Cresemba (isavuconazol): antifúngico triazólico para aspergilose invasiva e mucormicose

Resumo rápido

  • Cresemba é o isavuconazol, antifúngico triazólico em cápsula de 100 mg e em pó para infusão de 200 mg, com registro ativo na ANVISA e comercialização em 2025 segundo a CMED.
  • É indicado para aspergilose invasiva e mucormicose; nos EUA, também para crianças desde 12/2023; na União Europeia, a mucormicose só quando a anfotericina B não é apropriada; no Brasil, a bula é para adultos.
  • No estudo SECURE, a mortalidade até o dia 42 foi de 18,6% contra 20,2% com voriconazol (não inferioridade), com menos eventos adversos relacionados ao medicamento (42% contra 60%).
  • O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque; o uso é contraindicado na síndrome do QT curto familiar e com inibidores ou indutores fortes do CYP3A4, e o fígado deve ser monitorado.
  • O SUS fornece o isavuconazol na consolidação da mucormicose, e a ANS cobre a aplicação injetável ambulatorial nessa fase; fora disso, a questão é de custeio.

O que é Cresemba (isavuconazol)?

Cresemba é o nome comercial do isavuconazol, antifúngico triazólico de uso oral e venoso. As apresentações contêm sulfato de isavuconazônio, pró-fármaco solúvel em água que o sangue converte rapidamente em isavuconazol, a forma ativa.

A FDA aprovou o Cresemba em 06/03/2015 (NDA 207500, cápsulas, e NDA 207501, injetável), hoje da Astellas Pharma US; a União Europeia, em 15/10/2015 (EMEA/H/C/002734), com titularidade da Basilea Pharmaceutica Deutschland GmbH. No Brasil, os registros 1.2576.0030 (pó de 200 mg, em frasco-ampola) e 1.2576.0031 (cápsula dura de 100 mg, caixa com 14) foram concedidos à United Medical Ltda. em 10/2019 e estão ativos, com vencimento em 10/2029.

Mecanismo de ação

Esterases do sangue, sobretudo a butirilcolinesterase, liberam o isavuconazol do pró-fármaco. Como os demais azóis, ele inibe a lanosterol 14-alfa-desmetilase do fungo, enzima que converte lanosterol em ergosterol, componente da membrana fúngica; com menos ergosterol e acúmulo de precursores, a membrana se enfraquece. Pelo rótulo da FDA, age contra Aspergillus fumigatus, A. flavus e A. niger e contra Mucorales, como Rhizopus oryzae.

A biodisponibilidade oral é de 98%, e a meia-vida média, de cerca de 130 horas. Estudos de laboratório e em animais sugerem resistência cruzada com outros azóis; quem falhou com outro azol pode precisar de alternativa.

Indicações

As bulas consultadas indicam o isavuconazol para tratar aspergilose invasiva e mucormicose; nenhuma inclui profilaxia nem candidíase. O rótulo americano pede material para cultura e histopatologia antes do início, mas o tratamento pode começar antes dos resultados.

Escopo Estados Unidos (FDA) União Europeia (EMA) Brasil (bula)
Aspergilose invasiva Sim Sim Sim, em adultos
Mucormicose Sim (invasiva) Quando a anfotericina B não é apropriada Sim, em adultos
Injetável Adultos e crianças a partir de 1 ano A partir de 1 ano Adultos
Cápsulas Adultos e crianças a partir de 6 anos com 16 kg ou mais Adultos e crianças a partir de 6 anos Adultos

Nos dados abertos da ANVISA, as duas apresentações brasileiras têm restrição de uso adulto, e o pó é de uso restrito a hospitais.

Quem é candidato

No SECURE, 82% do grupo do isavuconazol tinham câncer do sangue, 63%, neutropenia, e 21%, transplante alogênico de células-tronco hematopoiéticas; no estudo todo, 95% tinham infecção pulmonar. Na mucormicose (VITAL), 60% tinham câncer do sangue e 11%, diabetes; além do pulmão (59%), a infecção atingia seios da face (43%), olho (19%) e sistema nervoso central (16%).

Evidências clínicas

SECURE: aspergilose e outros fungos filamentosos

Estudo de fase 3, duplo-cego e de não inferioridade (NCT00412893): 527 adultos com suspeita de doença invasiva por fungos filamentosos foram sorteados para isavuconazol ou voriconazol como primeiro tratamento (258 tratados por grupo), por até 84 dias. O desfecho principal foi a mortalidade por todas as causas até o dia 42, com margem de 10%.

Isavuconazol contra voriconazol Resultado
Mortalidade até o dia 42 (todos os tratados) 18,6% contra 20,2%; diferença ajustada −1,0% (IC 95% −8,0 a 5,9)
Mortalidade até o dia 42, aspergilose comprovada ou provável 18,7% contra 22,2%
Sucesso global ao fim do tratamento, mesmo subgrupo 35,0% contra 38,9%
Eventos adversos relacionados ao medicamento 42% contra 60% (p<0,001)
Eventos hepatobiliares, oculares e de pele (qualquer causa) 9%, 15% e 33% contra 16%, 27% e 42%

Mortalidade e resposta: rótulo da FDA (no artigo, IC 95% de −7,8 a 5,7); tolerabilidade: artigo.

VITAL: mucormicose

Estudo aberto, de braço único (NCT00634049). Dos 37 pacientes com mucormicose, 21 receberam o isavuconazol como primeiro tratamento, 11 tinham infecção refratária e 5, intolerância a outro antifúngico; a mortalidade até o dia 42 foi de 38% (33% no tratamento primário), e o sucesso global ao fim do tratamento, de 31%. Frente a controles pareados do registro FungiScope tratados com anfotericina B, a mortalidade bruta no dia 42 foi de 33% contra 39% (ponderada, 33% contra 41%; p=0,595). A FDA ressalva que a eficácia na mucormicose não foi avaliada em estudos controlados concorrentes.

Crianças e candidíase invasiva

Num estudo de fase 2 aberto (NCT03816176), 31 pacientes de 1 a menos de 18 anos com aspergilose ou mucormicose ao menos possível receberam doses de 10 mg/kg de sulfato de isavuconazônio (até 372 mg): sucesso global de 54,8% ao fim do tratamento e letalidade de 6,5% até o dia 42. Na candidemia e na candidíase invasiva, o ACTIVE (fase 3, NCT00413218) não mostrou não inferioridade frente à caspofungina seguida de voriconazol oral (sucesso ao fim da terapia venosa de 60,3% contra 71,1%; diferença ajustada −10,8; IC 95% −19,9 a −1,8), e a candidíase não está entre as indicações.

Posologia e administração

Pelo rótulo da FDA e pelo resumo europeu, com doses em isavuconazol, como na bula brasileira:

  • Equivalência: 100 mg e 200 mg de isavuconazol correspondem a 186 mg e 372 mg de sulfato de isavuconazônio, unidade usada no rótulo americano, que tem ainda cápsula de 74,5 mg (40 mg), usada nas doses pediátricas.
  • Adultos: ataque de 200 mg (1 frasco ou 2 cápsulas) a cada 8 horas por 48 horas (6 doses); manutenção de 200 mg uma vez ao dia, iniciada 12 a 24 horas após a última dose de ataque.
  • Infusão: pó reconstituído e diluído em 250 mL de soro fisiológico ou glicose a 5%, em no mínimo 1 hora, sem bolus e com filtro em linha (0,2 a 1,2 micrômetro), porque a solução pode formar partículas.
  • Cápsulas: inteiras, com ou sem alimento, sem abrir nem triturar, e não por sonda nasogástrica. A troca entre veia e boca dispensa nova dose de ataque.
  • Duração: conforme a resposta clínica; acima de 6 meses, o resumo europeu pede avaliação cuidadosa de risco e benefício.
  • Rins e fígado: sem ajuste na insuficiência renal, inclusive terminal, nem na hepática leve ou moderada; na grave (Child-Pugh C), não estudado, só se o benefício superar o risco.
  • Crianças (EUA): injetável a partir de 1 ano, com 10 a 15 mg/kg de sulfato de isavuconazônio conforme idade e peso; cápsulas de 74,5 mg a partir de 6 anos e 16 kg; teto de 372 mg por dose.
  • Conservação (resumo europeu): pó em geladeira (2 a 8 °C); cápsulas até 30 °C, na embalagem original, protegidas da umidade.

Segurança

O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque. Contraindicações da FDA: hipersensibilidade ao isavuconazol; uso com inibidores fortes do CYP3A4, como cetoconazol ou ritonavir em dose alta; uso com indutores fortes do CYP3A4, como rifampicina, carbamazepina, erva-de-são-joão ou barbitúricos de ação longa; e síndrome do QT curto familiar. O resumo europeu inclui também rifabutina, fenitoína e indutores moderados, como efavirenz, etravirina e nafcilina.

Advertências principais

  • Fígado: elevação de enzimas e bilirrubina, em geral reversível, e casos de hepatite, colestase e insuficiência hepática, inclusive fatais, em pacientes com doenças de base graves; exames no início e durante o uso.
  • Infusão: queda de pressão, falta de ar, calafrios, tontura ou formigamento pedem a interrupção da infusão.
  • Hipersensibilidade: anafilaxia, inclusive fatal; reações graves de pele, como Stevens-Johnson, ocorreram com outros azóis.
  • Coração: encurtamento do QTc dependente da dose (−13,1 ms com a dose usual, em voluntários).

Reações mais comuns em adultos, pelo rótulo da FDA: náusea (26%), vômito (25%), diarreia (22%), dor de cabeça (17%), alteração de exames do fígado (16%), potássio baixo (14%) e prisão de ventre (13%). Em 77 crianças, predominaram diarreia (26%), dor abdominal (23%) e vômito (21%).

Interações, gravidez e amamentação

  • Interações: o isavuconazol é substrato sensível e inibidor moderado do CYP3A4; tacrolimo, sirolimo, ciclosporina e digoxina pedem dosagem no sangue e ajuste, e a vincristina deve ser evitada.
  • Gravidez: sem dados em humanos; em animais, mais mortes perinatais e alterações esqueléticas. A FDA orienta contracepção durante o uso e por 28 dias depois; o resumo europeu só admite o uso em infecção grave ou com risco de vida, se o benefício superar o risco.
  • Amamentação: deve ser interrompida.

Como funciona o acesso no Brasil

O Cresemba tem registro ativo na ANVISA (1.2576.0030 e 1.2576.0031; consulta de 09/10/2026), e as duas apresentações constam como comercializadas em 2025 na lista da CMED de 09/10/2026. O isavuconazol não é controlado pela Portaria 344/1998. O acesso não passa por importação: o pó tem restrição hospitalar, e quem compra é a instituição; a cápsula não tem essa restrição. A questão é quem paga.

No SUS: consolidação da mucormicose

Por recomendação unânime da Conitec (Relatório nº 745), a Portaria SCTIE/MS nº 60, de 26/07/2022, incorporou o isavuconazol para a fase de consolidação de todas as formas de mucormicose: depois da indução, de cerca de 4 semanas com formulação lipídica de anfotericina B, vem a consolidação, de 3 a 12 meses, em que a forma oral permite a desospitalização. Pela Rename 2024, a cápsula e o pó integram o Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, de financiamento centralizado pelo Ministério da Saúde. Na aspergilose invasiva, o incorporado é o voriconazol (Portaria SCTIE/MS nº 59/2022).

Nos planos de saúde

Na internação, a Lei 9.656/1998 obriga o plano hospitalar a fornecer os medicamentos prescritos. Fora dela, desde 03/10/2022 (RN nº 546), a diretriz de utilização nº 158 do Rol da ANS, de terapia injetável ambulatorial, cobre o isavuconazol na consolidação da mucormicose e o voriconazol na aspergilose invasiva. Já os medicamentos de uso domiciliar, como as cápsulas, ficam fora da cobertura obrigatória pela lei, que ressalva os antineoplásicos orais.

Quando a cobertura é negada

Fora desses critérios, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação: o medicamento tem registro e é comercializado no país. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com diagnóstico, tratamentos anteriores e motivo da escolha; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.

Perguntas Frequentes

Preciso importar o Cresemba?

Em regra, não. As duas apresentações têm registro ativo e constam como comercializadas em 2025 na lista da CMED; a dificuldade costuma ser o custeio fora do hospital.

Qual a diferença entre isavuconazol e voriconazol?

Ambos são triazóis. No SECURE, o isavuconazol foi não inferior em mortalidade, com menos eventos adversos relacionados ao medicamento; no SUS, o voriconazol é o incorporado para a aspergilose invasiva.

O SUS fornece o isavuconazol?

Sim, para o tratamento da fase de consolidação em pacientes diagnosticados com mucormicose (Portaria SCTIE/MS nº 60/2022), com a cápsula e o pó no Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica.

Crianças podem usar o Cresemba?

Nos EUA e na União Europeia, sim, a partir de 1 ano (injetável) e de 6 anos (cápsulas; nos EUA, com 16 kg ou mais). A bula brasileira é para adultos.

Conclusão

O isavuconazol é um triazol venoso ou oral, de dose diária após 48 horas de ataque, para aspergilose invasiva e mucormicose. No SECURE, foi não inferior ao voriconazol em mortalidade, com menos eventos relacionados ao medicamento; na mucormicose, a evidência vem de estudo sem grupo controle concorrente. No Brasil, tem registro ativo, é comercializado e o SUS o fornece na consolidação da mucormicose; o acesso é questão de custeio, e a indicação cabe à equipe médica.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Cresemba (DailyMed), Astellas Pharma US, revisão 04/2025; setid 8f7f73b8-586a-4df0-935f-fecd4696c16c; NDA 207500 e NDA 207501, aprovação em 06/03/2015; pediatria (S-015 e S-013) em 08/12/2023.
  2. EMA — Cresemba, EPAR, EMEA/H/C/002734, Basilea Pharmaceutica Deutschland GmbH.
  3. ANVISA — Dados abertos de medicamentos, consulta em 09/10/2026: Cresemba, registros 1.2576.0030 e 1.2576.0031, United Medical Ltda., ativos, vencimento 10/2029; Resolução-RE nº 2.889, de 11/10/2019.
  4. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos de 09/10/2026: Cresemba 200 mg pó para infusão (restrição hospitalar) e 100 mg cápsula dura, comercializados em 2025.
  5. ANVISA — Dados abertos de restrições de medicamentos, consulta em 09/10/2026: Cresemba pó liofilizado (uso adulto, restrito a hospitais) e cápsula dura (uso adulto).
  6. Conitec — Relatório de Recomendação nº 745, junho de 2022; Portarias SCTIE/MS nº 59 (voriconazol) e nº 60 (isavuconazol), de 26 de julho de 2022.
  7. Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename 2024, 2ª edição): sulfato de isavuconazônio, cápsula de 100 mg e pó de 200 mg, no Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica.
  8. ANS — Rol de Procedimentos (RN nº 465/2021), Anexo II atualizado pela RN nº 680/2026: diretriz de utilização nº 158, incluída pela RN nº 546/2022.
  9. Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, arts. 10 e 12.
  10. Maertens JA et al., Lancet, 2016;387(10020):760-769. PMID 26684607 (SECURE; ClinicalTrials.gov NCT00412893).
  11. Marty FM et al., Lancet Infect Dis, 2016;16(7):828-837. PMID 26969258 (VITAL; ClinicalTrials.gov NCT00634049).
  12. Kullberg BJ et al., Clin Infect Dis, 2019;68(12):1981-1989. PMID 30289478 (ACTIVE; ClinicalTrials.gov NCT00413218).
  13. Segers H et al., Antimicrob Agents Chemother, 2024;68(12):e0048424. PMID 39540734 (ClinicalTrials.gov NCT03816176).

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