Resumo rápido
- O Alimta (pemetrexede), da Eli Lilly, é um quimioterápico antifolato aplicado na veia a cada 21 dias, com registro ativo na ANVISA (1.1260.0166) e venda em 2025 segundo a CMED.
- É indicado no câncer de pulmão de células não pequenas (CPNPC) não escamoso, em várias linhas de tratamento, e, com cisplatina, no mesotelioma pleural maligno; não é indicado no carcinoma escamoso.
- No KEYNOTE-189, somar o pembrolizumabe ao pemetrexede com platina elevou a sobrevida global mediana de 10,6 para 22,0 meses.
- O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque (tarja); exige ácido fólico, vitamina B12 e dexametasona e não tem dose recomendada com depuração de creatinina abaixo de 45 mL/min.
- O acesso não passa por importação: há similares e genéricos à venda, o SUS usa o pemetrexede no câncer de pulmão e os planos cobrem a quimioterapia ambulatorial conforme a bula.
O que é Alimta (pemetrexede)?
Alimta é o nome comercial do pemetrexede, da Eli Lilly, um antifolato: imita o folato e bloqueia enzimas de que a célula precisa para fabricar DNA. É um pó liofilizado de pemetrexede dissódico, em frascos de 100 mg e 500 mg, para infusão na veia. O pemetrexede também é comercializado como Atred, Eroxym, Mesotem, Pemeglenn, Plexeden, Sukhi e Pemfexy, a depender do país.
A FDA aprovou o Alimta em 04/02/2004 para o mesotelioma (NDA 021462, Eli Lilly and Company) e, em 19/08/2004, de forma acelerada, para o CPNPC já tratado; a primeira linha veio em 2008, e a manutenção, em 2009. A União Europeia o autorizou em 20/09/2004 (EMEA/H/C/000564, Eli Lilly Nederland B.V.), e o registro brasileiro, da Eli Lilly do Brasil Ltda., também é de 2004.
Tipo de tumor e formulações
No CPNPC, o pemetrexede serve aos tumores não escamosos, como o adenocarcinoma e o carcinoma de grandes células. O mesotelioma pleural maligno é um câncer da pleura, o revestimento dos pulmões, em geral ligado ao amianto, segundo a EMA. Nos EUA, há também pemetrexede em solução, como o Pemfexy (NDA 209472, de 2020); no Brasil, a solução Pemdia, da Teva, tem registro, mas não teve venda em 2025.
Mecanismo de ação
O pemetrexede entra na célula por transportadores de folato e é convertido em formas poliglutamadas, que ficam retidas. Inibe a timidilato sintase, a di-hidrofolato redutase e a glicinamida ribonucleotídeo formiltransferase, enzimas dependentes de folato usadas na síntese de timidina e purinas, componentes do DNA. Quase não é metabolizado: 70% a 90% da dose saem inalterados na urina em 24 horas (meia-vida de 3,5 horas com rim normal), e a exposição sobe 65% com depuração de creatinina de 45 mL/min, frente a 100 mL/min.
Indicações
Nem a FDA nem a EMA indicam o pemetrexede no CPNPC escamoso, e o uso em crianças não está estabelecido.
Estados Unidos (FDA)
Pelo rótulo vigente (revisão de 05/2023), no CPNPC não escamoso: primeira linha com pembrolizumabe e platina (doença metastática sem alterações genômicas de EGFR ou ALK) ou com cisplatina (localmente avançada ou metastática); e monoterapia na manutenção, sem progressão após quatro ciclos de platina, ou na doença recorrente ou metastática após quimioterapia.
No mesotelioma pleural maligno, vale com cisplatina como tratamento inicial, se a doença é irressecável ou o paciente não é candidato à cirurgia para retirar o tumor. A combinação com pembrolizumabe teve aprovação acelerada em 04/06/2018 e regular em 30/01/2019, a última indicação nova.
União Europeia (EMA)
Mesotelioma pleural maligno irressecável, com cisplatina, sem quimioterapia prévia; e CPNPC localmente avançado ou metastático que não seja predominantemente escamoso, na primeira linha com cisplatina, na manutenção após platina e na segunda linha. O resumo europeu do Alimta não inclui a combinação com pembrolizumabe.
Brasil (ANVISA)
O Alimta é o medicamento de referência do pemetrexede na lista da ANVISA (IN nº 353/2025). Segundo a Conitec, a bula brasileira do Keytruda indica o pembrolizumabe com pemetrexede e platina na primeira linha do CPNPC não escamoso metastático sem alteração de EGFR ou ALK.
Evidências clínicas
Seis estudos de fase 3 randomizados sustentam as indicações; na tabela, sobrevida global mediana e razão de risco (RR), pelo rótulo da FDA.
| Estudo (pacientes) | Cenário e comparação | Sobrevida global mediana |
|---|---|---|
| EMPHACIS (456) | Mesotelioma: com cisplatina contra cisplatina | 12,1 contra 9,3 meses (RR 0,77) |
| JMDB (1.725) | 1ª linha: com cisplatina contra gencitabina e cisplatina | 10,3 contra 10,3 meses (RR 0,94); não escamoso, 11,0 contra 10,1 (RR 0,84) |
| KEYNOTE-189 (616) | 1ª linha: pemetrexede e platina com pembrolizumabe ou placebo | 22,0 contra 10,6 meses (RR 0,56), análise final |
| JMEN (663) | Manutenção após platina sem pemetrexede, contra placebo | 13,4 contra 10,6 meses (RR 0,79) |
| PARAMOUNT (539) | Manutenção após pemetrexede com cisplatina, contra placebo | 13,9 contra 11,0 meses (RR 0,78) |
| JMEI (571) | 2ª linha, contra docetaxel | 8,3 contra 7,9 meses (RR 0,99) |
Mesotelioma e primeira linha do CPNPC
No EMPHACIS (NCT00005636), simples-cego, a resposta foi de 41,3% contra 16,7%; o ácido fólico e a B12 entraram após os primeiros 117 pacientes e reduziram a toxicidade. No JMDB (NCT00087711), aberto e de não inferioridade, a sobrevida foi maior no adenocarcinoma (12,6 contra 10,9 meses) e no carcinoma de grandes células (10,4 contra 6,7) e menor no escamoso (9,4 contra 10,8), com menos toxicidade grave no sangue e mais náusea grave. No KEYNOTE-189 (NCT02578680), duplo-cego, com qualquer expressão de PD-L1, a primeira análise mostrou sobrevida em 12 meses de 69,2% contra 49,4% (RR 0,49; IC 95% 0,38 a 0,64) e sobrevida livre de progressão (SLP) mediana de 8,8 contra 4,9 meses (RR 0,52).
Manutenção e segunda linha
No JMEN (NCT00102804), duplo-cego, após quatro ciclos de platina com outro quimioterápico, o ganho ficou nos tumores não escamosos (15,5 contra 10,3 meses; RR 0,70). No PARAMOUNT (NCT00789373), 539 pacientes sem progressão após quatro ciclos de pemetrexede com cisplatina foram sorteados para seguir com ele ou placebo: SLP de 4,1 contra 2,8 meses (RR 0,62). No JMEI, aberto, a sobrevida foi semelhante à do docetaxel, sem efeito no escamoso, com neutropenia de grau 3 ou 4 em 5,3% contra 40,2% e queda de cabelo em 6,4% contra 37,7%.
Posologia e administração
Pó reconstituído com soro fisiológico (25 mg/mL) e diluído a 100 mL, em infusão intravenosa de 10 minutos, sob supervisão de médico experiente em quimioterapia. Pelo rótulo da FDA e pelo resumo europeu:
- Dose: 500 mg/m² no dia 1 de ciclos de 21 dias, até progressão ou toxicidade inaceitável; com cisplatina na primeira linha do CPNPC, até seis ciclos.
- Combinações: a cisplatina (75 mg/m² em 2 horas) começa cerca de 30 minutos após o pemetrexede; com pembrolizumabe, o pemetrexede vem depois dele e antes da platina por quatro ciclos e segue como manutenção.
- Vitaminas: ácido fólico oral, 400 a 1.000 µg por dia (350 a 1.000 µg na Europa), de 7 dias antes da primeira dose até 21 dias após a última; vitamina B12, 1 mg intramuscular, na semana anterior à primeira dose e a cada 3 ciclos.
- Corticoide: dexametasona oral, 4 mg duas vezes ao dia, na véspera, no dia e no dia seguinte de cada dose.
- Exames: hemograma nos dias 1, 8 e 15 e depuração de creatinina antes de cada ciclo, que só começa com neutrófilos ≥ 1.500/mm³ e plaquetas ≥ 100.000/mm³; não há dose recomendada com depuração abaixo de 45 mL/min.
- Reduções: para 75% ou 50% da dose, conforme a toxicidade; suspensão definitiva em toxicidade neurológica de grau 3 ou 4, reação de pele grave ou pneumonite.
- Preparo: medicamento perigoso; não usar soluções com cálcio, como o Ringer lactato.
Segurança
O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque (tarja). A única contraindicação da FDA é a história de hipersensibilidade grave ao pemetrexede; a União Europeia contraindica também a amamentação e a vacina contra febre amarela. Pela FDA, as reações mais comuns em monoterapia são cansaço (34% no JMEI), náusea (31%) e falta de apetite (22%); com cisplatina, no JMDB, náusea (56%), cansaço (43%), vômitos (40%), anemia (33%) e neutropenia (29%); com pembrolizumabe e platina, no KEYNOTE-189, náusea e cansaço (56% cada), prisão de ventre (35%) e diarreia (31%).
Advertências principais
- Medula óssea: neutropenia, anemia e plaquetopenia, com risco de infecção; no estudo do mesotelioma, sem as vitaminas, a neutropenia febril foi de 9% contra 0,6%.
- Rins: insuficiência renal grave, às vezes fatal (2,1% a 2,2% com cisplatina; 0,4% a 0,6% em monoterapia); na Europa, também diabetes insípido nefrogênico.
- Pele: reações bolhosas e esfoliativas graves, inclusive síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica.
- Pulmão: pneumonite intersticial grave, inclusive fatal; falta de ar, tosse ou febre sem explicação pedem pausa até a avaliação.
- Radioterapia prévia: inflamação ou bolhas em áreas irradiadas semanas ou anos antes levam à suspensão definitiva.
Gestação, amamentação e interações
Pode causar dano ao feto: descarta-se gravidez antes do início, com contracepção durante o uso e por 6 meses após a última dose (mulheres) ou 3 meses (homens com parceira fértil). A FDA orienta não amamentar até 1 semana após a última dose, e a fertilidade masculina pode ser prejudicada. Com depuração de creatinina de 45 a 79 mL/min, evita-se o ibuprofeno de 2 dias antes a 2 dias depois de cada dose; na Europa, nefrotóxicos e inibidores do OAT3, como probenecida e inibidores da bomba de prótons, pedem cautela.
Como funciona o acesso no Brasil
O Alimta tem registro ativo na ANVISA (1.1260.0166, Eli Lilly do Brasil Ltda., vencimento em 09/2029; dados abertos de 16/10/2026), e as apresentações de 100 mg e 500 mg constam como comercializadas em 2025 na lista da CMED de 09/10/2026, com restrição hospitalar. O pemetrexede não é controlado pela Portaria SVS/MS nº 344/1998. Há ainda nove similares, nove genéricos e o Pemdia com registro ativo; seis similares e dois genéricos tiveram venda em 2025. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
No SUS
As Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Câncer de Pulmão (Portaria SAS/MS nº 957/2014), vigentes segundo a Conitec, preveem na primeira linha sem mutação de EGFR ou ALK a platina com pemetrexede, paclitaxel ou gencitabina, entre outros, conforme a histologia. A proposta de novo protocolo, em consulta pública (SCTIE/MS nº 100/2026), mantém o pemetrexede no tumor não escamoso, com platina na primeira linha e sozinho na segunda e terceira, não trata a manutenção como rotina e não inclui o pembrolizumabe, não incorporado (Portaria SECTICS/MS nº 71/2023). O hospital habilitado em oncologia fornece a quimioterapia e a registra como procedimento (APAC).
Nos planos de saúde
Pela RN nº 465/2021 da ANS (art. 18, IX), o plano ambulatorial cobre a quimioterapia oncológica ambulatorial, aplicada sob supervisão em estabelecimento de saúde, desde que o medicamento seja registrado e a indicação conste da bula aprovada pela ANVISA (art. 8º, III); o uso fora da bula é exclusão permitida (art. 17). Desde 04/05/2026 (RN nº 669/2026), a DUT 64 cobre ainda o osimertinibe oral com pemetrexede e platina na primeira linha do CPNPC com deleção no éxon 19 ou mutação L858R do EGFR.
Quando a cobertura é negada
A discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação; no SUS, os pedidos judiciais seguem as teses do STF nos Temas 6 e 1.234. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico com o tipo histológico e os tratamentos anteriores; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
Preciso importar o Alimta?
Em regra, não: tem registro ativo e consta como comercializado na CMED; a dificuldade costuma ser o custeio, e há similares e genéricos à venda.
Por que tomar ácido fólico e vitamina B12?
Porque reduzem a gravidade da toxicidade do pemetrexede no sangue e no aparelho digestivo. A B12 é injetada no músculo e não deve ser trocada pela forma oral.
Posso usar anti-inflamatório durante o tratamento?
Só com a orientação da equipe: com depuração de creatinina de 45 a 79 mL/min, o ibuprofeno é evitado perto de cada dose, e, na Europa, a regra vale também para os demais anti-inflamatórios não esteroides e para o ácido acetilsalicílico acima de 1,3 g por dia.
O pemetrexede serve para o câncer de pulmão escamoso?
Não. Nesse tipo, os estudos JMDB, JMEN e JMEI não mostraram benefício, e o rótulo americano o exclui.
Conclusão
O pemetrexede é um antifolato venoso com benefício demonstrado em estudos de fase 3 no câncer de pulmão não escamoso e no mesotelioma pleural; exige vitaminas, corticoide e vigilância do sangue e dos rins. No Brasil, tem registro ativo, similares e genéricos à venda e lugar nas diretrizes do SUS; o acesso é questão de custeio.
Fontes
- FDA, rótulo de Alimta (pemetrexede) (DailyMed), Eli Lilly and Company, revisão 05/2023; setid f5a860f3-37ec-429c-ae04-9c88d7c55c08.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 021462 (Alimta): aprovação em 04/02/2004 e suplementos S-015, S-021, S-051 e S-053; NDA 021677 (19/08/2004); NDA 209472 (Pemfexy, 08/02/2020).
- EMA — Alimta, EPAR, EMEA/H/C/000564, Eli Lilly Nederland B.V., autorização em 20/09/2004: resumo das características do medicamento.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos (16/10/2026): Alimta 1.1260.0166 e registros de pemetrexede; IN nº 353/2025 (Lista de Medicamentos de Referência); RDC nº 1.036/2026 (Anexo I da Portaria 344/1998).
- CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC) de 09/10/2026: Alimta 100 mg e 500 mg, comercializados em 2025, restrição hospitalar.
- Ministério da Saúde/Conitec — Portaria SAS/MS nº 957/2014 (DDT do Câncer de Pulmão); Consulta Pública SCTIE/MS nº 100/2026 (PCDT do Câncer de Pulmão); relatório preliminar do pembrolizumabe (CP nº 40/2026, 04/2026); Portaria SECTICS/MS nº 71/2023.
- ANS — Resolução Normativa nº 465/2021, arts. 8º, 17 e 18; RN nº 669, de 06/04/2026 (DUT 64).
- Vogelzang NJ et al., J Clin Oncol, 2003;21(14):2636-2644. PMID 12860938 (EMPHACIS/JMCH; ClinicalTrials.gov NCT00005636).
- Scagliotti GV et al., J Clin Oncol, 2008;26(21):3543-3551. PMID 18506025 (JMDB; ClinicalTrials.gov NCT00087711).
- Gandhi L et al., N Engl J Med, 2018;378(22):2078-2092. PMID 29658856 (KEYNOTE-189; ClinicalTrials.gov NCT02578680).
- Ciuleanu T et al., Lancet, 2009;374(9699):1432-1440. PMID 19767093 (JMEN; ClinicalTrials.gov NCT00102804).
- Paz-Ares LG et al., J Clin Oncol, 2013;31(23):2895-2902. PMID 23835707 (PARAMOUNT; ClinicalTrials.gov NCT00789373).
- Hanna N et al., J Clin Oncol, 2004;22(9):1589-1597. PMID 15117980 (JMEI).
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