Adenocarcinoma de pulmão, o diagnóstico do Papa Leão XIV: o que é, tratamento e acesso

O adenocarcinoma de pulmão é o tipo mais comum de câncer de pulmão: um tumor do grupo de não pequenas células que começa nas células produtoras de muco e responde por cerca de 40% dos casos. Foi esse o diagnóstico confirmado em 13 de outubro de 2026, na cirurgia do Papa Leão XIV para retirar um nódulo no pulmão descoberto em fase muito inicial.

Resumo rápido

  • O adenocarcinoma é o subtipo mais frequente do câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) e o mais comum em quem não fuma.
  • No estágio inicial, a cirurgia é o tratamento principal e oferece a melhor chance de cura.
  • Biomarcadores como EGFR, ALK e PD-L1 orientam o tratamento depois da cirurgia e na doença avançada.
  • Parte das terapias-alvo aprovadas nos Estados Unidos ainda não tem registro no Brasil; nesses casos, a Anvisa permite a importação para uso pessoal, com prescrição.
  • O Papa Leão XIV teve o lobo inferior do pulmão direito retirado em 13/10/2026 e recebeu alta em 17/10; até essa data, o estadiamento não havia sido divulgado.

O que se sabe sobre o diagnóstico do Papa Leão XIV

  • 11/10: o Papa contou que exames recentes encontraram um nódulo no pulmão, circunscrito e em fase muito inicial, e que seria operado.
  • 13/10: no Policlínico Gemelli, em Roma, foi retirado o lobo inferior do pulmão direito, por técnica videoassistida e sem complicações. O exame feito durante a cirurgia confirmou adenocarcinoma de pulmão, como os exames pré-operatórios sugeriam.
  • 17/10: depois de exames de sangue, raio X do tórax e avaliação clínica, ele recebeu alta.

Até 17/10/2026, a Santa Sé não havia divulgado estadiamento, resultado dos linfonodos nem próximos passos. As seções seguintes explicam a doença em geral, sem relação com o caso dele. Desejamos ao Papa Leão XIV uma boa recuperação.

O que é adenocarcinoma de pulmão

Cerca de 80% a 85% dos cânceres de pulmão são de não pequenas células, e 10% a 15%, de pequenas células. O adenocarcinoma é o subtipo mais frequente do primeiro grupo: começa nas células que produzem muco, costuma surgir na periferia do pulmão e é mais comum em mulheres que em homens. Os outros subtipos são o de células escamosas, ligado ao tabagismo e em geral central, e o de grandes células, que tende a crescer rápido.

Quem pode ter

Segundo o INCA, cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão estão associados ao tabaco. No Brasil, o instituto estima 35.380 casos novos por ano entre 2026 e 2028, e o câncer de traqueia, brônquios e pulmão causou 32.555 mortes em 2024.

Nódulo no pulmão é câncer?

Na maioria das vezes, não. Nódulo é uma área anormal de até 3 cm vista em tomografia, e a maior parte resulta de infecções antigas, cicatrizes ou outras causas. Mesmo assim, costuma ser preciso investigar.

Como o nódulo é investigado

Em geral, repete-se a tomografia após alguns meses a um ano, conforme o tamanho e o aspecto do nódulo, para ver se ele cresce. Se crescer, um PET-CT ajuda a dizer se é câncer. A confirmação vem da biópsia, por broncoscopia, por agulha guiada por tomografia ou por cirurgia; quando a chance de câncer é maior, a cirurgia pode retirar o nódulo e o tecido ao redor para análise. No caso do Papa, segundo o Vaticano, a confirmação veio do exame feito durante a operação.

Cirurgia: o que é lobectomia e como é a recuperação

O pulmão direito tem três lobos, e o esquerdo, dois. Na lobectomia, o cirurgião retira o lobo com o tumor e linfonodos do pulmão e do espaço entre os pulmões, para análise. Quando é possível, é a cirurgia preferida no CPNPC inicial, por oferecer a melhor chance de cura. Retirar só parte do lobo (segmentectomia ou ressecção em cunha) é opção para tumores muito pequenos ou para quem não tolera perder o lobo: em tumores periféricos de até 2 cm e sem linfonodos acometidos, o estudo CALGB 140503 (NCT00499330) mostrou sobrevida livre de doença não inferior à da lobectomia.

Cirurgia videoassistida e recuperação

Na cirurgia videoassistida (videotoracoscopia), feita por incisões pequenas com o auxílio de uma câmera, a internação costuma ser mais curta e as complicações, menos frequentes que na cirurgia aberta, com taxa de cura semelhante; a robótica traz vantagens parecidas. A internação dura, em geral, de 1 a 7 dias, e a recuperação leva de semanas a meses, mais rápida após a videotoracoscopia. Para quem não pode ser operado, a radioterapia estereotáxica (SBRT) pode ser o tratamento principal no estágio I.

Depois da cirurgia: estadiamento, linfonodos e teste molecular

A análise do material retirado confirma o tipo do tumor, verifica as margens e define o estadiamento patológico, que segue a 9ª edição do sistema TNM (AJCC, 2025): T descreve o tumor; N, os linfonodos; M, as metástases.

Estágio Em linguagem simples
I Tumor pequeno, sem linfonodos acometidos (IA até 3 cm; IB, em geral, de mais de 3 até 4 cm)
II Tumor maior ou com linfonodos próximos, do mesmo lado
III Extensão local maior, em geral com linfonodos no meio do tórax (mediastino), do outro lado do tórax ou acima da clavícula
IV Câncer no outro pulmão, na pleura ou no pericárdio (inclusive células de câncer no líquido ao redor do pulmão ou do coração) ou em órgãos distantes

Há tratamento complementar no estágio inicial?

No estágio I, a cirurgia pode ser o único tratamento: com o tumor totalmente retirado, a quimioterapia complementar não é recomendada fora de estudos clínicos, segundo o NCI. Em tumores a partir de 4 cm ou com linfonodos comprometidos, pode haver tratamento antes da cirurgia, depois dela ou nos dois momentos, com quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo, conforme o perfil do tumor.

Por isso, PD-L1, EGFR (deleção do éxon 19 ou L858R) e ALK são testados no tecido da cirurgia ou da biópsia. Nos Estados Unidos, a FDA aprovou terapia-alvo após a cirurgia para essas mutações de EGFR (osimertinibe) e para tumores ALK positivos (alectinibe), além de imunoterapias em casos selecionados.

Biomarcadores e terapias-alvo

Na doença avançada, testar as alterações genéticas do tumor e o PD-L1 antes de tratar é essencial, de preferência com painéis de vários genes (NGS). Havendo alteração acionável, a terapia-alvo costuma ser o primeiro tratamento; em algumas alterações, como KRAS G12C, ela é aprovada após um tratamento anterior. Sem alteração acionável, entra a imunoterapia, sozinha quando o PD-L1 é alto ou com quimioterapia.

Alterações de KRAS aparecem em 25% a 30% dos tumores não escamosos, e as de ALK, em 3% a 7% do CPNPC. As mutações comuns de EGFR variam conforme o histórico de tabagismo: numa série americana de 2.142 adenocarcinomas, estavam em 52% dos tumores de quem nunca fumou, 15% dos ex-fumantes e 6% dos fumantes. ROS1, RET, BRAF V600E, HER2 e NTRK ficam, cada uma, entre menos de 1% e 4% dos casos.

Biomarcador Terapias aprovadas pela FDA
EGFR (éxon 19 ou L858R) osimertinibe, gefitinibe, erlotinibe, afatinibe, dacomitinibe*, amivantamabe + lazertinibe; datopotamabe deruxtecana após terapia-alvo e quimioterapia
EGFR (inserção do éxon 20) amivantamabe, sunvozertinibe*
ALK alectinibe, brigatinibe, lorlatinibe, crizotinibe, ceritinibe*, ensartinibe*
ROS1 crizotinibe, entrectinibe*, repotrectinibe*, taletrectinibe*, zidesamtinibe*
KRAS G12C sotorasibe, adagrasibe*
BRAF V600E dabrafenibe + trametinibe, encorafenibe + binimetinibe
MET (salto do éxon 14) tepotinibe, capmatinibe (registro inativo no Brasil)
RET selpercatinibe, pralsetinibe*
HER2 (mutação) trastuzumabe deruxtecana, zongertinibe*, sevabertinibe*
NTRK larotrectinibe, entrectinibe*, repotrectinibe*
NRG1 zenocutuzumabe*

* Sem registro localizado na Anvisa (dados abertos de medicamentos, consulta de 17/10/2026). As demais, exceto o capmatinibe, têm registro ativo, o que não garante que estejam à venda no país, que a indicação para pulmão esteja na bula brasileira nem que haja cobertura pelo SUS ou pelo plano. Várias aprovações da FDA são aceleradas ou valem só após um tratamento anterior.

E quando falta tecido para o teste?

Se a amostra for pequena ou a biópsia, arriscada, o DNA do tumor pode ser pesquisado no sangue (biópsia líquida). Um resultado negativo no sangue não exclui a alteração: sempre que possível, o tecido deve ser testado.

Tratamento por estágio

No estágio I, a cirurgia muitas vezes basta. No II, em geral há quimioterapia, com ou sem imunoterapia, antes da cirurgia e, conforme o resultado, tratamento depois dela, que pode incluir terapia-alvo quando há alteração de EGFR ou ALK. No III, o tratamento combina quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e, em alguns casos, cirurgia; sem cirurgia, a quimiorradioterapia é seguida de imunoterapia ou, com mutação de EGFR, de terapia-alvo. No IV, entra a terapia-alvo quando há alteração acionável; sem ela, a imunoterapia, sozinha ou com quimioterapia.

Situação regulatória e como funciona o acesso

SUS

Em 31/08/2026, o Ministério da Saúde anunciou a oferta, com financiamento federal, de brigatinibe (ALK positivo avançado), gefitinibe (EGFR positivo avançado) e durvalumabe (estágio III irressecável após quimiorradioterapia), com previsão de entrega gradual a partir de outubro. A proposta do novo PCDT do câncer de pulmão foi submetida à consulta pública de 30/09 a 19/10/2026 (CP SCTIE/MS nº 100).

Planos de saúde

A Lei 12.880/2013 incluiu os antineoplásicos orais de uso domiciliar entre as coberturas obrigatórias dos planos, conforme as diretrizes da ANS, e a Lei 14.454/2022 prevê cobertura fora do rol em situações específicas. Em 18/09/2025, o STF (ADI 7265) fixou critérios cumulativos para isso, entre eles ausência de alternativa no rol, eficácia e segurança comprovadas e registro na Anvisa.

Uso compassivo e acesso expandido

Para medicamento novo sem registro, a RDC 38/2013 da Anvisa prevê o uso compassivo (individual) e o acesso expandido (em grupo) em doença grave sem alternativa registrada, além do fornecimento pós-estudo a quem participou de pesquisa clínica. O laboratório fornece o medicamento gratuitamente, a pedido do médico e com anuência da Anvisa.

Importação para uso pessoal

Sem registro no Brasil, a terapia pode ser importada pelo paciente ou por seu representante legal, para uso pessoal, com prescrição; a responsabilidade pelo uso é do paciente e do médico. Pela regra da Anvisa, o paciente é o importador e quem paga, e o pedido exige receituário e relatório médico. Se quem paga é hospital ou plano, valem outras regras (RDC 488/2021).

Nos processos assessorados pela Medicsupply, a importação leva em média cerca de 10 dias quando o medicamento vem dos Estados Unidos, 17 dias do Canadá e 16 dias úteis da Europa ou da Ásia; os prazos variam e não são promessa para um caso individual. A assessoria atua na parte administrativa e documental, da conferência da receita e do relatório médico ao acompanhamento da liberação.

Quando o custo é o obstáculo, há quem recorra à Justiça para pedir o fornecimento pelo SUS ou pelo plano (a chamada compra judicial). Para medicamentos sem registro na Anvisa, as regras do STF (Tema 500) tornam esse caminho excepcional, e a compra feita pelo SUS ou pelo plano segue normas próprias da Anvisa. A decisão deve ser tomada com orientação médica e jurídica.

Rastreamento: quem deve conversar com o médico

O consenso brasileiro de 2024 (SBCT, SBPT e CBR) recomenda tomografia de baixa dose a partir dos 50 anos para quem fuma ou já fumou, com carga acima de 20 maços-ano (um maço por dia por mais de 20 anos, por exemplo). Fica de fora quem tem mais de 80 anos ou parou de fumar há mais de 15 anos. O INCA não recomenda o rastreamento para a população geral e orienta decidir com o médico.

Perguntas Frequentes

Qual é o câncer do Papa Leão XIV?

Adenocarcinoma de pulmão, segundo a Santa Sé, confirmado pelo exame feito durante a cirurgia de 13/10/2026, no Policlínico Gemelli. Até 17/10/2026, o estadiamento não havia sido divulgado.

Adenocarcinoma de pulmão tem cura?

Depende do estágio. Quando o tumor está restrito ao pulmão e pode ser retirado, a cirurgia oferece a melhor chance de cura. Na doença avançada, o objetivo do tratamento passa a ser controlar o câncer, aliviar sintomas e prolongar a vida.

Adenocarcinoma de pulmão é grave?

É um câncer, e a gravidade depende sobretudo do estágio no diagnóstico. No Brasil, o câncer de pulmão costuma ser descoberto tarde: entre 73.167 pacientes (todos os tipos) registrados de 2000 a 2014 no INCA e na Fundação Oncocentro de São Paulo, só 13,3% estavam em estágio inicial, e 53,4% já tinham doença avançada ou metastática.

Qual é o CID do adenocarcinoma de pulmão?

Na CID-10, o câncer de pulmão fica no código C34, com subcódigos de C34.0 a C34.9 conforme a localização no pulmão. O tipo histológico é descrito no laudo anatomopatológico.

Quem nunca fumou pode ter adenocarcinoma de pulmão?

Sim. O adenocarcinoma é o tipo de câncer de pulmão mais comum em quem não fuma, e nesse grupo as mutações de EGFR são bem mais frequentes. Elas também aparecem em fumantes e ex-fumantes; por isso, o teste é indicado em todo adenocarcinoma avançado.

Conclusão

O diagnóstico do Papa Leão XIV chamou a atenção para o câncer de pulmão, que tem mais de 35 mil casos novos por ano no Brasil e costuma ser descoberto tarde. Restrito ao pulmão, o adenocarcinoma tem na cirurgia o tratamento principal; nos demais casos, estágio e perfil molecular definem o caminho. Sem registro no Brasil, o medicamento indicado pode vir por uso compassivo ou acesso expandido, quando oferecidos, ou por importação para uso pessoal com prescrição; com registro e sem cobertura, o acesso passa pelo SUS e pelo plano, conforme os critérios legais.

Fontes

  1. Vatican News. Anúncio do Papa Leão XIV sobre o nódulo no pulmão, 11/10/2026.
  2. Vatican News. Cirurgia do Papa Leão XIV no Policlínico Gemelli, 13/10/2026.
  3. Vatican News. Alta hospitalar do Papa Leão XIV, 17/10/2026.
  4. NCI. PDQ: tratamento do CPNPC, versão para profissionais, atualizada em 15/05/2025.
  5. NCI. Medicamentos aprovados para câncer de pulmão, atualização de 23/09/2026.
  6. American Cancer Society. Tipos de câncer de pulmão, revisão de 29/01/2024.
  7. American Cancer Society. Nódulos pulmonares, revisão de 29/01/2024.
  8. American Cancer Society. Cirurgia no CPNPC, revisão de 29/01/2024.
  9. American Cancer Society. Tratamento do CPNPC por estágio, revisão de 23/06/2025.
  10. NCCN. Diretrizes para pacientes: CPNPC inicial e localmente avançado, 2026.
  11. Lindeman NI et al., J Mol Diagn, 2018;20(2):129-159, PMID 29398453.
  12. Costa GJ et al., J Bras Pneumol, 2020;46(1):e20180251, PMID 31967271.
  13. Pereira LFF et al., J Bras Pneumol, 2024;50(1):e20230233, PMID 38536982.
  14. INCA. Câncer de pulmão: estimativa 2026–2028 e mortalidade em 2024.
  15. Ministério da Saúde. Anúncio de três medicamentos para câncer de pulmão no SUS, 31/08/2026.
  16. Conitec. Relatório preliminar do PCDT do câncer de pulmão, CP SCTIE/MS nº 100/2026.
  17. Brasil. Lei nº 12.880, de 12/11/2013.
  18. Brasil. Lei nº 14.454, de 21/09/2022.
  19. STF. ADI 7265, julgamento de 18/09/2025.
  20. STF. Tema 500 de repercussão geral (RE 657.718), 22/05/2019.
  21. Anvisa. RDC nº 38, de 12/08/2013.
  22. Anvisa. Manual de Importação por Pessoa Física (LI/LPCO), versão 1.2, 25/02/2026.
  23. Anvisa. Dados abertos de medicamentos registrados, consulta de 17/10/2026.

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