Livmarli (maralixibate): inibidor do IBAT para o prurido colestático na síndrome de Alagille e na colestase intra-hepática familiar progressiva (CIFP)

Resumo rápido

  • O Livmarli é o maralixibate, da Mirum Pharmaceuticals: inibidor oral do transportador ileal de ácidos biliares (IBAT) para o prurido (coceira) colestático da síndrome de Alagille e da colestase intra-hepática familiar progressiva (CIFP).
  • Nos Estados Unidos, vale a partir de 3 meses na síndrome de Alagille e de 12 meses na CIFP; na União Europeia, a partir de 2 e 3 meses; no Brasil, só na síndrome de Alagille, a partir de 2 meses.
  • No MARCH-PFIC (fase 3), o prurido matinal caiu 1,7 ponto com maralixibate e 0,6 com placebo no grupo principal; no ICONIC, quem passou ao placebo voltou ao prurido inicial.
  • O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque, contraindica o uso após descompensação do fígado e pede provas hepáticas e dosagem de vitaminas lipossolúveis.
  • Só a solução de 9,5 mg/mL tem registro na ANVISA (1.8977.0007, Biopas), e a lista da CMED não aponta comercialização em 2025; a de 19 mg/mL e os comprimidos não têm registro.

O que é Livmarli (maralixibate)?

Livmarli é a marca do maralixibate (cloreto de maralixibate, na ANVISA), de uso oral, em solução de 9,5 ou 19 mg/mL e em comprimidos de 10 a 30 mg. A FDA o aprovou em 29/09/2021, como nova molécula e medicamento órfão; a União Europeia, em 09/12/2022, sob circunstâncias excepcionais (dados incompletos pela raridade da doença). No Brasil, o registro 1.8977.0007, da Biopas Brasil Produtos Farmacêuticos Ltda., saiu em 13/01/2025 e vence em 01/2035.

A síndrome de Alagille e a CIFP

Segundo a ANVISA, a síndrome de Alagille é genética e autossômica dominante, atinge de 1 em 70.000 a 1 em 100.000 recém-nascidos e, no fígado, vai de colestase leve com prurido à falência hepática; no ICONIC, todos tinham mutação no gene JAG1. A CIFP reúne doenças autossômicas recessivas do transporte da bile, com icterícia, prurido intenso e risco de cirrose; com prurido intenso, costuma-se indicar a derivação biliar cirúrgica e, sem resposta, o transplante. O tipo mais comum é a deficiência de BSEP (tipo 2).

Mecanismo de ação

O maralixibate bloqueia, de forma reversível, o IBAT, proteína que reabsorve os ácidos biliares no íleo terminal (fim do intestino delgado). Menos ácido biliar volta ao fígado, e o nível no sangue cai; o mecanismo exato da melhora do prurido não é totalmente conhecido. A absorção é mínima.

Indicações

Apresentação Estados Unidos (FDA) União Europeia (EMA) Brasil (ANVISA)
Solução oral de 9,5 mg/mL Síndrome de Alagille Alagille e CIFP Registrada: Alagille, a partir de 2 meses
Solução oral de 19 mg/mL CIFP Alagille e CIFP Sem registro
Comprimidos de 10, 15, 20 e 30 mg Alagille e CIFP, a partir de 25 kg Alagille e CIFP, a partir de 12 anos Sem registro

Estados Unidos (FDA)

Pelo rótulo vigente (revisão de 04/2025), o prurido colestático é indicação na síndrome de Alagille a partir de 3 meses e na CIFP a partir de 12 meses (desde 24/07/2024, com a solução de 19 mg/mL); comprimidos desde 10/04/2025. Não é recomendado num subgrupo da CIFP tipo 2 com variantes do gene ABCB11 que deixam a BSEP ausente ou sem função.

União Europeia (EMA)

Como EMEA/H/C/005857 (Mirum Pharmaceuticals International B.V.), a solução é indicada no prurido colestático da síndrome de Alagille a partir de 2 meses e, desde 28/06/2024, na CIFP a partir de 3 meses; os comprimidos, desde 18/02/2026, valem a partir de 12 anos nas duas doenças.

Brasil (ANVISA)

A ANVISA registrou só a solução de 9,5 mg/mL, para o prurido colestático na síndrome de Alagille a partir de 2 meses. A CIFP não faz parte da indicação brasileira; para ela, o inibidor do IBAT registrado no país é o odevixibate (Bylvay, 1.6977.0005), aprovado em 2023 a partir de 6 meses e com nova indicação em 12/2024.

Evidências clínicas

ICONIC: síndrome de Alagille

Estudo de fase 2b (NCT02160782) com 31 crianças de 1 a 15 anos, ácidos biliares mais de três vezes acima do normal e prurido intratável. Após 18 semanas de maralixibate aberto (380 µg/kg por dia), 29 foram sorteadas para mantê-lo (13) ou passar ao placebo (16) por 4 semanas. O desfecho principal, a variação dos ácidos biliares nesse período em quem tivera queda de ao menos 50%, foi atingido (diferença de −117 µmol/L; IC 95% −232 a −2). No prurido (escala ItchRO(Obs), de 0 a 4, relatada pelo cuidador), o grupo placebo voltou ao nível inicial: 3,0 contra 1,6 com maralixibate na semana 22 (diferença de −1,4; IC 95% −2,1 a −0,8).

MARCH-PFIC: colestase intra-hepática familiar progressiva

Estudo de fase 3, duplo-cego (NCT03905330): 93 participantes de 1 a 17 anos receberam maralixibate até 570 µg/kg duas vezes ao dia (47) ou placebo (46) por 26 semanas. O desfecho principal foi o prurido matinal (ItchRO(Obs)) nas semanas 15 a 26 no grupo com deficiência de BSEP não truncada.

Maralixibate contra placebo Deficiência de BSEP (31) CIFP tipos 1, 2, 3, 4 e 6 (64)
Variação do prurido matinal −1,7 contra −0,6 −1,8 contra −0,6
Diferença (IC 95%) −1,1 (−1,8 a −0,3); p=0,0063 −1,2 (−1,7 a −0,7); p<0,0001

No grupo BSEP, os ácidos biliares caíram 176 µmol/L, contra alta de 11 µmol/L com placebo (p=0,0013); com BSEP truncada ou ausente, o prurido não melhorou. Eventos graves ocorreram em 11% contra 7%, sem morte ligada ao tratamento no período controlado. Os dois estudos foram financiados pela Mirum.

Posologia e administração

Via oral, 30 minutos antes de uma refeição, pelo rótulo americano; na bula europeia da solução e na página da ANVISA, até 30 minutos antes ou durante a refeição, de preferência pela manhã. Doses pela FDA:

  • Síndrome de Alagille: solução de 9,5 mg/mL ou comprimidos; 190 µg/kg uma vez ao dia na primeira semana e, depois, 380 µg/kg, até 28,5 mg (3 mL) por dia com a solução ou 30 mg com comprimidos.
  • CIFP: solução de 19 mg/mL ou comprimidos; 285 µg/kg uma vez ao dia, subindo para 285, 428 e 570 µg/kg duas vezes ao dia, conforme a tolerância, até 38 mg (2 mL) por dia com a solução ou 40 mg com comprimidos. As duas concentrações não se substituem.
  • Comprimidos: nos Estados Unidos, a partir de 25 kg, para quem consegue engolir; na Europa, a partir de 12 anos.
  • Conservação: sem geladeira (20 a 25 °C); aberto, o frasco fica abaixo de 30 °C e é descartado após 100 dias.

Segurança

O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque. A única contraindicação é a descompensação hepática atual ou prévia, como sangramento de varizes, ascite ou encefalopatia. Na Europa, são contraindicações a hipersensibilidade e, na CIFP, a insuficiência hepática grave (com a solução de 9,5 mg/mL, também a renal grave).

Advertências principais

  • Fígado: pode causar lesão hepática; no programa da CIFP, houve quatro casos (dois na fase controlada e dois na extensão), com um transplante e uma morte. Provas no início e frequentes nos primeiros 6 a 8 meses; suspensão definitiva se a alteração persistir ou voltar, ou se houver descompensação.
  • Intestino: diarreia persistente ou com sangue, vômitos, desidratação ou febre pedem redução da dose ou pausa.
  • Vitaminas A, D, E e K: dosagem no início e periódica, com reposição; fratura ou sangramento podem exigir pausa.
  • Propilenoglicol: a solução contém 364,5 mg/mL; abaixo de 5 anos, o risco de toxicidade (hemólise, acidose metabólica, lesão renal) é maior.
  • Vias biliares: na CIFP, houve colangite ou colecistite, inclusive logo após a suspensão.

No MARCH-PFIC, diarreia (57% contra 20%, em geral leve), dor abdominal (28% contra 15%), aumento de transaminases (17% contra 6,5%) e fraturas (6% contra nenhuma) foram mais comuns com maralixibate; na síndrome de Alagille (86 pacientes, quase sempre sem placebo), lideraram diarreia (56%), dor abdominal (54%) e vômitos (41%).

Interações, gravidez e amamentação

Colestiramina, colesevelam e colestipol devem ficar ao menos 4 horas antes ou depois do maralixibate, que pode reduzir a absorção de remédios dependentes do transportador OATP2B1, como estatinas. Na gravidez, a baixa absorção não deve expor o feto de forma mensurável, mas a reposição de vitaminas pode precisar de reforço; na amamentação, não se espera exposição do bebê.

Situação regulatória e como funciona o acesso

Na consulta de 09/10/2026 aos dados abertos da ANVISA, o Livmarli tem registro ativo (1.8977.0007, Biopas, vencimento em 01/2035) só para a solução de 9,5 mg/mL. A lista da CMED de 09/10/2026 traz a apresentação sem comercialização em 2025, como as do Bylvay. A disponibilidade atual deve ser verificada com o detentor do registro.

No SUS e nos planos de saúde

Não há recomendação da Conitec sobre o maralixibate (planilha de 15/06/2026) nem PCDT para a síndrome de Alagille ou a CIFP. Em 2025, o Ministério da Saúde publicou avisos para comprar a solução de 9,5 mg/mL “por força de determinação judicial” (DOU de 23/05, 13/06, 18/07 e 02/10/2025). Nos planos, a Lei 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos de uso domiciliar, salvo os antineoplásicos orais. Para o produto registrado, negativas abrem discussão de custeio, administrativa e, se preciso, judicial, e não de importação, com negativa por escrito e relatório médico; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Compra judicial: só para as apresentações sem registro

Para a solução de 19 mg/mL e os comprimidos, vale o Tema 500 do STF (RE 657.718): em regra, a falta de registro na ANVISA impede o fornecimento por decisão judicial; a exceção exige mora irrazoável da agência, pedido de registro no Brasil (salvo órfãos para doenças raras e ultrarraras), registro em renomadas agências no exterior e falta de substituto terapêutico registrado no país, com ação contra a União. Pelo Tema 990 do STJ, os planos não são obrigados a fornecer medicamento sem registro na ANVISA. Cada caso exige orientação jurídica individualizada, sem garantia de resultado; a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Para as apresentações sem registro no Brasil (solução de 19 mg/mL e comprimidos), a Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos: conversa com um especialista, orientação sobre as normas da ANVISA e os documentos e condução da importação com fornecedores licenciados na origem, com produto rastreável até o fabricante. O processo corre sempre em nome do paciente, começa pela receita médica e é acompanhado até a entrega. Prazos médios:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional (maioria dos casos); DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, do Siscomex, que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP).
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; havendo equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada; sem canal na América do Sul.

Perguntas Frequentes

O Livmarli é vendido no Brasil?

Tem registro desde 01/2025, só na solução de 9,5 mg/mL, para a síndrome de Alagille, mas a lista da CMED não aponta comercialização em 2025; a solução de 19 mg/mL e os comprimidos não têm registro.

O maralixibate é indicado para a CIFP no Brasil?

Não. A indicação existe nos Estados Unidos (a partir de 12 meses) e na União Europeia (a partir de 3 meses); no Brasil, o inibidor do IBAT registrado para a CIFP é o odevixibate (Bylvay).

O SUS ou o plano de saúde fornecem o maralixibate?

Não há recomendação da Conitec nem PCDT, e o Ministério da Saúde já publicou avisos para comprá-lo por determinação judicial; nos planos, a lei exclui os medicamentos de uso domiciliar que não sejam antineoplásicos orais. Pedidos de custeio exigem orientação individualizada, sem garantia de resultado.

Quais exames acompanham o tratamento?

Provas de fígado (ALT, AST, bilirrubinas e INR) e vitaminas A, D, E e K antes do início, com provas frequentes nos primeiros 6 a 8 meses. Diarreia persistente, sangue nas fezes, fraturas e sangramentos devem ser comunicados.

Conclusão

O maralixibate, inibidor oral do IBAT, reduziu o prurido e os ácidos biliares em estudos controlados na síndrome de Alagille e na CIFP, com diarreia frequente e vigilância do fígado e das vitaminas. No Brasil, só a solução de 9,5 mg/mL é registrada, e a CMED não aponta comercialização em 2025; para as apresentações sem registro, e para a registrada se seguir indisponível, a Medicsupply pode assessorar a importação com receita. A indicação cabe à equipe médica.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Livmarli (maralixibate) (DailyMed), Mirum Pharmaceuticals Inc., revisão 04/2025; setid 64000394-1ef6-4e76-8ba8-11f25ba1b167.
  2. FDA, Drugs@FDA — NDA 214662 (solução oral; 29/09/2021; suplementos S-004, S-005, S-009 e S-010) e NDA 219485 (comprimidos; 10/04/2025).
  3. EMA — Livmarli, EPAR, EMEA/H/C/005857: II/0003/G (decisão de 28/06/2024) e X/0015 (decisão de 18/02/2026).
  4. ANVISA — Livmarli® (maralixibate): novo registro, 13/01/2025; Resolução-RE nº 100, de 09/01/2025.
  5. ANVISA — Bylvay® (odevixibate): novo registro, 14/06/2023; Resolução-RE nº 4.517, de 05/12/2024 (nova indicação).
  6. ANVISA — Dados abertos de medicamentos, consulta em 09/10/2026: Livmarli 1.8977.0007 (Biopas, ativo, vence em 01/2035); Bylvay 1.6977.0005 (Beaufour Ipsen, ativo).
  7. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Livmarli 9,5 mg/mL e Bylvay sem comercialização em 2025.
  8. Ministério da Saúde — Avisos de chamamento público e de dispensa por determinação judicial (DOU, seção 3, de 23/05, 13/06, 18/07 e 02/10/2025): maralixibato 9,5 mg/mL.
  9. Conitec — Recomendações (planilha de 15/06/2026) e lista de PCDT (atualizada em 14/09/2026).
  10. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, art. 10, VI, e art. 12.
  11. Gonzales E et al., Lancet, 2021;398(10311):1581-1592. PMID 34755627 (ICONIC; ClinicalTrials.gov NCT02160782).
  12. Miethke AG et al., Lancet Gastroenterol Hepatol, 2024;9(7):620-631. PMID 38723644 (MARCH-PFIC; ClinicalTrials.gov NCT03905330).

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