Kalydeco (ivacaftor): potencializador da CFTR para fibrose cística com mutações responsivas

Resumo rápido

  • O Kalydeco (ivacaftor) é um potencializador oral da proteína CFTR; nos Estados Unidos, é indicado a partir de 1 mês na fibrose cística com ao menos uma das 97 mutações responsivas do rótulo.
  • Nos estudos de fase 3 STRIVE e ENVISION (mutação G551D), o VEF1 ficou 10,6 e 12,5 pontos percentuais acima do placebo até a semana 24.
  • Sem alerta em destaque, o rótulo americano ganhou advertências de hipertensão intracraniana (09/2025) e de eventos neuropsiquiátricos, inclusive pensamentos suicidas (03/2026).
  • Pelo PCDT de 2024, o SUS fornece o comprimido de 150 mg a partir de 6 anos e 25 kg, com uma de nove mutações de gating.
  • Os registros na ANVISA estão ativos, mas o granulado infantil não foi comercializado em 2025; só ele e os sachês fora do registro abrem espaço para importação.

O que é Kalydeco (ivacaftor)?

Kalydeco é o nome comercial do ivacaftor, da Vertex, em comprimido revestido de 150 mg e granulado oral em sachês. A FDA aprovou o comprimido em 31/01/2012 (NDA 203188) e o granulado em 17/03/2015 (NDA 207925); a União Europeia, em 23/07/2012. No Brasil, o comprimido foi registrado em 09/2018 e o granulado, em 07/2023.

O ivacaftor também integra Orkambi (com lumacaftor), Symdeko (com tezacaftor) e Trikafta (com elexacaftor e tezacaftor), registrados no país; nas embalagens brasileiras de Symdeko e Trikafta, a dose de ivacaftor da noite já vem junto.

Mecanismo de ação

A fibrose cística decorre de mutações no gene CFTR, que codifica um canal de cloreto das células epiteliais de vários órgãos; o defeito espessa as secreções e eleva o cloreto no suor, base do teste diagnóstico. Nas mutações de classe III, de abertura do canal (gating), como a G551D, a proteína chega à membrana, mas não é ativada.

O ivacaftor aumenta a probabilidade de abertura do canal que já está na superfície; sem proteína na membrana, como com duas mutações de classe I, não se espera resposta.

Indicações

Uso Estados Unidos (FDA) União Europeia (EMA)
Isolado A partir de 1 mês, com mutação responsiva por dados clínicos ou de laboratório (97 listadas) R117H ou uma de nove mutações de gating: comprimido a partir de 6 anos e 25 kg; granulado a partir de 1 mês, de 3 a menos de 25 kg
Combinado Não previsto no rótulo Com tezacaftor/ivacaftor (6 anos ou mais; F508del nas duas cópias ou com uma de 14 mutações) ou ivacaftor/tezacaftor/elexacaftor (2 anos ou mais; uma mutação que não seja de classe I)

No Brasil, em 2020, a bula indicava o ivacaftor a partir de 6 anos e 25 kg com uma de nove mutações de gating e, a partir de 18 anos, com a R117H; depois, a ANVISA aprovou ampliação de uso do comprimido (07/2023) e nova indicação do granulado (06/2024).

Quem é candidato

O genótipo vem primeiro: a FDA pede teste aprovado e, se indicado, sequenciamento; a EMA, método validado e, na R117H, a fase da variante poli-T. Com F508del nas duas cópias, o ivacaftor isolado não melhorou o VEF1 de forma significativa (1,72 ponto em 16 semanas); na G970R, a eficácia não se confirmou. Abaixo de 1 mês e em prematuros com menos de 6 meses, segurança e eficácia não foram estabelecidas.

Evidências clínicas

STRIVE e ENVISION: mutação G551D

Estudos de fase 3, duplo-cegos, de 48 semanas, com ivacaftor 150 mg a cada 12 horas ou placebo, somados ao tratamento habitual: STRIVE (NCT00909532), com 161 pacientes de 12 anos ou mais, e ENVISION (NCT00909727), com 52 crianças de 6 a 11 anos.

Ivacaftor contra placebo STRIVE ENVISION
VEF1 até 24 semanas (desfecho principal) +10,6 pontos; p<0,001 +12,5 pontos; p<0,001
Peso em 48 semanas +2,7 kg +2,8 kg
Cloreto no suor até 48 semanas −48,1 mmol/L −53,5 mmol/L
Exacerbações pulmonares Risco 55% menor Não analisadas

KONNECTION e KONDUCT: outras mutações

No KONNECTION (NCT01614470), cruzado, 39 pacientes de 6 anos ou mais com outras mutações de gating tiveram, em 8 semanas, VEF1 10,7 pontos maior (p<0,0001), com grande variação entre mutações e sem melhora relevante nos quatro com G970R. No KONDUCT (NCT01614457), com 69 pacientes com R117H, o desfecho principal falhou: 2,1 pontos no VEF1 em 24 semanas (p=0,20); o cloreto no suor caiu 24,0 mmol/L, e o VEF1 subiu 5,0 pontos nos adultos, mas ficou 6,3 pontos abaixo do placebo de 6 a 11 anos.

Crianças pequenas: KIWI e ARRIVAL

Abaixo de 6 anos, a eficácia foi extrapolada pela exposição semelhante, e estudos abertos, sem comparação, avaliaram segurança e marcadores. No KIWI (NCT01705145), 34 crianças de 2 a 5 anos tiveram queda de 46,9 mmol/L no cloreto no suor em 24 semanas, e 5 (15%), enzimas hepáticas acima de 8 vezes o limite. No ARRIVAL (NCT02725567), em 19 crianças de 12 a menos de 24 meses, a queda foi de 73,5 mmol/L, com aumento da elastase fecal, marcador do pâncreas; o estudo incluiu coortes a partir de 1 mês.

Posologia e administração

Via oral, a cada 12 horas, com alimento que contenha gordura (ovos, manteiga, laticínios integrais, leite materno ou fórmula). Pelo rótulo da FDA:

Idade (peso) Dose a cada 12 horas
1 a menos de 2 meses (3 kg ou mais) Sachê de 5,8 mg
2 a menos de 4 meses (3 kg ou mais) Sachê de 13,4 mg
4 a menos de 6 meses (5 kg ou mais) Sachê de 25 mg
6 meses a menos de 6 anos 25 mg (5 a menos de 7 kg), 50 mg (7 a menos de 14 kg) ou 75 mg (14 kg ou mais)
6 anos ou mais Comprimido de 150 mg
  • Preparo: comprimido engolido inteiro; granulado misturado a 5 mL de alimento pastoso ou líquido não aquecido e consumido em até 1 hora.
  • Dose esquecida: até 6 horas, tomar logo; depois, pular.
  • Ajustes: uma dose ao dia na insuficiência hepática moderada ou com inibidor moderado de CYP3A (fluconazol); duas doses por semana com inibidor forte (cetoconazol, claritromicina); abaixo de 6 meses, não recomendado nesses casos. Evitar toranja.

Segurança

O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque nem contraindicações; na União Europeia, a contraindicação é só a hipersensibilidade ao ivacaftor ou aos excipientes, que incluem lactose.

Advertências principais

  • Fígado: ALT e AST antes do início, a cada 3 meses no primeiro ano e depois anualmente; suspender acima de 5 vezes o limite superior. A EMA pede também bilirrubina.
  • Hipertensão intracraniana (desde 09/2025): relatos com fármacos de princípio ativo igual ou semelhante; dor de cabeça incomum ou alteração visual pedem interrupção e avaliação imediata; vitamina A elevada pode aumentar o risco.
  • Eventos neuropsiquiátricos (desde 03/2026): ansiedade, depressão, ideação e comportamento suicida e distúrbios do sono, com ou sem histórico, possíveis nos 3 primeiros meses; avaliar antes e acompanhar. A EMA adverte para depressão, inclusive tentativa de suicídio.
  • Hipersensibilidade e olhos: há relatos de anafilaxia e, em crianças, de catarata, com exame oftalmológico no início e no seguimento.

Com G551D, entre as reações mais comuns estiveram dor de cabeça (24% contra 16% com placebo), infecção de vias aéreas superiores (22% contra 14%), erupção na pele (13% contra 7%) e tontura (9% contra 1%).

Interações, gravidez e amamentação

Com indutores fortes de CYP3A, como rifampicina e erva-de-são-joão, a exposição cai muito (cerca de 9 vezes com a rifampicina), e a associação não é recomendada; o ivacaftor pede cautela com varfarina (controle do INR), digoxina, ciclosporina e tacrolimo. Na gestação, os dados humanos são limitados, e a EMA prefere evitar o uso; na amamentação, a decisão pesa benefício e risco.

Situação regulatória e como funciona o acesso

O Kalydeco tem dois registros ativos na ANVISA, da Vertex Farmacêutica do Brasil Ltda. (consulta em 09/10/2026): 1.3823.0002, do comprimido, com vencimento em 09/2038, e 1.3823.0006, do granulado, com vencimento em 07/2033. Na lista da CMED de 09/10/2026, o comprimido consta como comercializado em 2025; os granulados de 25, 50 e 75 mg, não. O ivacaftor não é controlado pela Portaria 344/1998. Para o comprimido, a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.

No SUS: o que o PCDT garante

A Conitec recomendou incorporar o ivacaftor em dezembro de 2020 (Relatório nº 581), com reavaliação após três anos, e a Portaria SCTIE/MS nº 68, de 30/12/2020, o incorporou. O PCDT da Fibrose Cística (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 30/04/2024) prevê o comprimido de 150 mg a partir de 6 anos e 25 kg para G551D, G1244E, G1349D, G178R, G551S, S1251N, S1255P, S549N ou S549R. A quem tem também F508del, o protocolo aconselha começar pela terapia tripla (Trikafta), incorporada em 2023 a partir de 6 anos, ou migrar para ela se houver falha com o ivacaftor. O PCDT não prevê moduladores abaixo de 6 anos nem ivacaftor para a R117H; Orkambi e Symdeko não foram incorporados.

Nos planos de saúde

A Lei nº 9.656/1998 (art. 10, VI) exclui da cobertura obrigatória os medicamentos para tratamento domiciliar, salvo antineoplásicos orais, exceção em que o ivacaftor não se enquadra. Diante de negativa, do plano ou do SUS fora do PCDT, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação, e pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Granulado infantil e sachês fora do registro

Os atos da ANVISA sobre o granulado (Resoluções-RE nº 2.805/2023 e nº 2.170/2024) listam sachês de 25, 50 e 75 mg; os de 5,8 mg e 13,4 mg, dos primeiros meses de vida, não constam deles nem da CMED. Sem comercialização dos granulados em 2025, a família pode não encontrá-los no país; nesse caso, e para os sachês fora do registro, a importação com receita, em nome do paciente, pode ser avaliada. Se o custeio for à Justiça, é comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Vale só para o granulado sem oferta no país e para os sachês de 5,8 mg e 13,4 mg, não para o comprimido, comercializado no Brasil. A Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos: conversa inicial com um especialista, orientação conforme as normas da ANVISA, apoio na documentação (prescrição médica e requisitos regulatórios), importação com fornecedores que têm as licenças exigidas no país de origem e medicamentos rastreáveis até o fabricante, e acompanhamento até a entrega. O processo corre sempre em nome do paciente e começa pela receita médica.

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, usada na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, novo modelo do Siscomex que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Formação do valor: preço do fornecedor internacional, câmbio do dia, impostos e taxas alfandegárias e frete; com equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance: canal direto com fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada, sem canal na América do Sul; sem cadeia fria, pois a conservação é de 20 a 25 °C.

Perguntas Frequentes

O SUS fornece o Kalydeco?

Sim, o comprimido de 150 mg, a partir de 6 anos e 25 kg, para uma de nove mutações de gating; outros casos ficam fora do PCDT.

O Kalydeco serve para quem tem F508del?

Depende da outra mutação: com F508del nas duas cópias, o ivacaftor isolado não melhorou o VEF1 de forma significativa; com G551D ou outra mutação responsiva na outra cópia, é indicado. Com ao menos uma F508del, o PCDT oferece, a partir de 6 anos, a terapia tripla, que inclui ivacaftor.

Por que tomar com alimento gorduroso?

Porque a gordura aumenta de 2,5 a 4 vezes a exposição ao ivacaftor; a toranja deve ser evitada.

Preciso importar o ivacaftor?

Em regra, não: o comprimido tem registro, foi comercializado em 2025 e está no PCDT. A importação só se discute para o granulado sem oferta no país e para os sachês de 5,8 mg e 13,4 mg.

Conclusão

O ivacaftor potencializa a proteína CFTR e, nos estudos com mutações de gating, melhorou VEF1, peso e cloreto no suor; o uso pede vigilância do fígado, dos olhos nas crianças e de sinais neurológicos e psiquiátricos. No Brasil, o SUS fornece o comprimido dentro do PCDT; fora dele, a questão é de custeio, e a importação se restringe ao granulado sem oferta e aos sachês fora do registro. A indicação cabe à equipe médica.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Kalydeco (ivacaftor) (DailyMed), Vertex Pharmaceuticals Incorporated, revisão 03/2026; setid 0ab0c9f8-3eee-4e0f-9f3f-c1e16aaffe25; NDA 203188 (31/01/2012) e NDA 207925 (17/03/2015).
  2. EMA — Kalydeco, EPAR, EMEA/H/C/002494, Vertex Pharmaceuticals (Ireland) Limited.
  3. ANVISA — Dados abertos de medicamentos, consulta em 09/10/2026: Kalydeco 1.3823.0002 e 1.3823.0006, ativos; Resoluções-RE nº 2.752/2023, nº 2.805/2023 e nº 2.170/2024 (DOU).
  4. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC), gerada em 09/10/2026: comercialização em 2025 das apresentações de Kalydeco.
  5. Conitec — Relatório de Recomendação nº 581 (ivacaftor), dezembro de 2020.
  6. Ministério da Saúde — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 30 de abril de 2024: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Fibrose Cística.
  7. Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998 (planos de saúde), art. 10, VI, e art. 12.
  8. Ramsey BW et al., N Engl J Med, 2011;365(18):1663-1672. PMID 22047557 (STRIVE; ClinicalTrials.gov NCT00909532).
  9. Davies JC et al., Am J Respir Crit Care Med, 2013;187(11):1219-1225. PMID 23590265 (ENVISION; ClinicalTrials.gov NCT00909727).
  10. De Boeck K et al., J Cyst Fibros, 2014;13(6):674-680. PMID 25266159 (KONNECTION; ClinicalTrials.gov NCT01614470).
  11. Moss RB et al., Lancet Respir Med, 2015;3(7):524-533. PMID 26070913 (KONDUCT; ClinicalTrials.gov NCT01614457).
  12. Davies JC et al., Lancet Respir Med, 2016;4(2):107-115. PMID 26803277 (KIWI; ClinicalTrials.gov NCT01705145).
  13. Rosenfeld M et al., Lancet Respir Med, 2018;6(7):545-553. PMID 29886024 (ARRIVAL; ClinicalTrials.gov NCT02725567).

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

Precisa de mais informações sobre este medicamento?

Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.


💬 Fale pelo WhatsApp

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp

Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.

Preencha os campos para liberar

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Kalydeco (ivacaftor): potencializador da CFTR para fibrose cística com mutações responsivas

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

DEIXE UM COMENTÁRIO

Rolar para cima