrição hospitalar. A compra é institucional: no SUS, do hospital habilitado em oncologia; nos planos, pela cobertura de quimioterapia.

O que é Oncaspar (pegaspargase)?

Oncaspar é o nome comercial da pegaspargase, a L-asparaginase de Escherichia coli ligada de forma covalente a monometoxipolietilenoglicol (de 69 a 82 moléculas por enzima, pelo rótulo americano). É um biológico de uso hospitalar, em solução injetável de 750 U/mL (frasco de 5 mL, 3.750 U) ou pó liofilizado de 3.750 U, para uso intramuscular ou intravenoso.

A FDA o aprovou em 01/02/1994 (BLA 103411), ampliou a indicação para a primeira linha em 24/07/2006 e, em 01/2019, passou a especificar pacientes pediátricos e adultos, com dose própria acima dos 21 anos. A União Europeia o autorizou em 14/01/2016; hoje, com a Les Laboratoires Servier como titular, autoriza só o pó liofilizado. No Brasil, o registro ativo é o 1.1278.0076, da Servier; os anteriores, da Baxalta e da Shire, estão inativos.

Mecanismo de ação

A L-asparaginase quebra o aminoácido L-asparagina do sangue em ácido aspártico e amônia. Células leucêmicas com pouca asparagina sintetase dependem da asparagina circulante; sem ela, a síntese de proteínas, DNA e RNA é inibida e essas células entram em apoptose. As células normais, que produzem a própria asparagina, são menos afetadas.

A peguilação não altera a ação da enzima, mas muda a farmacocinética e a imunogenicidade: após injeção intramuscular única, a meia-vida plasmática foi de 5,7 dias, contra 1,3 dia da asparaginase nativa de E. coli e 0,65 dia da de Erwinia. Com 2.500 U/m², a depleção de asparagina dura cerca de duas semanas; atividade sérica de ao menos 0,1 U/mL é o patamar considerado terapêutico no DFCI 11-001.

Indicações

Nas três agências, a pegaspargase é parte de um esquema com vários quimioterápicos contra a LLA, e nenhuma bula consultada a indica para outro câncer.

Estados Unidos (FDA)

Rótulo de 10/2024, em pacientes pediátricos e adultos: primeira linha da LLA e LLA com hipersensibilidade às formas nativas de L-asparaginase, como parte de quimioterapia com múltiplos agentes.

União Europeia (EMA) e Brasil (ANVISA)

Na União Europeia, componente da terapia antineoplásica combinada da LLA do nascimento aos 18 anos e em adultos. A bula brasileira, aprovada em 14/08/2024, tem o mesmo escopo, para uso adulto e pediátrico, sem separar primeira linha e recaída.

Evidências clínicas

CCG-1962: primeira linha

Estudo aberto e randomizado com 118 crianças de 1 a 9 anos com LLA de risco padrão recém-diagnosticada: pegaspargase 2.500 U/m² intramuscular uma vez na indução e em cada uma das duas intensificações tardias, contra asparaginase nativa de E. coli 6.000 U/m² três vezes por semana (9 doses na indução e 6 por intensificação). O desfecho principal, depleção da asparagina sérica a 1 µM ou menos, foi semelhante.

Na publicação, a pegaspargase eliminou os blastos da medula mais depressa nos dias 7 e 14. O estudo não foi desenhado para comparar sobrevida: pelo resumo europeu, a sobrevida livre de eventos em 3, 5 e 7 anos foi de 83%, 78% e 75%, contra 79%, 73% e 66%.

Pacientes com alergia à asparaginase nativa

Pelo rótulo americano, quatro estudos abertos trataram 42 pacientes com leucemia aguda em múltiplas recaídas (93% com LLA) e alergia prévia à asparaginase: a resposta na reindução foi de 50% (IC 95% 35%–65%), com 36% de remissões completas e 14% de parciais. Entre 62 pacientes com recaída e alergia prévia, 32% reagiram também à pegaspargase, contra 10% de 112 sem alergia anterior.

Estudos com a via intravenosa

Em estudos mais recentes, a pegaspargase intravenosa foi o comparador da calaspargase pegol (doença residual pelas bulas europeia e brasileira); o DFCI 05-001 comparou a peguilada intravenosa à nativa intramuscular.

Estudo Desenho Resultados
AALL07P4 (NCT00671034) Piloto randomizado; 166 pacientes de até 30 anos com LLA B de alto risco, 54 com pegaspargase Doença residual negativa no dia 29 em 80% (40/50); em 4 anos, sobrevida livre de eventos de 81,8% e global de 90,4%
DFCI 11-001 (NCT01574274) Fase 2 randomizado; 239 pacientes de 1 a 21 anos; pegaspargase a cada 2 semanas contra calaspargase pegol a cada 3 Doença residual baixa ao fim da indução em 87,9% (80/91); sobrevida livre de eventos em 5 anos de 84,9% contra 88,1% (p=0,65)
DFCI 05-001 (NCT00400946) Fase 3 aberto; 463 crianças de 1 a 18 anos em remissão; peguilada intravenosa (2.500 UI/m² a cada 2 semanas) contra nativa intramuscular (25.000 UI/m² por semana) Toxicidade da asparaginase em 28% contra 26% (p=0,60); sobrevida livre de doença em 5 anos de 90% contra 89% (p=0,58); menos ansiedade com a via intravenosa

Posologia e administração

Só em hospital, por equipe experiente em antineoplásicos e com equipamento de reanimação. Pelas bulas americana, europeia e brasileira:

  • Até 21 anos: 2.500 U/m² a cada 14 dias; nas bulas europeia e brasileira, abaixo de 0,6 m² de superfície corporal, 82,5 U/kg.
  • Acima de 21 anos: 2.000 U/m² a cada 14 dias.
  • Vias: intramuscular, até 2 mL por local (3 mL em adultos, pelo resumo europeu), ou infusão intravenosa de 1 a 2 horas em 100 mL de soro fisiológico ou glicose a 5%, numa linha já em uso e sem outros medicamentos.
  • Pré-medicação: paracetamol, anti-histamínico H1 (como a difenidramina) e bloqueador H2 (como a famotidina), de 30 a 60 minutos antes; depois, observação por 1 hora.
  • Exames: pelo rótulo americano, bilirrubina, transaminases e glicose ao menos semanalmente, e as provas de fígado também antes de cada dose e até 6 semanas após a última; pelo resumo europeu, também coagulação, amilase e lipase.
  • Atividade da asparaginase: pelas bulas europeia e brasileira, pode-se acompanhar a atividade sérica mínima antes da dose seguinte; fora do alvo, considera-se outra preparação.
  • Conservação: geladeira (2 a 8 °C), sem congelar; a solução não pode ser agitada e, pela bula brasileira, vale 8 meses, contra 36 meses do pó.
  • Ajustes (rótulo americano): alergia de grau 3 ou 4, trombose grave e pancreatite confirmada levam à suspensão definitiva; bilirrubina de 3 a 10 vezes o limite superior pede pausa até 1,5 vez, e acima de 10 vezes, suspensão.

Segurança

O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque. Contraindicações nas bulas americana e brasileira: hipersensibilidade grave, inclusive anafilaxia, ao produto ou aos excipientes (na bula do pó e no resumo europeu, de qualquer grau); trombose grave ou hemorragia grave com L-asparaginase prévia; história de pancreatite, inclusive pela L-asparaginase; e insuficiência hepática grave, que o resumo europeu define como bilirrubina acima de 3 vezes ou transaminases acima de 10 vezes o limite superior.

Advertências principais

  • Alergia e anafilaxia: risco maior em quem já reagiu às asparaginases de E. coli; a reação grave obriga a suspender.
  • Trombose e sangramento: tromboses graves, inclusive do seio sagital, e alterações da coagulação, com queda de fibrinogênio e de antitrombina III.
  • Pâncreas e glicose: pancreatite, inclusive hemorrágica ou necrosante e fatal, que impede retomar o medicamento; a intolerância à glicose pode ser irreversível.
  • Fígado: hepatotoxicidade e doença veno-oclusiva hepática, incluída pela FDA em 03/2024 como alerta de toda a classe; o risco hepático pode ser maior na LLA Ph+ tratada com inibidores de tirosina quinase, como o imatinibe.
  • Sistema nervoso: sonolência, confusão, convulsões e encefalopatia, inclusive por excesso de amônia, que pode ser grave sobretudo em adultos mais velhos.

No DFCI 11-001, os eventos mais comuns de grau 3 ou maior com a pegaspargase foram elevação de transaminases (66%), neutropenia febril (40%), triglicerídeos altos (30%), albumina baixa (28%), bilirrubina elevada (25%), hiperglicemia e pancreatite, incluída a elevação de enzimas pancreáticas (24% cada).

Interações, gravidez e amamentação

A pegaspargase pode aumentar a exposição à dexametasona e o risco de osteonecrose por corticoide em crianças e adolescentes, maior em meninas; pelo resumo europeu, a vincristina vem ao menos 12 horas antes, e anticoagulantes e anti-inflamatórios pedem cautela. Vacinas vivas, só 3 meses após o fim do tratamento da leucemia. Pode causar dano ao feto: o rótulo americano pede teste de gravidez, contracepção não hormonal até 3 meses após a última dose e não amamentar até 1 mês depois; as bulas europeia e brasileira, contracepção eficaz para homens e mulheres por ao menos 6 meses, sem anticoncepcional oral.

Como funciona o acesso no Brasil

O Oncaspar tem registro ativo na ANVISA (1.1278.0076, Laboratórios Servier do Brasil, vencimento em 06/2027). Na lista da CMED de 09/10/2026, a solução de 750 U/mL consta como comercializada em 2025, com restrição hospitalar; o pó liofilizado não teve comercialização em 2025. A compra é institucional, do hospital ou serviço que trata a LLA; nas falhas de suprimento mundial de 2023 a 2025, a ANVISA autorizou a Servier a importar lotes com rótulo estrangeiro.

No SUS

As diretrizes do Ministério da Saúde para a LLA cromossomo Philadelphia positivo (Portarias Conjuntas nº 11/2021, de crianças e adolescentes, e nº 21/2021, do adulto) descrevem o modelo: tratamento em hospitais habilitados em oncologia; o imatinibe é comprado pelo Ministério, e os outros medicamentos contra a LLA previstos nos protocolos do hospital são padronizados, adquiridos e fornecidos por ele, que registra o tratamento em procedimentos de quimioterapia da tabela do SUS, como o 03.04.07.006-8 (primeira linha na infância e adolescência). Por essa regra, a pegaspargase é adquirida pelo serviço onde se faz a quimioterapia.

Nos planos de saúde

A pegaspargase entra na cobertura de quimioterapia. Na segmentação ambulatorial, a RN nº 465/2021 da ANS (art. 18, IX) inclui a quimioterapia oncológica ambulatorial: medicamentos contra o câncer que, qualquer que seja a via, precisam ser aplicados sob supervisão de profissionais em estabelecimento de saúde, conforme prescrição do médico assistente. Nos planos só hospitalares, a resolução cobre a internação e, ligada à continuidade dela, a quimioterapia ambulatorial (art. 19, X). Uma negativa é questão de custeio, não de importação, e pede orientação médica e jurídica individualizada.

Perguntas Frequentes

O Oncaspar é a mesma coisa que a asparaginase comum?

Não. Ambos são L-asparaginase de E. coli, mas no Oncaspar a enzima é ligada a polietilenoglicol, o que prolonga a meia-vida e permite uma aplicação a cada 14 dias, em vez de injeções de uma a três vezes por semana. A potência em unidades não é comparável entre preparações.

O Oncaspar pode ser aplicado em casa?

Não. As bulas restringem o uso a hospitais ou estabelecimentos de saúde com equipamento de reanimação, com pré-medicação e observação por 1 hora, pelo risco de anafilaxia.

O que acontece em caso de alergia à pegaspargase?

Na reação grave, o Oncaspar é suspenso de vez. Anticorpos também podem reduzir a atividade da enzima sem reação aparente (inativação silenciosa); um consenso internacional de 2016 orienta dosar a atividade sérica e trocar de preparação, entre as de E. coli e a de Erwinia chrysanthemi. No Brasil, a outra asparaginase com registro ativo é a Spectrila (1.0188.0214, Steincares), e os dados abertos da ANVISA não mostram registro de asparaginase de Erwinia. A escolha é da equipe de oncologia.

Adultos também podem receber o Oncaspar?

Sim. As três bulas incluem adultos; acima de 21 anos, a dose é de 2.000 U/m² a cada 14 dias. Os dados acima dos 65 anos são limitados.

Preciso importar o Oncaspar?

Em regra, não: tem registro ativo e uso hospitalar, e quem compra é o serviço que trata a LLA, com custeio do SUS ou do plano (cobertura de quimioterapia).

Conclusão

A pegaspargase é uma asparaginase peguilada usada na quimioterapia combinada da leucemia linfoblástica aguda, em crianças e adultos, aplicada em hospital a cada 14 dias. Exige pré-medicação, observação e monitoramento de fígado, pâncreas, glicose e coagulação. No Brasil, tem registro ativo e é adquirida pelos serviços de oncologia.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Oncaspar (pegaspargase) (DailyMed), Servier Pharmaceuticals LLC, versão 13, de 10/2024; setid ac7b6a6f-6ddb-48c6-8088-d8a8e3fea6ce.
  2. FDA, Drugs@FDA — BLA 103411 (Oncaspar): aprovação em 01/02/1994; suplementos S-5052 (24/07/2006), S-5196 (03/01/2019) e S-5207 (13/03/2024).
  3. EMA — Oncaspar, EPAR, EMEA/H/C/003789 (pó para solução injetável ou para perfusão, EU/1/15/1070/002).
  4. ANVISA — Bulas profissionais de Oncaspar 750 U/mL solução injetável e 3.750 U pó liofilizado (Laboratórios Servier do Brasil), aprovadas em 14/08/2024.
  5. ANVISA — Dados abertos e lista CMED, consulta em 09/10/2026: Oncaspar 1.1278.0076 (Servier, ativo, vencimento 06/2027); 1.5628.0010 (Baxalta) e 1.6979.0012 (Shire), inativos; Spectrila 1.0188.0214 (Steincares, ativo).
  6. ANVISA, Diretoria Colegiada — importação excepcional de Oncaspar com rotulagem estrangeira: CD 557/2023, CD 1.445/2024, CD 496/2025 e CD 1.106/2025, de 14/10/2025.
  7. Ministério da Saúde — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da LLA cromossoma Philadelphia positivo de crianças e adolescentes (Portaria Conjunta nº 11, de 02/07/2021) e do adulto (Portaria Conjunta nº 21, de 10/12/2021).
  8. ANS — Resolução Normativa nº 465, de 24 de fevereiro de 2021 (DOU de 02/03/2021), art. 18, IX, e art. 19, X.
  9. Avramis VI et al., Blood, 2002;99(6):1986-1994. PMID 11877270 (CCG-1962).
  10. Angiolillo AL et al., J Clin Oncol, 2014;32(34):3874-3882. PMID 25348002 (AALL07P4; ClinicalTrials.gov NCT00671034).
  11. Vrooman LM et al., J Clin Oncol, 2021;39(31):3496-3505. PMID 34228505 (DFCI 11-001; ClinicalTrials.gov NCT01574274).
  12. Place AE et al., Lancet Oncol, 2015;16(16):1677-1690. PMID 26549586 (DFCI 05-001; ClinicalTrials.gov NCT00400946).
  13. van der Sluis IM et al., Haematologica, 2016;101(3):279-285. PMID 26928249.

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